terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

REPORTAGEM DE CAPA

NÃO É PELOS 20 CENTAVOS
Atentado terrorista em Paris expôs uma realidade amarga: a liberdade de expressão está longe de ser unanimidade, mesmo no mundo ocidental

Tão logo se espalhou a notícia do ataque terrorista contra o jornal satírico Charlie Hebdo, milhões de pessoas em todo o mundo começaram a atualizar sua foto de perfil nas redes sociais com um banner de fundo preto e a expressão “je suis Charlie” em letras brancas, um PDF criado pela própria publicação e postado em seu site logo depois do massacre. O que parecia se tratar de um posicionamento indiscutível diante do horror acabou por gerar uma polêmica com a aparição de milhares dispostos a afirmar “eu não sou Charlie”.  Em comum, um inquietante “sou contra o terrorismo, mas...”. Trata-se de nova adaptação do clássico caso de culpar a vítima, que, em sua versão mais popular, atribui à mulher a responsabilidade por ter sido estuprada, afinal, quem mandou usar roupas curtas, justas ou transparentes? Da mesma forma se poderia apontar o dedo para o cidadão assaltado e dizer: “Quem mandou andar na rua à noite?”. As variáveis são infinitas. No caso, quem mandou aquelas chargistas abusados debocharem de um símbolo do islamismo?

Há várias leituras fundamentais a se fazer a partir da contenda virtual que se instalou em torno da frase. Para começo de conversa, como ocorre o tempo todo na internet, muita gente comenta sobre coisas que não conhece, ou, quando conhece, o faz de modo precipitado, na ânsia de não perder a onda. Seguramente, 99% das pessoas que adotaram o “je suis Charlie”, muito antes e além de apoiar integralmente o conteúdo do jornal, estavam dizendo que “sim, somos todos Charlie na medida em que qualquer ato de barbárie atinge a todos nós, cidadãos civilizados”. A exemplo do que foi registrado nas manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, “não é pelos 20 centavos” – alguns dizem que, no fundo era, pois Dilma Rousseff se reelegeu, mas esta é outra questão.

Muitos sequer faziam ideia de que o Charlie Hebdo existia, pois seu conteúdo era o que menos importava, e sim seu direito de publicá-lo. Na trincheira oposta, o desconhecimento sobre o que criticavam era ainda maior, o que igualmente pouco interessava. Há os que, por falta de alcance mesmo, não entenderam o significado de se adotar a expressão “je suis Charlie”. Preocupante é imaginar que outros tantos, quem sabe a maioria, possa ter entendido.

Em se tratando de liberdade de expressão, não pode haver “mas”, qualquer restrição é, por definição, cerceamento a esta liberdade. Tampouco o “mas” é aceitável como manifestação de uma prática tão odiosa quanto a perpetração de um ato bárbaro: a relativização de um ato bárbaro. É assustador constatar a existência de um número tão expressivo de pessoas que, guiadas por preceitos religiosos, falta de informação, preconceito, moralismo falso ou verdadeiro, seja pelo que for, são capazes de apoiar a chacina, por um grupo fanático munido de fuzis, de homens armados com canetas, quem sabe dispostos a disparar uma rajada mortal de nanquim, ou perfurar o inimigo a golpes de lapiseira.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

        Relativizar jamais

Você não gosta do “tipo” de humor praticado pelo pessoal do Charlie Hebdo e acha que, de alguma forma, isso justifica o atentado? Bem, então espero que você goste do “tipo” de pessoa que eu sou...

                Toda forma de relativização da barbárie tem de ser condenada. São tantos comentários sobre o massacre na França que nos obrigamos a ser seletivos. Um dos critérios que utilizo é o de parar de ler imediatamente quando o autor tasca um “mas” já na segunda frase. Que faça suas considerações ao longo do texto é justo e normal, mas não assim, direto na segunda frase, pois aí se chega à velha questão: quem mandou usar saias curtas?

                O método de relativização mais utilizado neste caso é o de lembrar o passado colonialista da França – e, secundariamente, sua aliança secular com os EUA, o “grande satã” imperialista. O país estaria pagando por seu passado de exploração e opressão. Nada mais justo, é o que parece quererem dizer estas pessoas. Como resumiu Gandhi, “olho por olho e o mundo acabará cego”, a civilização simplesmente deixará de existir, voltaremos ao estado primal.

                Relativizar é, como diz a palavra, tornar relativo, tirar o caráter absoluto de algo, como se fosse possível considerar discutível um atentado terrorista, seja de quem for, seja onde for, seja contra quem for. Terrorismo é a volta à barbárie, é a negação da civilização, é repulsivo, é nojento. Quem acha que “não é bem assim” não tem cura, não adianta tentar discutir.

                Uma segunda forma de relativização bastante usada é a que abre este texto, a que questiona a qualidade e o foco, o “tipo” de humor da publicação. O mundo seria mais simples – e mais civilizado – se as pessoas, em grande parte, entendessem que não são o centro do universo, que suas opiniões não são melhores do que as de ninguém, que suas crenças religiosas, seus hábitos alimentares, sua orientação sexual, enfim, que seu modo de vida não é melhor, nem pior – a menos que se trate, por exemplo, de um terrorista – do que o de ninguém, e por isso todos precisam exercitar a tolerância.

                Há alguns anos tornei-me vegetariano, muitos sabem, outros não, pois não fico fazendo pregação, apenas vivo como quero. Entretanto, volta e meia escuto algo do tipo “deixe de bobagem, o homem sempre foi carnívoro desde a pré-história”. Nem perco tempo explicando para a pré-histórica mente que a humanidade evoluiu um tantinho desde então, e que, entre outras coisas, desenvolveu a agricultura, o que lhe propiciou não ter mais de caçar mamutes para não morrer de fome. E, se a questão é manter a tradição, agir como o homem primitivo, por que não ir morar em uma caverna? Ou quem sabe bater com uma clava na cabeça de uma mulher e arrastá-la à força para seu leito?

                Citei este exemplo para ilustrar alguns pontos: primeiro, a dificuldade que as pessoas têm em respeitar as diferenças, por menores que sejam – afinal, acompanho os amigos em todo o restante do bufê, nas bebidas e nas sobremesas, só abro mão da carne; segundo, como a grande maioria considera a sua verdade como sendo a única. Isso leva à intolerância, que leva ao radicalismo, que leva à predisposição para a violência extrema, que leva à barbárie.

                Estou entre os milhões de pessoas em todo o mundo a adotar a frase “Je suis Charlie” como imagem do perfil nas redes sociais. Parece-me tão clara a mensagem, mas nem isso é. Já li postagens dizendo que, embora o terrorismo seja condenável, “não sou Charlie”. Acho que este povo não entendeu. Nem todos que adotaram a frase lêem, apreciam ou aprovam integralmente o material publicado pela Charlie Hebdo. Muitos, entre os quais me incluo, consideram que em várias ocasiões sim, o humor da revista é de mau gosto, e humor de mau gosto não tem graça, com o perdão pelo trocadilho. Mas este não é o ponto. Quem adotou o slogan quis dizer “apenas” – e sinto-me meio tolo ao escrever isso, pois me parece tão óbvio – que atos de barbárie atingem a todos nos, cidadãos civilizados, defensores, portanto, da vida, da paz, da tolerância, da liberdade, do amor, do convívio entre diferentes, da total liberdade de expressão, sim, total, pois liberdade é algo que não pode ser relativo, não pode ter “mas”. Somos todos vítimas da barbárie, somos todos Charlie Hebdo.

                Voltemos ao ponto da relativização da brutalidade como resposta ao passado colonialista francês. Estou enganado ou quem defende este argumento no fundo está querendo dizer – e só não o diz claramente para manter sua pretensa aura de correção política – que os povos que um dia foram dominados, espoliados ou vilipendiados de alguma forma têm o direito de se vingar do modo como bem entenderem, mesmo que seja na base de AK-47 x lapiseira? Ao menos é o que me parece. E afirmar isso não significa atribuir o massacre a um povo, a uma etnia, a uma religião? Então, como podem os mesmos que pensam assim apelarem, de modo tão pungente, para que não se generalize, pois são fatos isolados perpetrados por indivíduos, e não atos coletivos de um grupo étnico-religioso em especial?

                Bom, ainda que pequem pela incoerência das posições, ao menos na segunda parte eles têm razão. De fato, o radicalismo, a violência, o terror são atos de pessoas ou grupos isolados, nunca de todo um povo, ou de todos os seguidores de uma religião, embora seja inegável que o extremismo tem sido levado a cabo por quem se professa de determinada crença, mesmo que suas mentes criminosas distorçam totalmente os preceitos originais desta fé, conforme atesta a imensa maioria dos 1,5 bilhão de muçulmanos que vivem em paz, distantes do ódio e da violência. O que tem de haver, cada vez mais, é uma reação proporcional desta maioria contra o que praticam atos assim supostamente em nome dela. Felizmente, tal movimento começar a tomar corpo.

                Inegável é que terroristas são pessoas com sérios problemas mentais. Seres normais não fazem o que eles fazem, falar isso é chover no molhado. Trata-se de psicopatas, quanto a isso creio não haver discussão. Construir uma cultura de amor à vida é o desafio que as sociedades perseguem há séculos. É decididamente incerto se um dia o ser humano logrará êxito em tal empreitada. Por mais que a sociedade evolua, por mais que os bons se levantem contra os maus, por mais que se pregue a paz e a bondade, ainda assim uma questão primordial permanecerá: como desalojar o mal que se esconde no coração de tantos homens? Como evitar o surgimento de psicopatas?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

GRANDES NOMES
Ben Bradlee, o editor por excelência

A galeria dos grandes nomes do jornalismo costuma destinar os espaços mais nobres a homens que converteram reportagem em arte. O culto ao texto Frank Sinatra Está Resfriado, por exemplo, celebra, merecidamente, o genial Gay Talese, mas revela-se injusto ao relegar a uma quase obscuridade Harold Hayes, editor da Esquire que o escalou para a empreitada, bancou os altos custos, teve paciência para esperar e aceitar seus métodos e por fim publicou o perfil com todas as honras. O mesmo se dá em relação a Hiroshima, obra inaugural do new journalism, que elevou ao panteão dos mestres do ofício, com toda honra e justiça, o autor, John Hersey, mas não concedeu o reconhecimento devido ao editores Harold Ross e William Shawn, que dedicaram uma edição inteira da New Yorker àquele trabalho esplendoroso.

A cobertura do Caso Wategate consagrou mundialmente os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, história contada no livro Todos os Homens do Presidente, de autoria deles, e que deu origem ao filme homônimo (leia mais na reportagem de capa desta edição). Neste caso, felizmente, o editor não foi esquecido. Ainda que seu nome não soe tão popular para quem não é do ramo, Ben Bradlee obteve o devido reconhecimento.

A última homenagem ocorreu no ano passado, quando ele recebeu a medalha da liberdade das mãos do presidente Barack Obama, na Casa Branca, com direito a discursos emocionados de Bernstein e Woodward. Bradlee morreu em 21 de outubro último em Washington, aos 93 anos. Em nota oficial, Obama declarou: “Para Benjamin Bradlee, o jornalismo foi mais que uma profissão. Era um bem público e vital para a democracia. Bradlee transformou o Washington Post em um dos melhores jornais do país (...) e contou histórias que precisavam ser contadas”.

Nascido em Boston, Estado de Massachusetts, em 26 de agosto de 1921, Benjamin Crowninshield Bradlee ingressou no Washington Post, que viria a se tornar um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos – e do mundo – somente aos 44 anos, em 1965. Se fosse no Brasil, possivelmente seria tarde demais para começar uma nova trajetória e assumir papel de relevo na história. Aqui, jornalistas nesta idade se encaminham rapidamente para a condição de velhos que devem ser descartados para dar lugar às novas gerações, mas, nos EUA, onde talvez os executivos da mídia não sejam tão inteligentes quanto os daqui, é uma idade em que os profissionais estão apenas começando sua escalada rumo a postos de chefia nas redações. Assim, Bradlee, que começara como jornaleiro em sua cidade natal, permaneceu no Post por 26 anos, até os 70 de idade, na condição de editor executivo. Aposentou-se em 1991. Enquanto esteve lá, o Post conquistou 17 prêmios Pulitzer, o Oscar do jornalismo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AUDIÊNCIA DO BLOG

Apenas como curiosidade, quem visualizou meu blog neste mês até aqui - países de origem com maior número de visitantes. Fonte: Google.

1º) Estados Unidos
2º) Brasil
3º) Irlanda
4º) Alemanha
5º) Ucrânia
6º) Rússia
7º) Polônia
8º) França
9º) Dinamarca
10º) China

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O cemitério de crianças


Há uma fábula que é mais ou menos como vou contar. Preservei a ideia, mas criei meu próprio roteiro:

Certa vez, um peregrino cansado das muitas andanças chegou a um lugarejo que, à distância, pareceu-lhe aprazível, acolhedor. Certo de que encontraria ali repouso e alimento, já ia apressar o passo quando viu, próximo da estradinha de chão, um cemitério tão bem cuidado quanto lhe parecera a vila adiante. Mais do que isso, parecia mesmo bonito, se é possível ver beleza num lugar ligado à morte, pegou-se pensando o viajante. Algo naquele local o atraía, ele não resistiu e caminhou até lá.

                De perto a sensação de ordem e capricho era ainda mais forte. As lápides todas branquinhas, limpas e bem cuidadas, flores viçosas ao pé de cada uma delas, tudo muito perfeito e estranhamente belo. Foi então que estacou defronte uma delas, chocado diante de algo tão evidente, mas que ele levara vários minutos para perceber. As lápides tinham o nome e a idade de cada pessoa enterrada ali. Roberto, 7 anos. Paula, 5 anos. Camila, 6 anos. Elias, 9 anos. Pedro, 4 anos. Rosa, 8 anos. E assim por diante. O andarilho sentiu-se um pouco tonto, tendo de se escorar na lápide de Joana, 5 anos.

                O que teria acontecido? Uma praga, talvez, uma doença contagiosa que atacara especialmente crianças? Ou seria a verdade ainda mais chocante? Um assassino psicopata? Um grave acidente natural? Não, estas duas últimas hipóteses teriam de ser descartadas, pois, só agora percebia, havia centenas de túmulos, e todos de crianças. Seria uma prática local enterrar os inocentes em lugar diferente do destinado aos adultos? Um ideia terrível gelou-lhe os ossos: e se o povo dali matasse as crianças em alguma espécie de sacrifício macabro? Ele logo tratou de afastar essa ideia. Não, seria doentio demais e, afinal de contas, a cidade parecia tão acolhedora, e o próprio cemitério tão bem cuidado que isso não faria o menor sentido. A fome e o cansaço começavam a afetar suas ideias, pensou.

                O viajante saiu de seu devaneio ao perceber a aproximação de um homem já em idade avançada que acabara de depositar flores no túmulo de Vanessa, 6 anos. Poucos segundos de temor foram sucedidos por um instante de alívio ao perceber no semblante vincado daquele homem um sorriso que só poderia ser de bondade. Refeito do susto, respondeu ao aceno do homem, encheu-se de coragem e perguntou:

                – Por que só tem crianças neste cemitério? Alguma epidemia? Um desastre natural? Ou vocês enterram as crianças em local separado dos adultos? O que está acontecendo aqui?

                O homem não pareceu surpreso com sua perplexidade, como se esperasse por uma pergunta assim. Com voz calma e paciente, começou a falar:

                – Aqui, quando nascemos, ganhamos de nossos pais uma espécie de caderneta na qual, tão logo crescemos o bastante para termos consciência das coisas, passamos a anotar cada momento memorável de nossas vidas, e quanto tempo ele durou. O primeiro dia de escola, o primeiro beijo, a formatura, a vitória na gincana, a medalha de honra ao mérito, o primeiro emprego, o nascimento dos filhos, os encontros com os amigos, as conversas com os pais ao redor do fogo nas noites de inverno, uma noite de amor, anotamos tudo de que vale a pena nos lembrarmos. E assim fazemos por toda nossa vida. Pode ser algo grande, como a compra de uma casa ou a viagem dos sonhos, mas pode ser algo singelo e precioso, como um abraço bem sentido, ou a mera troca de olhares com uma pessoa muito especial. Fica tudo registrado na caderneta, o momento e quanto tempo durou. Quando morremos, esse tempo é somado e então é determinada nossa verdadeira idade, a soma dos momentos memoráveis, o tempo que realmente vivemos, e não apenas sobrevivemos neste mundo.

                O viajante não sabia o que dizer, baixara os olhos para a lápide de José, 4 anos, e começara a chorar. O homem perguntou-lhe então?

                – Quanto tempo você viveu?

                Ele virou-se para responder, mas já não havia ninguém ali.
ESCRIBAS E BOLEIROS
Jornalistas, escritores, enfim, quem não trabalha, só escreve, tem algo em comum com jogador de futebol, que também não trabalha, só joga. Quem ganha a vida jogando futebol se queixa da rotina dura de treinos e jogos mas, quando está de folga ou em férias, corre para bater uma bolinha com os amigos. Quem ganha a vida escrevendo se queixa da dura rotina de escrever feito doido para garantir o sustento mas, quando tem alguns minutos de folga faz o que para relaxar? Escreve.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

34 ANOS SEM TRABALHAR

Em 14 de novembro de 1980 eu comecei como revisor do jornal Zero Hora. Embora ainda não fosse na redação e ainda cursasse jornalismo na Famecos/PUC, considero a data o início de minha carreira. Obrigado a todos com quem tenho convivido nesta jornada. Não vou me estender no comentário, deixarei textos maiores e comemorações para 2015, quando fecha data redonda. Por enquanto, são apenas 34 anos durante os quais eu não trabalhei, só escrevi.
ALL YOU NEED IS LOVE

Desradicalize-se! Distensione-se. Permita-se.
Odeie menos! Ame mais!
A vida é curta, é uma só e passa rápido.
Todos queremos salvar o mundo, Ok, mas no fundo, no fundo mesmo, só queremos experimentar a força de um grande amor. Aquele único, sabe?
E que pareça piegas, pois sempre parecerá quando for dos outros.
E que pareça divino, pois sempre será divino quando nos tocar.
E abençoados os que o vivenciarem.
Discursamos demais, brigamos demais, quando, às vezes, tudo que queremos é aquele abraço, sabe? Aquele!
Os Beatles pareciam querer transgredir tudo, mas, mesmo assim, cantavam:
All You Need is Love!
Laralaiá!
Afinal, não há transgressão maior do que o amor.
Aquele, sabe?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014


CARTA DE GRAMADO

Em 2009, um grupo de voluntários de diversas áreas constituiu o Fórum Saúde Mulher, do qual orgulhosamente faço parte. Na ocasião, elaboramos um documento que se tornou conhecido como Carta de Gramado, com proposições objetivas e viáveis para melhorar o atendimento às pacientes com câncer de mama em questões como o acesso ao diagnóstico precoce e preciso por meio de mamografias de qualidade, o tratamento num prazo mínimo a partir do diagnóstico e o direito à reconstrução mamária no mesmo procedimento da retirada, entre outros aspectos.

Por iniciativa e com coordenação de José Luiz Pedrini, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Conceição, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia e, na ocasião, presidente do Congresso Brasileiro da especialidade, realizado na serra gaúcha, o documento foi lançado no âmbito do congresso e incluiu caminhada pelas ruas de Gramado, além do lançamento do livro Uma História da Mama, escrito e editado em sistema de co-criação por ele e por mim, e primeiro título de meu próprio selo editorial.

As recomendações da Carta de Gramado foram adotadas como políticas de saúde pública pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e pelo Ministério da Saúde.

Neste 31 de outubro, no fechamento do Outubro Rosa, foi realizado um encontro do Fórum na sede da Associação Médica do RS (AMRIGS) a fim de avaliar os avanços da Carta e propor novos desafios. Por todas as razões acima, sinto-mo feliz por fazer parte desta iniciativa, pela companhia dos parceiros, em especial das queridíssimas do Grupo da Mama do Hospital Conceição, e do Pedrini, mastologista da maior qualidade e um de meus melhores amigos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

GRANDES NOMES
Washington Olivetto: este a gente nunca esquece

A primeira reação de encantamento se deu não à frente de uma TV, mas ainda na sala de edição da agência de propaganda W/GGK, junto à moviola, e não partiu de um espectador, mas do próprio criador. Ao encerrar a pós-produção de um comercial para a Valisère, em meados de 1987, o publicitário Washington Olivetto virou-se para o diretor Júlio Xavier da Silveira e profetizou: “Olha, Julinho, esse talvez seja um dos melhores filmes que a publicidade brasileira já conseguiu fazer”.

            A segunda reação de encantamento se deu na sala da vice-presidência de Operações da Rede Globo. Ao terminar de assistir ao comercial da Valisère, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, concordou em aceitar, pela primeira vez, uma peça de 90 segundos – em vez dos 30 ou 60 segundos convencionais – no intervalo do Jornal Nacional, que, também pela primeira vez, exibiria um único comercial durante um de seus intervalos. Diante do pedido inusitado da agência, o departamento comercial vira por bem não tomar sozinho tal decisão e a levara ao homem mais poderoso da companhia, depois do próprio Roberto Marinho.

            Somente a terceira reação de encantamento se deu simultaneamente nos lares de milhões de brasileiros. O comercial intitulado O Primeiro Valisère a Gente Nunca Esquece era uma peça de rara sensibilidade, sem texto, embalado apenas por som ambiente e acordes da ópera La Boheme, de Giacomo Puccini, e retratava a experiência única na vida de uma menina. Estrelado por Patrícia Lucchesi, de apenas 11 anos – a apresentadora Eliana, então com 14 anos, perdera a vaga para ela –, o comercial emocionou plateias, ganhou todos os prêmios possíveis, virou cult e catapultou de vez Washington Olivetto ao panteão da publicidade mundial.

Nascido em 29 de setembro de 1951 – Dia de São Miguel Arcanjo, o “anjo anunciador”, celebrado mundialmente como Dia do Anunciante – , o paulistano Washington Olivetto começou a carreira como estagiário da Harding Gimenez Propaganda (HGP), aos 18 anos de idade. A vaga foi obtida graças a um lance ousado: Olivetto estava a caminho da faculdade – que não chegou a concluir – quando o pneu de seu Karmann-Ghia furou bem em frente à sede da HGP. Ele não titubeou, entrou na agência e pediu emprego com uma frase que revelava tremenda autoconfiança: “Estou aqui por causa do pneu furado e isso é uma grande oportunidade para você, porque o pneu não fura duas vezes na mesma rua”.

Depois de passar pela Lince e pela Casabranca, tendo ganhado seu primeiro Leão de Bronze do Festival de Cannes aos 20 anos, chegou à DPZ, onde permaneceria por 13 anos. Ali, fez dupla de criação com o lendário Francesc Petit, parceria que rendeu, entre outros trabalhos, a criação do personagem que celebrizou o ator Carlos Moreno como garoto-propaganda da Bombril. Em 1986, aos 35 anos, saiu da DPZ para montar seu próprio negócio, a W/GGK, que três anos mais tarde viraria W/Brasil e, atualmente, é WMcCann.

Portanto, apenas um ano depois de se aventurar a conduzir a agência própria, Olivetto emplacou o comercial da Valisère, que conquistou naquela temporada o Leão de Ouro do Festival de Cannes, o Clio de Nova York, o Festival Ibero-Americano de Publicidade e foi considerado pela Tokyo Television Network o melhor comercial do mundo. No Brasil também levou todas as premiações possíveis, sendo que no ano seguinte ganhou o Profissionais do Ano e foi veiculado outra vez pela Globo, agora de graça (o vídeo está disponível no YouTube). Possivelmente, se fosse produzido hoje, em tempos chatesimamente corretos, o comercial fosse vetado por conter cenas de relativa sensualidade envolvendo uma menina de 11 anos, e Olivetto acusado de pedofilia. Assim teríamos sido privados desta obra-prima da publicidade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GRANDES NOMES
Tom Wolfe, radicalmente chique e afiado


Embora esteja longe de ser a maior virtude de quem se dedica à literatura, ao jornalismo, à propaganda ou às artes – ou mesmo à política –, um grande talento também se define pela capacidade de cunhar ou consagrar expressões que ingressam definitivamente no imaginário e no vocabulário cotidiano de milhões de pessoas. O escritor americano Tom Wolfe, um dos ícones do new journalism, ou jornalismo literário, como alguns preferem, celebrizou ao menos duas expressões: “fogueira das vaidades” e “radical chique”. De fato, o termo “fogueira das vaidades” não é criação de Wolfe, tem origens que remontam ao Carnaval de 1497 em Florença, na Itália, quando os fanáticos seguidores do padre Girolamo Savonarola (retratado em A Regra de Quatro, de Ian Caldwell), queimaram milhares de objetos como livros, obras de arte, mesas de jogos, espelhos, pelas de vestuário e artigos de toucador, todos supostamente objetos de vaidade e, portanto, pecaminosos. Até livros de Bocaccio e Ovídio e quadros de Boticelli teriam ardido nas purificantes chamas.

Mas foi Tom Wolfe quem resgatou o termo e ajustou como metáfora de uma sociedade de consumo permeada de disputas de ego e de extremo apreço pelas aparências. A partir de seu romance homônimo, publicado em 1987, e levado às telas três anos depois por Brian de Palma com Tom Hanks e Bruce Willis – o que não livrou o diretor de pesadas críticas na fogueira das vaidades de Hollywood –, a expressão ganhou o mundo e vem sendo proferida milhares de vezes por dia até hoje.

Já “radical chique” foi criado mesmo por Wolfe em ensaio publicado em 1970 para ironizar a pretensão, a afetação, a hipocrisia e o modismo de celebridades e integrantes das altas rodas que assumiam posturas pretensamente radicais. Atualmente, no Brasil, usa-se também uma expressão similar, a “esquerda caviar”.

Thomas Kennerly Wolfe nasceu em 2 de março de 1931 em uma família abastada de Richmond, no Estado americano da Virginia. Seu pai, também chamado Thomas, embora fosse Ph.D em agronomia, professor universitário e fazendeiro, atuou também como jornalista e escritor. A mãe, Helen, além de incentivá-lo a ler desde cedo, matriculou-o em aulas de balé e sapateado. Desde cedo, portanto, seu destino estava traçado. Começou a escrever ainda criança. Foi editor de esportes do jornal da faculdade, quando fazia graduação na Washington and Lee – recusara a prestigiada Princeton –, onde também ajudou a fundar uma revista literária e jogava beisebol, tendo chegado a fazer testes como arremessador no New York Giants, mas foi considerado lento e dispensado. Depois de cumprir doutorado em Estudos Americanos na Universidade de Yale, poderia ter seguido carreira acadêmica, mas, felizmente para os leitores, optou pelo jornalismo. Começou no Springfield Union, passou pelo Washington Post e depois foi para o New York Herald Tribune.

O ponto de inflexão na carreira de Wolfe ocorreu em 1963. Estando os jornais de Nova York em greve, ele aproveitou para sugerir à Esquire uma pauta sobre a moda dos carros customizados então em voga na Califórnia. Byron Dobell, editor da revista, propôs que ele enviasse suas anotações para que trabalhassem juntos na produção de um artigo. Wolfe escreveu uma carta para Dobell falando tudo que queria dizer a respeito, sem se preocupar em fazer um texto jornalístico. O editor simplesmente cortou a saudação “Caro sr. Byron” e publicou o texto na íntegra em 1964.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Respeitemo-nos!

Só não é chocante o desrespeito a grassar nas ruas, botecos e timelines nesta campanha eleitoral porque o tempo nos ensina a não esperar muito das pessoas. Como diz aquela frase magistral, cuja autoria desconheço, mas que ouvi pela primeira vez da amiga Françoise Techio, o ser humano é o pior tipo de gente. Mas eu não quero falar de política aqui, não é o caso, tampouco a paciência permite no momento. Quero falar de coisas, digamos, comezinhas.

Quem me acompanha com alguma atenção nas redes sociais – sei lá por que alguém o faria – sabe o quanto, a despeito de ser rude ocasionalmente – às vezes é conveniente manter a fama de mau –, jamais posei de árbitro da moral alheia, mediador de gostos ou opiniões e, muito menos, julguei alguém por suas opções ou orientações. Sempre fui assim na vida, e redes sociais são que nem bebida alcoólica, somente dão vazão ao que no fundo sempre se quis dizer ou fazer, são supostas justificativas para palavras e atitudes que olho no olho, e sóbrios, jamais assumiríamos. Orgulho-me de poder afirmar que nunca fiz ou falei algo que tivesse de desdizer no dia seguinte usando o manjadíssimo pretexto do “eu havia bebido”. Não por não beber, mas por saber administrar. Sim, eu havia bebido, mas fi-lo porque qui-lo, como diria o tresloucado Jânio Quadros.

Custa-me, portanto, aceitar qualquer forma de bullying, declarado ou disfarçado de outra coisa socialmente mais aceitável. Por exemplo: há cerca de um ano e meio, talvez menos, tornei-me vegetariano, opção motivada por variadas razões. Apenas mudei meus hábitos alimentares, não tentei doutrinar ninguém, muito menos passei a dar discursos desagradáveis diante de apreciadores de picanha malpassada. Tenho opiniões firmes a respeito disso, como costumo ter a respeito de tudo, apenas não as saio declarando aos berros. Justo seria esperar que, ao menos, deixassem-me em paz com minha opção, certo? Errado. Há quem não possa perder uma mísera oportunidade. Seja pela necessidade patológica de tentar ser engraçado sempre – o que nem o psicopata Coringa, do Batman, consegue –, seja por arrogância mesmo.

Dizem que três coisas não se devem discutir: futebol, política e religião(Leia a continuação clicando no link abaixo).
O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

Esta palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie foi realizada em 2009 em Oxford, no Reino Unido (publiquei aqui no blog em 2010), mas sempre vale a pena rever e refletir sobre os riscos de se relativizar - por ingenuidade ou cinismo - a história, as culturas e as gentes ao se enxergar o mundo a partir de uma única visão, de relatos de um único campo, por definição, parciais, por óbvio, humanamente contaminados, estereotipados e imprecisos. Serve para tudo, em qualquer tempo ou lugar.


NEURÓTICOS AO MAR

Eu trocara de carro havia cerca de um ano quando o emprestei para um colega de trabalho resolver algum problema rápido. Ele retornou em menos de meia hora, devolveu-me as chaves e os documentos e disse: "Você sabia que a buzina não está funcionando?" Eu o cumprimentei por descobrir tão rapidamente algo que eu não percebera em tanto tempo. Sempre lembro disso quando os motoristas começam a descarregar suas frustrações e neuroses na buzina, por certo esperançosos de que isso abra o mar de carros à sua frente tal qual Moisés diante do Mar Vermelho.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
David Ogilvy, o Rei da Madison

Em memorando datado de 7 de setembro de 1982, David Ogilvy listou para seus colaboradores dez regras básicas da boa escrita:
 “Quanto melhor você escrever, mais subirá na Ogilvy & Mather. Pessoas que pensam bem, escrevem bem. Pessoas confusas escrevem memorandos, cartas e discursos confusos.
Escrever bem não é um dom natural. Tem de se aprender a escrever bem. Aqui estão 10 pistas:
1. Leia o livro sobre escrita de Roman e Raphaelson. Leia três vezes. (a versão mais recente é mais fácil de encontrar e mais barata).
2. Escreva do jeito que você fala. Naturalmente.
3. Use palavras curtas, frases curtas e parágrafos curtos.
4. Nunca use jargões como reconceitualizar ou desmassificar. São características de um burro pretensioso.
5. Nunca escreva mais do que duas páginas sobre qualquer assunto.
6. Verifique suas citações.
7. Nunca envie uma carta ou memorando no dia em que os escrever. Leia-os em voz alta na manhã seguinte – e edite-os.
8. Se é algo importante, peça a um colega para melhorá-lo.
9. Antes de enviar sua carta ou memorando, certifique-se de que está bem claro o que você quer que o destinatário faça.
10. Se você quer ação, não escreva. Vá e diga diretamente à pessoa o que você quer.
            David.”


David MacKenzie Ogilvy percorria rotineiramente as ruas de Nova York rumo à Madison Avenue com o justo orgulho dos homens que ajudam a definir sua época. O porte altivo, as vestes de impecável elegância, o indefectível cachimbo e o semblante revelador das raízes britânicas compunham um personagem no qual cabia sob medida o apelido de Rei da Madison, morada das maiores agências de publicidade do mundo. Ainda não sabia que entraria para a história como “o pai da propaganda”, mas o que já conquistara não era pouca coisa, e isso ele sabia muito bem.

Reza a lenda que certa vez, ao caminhar pela Madison, deparou-se com um pedinte de cujo pescoço pendia uma placa com a sintética afirmação: “Eu sou cego”. Ao lado do desafortunado cidadão jazia um copo destinado a acolher eventuais esmolas, o qual estava vazio. Ogilvy retirou a placa do pescoço do surpreso mendicante, acrescentou algo à inscrição e a recolocou no lugar. Mesmo sem entender o que se passava, o cego logo começou a ouvir o incessante tilintar das moedas. Quando passou de volta por ali, ao final de expediente, Ogilvy abriu um largo sorriso ao observar que o copo agora se encontrava cheio de donativos, por certo fruto do apelo que ele agregara ao cartaz: “É primavera e eu sou cego.”

O gesto viria a ser emulado por gerações de publicitários decididos a doar instantes de sua criatividade e capacidade de comunicação para pequenas grandes causas cotidianas. Ainda hoje, e agora com direito a postagens no YouTube e nas redes sociais, a prática persiste. Ditar comportamentos, estabelecer parâmetros, inspirar atitudes são prerrogativas de poucos, sobretudo em um universo tão competitivo quanto o das grandes agências. É legítimo dizer que depois dele o modo de se fazer propaganda nunca mais foi o mesmo.


Nascido em West Horsley, um vilarejo semi-rural localizado no distrito de Guildford, no coração da Inglaterra, e que ainda hoje contabiliza menos de três mil almas, David veio ao mundo em 23 de junho de 1911, por insondável coincidência nos mesmos dia e mês em que haviam nascido seu pai e seu avô. Depois de estudar em Edimburgo, na Escócia, e na inglesa Oxford, sem ter concluído um curso superior, conseguiu seu primeiro emprego em Paris, como cozinheiro do Hotel Majestic. De volta à Inglaterra, tornou-se vendedor de fogões da Aga Cookers. Além de alcançar um desempenho extraordinário na função, mostrou seu lado inquieto e criativo ao redigir, em 1935, um guia de vendas que a revista Fortune classificou como “possivelmente o melhor manual de vendas já escrito.(Leia a continuação clicando no link abaixo).

sábado, 27 de setembro de 2014

GRANDES NOMES
Norman Mailer, o best-seller provocador

Primeiro, leiam o início de Os Nus e os Mortos:


 “Ninguém podia dormir. Quando amanhecesse, as embarcações de assalto seriam lançadas ao mar, e uma primeira vaga de soldados transporia a rebentação e atacaria a praia de Anopopei. No navio, no comboio inteiro, predominava a certeza de que dentro de poucas horas alguns deles estariam mortos.

“Um soldado estendido ao comprido no beliche, os olhos fechados, continua inteiramente desperto. Em torno de si, como o sussurro da rebentação, escuta os murmúrios dos homens em seus cochilos intermitentes. – Não farei, não farei – grita alguém no meio de um sonho. O soldado abre os olhos. Esquadrinha lentamente o porão e seu olhar se perde no emaranhado das marcas, dos corpos nus e do equipamento bamboleante. Conclui que precisa ir à latrina. Praguejando, contorce-se todo até conseguir sentar-se, as pernas penduradas para fora do beliche, e apóia as costas arqueadas no cano de ferro da maça de cima. Suspira, apanha os sapatos que amarrou a um pilar e calça-os vagarosamente. Seu beliche é o quarto numa fila de cinco. Desce inseguro na semi-obscuridade, receando pisar algum dos companheiros que ocupam as maças de baixo. No soalho, envereda por um labirinto de sacos e mochilas, tropeça uma vez num fuzil e avança para a porta do tabique. Atravessa outro alojamento, cujo corredor também está atravancado, e afinal chega à latrina.

“Lá dentro o ar está impregnado de vapor. Mesmo agora alguém está utilizando o único chuveiro de água doce, o qual vem sendo disputado desde o embarque das tropas. O soldado passa pelos jogos de dados nos chuveiros de água salgada, que ninguém usa, e acocora-se nas tábuas úmidas e rachadas da latrina. Não trouxe cigarros e fila de um sujeito sentado ali perto. Enquanto fuma, observa o piso negro molhado, coberto de guimbas, e ouve a água correr na caixa da privada.”

Com apenas 25 anos de idade, Norman Mailer publicou, em 1948, Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead), um portentoso relato jornalístico tecido a partir de suas experiências na Segunda Guerra Mundial. A obra tornou-se estrondoso sucesso de público e crítica, deu início a uma trajetória de sucesso e começou a inscrevê-lo na galeria dos grandes do new journalism, ao lado de nomes como Truman Capote, Gay Talese, John Hersey e Tom Wolfe.

Norman Kingsley Mailer nasceu em Long Branch, Nova Jersey, em 31 de Janeiro de 1923, e morreu em Nova York em 10 de novembro de 2007, aos 84 anos. Filho de imigrantes judeus de classe média, aos 16 anos ingressou na faculdade de engenharia aeronáutica em Harvard, curso ao qual daria seguimento na Sorbonne, em Paris. A despeito de cursar um ofício técnico em duas das maiores universidades do mundo, antes de se graduar combateu na Segunda Guerra em fronts nas Filipinas e no Japão. A acurada percepção do que ocorria à sua volta, a sensibilidade para perceber seus tons e meio-tons e o talento inato para a arte de contar histórias o levaram a escrever Os Nus e os Mortos, cuja aclamação, aliada à confessada paixão, fez o mundo perder um engenheiro, quem sabe brilhante, e ganhar um nome de primeiríssima linha não apenas no jornalismo e na literatura, mas na cultura pop americana de modo mais abrangente.

Forjada a partir de uma obra inaugural extraordinária, equiparada a grandes títulos na literatura de seu país, a carreira de Mailer como escritor tinha tudo para deslanchar sem passar por aqueles estágios intermediários de incertezas e fracassos aos quais mesmo os grandes estão sujeitos. Entretanto, o reconhecimento de seu talento precoce não lhe garantiu a escalada direto ao topo. Ainda que a fama lhe tenha aberto muitas portas, inclusive a de roteirista em Hollywood, nos tempos seguintes acumulou rejeições das editoras e, mesmo o que conseguia publicar, acabava naufragando.

A lenda em torno de seu nome, no entanto, continuaria a ser talhada, não apenas no cinema. Embora Hollywood jamais pudesse ser desprezada – ontem e sempre –, trava-se de uma indústria de peso no entretenimento global e, de certa forma, e em boa parte de seu escopo, de viés quase oficialista, quase chapa-branca no cenário da cultura americana, sobretudo sob o jugo do Macarthismo, naqueles paranóicos anos do auge da Guerra Fria. De temperamento inquieto e dotado de severa mordacidade, Mailer tornou-se um polemista respeitado, e temido, por meio de artigos na publicação alternativa The Village Voice, que ajudou a fundar, e nos quais tecia críticas tão corrosivas quanto verdadeiras ao establishment da América. (Leia a continuação clicando no link abaixo).

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Francesc Petit, o P da DPZ


A Espanha foi palco de um golpe de Estado, em 1923, liderado pelo general Miguel Primo de Rivera e com as bênçãos do rei Afonso III. A crise mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929, fragilizou os detentores do poder e o rei retirou o apoio ao ditador. Dois anos mais tarde, com a vitória de socialistas, nacionalistas e republicanos nas principais cidades, Afonso III foi para o exílio. Os conservadores voltaram ao poder em 1933 e, em outubro no ano seguinte, eclodiu uma revolta nas regiões da Catalunha e das Astúrias, em seguida debelada pelo governo. Em 1935, derrotados nas urnas, os conservadores, apoiados pelo Exército e pela Igreja, planejaram novo golpe. Começou então a Guerra Civil Espanhola, que em três anos deixou saldo de 350 mil mortos. O conflito acabou em 1939 com a vitória dos militares e a instalação de uma ditadura fascista comandada pelo general Francisco Franco. Com a oposição sufocada, Franco ficou no poder até sua morte, em 1975, quando o rei Juan Carlos I – que recentemente abdicou em favor do filho, Felipe VI – tornou-se chefe de Estado. Um parlamento eleito democraticamente aprovou a nova Constituição e a Espanha passou a ser governada de fato por um primeiro-ministro. O atual é o conservador Mariano Rajoy.

Francesc Petit Reig nasceu em Barcelona, na Catalunha, em 1934, ano da rebelião, e cresceu no contexto da Guerra Civil Espanhola, que arrasou o país, e, na sequência, da Segunda Guerra Mundial. Desde cedo começou a aprender o ofício do pai e, aos 10 anos, já o ajudava em sua pequena serralheria. Eram tempos duros, de miséria quase absoluta, em que faltavam itens básicos, até mesmo água, para a maioria da população, e de violentíssima repressão. O pai de Francesc em duas ocasiões esteve a ponto de ser fuzilado, tendo sido arrastado de casa no meio da noite na frente da impotente família, enquanto os soldados quebravam tudo dentro da residência. Ele mesmo, ainda adolescente, voltava para casa com um pão dentro da mochila quando foi ameaçado de prisão porque acharam que o pão era produto de roubo ou contrabando.

Passado o conflito na Europa, em 1946, aos 12 anos, o menino começou a correr de bicicleta, uma das paixões que o acompanhariam por toda a vida. Acordava às 4h para treinar e chegou a ser bicampeão catalão e campeão espanhol. Também naquela época passou a estudar artes. No final da década, a família decidiu procurar novos ares em busca de oportunidades. Como a mãe do garoto era natural de Honduras, aquele foi o país escolhido. As passagens já estavam compradas quando um amigo médico, que viajara ao Brasil para participar de um congresso, jantou na casa deles e falou muitas coisas boas a respeito de São Paulo. Empolgado com as palavras do amigo, o pai de Francesc foi à agência de viagens e trocou as passagens: o destino da família seria o Brasil, onde desembarcaram em 1952. Os pais jamais haveriam de se adaptar totalmente à nova terra, mas, para o menino, que já partiu da Espanha tendo se iniciado no ramo da propaganda, foi mais fácil e definiu seu futuro. Francesc Petit estudara pintura na Escola de Belas-Artes de Barcelona, entre 1945 a 1951, e no Studio de Joaquim Girbau de arte e propaganda. Em 1947, trabalhou na Gráfica Secx & Barral como retocador de fotolito. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
Reflexões de uma madrugada fria

Cândido, uma das obras mais conhecidas de Voltaire, publicada em 1759, tem um personagem chamado Pangloss, para o qual o mundo era perfeito, pois tudo de mal que ocorresse seria apenas parte do caminho rumo a um bem maior. Neste clássico conto filosófico, Voltaire utilizou Pangloss como instrumento de crítica a certo tipo de otimista que vive em um universo fantasioso e se recusa a enxergar a realidade. Mesmo sofrendo com doenças, miséria, sacrifícios de toda sorte, agressão física e emocional, prisão, exílio, até mesmo suplícios, o personagem não deixava de acreditar que tudo se encaminhava do melhor modo possível. Uma espécie de Pollyana em versão radical.

Faça o download gratuito do conto em:


http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Bill Bernbach, o criador do "pense pequeno"


Vamos voltar um pouco no tempo. Estamos na Madison Ave., morada das grandes agências de propaganda, em Manhattan, Nova York, Estados Unidos. Corre o ano de 1959, portanto, uma década e meia depois da Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria chegando ao ápice. A DDB, sigla que reúne os nomes de seus fundadores, Doyle, Dane e Bernbach, encontra-se diante de um desafio e tanto: bolar a campanha de lançamento de um novo carro. Dito assim, parece até barbada, afinal, estamos no país do automóvel. Então, vamos complicar este jogo: o veículo é estrangeiro. Pior do que isso, vem da Alemanha, terra de Adolf Hitler. Aliás, foi criado em 1938 a pedido do próprio Führer. Mas, como a Segunda Guerra já ficou para trás, a destruição e as mortes em larga escala ocorreram na Europa e os EUA venceram o conflito, talvez isso não seja um problema tão grave assim. Vamos complicar mais um pouco: o carro é feio, de formas ovaladas, pouco potente e, crime imperdoável na terra dos carrões, é pequeno. Bem, talvez bastasse o apelo do baixo consumo de combustível, da economia de dólares e dos recursos naturais do planeta. Em 1959? Agora que já entendemos o contexto e as complexidades, será mais fácil compreender em sua magnitude as qualidades do homem ao qual este texto é dedicado.

No final dos ’50, a intensa disputa geopolítica com a União Soviética e o orgulho por ter acabado com o terror do Terceiro Reich reforçavam nos americanos a atitude de pensar grande. O tamanho e a potência dos carros não eram frutos do acaso, antes refletiam sua época. Diante do desafio de lançar o pequeno estrangeiro feioso, pensar a propaganda de modo convencional não funcionaria, era preciso quebrar paradigmas. Foi aí que entrou o toque de gênio de Bill Bernbach. Na contramão do pensamento dominante, e arriscando o prestígio da agência, ousou como só os grandes ousam: “Pense pequeno” foi o mote da campanha que apresentou aos americanos o Beetle (Besouro), que no Brasil se eternizaria como Fusca.  (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quinta-feira, 10 de julho de 2014

GRANDES NOMES
Gay Talese, o ícone

Primeiro, leiam o início de Frank Sinatra Está Resfriado:


Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk­rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa ideia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário.
“Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; ele estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado Sinatra – um Homem e sua Música, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a consideram banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.
“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a voz dele –, mina as bases de sua confiança e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Gay Talese, segurando um cálice de borgonha californiano numa mão e um garfo com um pedaço do volumoso bife na outra, estava sentado à iluminada mesa absorto em um calhamaço de papel, e Harold Hayes, editor da Esquire, em Nova York, esperava ouvir alguma palavra dele. Mas ele ainda não tinha algo a dizer; passara boa parte da manhã calado, lendo matérias sobre Frank Sinatra; só que agora, naquele luxuoso hotel em Beverly Hills, parecia ainda mais concentrado, ocasionalmente fitando, através da fumaça e da luz tênue, a caprichada decoração do Beverly Wilshire, sem imaginar que o hotel, instalado num prédio histórico no Wilshire Boulevard, pertinho da Rodeo Drive, viria a ser eternizado pelo filme Pretty Woman, e que Julia Roberts desfilaria seu imenso sorriso pelos halls e corredores que ele acabara de trilhar naquele Inverno de 1965.
Talese estava fazendo um trabalho que lhe agradava e não via a hora de ficar frente a frente com The Voice, o que deveria ocorrer naquela tarde, e voltar para casa com a missão cumprida; mas, então, o telefone tocou, o escritório do cantor cancelando a entrevista, Sinatra andava aborrecido com as manchetes ligando-o à máfia e, além, do mais, estava resfriado. Caso ele se sentisse melhor, e caso também o jornalista se comprometesse a submeter seu texto ao escritório antes de publicá-lo, bem, caso tudo isso, talvez fosse possível remarcar a entrevista para dali a uns dias. Calmamente, sem mergulhar em um estado genuíno de angústia, tampouco fúria, Talese explicou de forma polida que não podia contrariar o direito de seu editor de ser o primeiro a julgar seu trabalho, desejou melhoras e perguntou se poderia ligar dentro de alguns dias, no que recebeu concordância, mas nada de promessas.
Talese sem uma entrevista confirmada não era Picasso sem tinta ou Ferrari sem combustível. Porque isso não o despojava de uma joia que não dá para pôr no seguro – o talento para contar histórias –, não minava as bases de sua confiança nem afetava seu estado psicológico. Quem sabe fosse até melhor. Enquanto aguardava, começou a entrevistar dezenas de pessoas, entre músicos, produtores musicais, executivos de estúdios e de gravadoras, ex e atuais integrantes do staff do cantor, empregados de seus variados empreendimentos – iam de imobiliária a fábrica de componentes de mísseis –, sem usar gravador para não inibir os interlocutores, pois um “repórter é um sedutor que conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela”, sequer anotando, na maior parte do tempo, apenas registrando fragmentos de conversa enquanto a pessoa ia ao banheiro ou coisa assim, ou registrando os diálogos somente depois, no hotel. (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

GRANDES NOMES
John Hersey, o patriarca do new journalism


Primeiro, leiam o início de Hiroshima:


“No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wühelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro oeste da cidade, para descarregar um carinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foi morta pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade – um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso.”

Um ano depois da hecatombe nuclear, a prestigiada revista The New Yorker enviou um repórter a Hiroshima. Embora ainda jovem, John Richard Hersey era um veterano correspondente de guerra. Nascido em Tienstin, na China, em 17 de julho de 1914, na alvorada da Primeira Guerra Mundial, filho dos missionários americanos Roscoe e Grace Baird Hersey, mudou-se com a família para os Estados Unidos aos dez anos de idade. Frequentou a Universidade de Yale e fez pós-graduação em Cambridge. Em 1937, aos 23, arranjou emprego na Time. Na Segunda Guerra Mundial esteve no front na Europa e na Ásia – cobriu a célebre batalha de Guadalcanal –, de onde mandava reportagens para a Time, a Life e a New Yorker. Naquele Verão (no Hemisfério Norte) de 1945, quando completava 32 anos, Hersey foi escalado para realizar um trabalho que revolucionaria não apenas sua vida e a da publicação, mas a história do jornalismo.

Hersey reconstituiu o instante da tragédia e seus desdobramentos nos tempos seguintes a partir dos depoimentos de seis sobreviventes. Ao examinar os originais, Harold Ross, o fundador da revista, e William Shawn, o editor, viram-se diante de um material esplendoroso. Hersey não apenas retratara com maestria o holocausto nuclear de Hiroshima e contara o drama daquela gente com incrível requinte de detalhes. Ele fora muito além.


Ao contrário dos rebuscados textos jornalísticos de então, na maioria permeados de adjetivação, floreios e rococós, o artigo de Hersey primava pela objetividade e pela prosa escorreita, na qual os substantivos reinavam absolutos sobre escassos adjetivos, e com pouca interferência do autor. Ele não tentou forçar a barra para tornar a narrativa dramática, e sim deixou os personagens contarem a história. Isso mais do que bastava para emocionar. Os editores não tiveram dúvidas de que estavam diante de um trabalho jornalístico portentoso e inovador, não só na linguagem, mas também na forma. Hersey aliara a objetividade jornalística aos conceitos da narrativa literária como ninguém jamais o fizera. (Leia a continuação clicando no link abaixo).