sexta-feira, 11 de setembro de 2009
sexta-feira, 26 de junho de 2009

MICHAEL JACKSON
Jamais haverá outro como ele
Lembro-me de tê-lo ouvido pela primeira vez quando eu tinha uns oito anos de idade, e ele 10, embora possa ter sido antes. I’ll be there, Ben, Music and Me, Happy, canções pueris, cujas letras eu desconhecia, embalavam meus irrealizáveis sonhos românticos da infância. Então, o menino-prodígio do Jackson Five cresceu, mas conseguiu segurar os agudos, deu show de bola na carreira-solo e virou ícone mundial. Tive o privilégio de cobrir para Zero Hora quatro shows da turnê Dangerous, dois em Buenos Aires e dois no Morumbi, em São Paulo, em outubro de 1993. Momentos inesquecíveis em que assisti ao vivo a toda aquela magia.
Genuíno príncipe herdeiro da música negra americana, Michael misturou ritmos improváveis, revitalizou o pop, reinventou o videoclipe, cantou e dançou como ninguém. Elevado à categoria de mito, depois de personagem quase ficcional, isolado em sua Terra do Nunca particular, por vezes sucumbiu à própria fantasia. E como a mídia que incensa é a mesma que destrói, virou fonte inesgotável de assunto. Mas não podia se queixar disso, ao menos não inteiramente, pois contribuía para sua própria desconstrução. “Ninguém é normal quando está no palco desde os cinco anos de idade”, desabafou certa vez, ao receber o Grammy na auto-explicativa categoria de Lenda.
Lamentavelmente, a cor de sua pele, a sexualidade, as cirurgias plásticas, as acusações de abuso, tudo isso acabou se sobrepondo no imaginário de milhões de pessoas aos atributos do artista genial, cujo legado para a música internacional é de uma dimensão que a maioria ainda levará muito tempo para compreender. Michael era único, daquela categoria de artistas dos quais se pode dizer que jamais haverá outro sequer parecido. Um dos últimos grandes, verdadeiramente grandes. E como a maioria deles, parte cedo. A relação brilho intenso, vida breve prevalece mais uma vez.
Enquanto escrevia eu ouvia algumas de suas incontáveis canções de sucesso – Man in the Mirror é minha predileta, e era também a dele. Este texto está longe de expressar todo o significado de Michael, mas foi escrito sob a emoção da notícia que acabou de chegar, e que ainda nem foi adequadamente digerida. A notícia de que milhões de fãs em todo o mundo perderam sua estrela, de que ele nos deixou em desassossego, mas de que talvez ele, enfim, tenha paz.
Publicado originalmente no jornal Zero Hora.
Jamais haverá outro como ele
Lembro-me de tê-lo ouvido pela primeira vez quando eu tinha uns oito anos de idade, e ele 10, embora possa ter sido antes. I’ll be there, Ben, Music and Me, Happy, canções pueris, cujas letras eu desconhecia, embalavam meus irrealizáveis sonhos românticos da infância. Então, o menino-prodígio do Jackson Five cresceu, mas conseguiu segurar os agudos, deu show de bola na carreira-solo e virou ícone mundial. Tive o privilégio de cobrir para Zero Hora quatro shows da turnê Dangerous, dois em Buenos Aires e dois no Morumbi, em São Paulo, em outubro de 1993. Momentos inesquecíveis em que assisti ao vivo a toda aquela magia.
Genuíno príncipe herdeiro da música negra americana, Michael misturou ritmos improváveis, revitalizou o pop, reinventou o videoclipe, cantou e dançou como ninguém. Elevado à categoria de mito, depois de personagem quase ficcional, isolado em sua Terra do Nunca particular, por vezes sucumbiu à própria fantasia. E como a mídia que incensa é a mesma que destrói, virou fonte inesgotável de assunto. Mas não podia se queixar disso, ao menos não inteiramente, pois contribuía para sua própria desconstrução. “Ninguém é normal quando está no palco desde os cinco anos de idade”, desabafou certa vez, ao receber o Grammy na auto-explicativa categoria de Lenda.
Lamentavelmente, a cor de sua pele, a sexualidade, as cirurgias plásticas, as acusações de abuso, tudo isso acabou se sobrepondo no imaginário de milhões de pessoas aos atributos do artista genial, cujo legado para a música internacional é de uma dimensão que a maioria ainda levará muito tempo para compreender. Michael era único, daquela categoria de artistas dos quais se pode dizer que jamais haverá outro sequer parecido. Um dos últimos grandes, verdadeiramente grandes. E como a maioria deles, parte cedo. A relação brilho intenso, vida breve prevalece mais uma vez.
Enquanto escrevia eu ouvia algumas de suas incontáveis canções de sucesso – Man in the Mirror é minha predileta, e era também a dele. Este texto está longe de expressar todo o significado de Michael, mas foi escrito sob a emoção da notícia que acabou de chegar, e que ainda nem foi adequadamente digerida. A notícia de que milhões de fãs em todo o mundo perderam sua estrela, de que ele nos deixou em desassossego, mas de que talvez ele, enfim, tenha paz.
Publicado originalmente no jornal Zero Hora.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
FRASE
“É preciso ter estrela. O Rubinho Barrichello, por exemplo, tem estrela, apesar de muitos dizerem que não. É milionário, ganha muito dinheiro. O problema é que a estrela dele fica na bunda e se apaga quando ele senta no cockpit”.
Autora da elegante frase acima, e assustada com a repercussão, Hortência (que se fosse flor seria grafada com s), tentou se explicar em um confuso texto postado em seu blog. Depois de dizer que fizera uma brincadeira de mau gosto, pediu desculpas ao "grande amigo, inclusive já jogamos Golf juntos, e também uma pessoa que admiro Rubens Barriquelo." (o negrito é meu)
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COTIDIANO
Vide o verso
A prefeitura de Porto Alegre promove, há alguns anos, o concurso Poemas no Ônibus, cujos vencedores, como o nome indica, têm sua obra exibida internamente nos coletivos. Motivado por interesses, digamos, arqueológicos, dia desses decidi embarcar em algumas linhas por breves trechos, o bastante para fazer um pequeno inventário desses trabalhos e quem sabe escrever algo a respeito. Poderia, é claro, valer-me da internet, mas queria observar de que modo eram distribuídos e, acima de tudo, qual era a reação dos passageiros. Alguém se daria ao trabalho de lê-los ou tais poemas passavam despercebidos como placas de “não fume” ou “fale com o motorista somente o indispensável”?
Embarquei no primeiro ônibus do que imaginava seria uma sequência, sentei-me e lá estava:
Vide o verso
A prefeitura de Porto Alegre promove, há alguns anos, o concurso Poemas no Ônibus, cujos vencedores, como o nome indica, têm sua obra exibida internamente nos coletivos. Motivado por interesses, digamos, arqueológicos, dia desses decidi embarcar em algumas linhas por breves trechos, o bastante para fazer um pequeno inventário desses trabalhos e quem sabe escrever algo a respeito. Poderia, é claro, valer-me da internet, mas queria observar de que modo eram distribuídos e, acima de tudo, qual era a reação dos passageiros. Alguém se daria ao trabalho de lê-los ou tais poemas passavam despercebidos como placas de “não fume” ou “fale com o motorista somente o indispensável”?
Embarquei no primeiro ônibus do que imaginava seria uma sequência, sentei-me e lá estava:
"Minas de poesia
Acidentes necessários
Antes de desembarcar do ônibus, ainda tive tempo de ler um aviso:
"Segure-se: evite acidentes desnecessários."
Eu não consegui imaginar o que seriam acidentes necessários, mas, depois que um prestigiado jornal gaúcho criou o “assalto-surpresa” em uma chamada de capa, tudo é possível.
Mas, se o mesmo encontra-se...
Lembrei-me então daquele clássico:
“Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.”
The best
Jamais encontrei, no entanto, algo parecido com o aviso afixado na vitrina de uma loja de objetos de decoração em Florianópolis:
“O estacionar, para não compra, será cobrado R$ 17,00.”
calos
drumond
de andar"
Sim, era isso mesmo, e só isso, um dos vencedores. Puxei a tradicional cordinha e desci na próxima parada.
Sim, era isso mesmo, e só isso, um dos vencedores. Puxei a tradicional cordinha e desci na próxima parada.
Acidentes necessários
Antes de desembarcar do ônibus, ainda tive tempo de ler um aviso:
"Segure-se: evite acidentes desnecessários."
Eu não consegui imaginar o que seriam acidentes necessários, mas, depois que um prestigiado jornal gaúcho criou o “assalto-surpresa” em uma chamada de capa, tudo é possível.
Mas, se o mesmo encontra-se...
Lembrei-me então daquele clássico:
“Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.”
The best
Jamais encontrei, no entanto, algo parecido com o aviso afixado na vitrina de uma loja de objetos de decoração em Florianópolis:
“O estacionar, para não compra, será cobrado R$ 17,00.”
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terça-feira, 28 de abril de 2009
CRÔNICA
Passeio numa tarde de sábado
Miley (pronuncia-se Máili), a siamesa de nome inspirado em Miley Cyrus, estrela da hora da Disney, e obviamente colocado por minhas filhas, arregala os olhos que à luz do sol são de um azul improvavelmente cristalino, observa-me a amarrar os cadarços dos tênis, resmunga alguma coisa e se conforma num canto da sala. Estamos em pleno outono, estação rebaixada à condição de breve ponte entre verões insistentes e invernos tardios. O aquecimento global é mais presente do que gostaríamos de supor, mas agora só me importa ganhar as ruas e queimar algumas calorias, sentir a liberdade da leve brisa de encontro ao rosto, o prazer do suor a empapar a camiseta preta e quem sabe, com pouco mais de uma hora de esforço, saborear uma compensadora dose de endorfina (cujo nome, aprendi só outro dia, significa “a morfina que vem de dentro”, ou algo assim).
O percurso começa lomba acima, trecho curto, no qual passo por um mercadinho com um cão muito esquisito por trás das grades do pátio, uma oficina mecânica e uma igreja messiânica qualquer, de nome indecorável, mas chamativo o bastante para lotar o salão tão logo se instalou numa antiga loja de flores, plantas e supostos projetos de paisagismo. Uma descida média, agora. À direita encaro o semblante desconsolado de um homem de meia-idade sentado numa cadeira comum em frente à Zélia Modas, loja de confecções gradeada situada num ponto morto da rua, de pedestres e carros escassos, sobrevivendo sabe-se lá como enquanto, à esquerda, desvio rapidamente o olhar de um casal jovem num carro popular estacionado, trocando juras de amor eterno que se desvanecerão em breve como seu melhor jeans.
Outra subida, desta vez mais curta, mas bem mais íngreme, e chego a uma praça que ocupa duas quadras, cortada ao meio, na vertical, por uma ruela que leva de nada a lugar algum. Arrisco dar algumas voltas na segunda metade, tendo de desviar de cacos de vidros de garrafas atiradas por bêbados ou vândalos, e cruzo com duas velhinhas a caráter, vestidas com aquele tipo de roupa que se compra para mostrar para todo mundo, em especial os vizinhos, que se pratica algum tipo de esporte. Eu corro, elas caminham, mas, a cada volta, eu as encontro num ponto anterior, o que significa que elas devem estar indo mais rápido do que eu. Estranho... Mas deve haver uma explicação.
Mais uma ladeira a desbravar, ainda mais longa e extenuante. Ao final dela, passo defronte a um posto da antiga LBA, a Legião Brasileira de Assistência, desmoralizada e extinta pelas roubalheiras da Era Collor, e que em minha infância eu conhecia como “A Legião”. Vem-me à mente, com a clareza das memórias necessárias para preservar um pouco do lúdico perdido, a ocasião em que, levado por Emília, minha avó materna, para tomar uma vacina ali, recebi depois como recompensa pela agulhada um compacto simples, disco de vinil com uma faixa de cada lado, dos Carpenters. De um lado, Mr. Postman; de outro, This Masquerade. A doce voz de Karen se faz ouvir ao longe, a long, long time ago.
As subidas acabaram. Agora vem um trecho plano, algumas descidas. Passo em frente a uma casa de madeira, daquelas típicas do bairro da infância, quase vizinho dali. Esta difere das outras apenas por uma placa na fachada: “Cartomante, Tarô, Bruxaria, Wicka. Consultas somente agendadas” e um número de telefone que, na dúvida, registro na agenda do celular. Quem sabe em que momento da vida o impensável pode se converter em razoável?
Mais subida, agora longa, bem longa, e vou parar numa avenida quase estrada, a um só tempo movimentada e remota, muito além do que imaginava ir. Será a endorfina? Será a wicka?
Duas prostitutas tentam, à luz do dia e às portas de um novo empreendimento imobiliário que se imagina exclusivo, oferecer seus corpos precários a motoristas solitários, um Gol com uns bons vinte anos de uso para, uma delas corre para negociar, a outra observa interessada, afinal, são dois os ocupantes do veículo.
Sei onde estou, mas não conheço aquelas ruas, entro em duas ou três delas, todas sem saída. Alguém teve a idéia de tornar o lugar exclusivo abrindo ruas sem saída. Melhor que fechassem tudo logo, mas preferiram se apoderar da via pública sem de fato fazê-lo (e sem pagar os impostos subjacentes), tornando qualquer passante um intruso, alguém que não deveria estar ali, olhado com desconfiança por senhoras zelosas de seus jardins e homens barrigudos a lavar os carros nas calçadas.
Agora tenho pela frente uma forte descida, que ao contrário do que pensam os não habitués, nada oferece de conforto, ao contrário, exige das articulações um sacrifício já demasiado depois de tanto esforço.
Enfim, um terreno levemente inclinado para cima. Terei subidas piores depois, mas ainda é cedo para me preocupar com isso. O caminho que sigo agora ladeia um campo de várzea, cuja extinção absoluta, embora lamentada com certo entusiasmo, está fadada a jamais se confirmar. O campo fica lá embaixo, estou no topo do barranco e encontro um toco de árvore, próximo a uma parada de ônibus, que por algum tempo será meu desconfortável acento no que passo a considerar a arquibancada superior. Uma equipe de vermelho enfrenta outra de laranja. Na maioria, homens passados dos quarenta, ao menos três deles com mais de sessenta. E ruins, de modo geral, em especial os goleiros. Nas peladas, sabe-se, vão para o gol não os mais habilidosos no gol, mas os de futebol mais medíocre, despachados para o lugar no qual, supostamente, causarão menos estragos.
Dois atletas de fim de semana, com suas barrigas de segunda a domingo, chamam-me a atenção. Um é do time laranja: negro alto, magro, cheio de pose, joga de volante e, quem sabe influenciado pela cor da camisa, porta-se como um Gullit. Embora exiba boa técnica, Gullit, como passo a vê-lo, é muito individualista, acaba sempre perdendo a bola no momento crucial. Seria mais produtivo se passasse mais. O outro é da equipe vermelha e usa uma chamativa bandana estampada, razão pela qual eu o apelido mentalmente de Pirata. O Pirata é o atacante mais efetivo, o que sempre busca a grande área.
Na linha de fundo à minha direita, lá embaixo, um bêbado reclama do goleiro, brandindo uma garrafa em cada mão. Minha bunda começa a doer. O toco de árvore é providencial, mas muito desconfortável. Penso nisso quando sinto algo se aproximar demais de mim, viro-me à esquerda e entra em primeiro plano as rodas de um táxi. Talvez entediado por trabalhar num dia de sol tão lindo, talvez porque os passageiros sumiram, o taxista invadiu a escassa relva do barranco para ver homens sem habilidade brigando pela bola num campo cuja grama se restringe a uma rala moldura. O jogo todo se desenvolve na areia. É quase beach soccer, mas mais duro.
Boa, Pirata, vai! Não adianta, bucaneiro, você está só. Um atacante com barriga acima do aceitável, mesmo para os padrões dali, recebe a bola sozinho, corre, corre, corre, chega na frente do goleiro e toca para fora de modo patético. Levanto-me de imediato, no que sou acompanhado pelo taxista. Isso fora demais para nós dois.
Depois de quase quarenta minutos no toco, não é só a bunda que dói. Os pés, as pernas, antes em intensa atividade, foram parados de súbito e tiveram de se adaptar ao toco nada ergonômico. A circulação agora cobrará seu preço, o caminho que resta de volta será penoso, entre ruas mal calçadas e dribles em cocôs caninos nas praças. Já próximo da chegada, cruzo com duas velhinhas bem vestidas, com aquelas roupas que... não, não pode ser.
Miley me recebe com um ronronado, um bocejo, uma espreguiçada e alguma ironia. Passara a tarde toda cochilando, agora comeria algo e voltaria a cochilar, enquanto eu suava feito doido.
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Passeio numa tarde de sábado
Miley (pronuncia-se Máili), a siamesa de nome inspirado em Miley Cyrus, estrela da hora da Disney, e obviamente colocado por minhas filhas, arregala os olhos que à luz do sol são de um azul improvavelmente cristalino, observa-me a amarrar os cadarços dos tênis, resmunga alguma coisa e se conforma num canto da sala. Estamos em pleno outono, estação rebaixada à condição de breve ponte entre verões insistentes e invernos tardios. O aquecimento global é mais presente do que gostaríamos de supor, mas agora só me importa ganhar as ruas e queimar algumas calorias, sentir a liberdade da leve brisa de encontro ao rosto, o prazer do suor a empapar a camiseta preta e quem sabe, com pouco mais de uma hora de esforço, saborear uma compensadora dose de endorfina (cujo nome, aprendi só outro dia, significa “a morfina que vem de dentro”, ou algo assim).
O percurso começa lomba acima, trecho curto, no qual passo por um mercadinho com um cão muito esquisito por trás das grades do pátio, uma oficina mecânica e uma igreja messiânica qualquer, de nome indecorável, mas chamativo o bastante para lotar o salão tão logo se instalou numa antiga loja de flores, plantas e supostos projetos de paisagismo. Uma descida média, agora. À direita encaro o semblante desconsolado de um homem de meia-idade sentado numa cadeira comum em frente à Zélia Modas, loja de confecções gradeada situada num ponto morto da rua, de pedestres e carros escassos, sobrevivendo sabe-se lá como enquanto, à esquerda, desvio rapidamente o olhar de um casal jovem num carro popular estacionado, trocando juras de amor eterno que se desvanecerão em breve como seu melhor jeans.
Outra subida, desta vez mais curta, mas bem mais íngreme, e chego a uma praça que ocupa duas quadras, cortada ao meio, na vertical, por uma ruela que leva de nada a lugar algum. Arrisco dar algumas voltas na segunda metade, tendo de desviar de cacos de vidros de garrafas atiradas por bêbados ou vândalos, e cruzo com duas velhinhas a caráter, vestidas com aquele tipo de roupa que se compra para mostrar para todo mundo, em especial os vizinhos, que se pratica algum tipo de esporte. Eu corro, elas caminham, mas, a cada volta, eu as encontro num ponto anterior, o que significa que elas devem estar indo mais rápido do que eu. Estranho... Mas deve haver uma explicação.
Mais uma ladeira a desbravar, ainda mais longa e extenuante. Ao final dela, passo defronte a um posto da antiga LBA, a Legião Brasileira de Assistência, desmoralizada e extinta pelas roubalheiras da Era Collor, e que em minha infância eu conhecia como “A Legião”. Vem-me à mente, com a clareza das memórias necessárias para preservar um pouco do lúdico perdido, a ocasião em que, levado por Emília, minha avó materna, para tomar uma vacina ali, recebi depois como recompensa pela agulhada um compacto simples, disco de vinil com uma faixa de cada lado, dos Carpenters. De um lado, Mr. Postman; de outro, This Masquerade. A doce voz de Karen se faz ouvir ao longe, a long, long time ago.
As subidas acabaram. Agora vem um trecho plano, algumas descidas. Passo em frente a uma casa de madeira, daquelas típicas do bairro da infância, quase vizinho dali. Esta difere das outras apenas por uma placa na fachada: “Cartomante, Tarô, Bruxaria, Wicka. Consultas somente agendadas” e um número de telefone que, na dúvida, registro na agenda do celular. Quem sabe em que momento da vida o impensável pode se converter em razoável?
Mais subida, agora longa, bem longa, e vou parar numa avenida quase estrada, a um só tempo movimentada e remota, muito além do que imaginava ir. Será a endorfina? Será a wicka?
Duas prostitutas tentam, à luz do dia e às portas de um novo empreendimento imobiliário que se imagina exclusivo, oferecer seus corpos precários a motoristas solitários, um Gol com uns bons vinte anos de uso para, uma delas corre para negociar, a outra observa interessada, afinal, são dois os ocupantes do veículo.
Sei onde estou, mas não conheço aquelas ruas, entro em duas ou três delas, todas sem saída. Alguém teve a idéia de tornar o lugar exclusivo abrindo ruas sem saída. Melhor que fechassem tudo logo, mas preferiram se apoderar da via pública sem de fato fazê-lo (e sem pagar os impostos subjacentes), tornando qualquer passante um intruso, alguém que não deveria estar ali, olhado com desconfiança por senhoras zelosas de seus jardins e homens barrigudos a lavar os carros nas calçadas.
Agora tenho pela frente uma forte descida, que ao contrário do que pensam os não habitués, nada oferece de conforto, ao contrário, exige das articulações um sacrifício já demasiado depois de tanto esforço.
Enfim, um terreno levemente inclinado para cima. Terei subidas piores depois, mas ainda é cedo para me preocupar com isso. O caminho que sigo agora ladeia um campo de várzea, cuja extinção absoluta, embora lamentada com certo entusiasmo, está fadada a jamais se confirmar. O campo fica lá embaixo, estou no topo do barranco e encontro um toco de árvore, próximo a uma parada de ônibus, que por algum tempo será meu desconfortável acento no que passo a considerar a arquibancada superior. Uma equipe de vermelho enfrenta outra de laranja. Na maioria, homens passados dos quarenta, ao menos três deles com mais de sessenta. E ruins, de modo geral, em especial os goleiros. Nas peladas, sabe-se, vão para o gol não os mais habilidosos no gol, mas os de futebol mais medíocre, despachados para o lugar no qual, supostamente, causarão menos estragos.
Dois atletas de fim de semana, com suas barrigas de segunda a domingo, chamam-me a atenção. Um é do time laranja: negro alto, magro, cheio de pose, joga de volante e, quem sabe influenciado pela cor da camisa, porta-se como um Gullit. Embora exiba boa técnica, Gullit, como passo a vê-lo, é muito individualista, acaba sempre perdendo a bola no momento crucial. Seria mais produtivo se passasse mais. O outro é da equipe vermelha e usa uma chamativa bandana estampada, razão pela qual eu o apelido mentalmente de Pirata. O Pirata é o atacante mais efetivo, o que sempre busca a grande área.
Na linha de fundo à minha direita, lá embaixo, um bêbado reclama do goleiro, brandindo uma garrafa em cada mão. Minha bunda começa a doer. O toco de árvore é providencial, mas muito desconfortável. Penso nisso quando sinto algo se aproximar demais de mim, viro-me à esquerda e entra em primeiro plano as rodas de um táxi. Talvez entediado por trabalhar num dia de sol tão lindo, talvez porque os passageiros sumiram, o taxista invadiu a escassa relva do barranco para ver homens sem habilidade brigando pela bola num campo cuja grama se restringe a uma rala moldura. O jogo todo se desenvolve na areia. É quase beach soccer, mas mais duro.
Boa, Pirata, vai! Não adianta, bucaneiro, você está só. Um atacante com barriga acima do aceitável, mesmo para os padrões dali, recebe a bola sozinho, corre, corre, corre, chega na frente do goleiro e toca para fora de modo patético. Levanto-me de imediato, no que sou acompanhado pelo taxista. Isso fora demais para nós dois.
Depois de quase quarenta minutos no toco, não é só a bunda que dói. Os pés, as pernas, antes em intensa atividade, foram parados de súbito e tiveram de se adaptar ao toco nada ergonômico. A circulação agora cobrará seu preço, o caminho que resta de volta será penoso, entre ruas mal calçadas e dribles em cocôs caninos nas praças. Já próximo da chegada, cruzo com duas velhinhas bem vestidas, com aquelas roupas que... não, não pode ser.
Miley me recebe com um ronronado, um bocejo, uma espreguiçada e alguma ironia. Passara a tarde toda cochilando, agora comeria algo e voltaria a cochilar, enquanto eu suava feito doido.
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MÍDIA
Bocelli nada viu em 35 de abril
Quando o politicamente correto ainda não eliminara certas anedotas, ouvia-se muito a seguinte frase: “Você viu o novo disco (nem havia CD ainda) do Steve Wonder?” Se o incauto respondesse “não”, vinha o complemento: “Nem ele”, e o piadista caía na risada. O gracejo já era velho quando surgiu o CD. Ainda assim, muitos continuaram a aplicá-lo. Difícil imaginar quem nunca ouviu tal bobagem. Na terça-feira 21 de abril, no entanto, uma repórter do Jornal Nacional, cujo nome não registrei, começou o texto da cobertura do show de Andréa Bocelli em São Paulo com a seguinte frase: “Deficiente visual, Andréa Bocelli não viu as 25 mil pessoas que...”
Na edição de 25 de abril, o repórter Pedro Bassan, direto de Portugal, abriu assim a matéria sobre os 35 anos da Revolução dos Cravos: “35 de abril. Uma data...”
Bocelli nada viu em 35 de abril
Quando o politicamente correto ainda não eliminara certas anedotas, ouvia-se muito a seguinte frase: “Você viu o novo disco (nem havia CD ainda) do Steve Wonder?” Se o incauto respondesse “não”, vinha o complemento: “Nem ele”, e o piadista caía na risada. O gracejo já era velho quando surgiu o CD. Ainda assim, muitos continuaram a aplicá-lo. Difícil imaginar quem nunca ouviu tal bobagem. Na terça-feira 21 de abril, no entanto, uma repórter do Jornal Nacional, cujo nome não registrei, começou o texto da cobertura do show de Andréa Bocelli em São Paulo com a seguinte frase: “Deficiente visual, Andréa Bocelli não viu as 25 mil pessoas que...”
Na edição de 25 de abril, o repórter Pedro Bassan, direto de Portugal, abriu assim a matéria sobre os 35 anos da Revolução dos Cravos: “35 de abril. Uma data...”
A MÚSICA NA HISTÓRIA
Veja o depoimento de Chico Buarque a respeito das duas versões da canção Tanto Mar, criada em homenagem à Revolução dos Cravos.
Veja o depoimento de Chico Buarque a respeito das duas versões da canção Tanto Mar, criada em homenagem à Revolução dos Cravos.
MÍDIA

A coluna de Augusto Nunes na Veja.com está no ar desde a semana passada, com atualizações diárias.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
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A coluna de Augusto Nunes na Veja.com está no ar desde a semana passada, com atualizações diárias.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
B O M F E R I A D O
Fiquem com a mensagem de Always Look on the Bright Side of Life, do filme A Vida de Brian (1979), do Monty Python.
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Fiquem com a mensagem de Always Look on the Bright Side of Life, do filme A Vida de Brian (1979), do Monty Python.
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M Í D I A
Nas trincheiras da notícia
O GP da Malásia de Fórmula-1 é um teste de audiência no Brasil: só assiste quem gosta muito de ver carrinhos andando velozes por quase duas horas, afinal, 6h da manhã é tarde demais para uns, cedo demais para outros. Na dúvida, emendei. A corrida começou num ritmo capaz de espantar o sono, e a chuvarada que caiu em seguida parecia prometer grandes emoções. Que nada, a prova acabou com os carros parados, depois de uma espera de 50 minutos até ela ser encerrada por falta de condições da pista, por falta de luminosidade e por falta de bom senso dos dirigentes que – para torná-la mais agradável aos europeus – a colocaram num horário de chuvas notórias e anoitecer iminente.
Tão logo os carros foram alinhados no grid à espera da nova largada que não viria, enquanto os pilotos eram cobertos com guarda-chuvas, suas sapatilhas com galochas e os carros protegidos por lonas, Galvão Bueno pediu ao repórter Carlos Gil para que contasse o que acontecia na pista e nos boxes, o que pensavam os brasileiros, enfim, algo que não se estivesse vendo pela TV. Gil informou então que ele, a exemplo da maioria dos jornalistas, havia se abrigado numa área VIP de um dos patrocinadores do GP tão logo irrompera o aguaceiro. Galvão emendou: “Gil, sugiro que você vá até lá e nos conte o que está acontecendo”. O sugiro, antes de gentileza, foi por certo um merecido deboche. O friorento repórter não se constrangeu: “Pô, mui amigo, hein?”. Ou seja: o sujeito é pago para cobrir um dos mais importantes eventos esportivos do mundo para a maior rede de TV do País, que o manda até a Malásia e, quando uma enxurrada interrompe a prova sua primeira atitude é se abrigar, ficando bem longe da chuva. E da notícia.
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Nas trincheiras da notícia
O GP da Malásia de Fórmula-1 é um teste de audiência no Brasil: só assiste quem gosta muito de ver carrinhos andando velozes por quase duas horas, afinal, 6h da manhã é tarde demais para uns, cedo demais para outros. Na dúvida, emendei. A corrida começou num ritmo capaz de espantar o sono, e a chuvarada que caiu em seguida parecia prometer grandes emoções. Que nada, a prova acabou com os carros parados, depois de uma espera de 50 minutos até ela ser encerrada por falta de condições da pista, por falta de luminosidade e por falta de bom senso dos dirigentes que – para torná-la mais agradável aos europeus – a colocaram num horário de chuvas notórias e anoitecer iminente.
Tão logo os carros foram alinhados no grid à espera da nova largada que não viria, enquanto os pilotos eram cobertos com guarda-chuvas, suas sapatilhas com galochas e os carros protegidos por lonas, Galvão Bueno pediu ao repórter Carlos Gil para que contasse o que acontecia na pista e nos boxes, o que pensavam os brasileiros, enfim, algo que não se estivesse vendo pela TV. Gil informou então que ele, a exemplo da maioria dos jornalistas, havia se abrigado numa área VIP de um dos patrocinadores do GP tão logo irrompera o aguaceiro. Galvão emendou: “Gil, sugiro que você vá até lá e nos conte o que está acontecendo”. O sugiro, antes de gentileza, foi por certo um merecido deboche. O friorento repórter não se constrangeu: “Pô, mui amigo, hein?”. Ou seja: o sujeito é pago para cobrir um dos mais importantes eventos esportivos do mundo para a maior rede de TV do País, que o manda até a Malásia e, quando uma enxurrada interrompe a prova sua primeira atitude é se abrigar, ficando bem longe da chuva. E da notícia.
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