terça-feira, 5 de agosto de 2008

JORNALISMO

Stop the machines: inventaram o “assalto-surpresa”

Chamada de capa do Correio do Povo, de Porto Alegre, nesta terça-feira:

ASSALTO-SURPRESA
Encapuzados levam malotes


Estou até agora tentando entender. Vai ver é cafeína demais. Assalto-surpresa? E não são todos assim? De modo geral os assaltantes avisam quando e onde vão atacar? Como seria esta nova modalidade? Os bandidos olham para a vítima, abrem um sorriso e os braços e gritam: Surpresa!?

Anos atrás eu lia o Correio depois de longo tempo afastado de suas páginas – até por razões geográficas – quando me deparei com tantos textos confusos que acabei desistindo. Vejam o que encontrei:

Título do Correio do Povo, na edição dominical (29/9/2003): “Schumacher corre pelo hepta.”
O texto esclarecia: “O alemão Michael Schumacher poderá conquistar neste domingo, em Indianápolis, o inédito título de pentacampeão...”
Schumacher, na verdade, corre pelo hexa.

Duas páginas antes, matéria sobre a Bienal do Mercosul começava com esta frase:
“A maior exposição de artes visuais do Sul do Brasil tem data para começar: 4 de outubro”.
Ainda bem, uma exposição sem data para começar receberia poucos visitantes, isso se começasse.

No texto de apoio ficava-se sabendo que “O curador-geral da 4ª Bienal do mercosul, Nelson Aguilar, é o grande maestro da megaexposição.”
Esclarecedor saber que o curador-geral é quem coordena.
E que é o grande da mega. Pelo menos é superlativo.

Ainda mais duas páginas de trás para frente, sob o título “Grupo combate trabalho escravo” se encontrava a informação de que “Prevenir e repreender o trabalho escravo no Brasil será a função do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado”.
Incomum, portanto, necessário esclarecer.
Sem falar na repetição em relação ao título.
E reprimir era mais adequado do que repreender, mas o editor é contra repetições.

Eu não procurava erros, apenas folheava o jornal. Achei melhor parar.

Resgato o texto pela curiosidade, pois tais deslizes, infelizmente ocorrem em qualquer jornal. Às vezes a confusão mental dos redatores rende boas risadas, embora seja um perigoso sintoma de imperícia das redações. A seguir, algumas mancadas clássicas de jornais do sul do País que integram o livro Jornal da Imprença – A Notícia Levada Açério, do ótimo Moacir Japiassu, o maior colecionador de gafes da imprensa no Brasil.

Luzes da Ciência
Da Zero Hora, de Porto Alegre, em “pirulito” semiclandestino num canto de página: Assassinado pelo rival em Canoas. Abaixo, o textinho esclarecia: “(...) Ele se encontra internado no Hospital Nossa Senhora das Graças, em estado grave”. Segundo Janistraquis, este é um raríssimo caso de assassinado em estado grave, à espera das luzes da ciência (novembro de 1992).

Texto enrolado
Nosso mais novo correspondente gaúcho, Marcelo Soares da Silva, de Porto Alegre, envia nota do Correio do Povo, pela qual é possível avaliar a escolaridade dos cartolas do futebol, empresários e (por que não dizer logo??) jornalistas. Ei-la: Gomes, caso complicado é o título; texto-charada: “O Cruzeiro quer Luís Fernando Gomes, diz que está tudo certo com o Internacional, mas que o empresário português Manuel Barbosa está complicando tudo. O Inter afirma que vende o jogador por 600 mil dólares, dos quais 400 mil ficam com o clube e 200 mil com o empresário. Manuel Barbosa, por sua vez, garante que é o contrário: ele fica com 200 mil e o Inter, com 400. Um caso muito complicado”.
Leiam, releiam e concluam: textinho enrolado esse do Correio, não? (junho de 1995)

Poste vs. Aids
Título, digamos, priápico, do jornal gaúcho Zero Hora: Camisinhas em postes previnem contra a Aids. Perplexo, o leito Paulo Hebmuller escreveu a esta coluna: “Sempre pensei que a camisinha tinha que ser colocada em outro lugar”. Num país tão despreparado, Paulo, é sempre difícil saber o que fazer com uma camisinha. Um jornalista amigo de Janistraquis, por exemplo, engoliu duas. (março de 1994)

Confundindo
Legenda de foto do Diário Catarinense: Casanova retrata a vida do maior amante do século 18. Acima, ao redor do piano de Dooley Wilson, encontravam-se Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Quer dizer: o redator, que não se pode chamar de cinéfilo, confundiu Casanova com Casablanca. Janistraquis comentou: “Isso, considerado, apesar do piano de cauda e do jaquetão do Bogart, que, sem a menor dúvida, inexistiam no tempo do Casanova...” A jóia pertence à coleção do leitor Arden Zylbersztajn. (março de 1995)


Este texto inclui trechos de artigos publicados originalmente no site coletiva.net

6 comentários:

luciana disse...

Saudades de redação, Eliziário? Eu não...
beijos,
Luciana Pinsky

Blog da Ana disse...

Tipo de post bom, esse, Eli! Divertido, original e esclarecedor. Adoro esses olhares sobre a imprensa. Na web a gente também encontra cada uma...

Buenas, mas sabes que prefiro "repreender"? É que prevenIR e reprimIR dá rima e fica meio piegas... sei lá...

beijo grande!

Laura Junkes disse...

só faltou a clássica "Florianópolis amanheceu ilhada"
kkkkkkkkkkkkkk
Beijos

Felipe Lenhart disse...

Considerado, divertido post.
Um abraço

Blodeuwedd disse...

Pra isso servem os revisores, não? Herrar é umano, mas... O importante é que celíacos não comem glúten.

Chuchi disse...

Oi, Eli!
As rádios também são divertidas! Adoro a narração de um repórter da CBN, descrevendo o incêndio no Mercado Público: "A fumaça está ensurdecedora!"
E dia desses, alguém lá na rádio mandou "um abraço pro pessoal do Cemitério do Itacorubi, que está sempre por lá..."
beijo