quarta-feira, 13 de agosto de 2008

JORNALISMO

O português da última página

Lá pelo final dos anos 70, início dos 80, uma revista hoje extinta brilhava sozinha no mercado brasileiro das masculinas da era pré-Playboy. O diretor de redação era Wagner Carelli. A última página da publicação costumava ser ocupada por textos de colaboradores variados. Um dia, Wagner, que ainda não completara 30 anos de idade, mas já revelara seu imenso talento, cruzou nos corredores da editora com o chefe, mais experiente, famoso, e seu amigo de longa data. “Quem diabos é aquele português que você colocou na última página?” ­­­­– perguntou o amigo. Tratava-se de um completo desconhecido. Aparentemente, não fazia sentido dedicar espaço tão nobre a alguém sem projeção. Carelli não vacilou: “Ele escreve bem pra caramba”, respondeu, mas não foi levado muito a sério.

Alguns meses depois, o tal português voltou a freqüentar as páginas e o diretor de redação foi novamente questionado pelo colega. “Por que você insiste com este português do qual ninguém nunca ouviu falar?” Carelli limitou-se a repetir: “Ele escreve bem pra caramba.” Com pequenas variações, a cena se repetiu várias vezes nos meses seguintes. Tornara-se um ritual. Saía um texto do português, Carelli era interpelado pelo amigo, respondia do mesmo jeito. Aos poucos, acrescentou mais ousadia às suas palavras: “Ele escreve bem pra caramba. Na verdade, é um dos autores que melhor escreve em língua portuguesa hoje em dia.” O colega balançava a cabeça em sinal de desaprovação. Às vezes retrucava: “Não vejo nada de mais no texto deste cara.”

O tema tornou-se tedioso, mas agora era um jogo do qual nenhum dos dois conseguia sair. A cada investida, aumentavam os adjetivos de ambos os lados. “O que você viu neste porra de português?” “Ele escreve bem pra caramba, e vou te dizer mais, ele ainda vai ganhar o Nobel”. O limite havia sido ultrapassado. A engolir o português o colega já se acostumara, mas ouvir tal disparate já era demais. O resultado foi uma grande gargalhada. Daí em diante, a história do Nobel tornou-se a chave do amistoso bate-boca.

Uma das últimas vezes em tocaram no assunto foi quando o português esteve no Brasil e visitou a editora. Ele estava muito grato pela confiança nele depositada. Já havia publicado dois livros em seu país, que podiam ser adquiridos no Brasil, mas em edições caras e limitadas: Levantando do Chão e Memorial do Convento. Preparava o lançamento de Jangada de Pedra. Ainda não podia se dar ao luxo de viver só dos livros, precisava dos frees para sobreviver. Chamava-se José Saramago, nome que, para a maioria, era apenas o do português da última página.

Como sabemos, o tal português virou best-seller, escreveu obras-primas e ganhou o Nobel. Essa história é pouco conhecida. Por timidez ou alguma outra razão, Carelli a manteve restrita aos amigos e jamais publicou qualquer linha a respeito. Mas ilustra bem o quanto é importante em atividades tão subjetivas quanto o jornalismo ou a literatura ser dotado de uma espécie de radar para talentos e potencialidades. Este faro, por certo, vale muito mais do que simplesmente examinar a ficha repassada pelo RH e concluir que a fluência em idioma estrangeiro ou um certificado de MBA implicam necessariamente uma grande capacidade prática de exercer seu ofício.

Ainda bem que no jornalismo tais requisitos ainda são menos valorizados do que em outras profissões. Até porque corremos o risco de formar gerações que transitam com desenvoltura pelo mundo virtual, mas não revelam o mesmo desembaraço na vida real. Que sabem tudo da língua inglesa, mas não dominam o idioma pátrio. Basta ler os textos de algumas publicações. Editores têm de ficar atentos. Ocasionalmente, surge um português na última página.


Publicado originalmente no site coletiva.net

Um comentário:

Laura Junkes disse...

Gostei muito de saber sobre o português da última página!
Bjk