sexta-feira, 15 de agosto de 2008

FUNDO DO BAÚ

No início dos anos 90, o jornal Zero Hora publicava em sua revista dominical três seções com textos bem humorados: “Um Lugar”, “Espécies em Extinção” e “História Universal da Infâmia”. Escrevi vários deles, entre os quais o “Um Lugar” que reproduzo a seguir.


A Casa da Mãe Joana

A Casa da Mãe Joana – que me perdoem os filhos de Joanas – é uma zona. A qualquer hora do dia ou da noite registra um constante e insondável trânsito de indivíduos, a maioria dos quais nem a dona da Casa, a Joana em pessoa, seria capaz de identificar. Como uma genuína área conflagrada, exibe muito barulho, sujeira e um toque de surrealismo. Nela, misturam-se espécimes das mais exóticas tribos. Trata-se de um dos poucos lugares do mundo em que é impossível se sentir solitário.

Encontrar um objeto perdido na Casa, nem pensar. Ele tanto poderá estar dentro da tuba do tio-avô Eraldo (filho, dizem, da primeira Joana de que se tem notícia) quanto no baú de mágico daquele sujeito que afirma pertencer à família, tem o melhor quarto da Casa e ocupa a cabeceira às refeições, mas que ninguém sabe de onde veio. As refeições, por sinal, provocam cenas dantescas. Melhor esquecê-las. Não seria elegante falarmos aqui de temas como canibalismo.

A Casa da Mãe Joana é um terreno no qual confraternizam pervertidos, corruptos, vigaristas, aproveitadores em geral e mesmo algumas estirpes politicamente corretas. A Mãe Joana tudo permite, nada vê. Seus domínios há muito se expandiram. Tomaram conta do bairro, da cidade, da região e, finalmente, do País. Um dia a gandaia se generalizou. O Brasil transformou-se numa imensa Casa, e lá estava Mãe Joana, pronta para tomar conta do pedaço.

Ao longo dos anos, ocasionalmente apareceu alguém disposto a botar ordem na Casa. Perda de tempo. Em seguida, como toda mãe que se preza, ela desautorizava qualquer repreensão e passava a mão na cabeça dos filhos errantes. A Mãe Joana sobreviveu a vários golpes, a muitos dígitos de inflação, a uma roubalheira desmedida, sempre com a mesma fleuma. Há quem diga que, não fosse a Mãe Joana, o País entraria nos eixos. Mas Mãe Joana é imperecível.

A Casa da Mãe Joana é como sabonete de quartel: todos põem a mão. Tentar entender o mecanismo que move o cotidiano da Casa da Mãe Joana converte-se em esforço inútil. Quando algo se revela previsível, lógico, Joana se encarrega de desfazer o mal-entendido. “Tá pensando que isso aqui é o quê? A Casa da Sogra?” – esbraveja. Ela não admite comparações. A Casa da Sogra é noutro lugar, a despeito de eventuais semelhanças. Algumas sogras se chamam Joana, é verdade, e tentam imitar a original, mas nenhuma tem o seu talento para o inverossímil e para a contemplação do absurdo. A Sogra também é pródiga em abrigar confusão, mas ainda é possível entender o funcionamento de sua Casa e identificar os protagonistas.

Consta do imaginário do Rio (aquela parte do Rio que ainda se dá ao luxo de ter imaginário) uma Casa da Mãe Joana real, refúgio de boêmios, deserdados e sonhadores. Consta ainda que um dia a Casa migrou para Brasília, onde Joana acabou por se sentir incomodada com a vizinhança. Mas, claro, o imaginário é por vezes apenas um punhado de lendas com arrogância de realidade.

Nos últimos anos pouco se tem ouvido falar na Mãe Joana. Dizem que se desiludiu com a vulgarização de suas teses, especialmente no Planalto. “Hoje todos se acham no direito de esculhambar a Casa”. Isso a derrotou. A Mãe Joana foi vista pela última vez num boteco da Avenida Atlântica, em Copacabana. Vestia-se como vedete de teatro de revista em versão punk, bebia sem parar e gritava com orgulho: “Eu fui a primeira!”. Os habitués do local não pareciam compreendê-la.


Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 2 de janeiro de 1994.

Um comentário:

Laura Junkes disse...

Bravo! E sempre com a melhor trilha sonora...
Obrigada
;)