sexta-feira, 11 de julho de 2008

O eterno retorno

O fim de tarde aproxima-se a passos acelerados. Os dias são curtos nesta época do ano. Moro num país tropical, mas em sua porção mais meridional, o que significa menos sol ao longo do ano inteiro, embora com anoiteceres mais tardios. Ainda assim, o dia é curto neste inverno que recém se iniciou. Acelero meus passos. Caminhei por quase meia hora para chegar até aqui e ainda quero correr meia-dúzia de voltas na praça antes de retornar. A cada passada, a cada golfada de ar expelido contra a temperatura baixa, avanço não apenas em direção aos próximos quatrocentos metros. Avanço em direção ao passado.

A praça redescoberta fica em frente à escola na qual cursei da quinta à oitava série. A igreja de tantos momentos importantes também está ali. Os ônibus que muito utilizei, e que partiam de um local que então parecia distante, fazem agora ali seu fim de linha. Os referenciais são fortes, mas a praça parece bem diferente.

Apresso o passo. Nos últimos meses emagreci dezessete quilos, havia prometido emagrecer vinte, mas agora quero vinte e cinco. Dos noventa e cinco aos setenta. Quilos? Anos? Tanto faz. Faltam oito, portanto, que terei de queimar até setembro, para entrar no mês da Primavera, a Primavera de crespas chuvas, odores incomparáveis, cores e texturas indizíveis e aquele brilho arrebatador da vida, com a certeza do dever cumprido, ao menos no que me é possível cumprir apenas com a força de vontade.

As divagações cessam quando avisto um cão enorme com aparência de leão, mas serenidade de cordeiro, a descansar à sombra de uma grande árvore à frente do armazém inverossímil, fruto de uma página passada, insistentemente ainda ali, de portas abertas, a servir aguardente, quem sabe pastéis e paçocas a minguados clientes errantes de final de tarde.

O fôlego começa a escassear, mas o percurso ainda será longo. Retomo o ritmo ao observar o jogo de bocha no centro da praça, destinado a homens aos quais o prazer hoje se resume ao encontro com os velhos camaradas para competições sem perdedores, apostas nunca pagas e a esperança de ainda estar ali no dia seguinte.

Da fileira de ônibus estacionados não espero qualquer cena significativa, mas eis que ela surge na forma de uma rede pendurada entre os bancos, amarrada nos altos corrimões que servem de apoio aos passageiros na hora do rush, e onde agora um motorista dorme de boca aberta à espera do chamado para assumir a pole position da estação.

A praça antes parecia ameaçadora em certos horários, com seu matagal descuidado, seus recantos escuros, e acolhedora em outros, em seu lúdico abandono. Hoje já não parece assustadora, mas está tão bem cuidada que perdeu a poesia. Tanto quanto começo a perder as energias. Uma hora de caminhada e corrida, e ainda tenho de voltar. Melhor esquecer as recordações e poupar o fôlego para a caminhada de retorno. Esqueço que todo retorno possível está apenas nas lembranças.

Um comentário:

Laura Junkes disse...

Ler estas letras gostosas ouvindo a voz de veludo da Ella realmente foi a delícia de sexta...
Bom fim de semana, darling!
Bjks
Lets