terça-feira, 1 de julho de 2008

JORNALISMO

Ensaio sobre a leitura

A história da leitura registra que os novos meios sempre causaram pânico nos resistentes a mudanças tanto quanto sentimentos alvissareiros nos arautos da modernidade. Invariavelmente, ambos tiveram de recuar até o meio-de-campo e recomeçar do zero a zero. Avanços como a internet, o computador, a máquina de escrever, os sistemas de impressão ou da troca dos rolos de pergaminho pelas folhas de papel, são meros instrumentos, subordinados, portanto, às decisões humanas sobre suas aplicações. Mais amplamente, dependem de mecanismos capazes de promover a inclusão em massa, sem a qual o abismo entre consumidores e excluídos é ampliado.

Trata-se, “apenas” e desde sempre, de uma questão de distribuição justa de riquezas. Que nem seja o ideal, mas o mínimo necessário para que a humanidade usufrua como um todo dos avanços obtidos nos milhares de anos de presença do homem sobre a Terra. Uma história feita de lutas, conquistas e derrotas, mas, sobretudo, de exclusão. O impacto dos novos modos de leitura, amplificado pela rede mundial de computadores, chama a atenção pela alta tecnologia, mas é assim desde Gutenberg, sendo que mesmo ele, embora justamente convertido em ícone da massificação da leitura graças à invenção da imprensa, ou do meio físico que a permitiu vicejar, não tenha alcançado com sua criação o paraíso da leitura em massa que possa ter vislumbrado num primeiro momento.

Conforme lembra o pesquisador e escritor inglês Martyn Lyons em A Palavra Impressa – Histórias da leitura no século XIX, “a imprensa não foi necessariamente revolucionária para o campesinato europeu, exceto no sentido de que a palavra impressa oferecia novos modos de dominação dos governos, aristocratas, religiosos, advogados e coletores de impostos que oprimiam os camponeses”. Uma das trágicas ironias do desenvolvimento dos povos é o distanciamento cada vez maior entre os que possuem e os que não possuem, reforçado a cada degrau tecnológico que se escala.

O poder da palavra, em especial a escrita, sempre foi utilizado como elemento coercitivo pelos poderosos – e de libertação pelos raros oprimidos que logravam atingir a inclusão –, num desigual jogo de palavras, como no diálogo de Alice no País das Maravilhas:
– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem tantas coisas diferentes.
– A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.

A diferença entre o analfabeto e o alfabetizado era menos escandalosa quando só tínhamos papiros. A abundância de oferta de leitura existente hoje escancara de forma avassaladora o abismo entre incluídos e excluídos como jamais ocorrera na história. Embora a frase “como jamais ocorrera na história” possa parecer óbvia, uma vez que a ordem natural da vida indica contínuo crescimento e aperfeiçoamento, ela é pertinente neste caso porque todos os avanços técnicos anteriores da escrita, por mais importantes que fossem, limitavam-se ao ato de escrever e de ler, caso dos livros em folhas de papel, a tipografia, a máquina de escrever e etc.

Muito mais do que substituir totalmente o livro em papel, passo improvável desta evolução, ao menos por um ainda longo período, o computador e seu mais revolucionário aplicativo, a internet, substituíram a ida ao banco, ao correio ou mesmo a lojas e supermercados, e os usuários muitas vezes executam tais tarefas em paralelo à leitura, em sites, das notícias do dia, de estudos acadêmicos e textos dos mais variados estilos, fins e dimensões. O analfabeto, ou o analfabeto funcional, não apenas deixa de ler determinadas obras por falta de acesso a livros, de todo modo já um prejuízo imenso, como fica de fora do clube cujos sócios usufruem de uma série de facilitadores do cotidiano moderno, decisivos em sociedades violentas, de trânsito pesado e de alucinada correria atrás do sustento, aos quais sobra, até, mais tempo para a leitura. Ter um computador conectado à internet é sonho impossível para milhões de pessoas que não sabem de onde sairá o próximo prato de comida. Mesmo na hipótese de conseguir se alfabetizar, como ter acesso aos meios mais modernos?

Ainda que ignoremos o computador como elemento de leitura no sentido mais amplo, atitude no mínimo imprudente, mesmo assim os novos alfabetizados não teriam como pagar pelos livros, ou estariam longe demais das bibliotecas, problema que se agrava em vez de se amenizar. Tal quadro tende a piorar em escala exponencial até que se reduzam as desigualdades de maneira significativa. As grandes bibliotecas em séculos passados eram, sintomaticamente, fechadas ao público. A Ambrosiana, de Milão, surpreendia os visitantes por permitir acesso aos livros, conforme relata Peter Burke em Variedades de História Cultural:

“É claro que nossos visitantes não esperavam que uma biblioteca tão importante fosse realmente acessível. Em Oxford, estrangeiros não podiam tomar notas sobre livros na Biblioteca Bodleiana, a não ser que fossem supervisionados por um bacharel da universidade. Em Londres, a famosa Sala de Leitura do Museu Britânico, completa com escrivaninhas e canetas, só foi aberta ao público em meados do século XIX. Pelo menos dessa vez, o mundo de cabeça para baixo revelou ter suas vantagens (ironia do autor a respeito da notória informalidade italiana).”

Os incluídos, primeiro na sociedade de consumo pura e simplesmente, depois na sociedade de consumo cultural, estágio mais avançado de uma civilização e um de seus mais potentes legitimadores, por certo nem sempre aproveitam as vantagens da inclusão, enviando e recebendo e-mails permeados de siglas, códigos e abreviaturas, matando a velha e boa carta que, ao contrário, deveria ter sido revigorada pelas facilidades da internet. São os auto-excluídos da linguagem elegante, do português, não castiço, mas o básico mesmo. Poucos estão dispostos, por preguiça ou incompetência, a percorrer labirintos de frases, parágrafos, concordâncias, crases, próclises e ênclises. É mais fácil invocar a modernidade.

Para quem já não lia muito, apesar do livre acesso, em especial econômico, ao livro, o e-mail padrão pode ter efeitos devastadores. Há quem diga que estamos diante de uma nova e interessante forma de linguagem. Creio que podemos abrir mão desta modernidade. Tecnologia de ponta é uma coisa, linguagem não-culta é outra, e sequer serve o pretexto de que é a linguagem do povo. Povo mesmo está fora dessa, infelizmente. Ao menos por um bom tempo.


Publicado originalmente no site coletiva.net

2 comentários:

Felipe Lenhart disse...

Salve, Eliziário!

Tem uma passagem de O corcunda de Notre-Dame, ambientado no século XV, em que o Claudio Frollo aponta para um livro sobre sua mesa, depois para a própria igreja de Notre-Dame, e diz, indignado: "Isto matará aquilo". A sentença, claro, tem duplo sentido. O resultado do processo de escrever, publicar e disseminar o escrito com uma máquina de tecnologia absurdamente simples seria muito mais poderoso e imperecível do que o de construir uma pirâmide, uma catedral ou um templo com a melhor, mais refinada e tecnologicamente avançada técnica de engenharia - mesmo que bela e sofisticada, a construção seria vulnerável a invasões, bombardeios e depredações, fadada, quem sabe, a desaparecer; o livro teria a vocação para a eternidade. Já a divulgação das idéias faria ruir a muralha intransponível que a igreja ergeu diante do conhecimento humano, de que era portadora.

"Santo" Victor Hugo. :)

De qualquer forma, pior mesmo é saber ler e não ler. E como tem por aí. Como tem... É lamentável, e temível.

Belo artigo. parabéns. E um abraço

Laura Junkes disse...

Hello, darling

Há um estudo de um professor da UnB (Luiz Carlos de Assis Iasbeck) que demonstra como os chamados "códigos da modernidade", dos quais fazem parte os simbolismos e emotions da internet, interferem na formação de uma nova linguagem. O estudo é baseado na semiótica porque o professor é doutor na área. Porém, apesar da teoria massante, é muito interessante e corrobora parte do que você escreveu de forma mais uma vez brilhante...
Ui, rimou!

Bjks