terça-feira, 24 de junho de 2008

JORNALISMO

Mainás e aves de rapina

Ressabiadas por freqüentes atentados à liberdade de imprensa cometidos sob a forma de ações judiciais, há muito as empresas jornalísticas submetem os textos de matérias polêmicas a seus advogados. Um dia os jornalistas serão comandados não por um diretor de redação, mas por um diretor jurídico.

O procedimento vale não apenas para matérias políticas, mas também para as que abordam denúncias contra empresários espertalhões ou contraventores de ocasião. O público não fica sabendo, e deveria. Assim como os veículos são hoje tão zelosos em corrigir os erros na edição seguinte, deveriam também fazer constar no início da reportagem explicações como “este texto foi lido antes por nossos advogados, que não viram problemas em sua publicação” ou “parte do texto foi suprimida por orientação do departamento jurídico”.

Como o leitor não fica sabendo, desconhece os eventuais prejuízos, mas os editores pensarão duas vezes antes de fechar uma página ou colocar uma reportagem no ar depois de terem sido forçados a refazer o trabalho, contrariando a realidade e suas convicções, porque poderia custar caro na justiça. Os repórteres, depois de passar semanas apurando uma matéria especial, acabam vendo cortada a parte mais conclusiva. A autocensura instala-se com facilidade, para deleite de quem tem interesse em manter subterrâneas determinadas informações.

Todo jornalista, é claro, tem o dever de realizar uma apuração precisa, consistente e isenta, tanto quanto de lutar contra o denuncismo, praga capaz de destruir reputações e carreiras à base de hipóteses, e não de fatos comprovados. É igualmente óbvio que as empresas de comunicação têm de se acautelar contra ações judiciais capazes de impingir a seus cofres considerável sangria, principalmente quando os detalhes omitidos não forem assim tão relevantes para o resultado final da reportagem. O problema é estabelecer esse limite.

Alguns veículos, na dúvida, submetem ao jurídico todo o material a ser publicado. Para piorar a situação, nem sempre o potencial explosivo de determinada reportagem é analisada por experientes homens do direito. Muitas vezes, longa e esmerada apuração acaba caindo nas mãos de um estudante em cumprimento de estágio.

A influência do jurídico também pode levar a certos disparates. Anos atrás, o diretor de uma grande redação espantou-se ao ler o relatório sobre a edição prestes a ir às bancas. Uma notícia que seria publicada em forma de nota dava conta de que, numa província da China, um mainá havia sido arrolado como testemunha em um processo de divórcio. Ao retornar de uma viagem, a mulher descobrira que o marido a traía quando o pássaro, capaz de repetir palavras como um papagaio, começara a dizer “eu te amo”, “tenha paciência” ou “divórcio”.

Confrontado com a informação irrelevante, mas sem dúvida curiosa e engraçada, o jurídico, determinado a orientar os jornalistas na busca da precisão, observou o seguinte: “Aqui, precisaríamos pesquisar para saber se a presença de um pássaro como testemunha seria fato aceito em tribunais, de acordo com as leis de nosso país...” e por aí afora. Virou piada, mas no fundo deveria ser levado a sério, embora não no sentido que o jurídico queria. Até porque o excesso de zelo, além de preservar mainás, muitas vezes acaba beneficiando aves de rapina.


Publicado originalmente no site coletiva.net

Um comentário:

Italia disse...

Olha, eu nao duvido nada que passaros possam servir de testemunhas, afinal, nada longe daqui, até mulher surda-muda ja servira de testemunha (caso Doudt) hehehehe ;)
Sem qualquer alusao critica à mais antiga das profissoes,nao é a toa que os mestres dizem que a prova testemunhal é a prostituta das provas...
Ai ai, desculpem meus devaneios...
Beijos, Darlise