quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre mordidas e outros atos no futebol


Uma mordida, quando dada por um humano adulto é, sem dúvida, um ato irracional, merecedor de punição, não há discussão quanto a isso. As reações a tal ato, contudo, também estão sendo um tanto irracionais. Se você estiver andando na rua, passeando num shopping, participando de alguma atividade social e, de repente, levar uma mordida, ok, é caso de chamar não só a polícia, mas o hospício, quem sabe a carrocinha. No entanto, seria igualmente grave e estranho se, em vez disso, você levasse um pontapé na canela, uma cusparada no olho, uma cotovelada no nariz, um soco no estômago, um safanão nas costas, uma “tesoura” nas pernas, e tudo isso é comum no futebol. E, por vezes, com uma violência capaz de tirar o adversário da disputa, impedi-lo de exercer seu ofício por meses devido a uma lesão grave ou, em situações mais extremas, incapacitá-lo para sempre.

Sim, pode até ser novidade para quem não assiste a futebol durante quatro anos e vira torcedor apaixonado e especialista em época de Copa, mas tudo isso é corriqueiro no futebol. Deveria ser? Não, não deveria, mas é, inclusive na Copa. Mesmo quem mal sabe o formato da bola tem o direito de comentar a Copa, mas poderia ir mais devagar em suas conclusões e emitir opiniões um pouco menos contundentes sobre tudo que cerca aquilo que afinal de contas, surpresa!, é um torneio de futebol!

Aplicar a Suárez pena sumária de nove partidas de suspensão, eliminá-lo desta Copa, provavelmente da próxima Copa América e o afastar do futebol por quatro meses, não é uma “medida exemplar” como comemoram de forma efusiva os que, encerrada a Copa, esquecerão que o futebol existe. Trata-se de um exagero, de um abuso da FIFA. Ansiosa por agradar ao público, já revoltado com seus desmandos, lucros exorbitantes e suspeitas de corrupção por todo lado - e, ainda por cima, insuflado por imagens manipuladas para tornar o fato mais chocante, de brincadeira ou não -, a entidade fez de Luisito o bode expiatório. Em linguagem de futebol, a FIFA jogou para a torcida.

Quem é mesmo do ramo sabe que estão – a FIFA e os torcedores bissextos – fazendo estardalhaço demais em torno de algo que sim, é incomum, condenável, doentio, patético e etc, mas que está longe de ser excepcional no futebol. Quebrar o nariz do adversário com uma cotovelada é menos grave? Entrar com tudo na canela alheia sabendo que pode quebrá-la e tirar do colega de profissão seu instrumento de trabalho é menos grave? Cusparada na cara é menos grave? Soco, a mais explícita das agressões, é menos grave? Pontapé no peito é menos grave? (na foto, o holandês Nigel de Jong agride o espanhol Xabi Alonso, que precisou de atendimento médico, na Copa de 2010). Tratamento psicológico para todos?

Talvez, além do papel dos especialistas ocasionais e do abuso de poder que sempre caracterizou a FIFA, que agora precisava fazer jogo de cena, a explicação para tamanha indignação seja de cunho psicológico. De fato, chutar, socar, empurrar, cuspir, tudo isso é mais aceito socialmente do que morder, pois morder remete o homem a seu estado mais primal. O medo irracional do humano de se sentir menos civilizado, mais próximo de seu “eu” primitivo, leva-o a reagir de forma desproporcional. As fantasias em torno do vampirismo talvez contribuam de alguma forma para mexer com os mecanismos da mente nestas horas. Psicólogos podem analisar isso com mais propriedade.

A maioria da população mundial alimenta-se de animais, portanto, não apenas morde carne, mas a mastiga e engole. Ah, mas não é humana! Sim, claro, é só um aspecto a mais a se considerar. Se bem que, às vezes, morde-se carne humana também, levemente, e por uma boa causa, mas aí o papo fica profundo demais. Seja como for, o barulho em torno do assunto é demasiado, as indignações são, na maioria, teatrais e, a punição, excessiva. Hipócritas se locupletam, socialites de arenas fazem um brinde e o Uruguai perde suas eventuais chances nesta Copa. Abuso padrão FIFA.

domingo, 22 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014


GRANDES NOMES
Truman Capote, a 
prima-dona genial

Primeiro, leiam o início de A Sangue Frio.

“A aldeia de Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa área isolada que os demais habitantes do estado chamam ‘lá para diante’. Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intenso e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste. A pronúncia local tem um sotaque da planície, um nasalado próprio dos rancheiros, e os homens, na sua maioria, vestem calças justas de fronteiriços, chapéus de feltro de aba larga, botas de tacão alto com biqueiras aguçadas. A terra é plana e os horizontes são incrivelmente vastos; os cavalos, as manadas de gado e o branco aglomerado dos silos a erguerem-se graciosamente no céu como outros tantos templos gregos se avistam muito antes de o viajante chegar perto deles.
            “Também a aldeia de Holcomb se divisa a grande distância. Não que ela tenha muito que ver. É constituída apenas por um simples e despretensioso agrupamento de edifícios, cortado ao meio pela linha do caminho-de-ferro de Santa Fé, uma terreola limitada ao sul pelo curso negro do rio Arkansas (que se diz como se escreve), a norte pela autoestrada n. 50, e a leste e a oeste por terras planas e campos de trigo. Depois das chuvas ou quando se derrete a neve, as suas ruas de terra batida, sem nome, sem árvores a ensombrá-las, mal pavimentadas, transformam-se em nojentos
canais de lama. (...)”
           
            O trecho inicial de A Sangue Frio, publicado em 1965, representa uma amostra emblemática do new journalism, ou jornalismo literário, do qual o autor, Truman Capote, é um dos maiores ícones. Embora não se trate da obra inaugural do gênero – apesar das controvérsias –, honraria atribuída a Hiroshima, de John Hersey, lançado em 1946, A Sangue Frio logrou obter um êxito mais amplo e permanente talvez porque, ao contrário da obra-prima de Hersey, tenha se centrado em poucos e contundentes personagens e versado sobre assassinato, tema mais presente no imaginário póstumo do que as sequelas das vítimas da bomba atômica.
            Um fazendeiro, sua esposa e os dois filhos adolescentes foram mortos em 15 de novembro de 1959 a tiros de espingarda, tendo sido antes amarrados e amordaçados. Depois de ler uma nota sobre o Caso Clutter no New York Times, Capote aportou em Holcomb, lugarejo de escassas 270 almas, um mês após o crime. Descreveu com saborosos – ou horrorosos – detalhes o caso, o lugar, os hábitos dos moradores, entrevistou familiares e amigos das vítimas, seguiu de perto cada passo da investigação policial. Meses depois, Richard Hickock e Perry Smith foram presos. Condenados à morte, seriam enforcados em 14 de abril de 1965.
            Capote acompanhou o processo até o fim, tendo feito longas entrevistas com os acusados na prisão e até mesmo assistido à execução. Envolveu-se de alma e corpo, literalmente, ao ter um caso com Perry Smith. Em 25 de setembro de 1965, a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos da história do escrita por Capote, com sucesso estrondoso que levou ao lançamento da obra em livro, em 1966. Quase quatro décadas depois, A Sangue Frio chegou ao cinema em 2005, com foco na elaboração do livro e Capote sendo magistralmente interpretado por Philip Seymour Hoffman. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
           

quinta-feira, 8 de maio de 2014

What?

Entro em uma cafeteria de shopping, pequena, mas aparentemente digna. Peço um Irish Coffee. A mocinha:
- Como, senhor?
- Um Irish Coffe.
- Não sei o que é...
- Mas tem ali no cardápio na parede. Aquele primeiro da segunda coluna, ó.

Chega outra mocinha.
- O que houve?
- Ele quer um negócio aí que eu não entendi.
- Pois não, senhor.
- Eu quero um Irish Coffe.


A segunda mocinha sabia do se tratava. Enquanto aguardava, eu podia vê-la preparando o dito. Preocupei-me quando percebi que o whisky era Natu Nobillis. Assustei-me de verdade ao vê-la consultando a receita em um caderno... Eu deveria ter pedido o dinheiro de volta e caído fora. Mas queria tanto tomar um café que resolvi encarar. Bem, consegui chegar até a metade, pelo menos.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sorria, você está sendo monitorado
Você é muito mais observado nas redes sociais do que imagina.

Somente paranoicos incorrigíveis ou ególatras incuráveis imaginam que o Zuckerberg, a CIA, o Obama ou os russos não têm mais o que fazer do que ficar espionando ilustres desconhecidos na internet. A espionagem, quando ocorre, tem como alvo altas esferas de poder, círculos financeiros poderosos ou organizações detentoras de segredos estratégicos. Quem vive emitindo alertas e se dizendo preocupado com isso deve se imaginar bem mais importante do que realmente é. Salvo casos excepcionais, em que alguém é vítima de um hacker, quase sempre a serviço de algum desafeto, ou, pior, de um afeto, ou tem sua senha invadida por falta de cuidado, somente os spams e os vírus devem preocupar.
Mas, se a espionagem não é uma ameaça iminente, fato é que neste exato momento você pode estar sendo monitorado nas redes sociais por vários de seus amigos virtuais.  Eles pertencem a variadas categorias, das mais ingênuas às verdadeiramente maldosas e de potencial perigo. Invariavelmente, os marcam como “melhores amigos” a fim de acompanhar todos os seus movimentos na rede. Os tipos mais comuns de “monitoradores” são:

O PRETENDENTE
Ele (ou ela, todos os exemplos valem para os dois gêneros) a (o) monitora para saber se você está com alguém ou se encontra disponível, se alguém está se insinuando, quais seus gostos pessoais, aonde vai, o que faz, com quem e, claro, para curtir e comentar tudo que você publica.

O ADMIRADOR
Ele não é necessariamente um pretendente, mas alguém que lhe admira, gosta de suas ideias, curte seus posts de forma genuína. Mas é bom ficar alerta. Excesso de admiração se transforma facilmente em outra coisa.

O DO CONTRA
Neste caso, ele o monitora para implicar com tudo. Sempre tem uma opinião
diferente da sua e tenta desqualificá-lo. Ele podia estar roubando, ele podia estar matando, mas está ali, implicando com você.

            O USURPADOR
            Trata-se de uma variante do admirador. Como o acha muito inteligente, ou culto, ou belo, ou popular, tenta sempre pegar carona em seus posts. É fácil reconhecê-lo: seus comentários geralmente são maiores do que o post original.

            O CHEFE
            Ele o monitora para ver se está divulgando as coisas que a empresa (ou o partido) o obriga a compartilhar, se você faz alguma crítica indevida ou deixa de fazer uma de interesse da casa, além, é claro de verificar se você não está perdendo tempo no FB em vez de trabalhar. Se você for freelancer, tanto faz, ele o monitorará da mesma forma. “Navegando no FB e me devendo trabalho!”, como se postar uma frase ou uma foto levasse o mesmo tempo que se gasta para escrever um extenso relatório ou produzir uma grande reportagem.

            O CÔNJUGE
            Sobre este não é necessário comentar. Seja qual for o nível do relacionamento, ele está alerta, creia.


            Agora volte lá para o FB e pense em quantos destes, neste exato momento, estão de olho em você.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Por gentileza, leia este post! Obrigado!

O mundo precisa de mais delicadeza. Você me daria a honra de ler um pequeno artigo de minha autoria sobre o assunto? Muito grato pela atenção.

Vivemos tempos insanos, violentos, rudes, talvez além do que nosso emocional possa suportar, ainda que a resiliência cresça junto com a crueza. O medo está nas ruas, e delas não podemos escapar, precisamos seguir vivendo. O perigo pode surgir no próximo cruzamento, no próximo sinal, nesta calçada ou lá na esquina. Chegamos ao ponto de suspirar: “bons tempos em que ladrões apenas roubavam”. Crimes de morte sempre existiram, mas o atual nível de banalização da vida é por demais assustador.

Ladrões roubavam, depois ladrões roubavam e matavam se a vítima reagisse, em seguida matavam se a pobre alma indefesa se mexesse mais bruscamente ou espirrasse, fazendo detonar o mecanismo interno de ódio e medo do agressor, manifestado pelo dedo no gatilho, a mão na faca. Agora o assassinato virou a primeira opção. Pela facilidade, pelo ressentimento, pelo prazer hediondo, pela impunidade.

Sobreviver tornou-se um desafio e tanto. E quem dera fosse só esse o perigo. Ele está também nas ruas, avenidas e estradas, onde pessoas aparentemente normais se convertem em potenciais psicopatas pelo efeito obscuro provocado por um volante e um acelerador. Onde motoristas não respeitam motociclistas que não respeitam ciclistas que não respeitam pedestres que não respeitam ninguém.

Nas filas de bancos e repartições públicas, nas briga por vagas de estacionamento, para entrar primeiro no elevador, os carrinhos largados a esmo nos corredores dos supermercados, em toda parte a ocupação do espaço tornou-se uma guerra, cada um a garantir seus poucos metros ou centímetros de cidadela, assim, por nada, só para se sentir por instantes pseudodono de um pseudoterritório, não importa o quanto prejudique o próximo, ou, talvez, importa sim, e quanto maior o prejuízo, maior o regozijo.

O momento de relaxar é cada vez mais raro. Estar cercado de amigos, em bares e restaurantes, não nos livra do risco de um arrastão, de uma bala perdida, de um tiro dado por dar. Mesmo em casa, a sensação de medo não desaparece. Os noticiários nos alertam, mas eles não têm culpa, refletem o que acontece nas ruas. E não adianta desligar a TV e vir para o computador. As redes sociais, por mais que selecionemos os amigos do modo mais criterioso, nunca estarão livres de invasores, amigos de amigos, miríades de potenciais agressores.

Mas, pior do isso, é ver os amigos, os tais selecionados tão criteriosamente, muitas vezes se comportando de um modo a não os reconhecermos. Pessoas boas, íntegras, generosas – ou que assim se supunha –, transformam-se diante da exposição fácil, como num Big Brother virtual, agredindo para ganhar espaço e curtidas destinadas a alimentar a frágil autoestima. Outros mantêm a boa postura, mas, diante de tudo que acontece no mundo real e agora também no virtual, revelam pouquíssima paciência.

Estamos ficando cada vez mais intolerantes. Estamos deixando que o cotidiano ameaçador nos torne mais e mais rudes. Vamos utilizar o “mais” de outros jeitos. O mundo precisa de mais gentileza. Precisa manifestar sem pudor e o tempo todo o imbatível trio “com licença, por favor, obrigado”. Precisamos abrir portas, oferecer flores, falar de natureza, animais e livros. Precisamos amar e respeitar mais as pessoas. Mas talvez, antes, precisemos de algo mais difícil: amar e respeitar mais a nós mesmos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Qual o seu clube?
Uma rede social não é como a casa da gente, e sim como um clube ao qual as pessoas vão para conhecer outras pessoas, revê-las ou conhecê-las melhor, contar as novidades, mostrar suas fotos, trocar receitas, falar de seus bichinhos de estimação, de dietas, de esportes, de religião, de política e de todo tipo de assunto. Também vão para fazer negócios, receber e dar oportunidades.

Como em qualquer clube "presencial", a educação e o respeito se fazem necessários ao bom convívio. Pode-se escolher mesas, rodinhas de conversas ou salas temáticas nas quais se reúnem pessoas com pontos de vista e interesses comuns.
Quem quiser falar em particular, a fim de não incomodar os demais com questões privadas ou expor sua intimidade, tem a chance de convidar discretamente alguém a acompanhá-lo a uma sala reservada ao lado do salão principal, ao bar, ao jardim ou às instalações íntimas no segundo andar, ou seja, ao chat.
A vantagem deste cube é que não precisamos conviver com alguém de quem não se gosta, ou com gente mal educada, grossa, desrespeitosa, tóxica. Tampouco precisamos circular entre pessoas que nunca nos dão atenção, que estão ali apenas para serem vistas e elogiadas, jamais criticadas, e que costumam ser a maioria em qualquer clube, virtual ou real.
Não precisamos conviver com tais pessoas porque este clube, embora coletivo por definição, é customizado. Só vemos quem queremos, só somos vistos por quem queremos.
Podemos encará-lo como salão de festas, palco de debates, ponto de encontro de voluntariado, sala de reuniões, vitrina, passarela, entre tantas outras funções. Trata-se de um espaço multiuso. Seja qual for o utilidade que se dê a ele, as regras básicas de convivência seguem valendo.
Em qualquer dos casos, é tudo bem simples: podemos convidar só quem queremos, expulsar os penetras, mandar embora os convidados que se revelem inconvenientes e depois voltarmos a flanar tranquilos pelos salões.
Não precisamos restringir os convites somente a quem poderia frequentar nossa casa, neste clube é possível sermos menos seletivos, mas nem tanto. Que sejam pessoas que convidaríamos para uma mesa de bar ou, no mínimo, para um evento.
É claro, como em qualquer reunião social, muitos estão ali por interesses menos nobres do que a mera amizade. Interesses deles ou nossos, geralmente de ambos, de natureza profissional, política, afetiva, sexual, tem de tudo. Neste caso, em nome destes interesses, "todos são bem-vindos" e o jeito é sermos pacientes e segurarmos a onda.
Mas aí o clube, que era um lugar gostoso de frequentar, torna-se apenas um local público qualquer, sem garantia de conforto, aconchego e sequer segurança.
Então, a customização de um espaço público, o pulo do gato das redes sociais, deixa de existir, e voltamos a nos sentir perdidos e amedrontados em meio à multidão.
Somos os donos do clube, podemos definir seu perfil, quem entra, quem é barrado, a música a ser tocada, a comida e a bebida a serem servidas, a decoração, tudo depende das relações sociais virtuais que desejamos estabelecer.
Só não esperemos que os convidados chatos, os que falam demais, os agressivos, os que beberam além da conta e já estão passando cantada em nossa vovozinha de 98 anos se toquem espontaneamente de sua inconveniência e se retirem, isso não ocorrerá, do contrário, não seriam inconvenientes. Mas não nos esqueçamos, o clube é nosso.
Fico imaginando o que diria sobre isso Groucho Marx, autor da célebre frase: "Eu não entraria para nenhum clube que me aceitasse como sócio."

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Guardiães do sonho

Em 1999, às vésperas dos 500 anos do Brasil, a revista Época produziu uma série de reportagens sobre os imigrantes. Coube a mim contar a história dos italianos e dos alemães que vieram para a região Sul. Publico a seguir o texto principal sobre os italianos, que saiu em duas edições (trabalho no qual tive a parceria da fotógrafa Luludi). Deixo de fora alguns "boxes" sobre economia, cultura e etc. Como se trata de texto histórico, segue atual. Não conferi agora o destino dos personagens aqui abordados, reproduzo como publicado em 1999.


Centenas de italianos de Mântua (Mantova) foram compelidos a revogar desconfianças ancestrais no final de 1881. Aqueles homens e mulheres haviam resolvido deixar a cidade natal para reconstruir a vida na América – e tinham de acreditar que do outro lado do oceano estava a Terra Prometida. Cansados dos caprichos do clima, exauridos pela escassa fertilidade de um solo castigado por guerras e rebeliões, agredidos pelos impostos absurdos cobrados por senhores de terras que jamais lhes pertenceriam, os integrantes do grupo já tinham vendido os poucos bens que possuíam para empreender a viagem sem retorno. Só lhes restava crer na existência do eldorado americano.

Seduzidos pela abundância de terras, pelos rios de mel, pelo vinho jorrando sem parar e pelos salames que davam em árvores, segundo rezavam as lendas, estavam determinados a encontrar o paraíso na Terra, situado do outro lado do oceano. Entre esses homens de olhar melancólico e rosto precocemente vincado, atirados aos braços do inevitável exílio, estava André Bacchi. Aos 32 anos, acompanhado da mulher, Maria Mazzocchi Bacchi, 30, e dos filhos Carlo, 4, e Antônio, 1 ano recém-feito, André não se deixaria intimidar pelos perigos da travessia.

As viagens da Europa aos confins da América, naquela época, podiam durar umas poucas semanas ou vários meses. O mar bravio e as intensas tempestades capazes de fazer enjoar experimentados marinheiros colocavam muitos a nocaute. A escolta permanente de baleias, espantadas a tiros de canhão, contribuía para ampliar o nível de apreensão a bordo. Quando a embarcação era chicoteada por fortes ventos pela proa, podia ser arrastada de volta por dezenas de quilômetros, e o caminho, que já era longo, parecia intransponível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Relíquias em preto e branco

Meu pai gostava tanto de fotografar quanto de ser fotografado, numa época em que câmeras eram caras, muitas vezes precárias, e fotografar exigia certo esforço, sem contar a burocracia e os custos de revelação e cópias. Graças a este gosto, e aos cuidados de minha mãe na preservação do arquivo, tenho hoje a possibilidade de digitalizar (em alguns casos, com grande perda de qualidade, até por minhas condições amadoras) verdadeiras relíquias.

Além disso havia o capricho dele em anotar atrás das fotos o local, a situação, a data e o que mais considerasse relevante, em letra inteligível e bonita. Minha mãe sempre brincava que, ao contrário do que costumava acontecer, a letra bonita da casa era a do menino, e não a da menina.

Publiquei no FB algumas destas jóias, cujas legendas são, na maioria, as que ele mesmo anotou, por isso estão entre aspas.

Outro detalhe curioso. Meu pai deveria se chamar Eliziário Bueno, mas, ao fazer ele próprio seus primeiros documentos "de adulto", optou por utilizar o Rocha, sobrenome da mãe, e tirou o Bueno do pai. Segundo ele me explicou, não se tratava de qualquer problema em relação ao pai, ele simplesmente não gostava de Bueno, preferia Rocha, foi uma decisão puramente estética.

Percebe-se pelas anotações nas fotos que na juventude ele utilizava a forma reduzida Elizio. Depois passou a ser o Eliziario (eu uso com acento, ele usava sem) e finalmente adotou em definitivo Rocha como forma preferencial de tratamento. Por isso, por ele ser o Rocha, eu ao natural usei sempre o primeiro nome, até para não confundir, embora eu não seja Júnior, pois tenho o Goulart de minha mãe.

A foto que ilustra este texto (no escritório da 
Otaic S.A. São Paulo, em novembro de 1952é a minha preferida deste "lote", pela composição do quadro e pela luz. Para olhar o álbum inteiro, faça-me uma visita no FB. O ícone na coluna à direita leva direto para minha página.

Reparto com vocês algumas curiosidades familiares nesta época de lembranças e balanços.

Um grande 2014 para todos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Lorem, uma leitora especial

Lorem Krsna tem 21 anos, nasceu em Icaraí, Ceará, em 5 de novembro de 1992, migrou para Juazeiro do Norte para cursar a faculdade de odontologia e, desde setembro deste ano, encontra-se na Austrália, onde permanecerá como bolsista pelo período de um ano e meio. Gosta de música e de livros, de escrever (loremkrsna.blogspot.com.br) e de trabalhar com pesquisas. Adora cães e, principalmente, gatos, ama bolo de cenoura com calda de chocolate e é fanática por chá e café.
Quando tinha 13 anos, Lorem leu minha ficção infanto-juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos, lançada em 2002. Tempos depois, aos 18, publicou um comentário em seu blog. Neste momento, em que ela passa por sensações únicas, de experiências e ricas descobertas em Brisbane, no outro lado mundo, ao mesmo tempo em que administra a dor de uma grande perda ocorrida às vésperas do Natal, resolvi fazer um agradecimento público e lhe prestar esta homenagem.
Lorem e eu nunca nos vimos no mundo real, mas eu a convidei para me ajudar a escrever um eventual segundo episódio de Elyakan que, caso eu venha a produzir um dia, terá sido por insistência desta leitora muito especial. Eis o texto dela:
“Há alguns anos li um livro que encontrei por acaso em uma bienal em Fortaleza. Digo por acaso porque foi mesmo. Caiu em cima do meu pé...

Mas, enfim, era um livro intitulado Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos, e isso chamou-me a atenção até mais do que a maneira com que ele veio até mim. Acabei comprando e não me arrependi. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

As 10 coisas que eu decididamente farei mais em 2014
10. Manter distância de pessoas tóxicas.

9. Ficar próximo de pessoas iluminadas.
8. Cantar.
7. Andar de bicicleta.
6. Escrever o que me dá prazer.
5. Conviver com a natureza.
4. Viajar.
3. Cuidar de mim.
2. Curtir minhas filhas.
1. Sorrir.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A noite de Natal

Em 2003, quando minhas filhas mais novas estavam com 5 e 3 anos, certa vez, tendo esgotado meu repertório de histórias de ninar, resolvi escrever um conto infantil de Natal exclusivo para elas. Agora o encontrei ao organizar arquivos antigos. Quem sabe possa ser útil a algum pai com repertório esgotado.


Na noite de Natal Papai Noel sempre aparece, isso todo mundo sabe. O que ninguém sabia até agora é que houve uma vez em que ele quase não apareceu. Ou será que não foi bem assim?

As crianças estavam prontas, haviam colocado roupa nova e esperavam com ansiedade pela chegada do velhinho de barba branca que traz presentes e gosta de dizer hou-hou-hou-hou. Ninguém sabe por que ele diz isso, mas não importa. Enquanto mamãe preparava a comida, suas duas filhinhas, Lísia e Milla, olhavam pela janela a todo instante. Elas mal podiam esperar. Logo Papai Noel chegaria carregado de presentes. Elas suavam bastante. Fazia calor, mas o motivo principal do suor era o nervosismo pela espera.
Hora após hora elas grudaram seus rostinhos delicados na vidraça, observaram o pisca-piscar dos arranjos de luz e o alvoroço das pessoas, muitas chegando às casas vizinhas para a ceia, muitas deixando as casas vizinhas para cear em outro lugar, o som estridente das buzinas e o estouro dos fogos de artifício a desenhar formas coloridas no céu. Tudo muito lindo, mas onde estava Papai Noel? Para entendermos direito esta história é necessário voltarmos no tempo. Na casa das meninas, era aquele mesmo dia. Em certo lugar, cuja passagem de tempo era diferente, uns dez dias antes.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As 10 coisas que eu decididamente não farei neste Natal

10. Ficar 10 horas na BR-101 na ida para o "feriadão".
9. Ficar 10 horas na BR-101 na volta do "feriadão".
8. Emocionar-me com o comercial do Zaffari.
7. Ir ao shopping no dia 24, minutos antes de fechar.
6. Comer como se o mundo fosse acabar.
5. Cantarolar "jingle bell, acabou o papel...".
4. Perguntar a amigos que ganham kit da empresa se "já pegou o peru?"
3. Assistir ao show do Roberto Carlos na Globo.
2. Bancar o meigo com qualquer chato em nome do "espírito de Natal".
1. Ouvir a Simone cantar Então é Natal.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Enter


Vivemos a era da super, ou über, ao estilo das tops, exposição. Lambanças ao vento. Nada é privado demais para se restringir a petit comité, no paroxismo, sequer a quatro paredes. Só privadas permanecem privadas. Still. O que se sofre e o que se goza é para manter em segredo, diria Paulo Francis esbravejando com as paredes da cripta.
                Turista é um sujeito que viaja milhares de quilômetros para tirar fotos ao lado de uma estátua, falava-se com o exagero das tiradas pseudocômicas. Deixou de ser cômico. Deixou de ser pseudo. Alguns poucos minutos esquecendo-se da rotina, curtindo o passeio e aproveitando as delícias do lugar, apesar dos gerúndios, mas muitas horas fazendo pose para o celular. Sinta o clima gostoso, a paisagem exuberante, o cheiro das coisas e pessoas, o ar ancestral... Ah, depois, primeiro deixa eu registrar para postar no face.
                E que venham as críticas dos chatiados assassinos do idioma, o face é seu, você posta o que quiser. Todo mundo é ousadinho e valentão virtual, barraqueiros se locupletam. Não é preciso olhar nos olhos, barbada. O toque refinado acabou, o gesto delicado, a palavra não dita, mas deixada no ar, evaporaram-se. O meio exige tudo explícito, perdeu-se a sutileza, tão indispensável à arte da sedução quando à da comunicação. O que é exposto demais não se permite ser sutil, o que é consumo rápido, um instrumento que é a mais genuína expressão do capitalismo global sendo utilizado às fartas para criticar o mais genuíno capitalismo global.
O cutucão virtual é o fiu-fiu pós-moderno, para usar a palavra predileta dos acólitos da chatérrima escola neo (ainda neo? Eternamente neo?) filosófica francesa que já foi fin de siècle, mas está demorando a desencarnar. Promessas fáceis que se desvanecerão como seu melhor jeans, ecoa a velha canção. Por que pedir a lua e as estrelas? Você não leva nosso relacionamento a sério. Claro que levo. Ah é? Então coloca aí que está em um relacionamento sério comigo. Não se acrescenta, adiciona-se, sinônimos apenas no sentido literal. Não se encara o tenso encontro de despedida, exclui-se. Não se rompe frente ao semblante tristonho e decepcionado, bloqueia-se. Para que um encontro final difícil? Pressione uma tecla e o recado estará dado.
                Não mais anotações nas margens de livros e revistas, em guardanapos, versos de embalagens e no que se tivesse à mão nas horas das reflexões não programadas, bêbadas ou sóbrias, de todo modo embriagadas, despejadas como orações pagãs, miríades de vocábulos empolgados e carinhosos, ou vitupérios ressentidos e chorosos, em cantinhos de papel, destinados a serem vistos apenas por biógrafos, caso o autor fizesse por merecer, dificilmente enviados ao maldito amado desgraçado querido destinatário.
Bico de pena à luz de velas, carta, papel de carta (até perfumado!), lápis, borracha, caneta, rascunho, borrão, passar a limpo, copiar, envelopar, selar, levar aos Correios, arrepender-se na última hora, rasgar ou interceptar o carteiro na entrega, começar de novo, e aí máquina de escrever, rascunho, fita enroscada, passar a limpo e o resto todo, máquina com corretivo, só escrever e o resto todo, computador, pensamentos editados, o que pode ser bom, mas pode ser ruim, e o correio eletrônico e as redes sociais, sem o resto todo, e é tarde demais para se arrepender, enter clicado e flecha lançada são coisas que não voltam. ENTER.                        

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Trancado no banheiro com Renato Portaluppi
 
Quando o Grêmio voltou de Tóquio com o título mundial, em dezembro de 1983, eu, repórter novato (leia mais no texto anterior), fui novamente escalado para uma pauta de “ambiente”. A delegação foi recebida por milhares de torcedores no aeroporto, deslocou-se em carro de bombeiros até o Olímpico, com multidões a saudá-la em todo o trajeto e outros milhares a sua espera no estádio. Era um dia muito quente e abafado. Eu, que não estava em carro aberto e tampouco abastecido pela adrenalina que só os campeões mundiais poderiam experimentar naquele momento, acompanhei o percurso numa Kombi do jornal, uma espécie de sauna a se mover pelo calorão do início de tarde.
Já no Olímpico, fui atrás de mais informações ou entrevistas, para não ficar apenas no texto descritivo ou nos depoimentos de torcedores, embora esse fosse mesmo o foco principal de minha missão. Evidentemente, conversar com o Renato, herói do título, era o que todos ali queriam, e os jornalistas ainda mais. Não sendo de TV ou rádio, e tendo nas mãos uma pauta secundária, minhas chances seriam mínimas. Resolvi sair um pouco do sufoco em meio à multidão e foi até um banheiro passar uma água no rosto para me refrescar.
Poucos segundos depois, vejo entrarem no vestiário Renato e sua mãe, seguidos por seguranças que em seguida fecharam a porta e bloquearam o acesso. O cansaço da longa viagem e do desfile em carro aberto sob um sol escaldante, somados ao calor de uma massa querendo demonstrar sua gratidão de modo um tanto desmedido, como costuma ser com as massas, fizeram com que o jovem herói do título se sentisse mal, por isso fora parar ali a fim de respirar um pouco.

Não recordo bem, talvez tenham entrado outras poucas pessoas, assessores e quem sabe repórteres. De todo modo, para quem precisava descrever o ambiente da chegada dos campeões do mundo, com os melhores detalhes e opiniões, ficar trancado no banheiro com o Renato veio bem a calhar. Foi o meu lance de sorte naquele dia e uma justa recompensa por ter passado horas torrando dentro de uma Kombi.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A inesquecível noite de 11 de dezembro de 1983

Depois de três anos na revisão do jornal Zero Hora, dois dos quais numa precoce chefia, e tendo me formado em jornalismo no final de 1982, em meados do ano seguinte recebi uma oportunidade de passar para a redação. As portas foram-me abertas por Emanuel Mattos, grande editor de uma grande (nos dois sentidos) equipe de esportes. Comecei no “Esporte Amador”, como à época se rotulava tudo que não fosse futebol ou competições automobilísticas. Em seguida tornei-me subeditor de “amador”, sob a liderança competente e gentil do saudoso Evaldo Gonçalves, e logo virei responsável pela pré-cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, que seriam realizados no ano seguinte.
Era nessa condição que eu me encontrava no final de 1983, quando o Grêmio foi para Tóquio decidir o título mundial contra o Hamburgo. Mesmo não sendo “do futebol”, em ocasiões assim especialíssimas toda a equipe era mobilizada. Como novato da equipe, fui escalado para aquilo que chamávamos de pauta “ambiental”. Nada a ver com meio ambiente, mas com descrever o ambiente, ou seja, o comportamento das pessoas diante de um fato.
Saí da redação antes do início do jogo, já próximo da meia-noite, na companhia do fotógrafo Arivaldo Chaves, com a missão de percorrer os principais bares e casas noturnas de Porto Alegre e registrar a emoção dos torcedores assistindo à partida em TVs e telões. Passamos por muitos lugares e, em cada um deles, fomos “intimados” a beber ao menos um copo, uma latinha, uma dose. Estávamos a trabalho, e eu era bem conservador, mas, depois de alguma insistência, quando pareceria soberba não aceitar a gentileza, bem, o que fazer, eu acabava aceitando.
Voltei para a redação um tantinho bêbado, e a tempo de assistir à prorrogação e ao gol decisivo do Renato. A equipe, na maioria gremista, deixou extravar a emoção. O grupo era, digamos, pouco convencional, mas funcionava. Garantido o título, Grêmio campeão do mundo, era hora de esquecer a tonteira e a empolgação, tínhamos um jornal para fechar, lá pelas três de madrugada. Não apenas um jornal, mas uma edição histórica. Por todas as razões, como jornalista e como torcedor do Grêmio, foi uma noite inesquecível.


sábado, 7 de dezembro de 2013

O batom na cueca e o preservativo clandestino

Segundo o velho dito popular, “tudo tem explicação, menos batom na cueca”.  Sempre acreditei que, de fato, não havia justificativa possível para tal, digamos, evidência, até que um dia...

Na época eu jogava (mal, mas jogava) tênis regularmente, hábito que tento retomar. Certa vez, depois de praticar um pouco pela manhã, cheguei e fui direto para o chuveiro. Quando já me vestia para almoçar e em seguida ir para o trabalho, minha mulher entrou no quarto e, segundos depois, começou a gritar e me xingar, mas não dizia por quê. Quando eu tentava perguntar o motivo da confusão, ela respondia com o clássico “e ainda se faz de desentendido, seu cara de pau!” Deve ter dito coisa pior, mas vamos manter a elegância do texto.
Como eu insistia em afirmar que não sabia do que se tratava, ela enfim disse: “Este batom na tua cueca! Não te faz de bobo, calhorda”, ou algo assim. Olhei para minha cueca, de fato havia na barra algo ínfimo, mas que parecia mesmo uma marca de batom. “E tem a coragem de mentir que estava jogando tênis.” A bronca persistiu por alguns segundos. Como sempre acontece com quem se descontrola emocionalmente, ela estava “cega” demais para perceber algo evidente e que eu tentava, em vão, explicar: aquela cueca eu acabara de retirar da gaveta, a que eu usava antes ficara no cesto de roupas do banheiro. Então, ainda que fosse uma marca de batom, não seria daquele momento. E como ela costumava administrar a lavagem, além de dobrar e guardar as minhas roupas, certamente teria visto antes, se fosse o caso.
O mistério e a bronca persistiram até a mãe dela chegar para o almoço. Ocorre que nossa máquina de lavar estava no conserto. Como a mãe morava perto, ela levara as roupas para lavar lá. Depois, minha então sogra fizera a gentileza de secar, passar e já trazer tudo pronto. Ao verificar a roupa no varal, seguindo um hábito de gerações, encostava as peças de roupa na bochecha para ver se estavam de fato secas. Muito vi minha avó fazer isso quando eu era garoto. Num descuido, esbarrou no batom o suficiente para deixar uma marca bem pequena, mas gigantesca aos olhos de uma esposa enfurecida.
Passada a bronca, vieram as risadas e, por fim, a constatação de que daquele dia em diante já não valia mais o dito popular, pois tudo tem explicação, até batom na cueca.

Mas pode um preservativo surgir do nada em uma sacola de compras? Pode.

Esta aconteceu há poucos dias. Eu havia feito compras em um shopping e carregava uma sacola da loja quando entrei na farmácia em busca de analgésicos. Comprei, paguei e, já na saída, resolvi me pesar. Pendurei a sacola naquele gancho na lateral da balança, pesei-me e fui embora. Depois de dar uns poucos passos olhei para a sacola para ver se havia ajeitado de modo adequado o pequeno saco plástico da farmácia para que ele não caísse no caminho. Foi quando vi, solta dentro da sacola, a embalagem bastante chamativa de um preservativo com os seguintes “dizeres”:

Prudence Cores e Sabores
Morangão
58mm – XXG
Enorme e com sabor.

Meu primeiro pensamento foi de voltar à farmácia e devolvê-lo. Em seguida, pensei no que iria dizer. “Olha, eu não sei como este preservativo foi parar dentro de minha sacola...” Mas logo concluí que eu provavelmente me incomodaria de alguma forma, achariam que roubei e me arrependi, por exemplo. Imaginei dizer: “Pensem bem, é claro que eu não roubaria isso, por que diabos eu iria querer tamanho XXG, sou um cara realista...” Mesmo assim, concluí que daria trabalho explicar, e como não era algo de muito valor, melhor deixar pra lá.
A dúvida, no entanto, persistia: como aquilo fora parar dentro da sacola de compras? Dias depois encontrei um amigo, contei o que havia ocorrido e ele decifrou o enigma. “Tem um totem de venda de preservativos ao lado da balança, bem próximo mesmo, sempre esbarro nele quando vou me pesar, você deve ter batido com a sacola e uma embalagem foi parar lá dentro.” Pelo que o conheço, ele provavelmente costuma é esbarrar na balança quando vai comprar preservativos, mas isso não é da minha conta. O importante é que o pequeno mistério estava esclarecido. E a embalagem repousa em uma gaveta de minha mesa de trabalho. Fechada, é claro, e assim permanecerá até que eu a ponha no lixo, afinal, é “morangão XXG”.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

A revolta dos sem-Ferrari

A indignação excessiva de alguns com as declarações do "rei do camarote" (que existe sim, e não entendo por que teria de ser fake) é um emblema da banalidade, da hipocrisia e da falta de noção de muitos usuários de redes sociais. 

Para mim ele é apenas um idiota a mais num mundo repleto de idiotas. Se ele exibe em uma publicação nacional seu mundo de Ferrari, grifes de luxo, contas de R$ 70 mil e champagne a rodo (pagos com o dinheiro dele, seja lá como o ganhe) é só porque tem mais grana do que este pessoal que entope a própria linha do tempo todos os dias com postagens sobre: 

- Viagens e mais viagens a lugares maravilhosos.
- Chek in em aeroportos de paragens charmosas.
- Hospedagem em hotéis e pousadas de luxo.
- Jantares em restaurantes exclusivos.
- Mesas postas com pratos caros e bebidas caras.
- Produtos caríssimos que acabaram de adquirir.
- A nova e deslumbrante decoração do apartamento.
- Uma dura rotina de academia, cabeleireiro, pub e balada.

E por aí vai. Não postam fotos com Ferrari porque não têm Ferrari. 

De fato, redes sociais são, em grande parte, feitas pra dar vazão ao exibicionismo, fake ou não. Quem não tem muito dinheiro, exibe a forma física, a beleza, as habilidades atléticas ou artísticas, sua cultura "superior" e etc. No fundo dá tudo na mesma. Mas, ao menos os da lista acima deveriam ficar quietos nessa hora.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Todas as notícias que merecem ser vividas

Tudo acerca do New York Times, historicamente o melhor jornal do mundo, reveste-se de ancestralidade. Seu lema, o norte da redação, “todas as notícias que merecem ser publicadas”, tem inspirado gerações de jornalistas. Difícil criar mote mais emblemático, e por certo é presunçoso tentar, mas um dia imaginei um jornal dotado de uma bússola precisa como a do Times, embora com foco em outro modo de entender o que é importante no mundo. Isso foi bem antes da explosão da internet e da aparente sentença de morte dos jornais impressos. E, convenhamos, certas coisas só emplacam no papel, ainda que solte tinta, cheire mal e esteja destinado a embrulhar peixes no dia seguinte.

Neste despretensioso exercício, como todo presunçoso, não fui original, apenas pensei em adaptar o slogan do NYT a um modo de enxergar a vida do homem comum por meio de lentes um tanto quanto hedonistas: “Todas as notícias que merecem ser vividas”. Os jornais se ocupavam mais, e seguem se ocupando, dos assuntos considerados importantes, e bem menos daqueles que poderíamos classificar como “interessantes”. Todo jornalista que se preza sabe disso, bem como sabe que as chamadas informações “macro” são inescapáveis. A morte do líder do Talibã, a previsível quebradeira do castelo de cartas trucadas de Eike Batista ou um tiroteio no aeroporto de LA são importantes porque, queiramos ou não, o mundo é um só, a economia e a política, internas e externas, inevitavelmente se interligam, e mesmo informações de face remota e árida poderão impactar nossa vida em algum tempo, e irão.

Meios de comunicação convencionais descobriram, há apenas uns 20 anos, por aí, e muito tardiamente, que a vida do “leitor comum” passava ao largo de 90% do conteúdo que publicavam todos os dias. O esforço para recuperar o tempo perdido tem, a partir de então, produzido prodígios patéticos, incontáveis chavões e algumas simples tolices. Desde que as redações descobriram a pólvora de que a morte de um jovem deveria ser abordada não pelo que aconteceu, mas pelo que deixou de acontecer, a expressão “vida interrompida” é utilizada à exaustão. É só um exemplo. O bafo na nuca emitido pela internet e, concedamos, pelo “clamor das ruas”, acuaram os produtores de notícias. A informação tornou-se propriedade de todos e, portanto, de nenhum. Conceitualmente, ótimo. Mas, é óbvio, a qualidade, a profundidade e a seriedade dos noticiosos virtuais é, de modo geral, lastimável, para dizer o mínimo, mas aí já se trata de outra e longa discussão.

                Voltando à presunção, “todas as notícias que merecem ser vividas” é muito mais do que ampliar os espaços de cultura, lazer, gastronomia e etc. Isso qualquer um faz. Sintonizar-se aos tempos atuais, ao “leitor comum” sem afetações ou excessos que beiram o infantil é um desafio e tanto. Ninguém tem a fórmula, a julgar pelas publicações tolinhas que pululam por aí sob uma fachada de seriedade e consistência que não se sustenta, considerando-se seu declínio cada vez mais acelerado. É claro que eu não conheço o ingrediente mágico, apenas tive um pensamento presunçoso.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013


Uma viagem memorável ao Vietnã
                               
O texto a seguir foi publicado na edição de agosto da revista Hotelnews.

O Vietnã sempre me despertou grande interesse. Quando fui a Tóquio cobrir Grêmio x Ajax pelo Mundial de Clubes, em dezembro de 1995, aproveitei e, na sequência, rumei para aquele país na companhia do fotógrafo Ricardo Chaves. O Kadão, cujo apelido alude aos seus bem mais de cem quilos, mas poderia se referir ao talento e à elegância, foi um parceirão o tempo todo, e com ele vivi algumas experiências divertidas. Começamos pela capital Hanói, depois fincamos sede em Huế – antiga capital imperial e palco de uma das mais sangrentas batalhas do conflito, durante a célebre Ofensiva do Tet, em 1968 – e encerramos com uma temporada em Saigon, base americana na guerra e hoje oficialmente chamada de Ho Chi Minh City.

Em Hanói vivemos a experiência algo perturbadora de atravessar cruzamentos de largas avenidas sem sinais de trânsito ou qualquer regra, entre automóveis, caminhões, ônibus, motos, lambretas, bicicletas, riquixás e muita gente, tudo junto e misturado, na base do drible mesmo, tanto quanto experimentamos becos residenciais ou de intenso comércio. Numa rua calma, quase sem movimento, alguns meninos jogavam futebol. A bola foi chutada em minha direção, fiz algumas embaixadas e a devolvi, para “delírio da galera”, até porque usávamos bonés com o logo da empresa e a bandeira do Brasil. “Ronaldo, Romário” começaram a falar os meninos, enquanto o Kadão – com bolsa de fotógrafo e tudo – e eu brincávamos com eles por alguns minutos.

Senti-me no filme Bom Dia, Vietnã, e aí me lembrei de observar os rostos das mulheres. Os homens vietnamitas são, quase todos, muito feios, na boa, mas há abundância de mulheres lindas, constatação feita já a partir da tripulação do Boeing 737 estalando de novo da Vietnã Airlines no qual havíamos embarcado na escala em Taiwan. Em Hanói fixei-me no rosto de uma e a segui mentalmente na multidão, mas ela logo estava ali, e lá, e em várias outras, como no filme, todas com o mesmo corte nos cabelos negros e as roupas típicas locais, que acho bem interessantes, por sinal – as vestimentas e as mulheres. Uma beleza sedutora, mas com poucas variações, digamos.

Ainda em Hanói, Kadão decidiu fazer uma foto do caótico movimento numa das principais avenidas. Não havia prédios altos por perto, e mesmo os mais baixos eram inacessíveis, pois não conseguíamos explicar aos temerosos ocupantes que se tratava de uma simples foto. Paranoias de país comunista. Kadão não teve dúvidas: escalou um trêmulo poste de madeira e fez a foto. Eu não resisti à tentação de dizer que espalharia história diferente: um homem daquele tamanho, balançando em cima de um poste, numa terra de gente miúda, não conseguira fazer a foto do trânsito porque o trânsito simplesmente parara diante de tal visão.

Obviamente, não faltaram momentos emocionantes e comoventes durante esta viagem, mas aqui, pelo foco da revista, convém que eu me atenha à parte mais light. Cumprimos o trajeto entre Hanói e Huế num turbohélice francês bem velhinho, pequeno e desconfortável. Depois de pedir para o Kadão parar brigar com um comissário que o obrigou a deixar o tripé com ele – e o devolveu quebrado –, briga inútil, um falando em inglês com sotaque brasileiro, o outro no incompreensível idioma vietnamita, eu tentava relaxar um pouco na precária poltrona quando o avião – de no máximo uns 20 lugares, muitos deles vazios – começou a sacudir. Demorei alguns segundos para perceber que não se tratava de turbulência, e sim do Kadão tentando matar a pontapés uma barata de boas proporções.

Já em Saigon, cidade mais moderna e cosmopolita, até em função da ocupação americana na guerra, hospedamo-nos num hotel barato qualquer, o primeiro decente que achamos, mas, depois de tantos dias comendo qualquer coisa em breves paradas ao longo das poeirentas estradas do interior do país, espanando as moscas da suspeita mistura de arroz empapado com algo que lembrava frango desfiado, decidimos jantar num belo restaurante com cardápio internacional. Tentamos a todo custo convencer nosso intérprete, Nguyễn Nghiễm Ngầm (pronuncia-se “Inhém Inhám”) a nos acompanhar, no entanto, como ele era funcionário público (mas nós pagamos pelo serviço), creio que não conseguimos, pois isso poderia ser considerado suborno, com graves consequências para ele. O restaurante era muito bom, a comida excelente, mas o que marcou mesmo foi o maître, absolutamente idêntico ao filipino de modos afetados e trajes escandalosos dono do bar em Bom Dia, Vietnã. Cheguei a pensar que se tratava de uma paródia, mas não, era sério.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013


Eliziário de onde?

Chego para uma reunião e me apresento à secretária. Ela pega o telefone e, antes de me anunciar, pergunta: “De onde?” Apenas repito: “Meu nome é Eliziário”. Ela insiste: “Sim, mas, de onde?” Neste meio tempo a chefia já ouvira o diálogo e dissera para ela me deixar entrar. Cenas assim são cada vez mais frequentes em nossa sociedade, e eu confesso que sempre me irritam. No caso de um encontro agendado, basta anunciar o nome. A pessoa solicitada decidirá se quer me ver ou não. Se eu disse apenas o nome, é sinal de que ela me conhece, ou seja, não sou, por exemplo, um vendedor que por acaso bateu àquela porta.

Mas não adianta, a pergunta é insistente: “De onde?” Como não vale a pena me incomodar por isso, às vezes respondo “do Escritório da Informação”, meu “nome jurídico”. Desconfio que poderia dizer “da Astron Plus”, da “Empreendimentos Bevilacqua” ou da “Rocha & Rocha Consultores” e daria no mesmo. Só querem uma pessoa jurídica, algo que prove que eu mereço ser recebido, pois pessoas físicas, sabemos, não merecem a menor confiança.

Poderia dar respostas como “de Porto Alegre”, “de mamãe e papai”, “da grande nação tricolor”, mas a mais simples eu aprendi com o amigo jornalista Jorge Olavo de Carvalho Leite. Há mais de 20 anos, ele já respondia: “De mim mesmo”. Identifiquei na frase uma certa rebeldia contra o mundo dominado pela pessoa jurídica. Eu sou eu, e isso deveria bastar.

Já nem estranharei se, um dia, ao pedir uma pizza por telefone e me identificar, perguntarem:
– Eliziário de onde?
– Como assim, de onde?
– Assim mesmo: Eliziário de onde?
– Mas eu só quero uma pizza.
– Lamento, mas o senhor precisa informar de onde.
– Por que, vocês só entregam para empresas?
­– Não senhor, mas só entregamos para quem é de algum lugar.
– Claro, se não, como achariam o local da entrega, não é mesmo?
– Como, senhor?
– Nada, esquece. Mas por que esta regra?
– Veja bem, nós somos uma empresa séria, com dez anos de mercado, só produzimos pizzas de alta qualidade, e não podemos entregá-las a quem não seja de algum lugar.
– Mas eu sou de algum lugar. Já lhe dei meu nome, endereço, telefone fixo, celular, RG, CPF, nome dos pais e dos avós... 
– Mas não disse de onde.
– Ok, ok. Está bem, eu digo. Sou do... deixa ver, Birô Atuarial Azevedo.
– Lamento, mas não consta em nossos registros.
– Desculpe, eu estava brincando. Sou do Escritório da Informação.
– CNPJ por favor.
­Dou o número. Ela volta em segundos:
– Ok, senhor, seu pedido está liberado. Vamos estar lhe entregando em trinta a quarenta minutos.
– Ótimo, já estava quase perdendo a fome. A propósito, vou querer cervejas também.
– Bem, neste caso, qual a natureza de sua empresa? Quantos funcionários tem? Quanto o senhor pagou de impostos no ano passado?

Publicado originalmente no site Coletiva,net em 23 de agosto de 2005