sexta-feira, 23 de agosto de 2013


Um conto brasileiro

Quétellinn, Suéllenn e Maicossuell saem do shopping center, onde assistiram a um blockbuster de Hollywood e ainda pretendem curtir uma stand up comedy. Mas, antes, aproveitam a happy hour no Applebee’s. Quétellinn publica um post no Facebook, utilizando seu iPhone, enquanto Suéllenn verifica o gmail no iPad e faz alguns downloads.
Maicossuell veste jeans Gasoline, agasalho GAP e tênis Nike, e usa o perfume CK One, tudo comprado na mais recente viagem a Miami. Ele larga o smartphone Android, pensa em como gostaria de estar pegando onda no Hawaii, examina o cardápio e vai até o item Signatures Steaks. Decide-se por Signature Sirloin with Garlic Herb Shrimp. Nos drinks, escolhe um Long Island Iced Tea.
Suéllenn distribui likes, verifica a timeline, informa-se sobre o intercâmbio da filha em New Jersey e a próxima viagem à Disney, pede a specialty Sex on the Beach e Salmon Caesar Salad. Quétellinn, depois de conferir a cotação do dólar e ligar para seu personal trainer, fica um instante pensando na noitada que terá com sua nova lingerie Victoria Secrets e o creme da mesma grife “sabor” Strawberries and Champagne. Então, opta por Lynchburg Lemonade e Chicken Finger Platter.
Registram o encontro no Instagram, largam seus gadgets e se voltam para TV de LED em full HD que, após exibir um reality show da Fox Life, mostra agora as news na CNN, no qual Barak Obama faz uma advertência a um ditador do Oriente Médio.
– Esses americanos... quem eles pensam que são? – questiona Quétellinn. Suéllenn e Maicossuell balançam a cabeça em aprovação ao que ela disse e pedem uma Sizzling Apple Pie.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Picaretas da Fé

Embora eu não pratique religião alguma, respeito quem o faz, desde que não venha com sermão ou tente me doutrinar. Cada um na sua. No entanto, falo de religiões ou credos, digamos, tradicionais, e não de igrejas que qualquer um pode abrir, basta alugar um salão, autoproclamar-se pastor, bispo ou missionário e sair arrecadando dinheiro. Dois episódios exibidos pela TV, e que deveriam resultar na prisão imediata do autor, são emblemáticos.

Episódio 1

Já faz muitos anos, mas a prática não deve ter mudado tanto. Em um "culto" da Igreja Universal, de Edir Macedo, um "bispo" pede aos fiéis que contribuam com dinheiro para ser levado à "fogueira santa de Israel" (!). Depois de um discurso empolgado, exibido com fundo musical impressionante, ele se dirige às pessoas na platéia e ao público que assiste à transmissão e pede doações. Aí ele olha para todos e para nenhum, e diz, entre outras pérolas:
- Você, que é rico, que tem muito dinheiro e doa uma quantia qualquer, grande coisa, não vai lhe fazer falta. Mas você, que é pobre, que tem pouco, doe agora tudo que você tem no bolso, pois isso, sim, será uma verdadeira demonstração de fé.

Episódio 2

O "missionário" R.R. Soares, que para quem não sabe é cunhado de Edir Macedo, brigou com o mentor e partiu para milionária carreira-solo alugando o horário nobre da TV Bandeirantes (e de outras), arrecada dinheiro de tudo quanto é jeito, tem editora, gravadora, operadora de TV a cabo e todo um pequeno império de consumo da fé. Mas não abre mão das doações, é claro. Uma performance dele, que certamente já deve ter se repetido milhares de vezes:
- Agora nossos ajudantes vão passar aí pela platéia para quem quiser ser um "patrocinador". É só preencher o boleto com a quantia que você quiser e depois pagar mensalmente no Bradesco. Agora, quanto você vai doar? Bom, aí vai depender do tamanho do amor que você tem por nosso senhor Jesus Cristo.

E ninguém vai preso.

sábado, 10 de agosto de 2013

Concerto para esfera e papel

A velha casa de madeira com seus rangeres noturnos, móveis desgastados e pátio mal cuidado hospedaria uma alvissareira novidade tecnológica naquele ano de 1970. Num final de semana frio, suavizado pelo fogareiro a carvão, meu pai levara serviço para casa e, com ele, uma reluzente IBM elétrica de esfera, dos primeiros modelos, ainda com bordas arredondadas. Aos olhos de um menino de dez anos sem muito contato com as novidades do mundo, a Ferrari das máquinas de escrever, com seu largo e sólido corpo de ferro, sua batida ágil, silenciosa e veloz como nenhuma outra jamais conseguira ser, assemelhava-se a um instrumento dos deuses. Além disso, meu pai devia ser importante na firma, para poder colocá-la embaixo do baixo e se mandar para casa ao final do expediente.

Tão magnífico equipamento era acompanhado de caixinhas com uma fina base de plástico e uma tampa de acrílico em forma de redoma que permitia vislumbrar o instigante conteúdo: em seu interior jaziam, brilhando de novas, uma meia-dúzia de esferas sobressalentes. Ao contrário das outras máquinas de escrever, meros invólucros de plástico recheados de gravetos vacilantes, barulhentos e desencaixantes, com fitas sujas, frágeis e desenroscantes, aquela maravilha permitia a troca da esfera que ia e vinha, vinha e ia sem que nem bem lhe pudéssemos registrar os movimentos.

Pela primeira vez, e muito antes de o computador doméstico entrar em cena, podia-se variar a tipologia de um texto sem recorrer a uma gráfica. Era possível datilografar em itálico, negrito, letra cursiva, corpo maior que o usual, sublinhar, bater de novo por cima para reforçar, traçar fios, cercaduras e, com alguma imaginação, até alguns desenhos primitivos, e tudo de maneira limpa, sem borrões, sem dedos sujos, pois mesmo a fita, encaixotada como uma VHS, era de natureza superior.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

É Primavera em Pinellas

O texto a seguir, sobre o drama envolvendo Mary Schindler, foi publicado originalmente no site Coletiva.net em 29 de março de 2005. Dois dias depois, os aparelhos que a mantinham viva foram desligados.

Os cidadãos do condado de Pinellas, na Florida, cujo emblema em vermelho, amarelo e azul mescla o sol e uma flor, têm ocupado os últimos dias discutindo a alta taxa de obesidade infantil. A cultura do hamburguer cobra seu preço. É preciso fazer algo urgente pelas crianças de Pinellas.
Enquanto o museu internacional da Florida exibe uma celebração à Princesa Diana, a liga de beisebol prepara-se para a pré-temporada que se inicia em 3 de maio e reina grande expectativa em torno da mostra Londres de Monet. Ocupam-se ainda, os moradores do condado de Pinellas, em combater os transtornos causados por quem estaciona trailers e motorhomes nas entradas dos pátios. Como tais veículos excedem em muito o comprimento de um carro, eles acabam invadindo o passeio público. Nos Estados Unidos, ninguém tem dúvidas de que as calçadas são de todos.
Como o 911 não dá atenção a pendências do gênero, a não ser que os vizinhos partam para as vias de fato, em situações mais comedidas os moradores podem recorrer ao Departamento de Disputa entre Cidadãos, pelo fone 582-7250. O setor de Pequenas Reivindicações pode ser acionado pelo 464-3267, o Direitos Humanos pelo 464-4880 e o Controle de Mosquitos pelo 464-7503. Há ainda o 464-7565 para Denúncias de Desperdícios, e o 464-8210 do Desenvolvimento da Comunidade (a propósito, o código de área é 727). Tudo muito rápido, simples e americano.

terça-feira, 23 de julho de 2013


Quando as noites não eram tão escuras

Tempo houve em que as noites, mesmo as mais frias e longas do rigoroso inverno do sul, não pareciam tão frias ou longas, ou ao menos era possível atravessá-las com razoável dose de sonho e esperança.

Pouco mais de seis da tarde, acabo de chegar da escola, mal tive tempo de fazer os temas, comer um pedaço de pão com patê de fígado ou schimia de abóbora com cravo acompanhado de Guaraná Frisante Polar e saí à rua para um jogo de taco, ou de bola, ou de bolinhas de gude, e já está minha avó a gritar meu nome. Emília, a quem eu chamo de mãe, cuida de mim enquanto minha mãe, Terezinha, a quem todos chamamos de Santa, trabalha para pagar a escola particular do único filho.

O brado de Emília significa que é hora de se recolher, sair do frio e do escuro, hora em que, ela diz, só os meninos sem eira nem beira, de pais relapsos e irresponsáveis, circulam pelas ruas do bairro de periferia. A violência urbana ainda não é o monstro que temem que se torne um dia, tampouco esta periferia é assim tão periférica, mas crimes e brutalidades de todo tipo espreitam na calada da noite por detrás de muros de esquina, árvores frondosas e cercas carcomidas de terrenos baldios.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Virtualices

• Depois do pós-moderno, o pós-virtual. Dois “faceamigos” encontram-se em uma rua qualquer da vida: “Caraca! Você existe aqui fora!”

• Ao pós-moderno, prefiro o pós-virtual. Ao menos não vem com Maffesoli, Baudrillard e Morin como itens de série.

• Você convida amigos para jantar e os recebe de cuecas, solta gases ocasionalmente e come com as mãos. Se reclamarem, reaja: “O Face é meu e eu posto o que eu quero.”

• É inútil colocar posts em letras enormes, com fundo caprichado e desenhos chamativos. Uma boa frase é que nem mulher bonita, dispensa o Photoshop.

• “Visualizada e totalmente ignorada pelo destinatário às 17h21”.

• Diálogos virtuais:
– Última flor do Lácio, inculta e bela!
– Começa falando de flor e depois me chama de burra. #chatiada.

• “Em um relacionamento sério com MEU EGO.”

• Entrar em um chat quando está carente é como ir ao supermercado com fome.

• “Se você entendeu o quanto estou carente CURTE. Se ficou com muita pena COMPARTILHA.”

• Darwinismo virtual:
Só os posts mais aptos sobrevivem ao filtro do FB e povoam nossa tela? É como olhar para certas pessoas e pensar: “E este foi o espermatozoide vencedor...”


• Liberdade de expressão e pluralidade são coisas sagradas. E quem discordar será excluído.

sábado, 4 de maio de 2013


Hã? - Parte II

Durante uma reunião de capa, convidado pelo diretor de redação a opinar sobre determinado assunto, um editor respondeu:

"Eu acho que sim. Mas também acho que não. Quer dizer, depende."
Hã?

De um famoso comentarista esportivo da aldeia, muitos anos atrás, ao encerrar sua coluna sobre as possibilidades dos gaúchos na rodada do Brasileirão:

"Ou seja, tudo pode acontecer, mas, sem dúvida, algo acontecerá."

No dia seguinte fiz questão de cumprimentá-lo pessoalmente pelo brilhantismo. Ele me olhou desconfiado e perguntou: "Está falando sério?" É claro que eu confirmei sem sequer corar.

terça-feira, 30 de abril de 2013


Falando em Senna (2):

O dia em que ultrapassei Ayrton Senna
         
Autódromo de Interlagos, final de abril de 1994, poucos dias antes da morte do Ayrton, em sua última passagem pelo País. A recém-criada Senna Imports estava trazendo para o Brasil a linha de automóveis Audi. Como é de praxe, a imprensa foi convidada para um test drive. Antes, durante o café da manhã, tive a oportunidade de conversar rapidamente com ele.

Pelo fato de ser em um circuito de corridas, e dada a robustez dos veículos, um instrutor acompanhava cada jornalista a fim de evitar eventuais e perigosos arroubos. A cada vez em eu que pisava fundo ouvia um pedido para reduzir o ritmo. Até ali só fora possível acelerar mesmo na reta oposta, mas em seguida cheguei à parte “travada” da pista e recebi novas recomendações. “Encaixotado” atrás de outro carro, apelei ao instrutor: “Este cara aí na frente está lento demais, se eu não o ultrapassar agora não conseguirei atingir uma velocidade razoável na subida da reta dos boxes, e aí acabarei não sentindo direito a potência do carro.” Ele concordou: “Ok, dê o sinal e vá com calma.” Assim o fiz, o carro da frente abriu para eu ultrapassar, eu agradeci e recebi de volta um aceno e um sorriso de Ayrton Senna.

Ele comentava, para uma equipe de TV estrangeira, as características de cada ponto do circuito, razão pela qual ia tão devagar. Mas isso é detalhe. Ultrapassei Ayrton Senna e rasguei em triunfo a reta de Interlagos.


Falando em Senna (1):


Senna e Rubinho

Lá pelo início de 2003, Augusto Nunes e eu nos dirigíamos à sede do Instituto Ayrton Senna. Faríamos uma entrevista com Viviane Senna que renderia reportagem de capa para a revista Forbes. Eu já estava um pouco irritado com a lerdeza do taxista. Saíra com ele do flat onde eu morava ocasionalmente, no Itaim Bibi, passara nos Jardins para apanhar o Augusto e rumávamos para o bairro de Santana, onde fica o IAS, sempre muito devagar para meus padrões.

Augusto perguntou: “Estamos atrasados?” Olhei para a rua, para ver mais ou menos onde nos encontrávamos, e respondi: “Um pouco, creio que estaremos lá em cinco minutos”. Ao que ele disse: “Tudo bem se ela ficar esperando um pouco, afinal, é natural chegar depois de um Senna”.

Não resisti e completei: “Ainda mais com o carro sendo pilotado pelo Rubinho”. O taxista virou-se, encarou-me com indisfarçável tristeza e falou: “Pô, doutor, também não precisa me esculhambar”.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Os suspeitos de sempre

Em 1994 eu era editor executivo do jornal Zero Hora e tinha, entre minhas tarefas, editar a capa do jornal e coordenar a reunião de capa, da qual nem sempre participavam o diretor de redação e o editor-chefe. Nesta reunião os editores de cada área apresentavam os assuntos que teriam destaque na edição. Logo depois da implantação do Real, ao final de uma reunião na qual todos disseram não ter nada interessante naquele dia – cheguei a brincar: “Ok, a gente cancela a capa” –, solicitei à Rosane de Oliveira, editora de política, e ao Moisés Mendes, da economia, que permanecessem mais um pouco comigo e com o Ricardo Chaves, editor de fotografia, pois não poderíamos sair dali sem ao menos uma sugestão de manchete.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de maio de 2011

LIVROS

A revolução de 1989

“Esta é uma história com um final feliz”, informa o autor na primeira linha de A Revolução de 1989 - A Queda do Império Soviético. "Ninguém que tenha testemunhado a alegria nas ruas de Berlim, Praga ou Budapeste no final de 1989 conseguirá esquecer aquelas extraordinárias cenas de celebração", segue Victor Sebestyen a respeito do tsuname libertário que encontrou seu ícone maior na queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O final feliz, no caso a derrocada do comunismo patrocinado pela União Soviética que dominara a Europa Oriental desde o final da Segunda Guerra Mundial, foi especialmente feliz para o autor, jornalista húngaro obrigado a deixar sua terra natal após a invasão soviética. Nas décadas seguintes, Sebestyen acompanhou as transformações ocorridas na região a partir do privilegiado posto de correspondente internacional de publicações britânicas. A abordagem e a linguagem jornalísticas são, por sinal, uma das virtudes do livro. A narrativa direta e simples - prejudicada por uma revisão algo descuidada da edição brasileira - aproxima-se do didatismo. Embora pouco acrescente a quem acompanhou com atenção o desenrolar da história na segunda metade do século 20, traz detalhes que ajudam a iluminar um período sombrio da trajetória europeia e mundial.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LITERATURA

Suicídios exemplares


         Se o pensamento é o único território realmente livre de que dispomos, uma vez que os sonhos abarcam doses de desejos, temores e outras sensações obscuras despejadas pelo inconsciente – embora bem possa ser o contrário –, o suicídio é a última fronteira da capacidade humana de se rebelar contra as circunstâncias de vida, considere isso destino ou mera sequência aleatória de acontecimentos. A criatura, num ato de extrema rebeldia, desafia o poder de vida e morte do criador, ou simplesmente abre mão da própria vida na tentativa vã de provar algo a si mesmo ou, invariavelmente, a alguém, mesmo sabendo que, ainda que a mensagem chegue ao destinatário, o sacrifício já não lhe servirá de nada.
         Muitas vezes, a abordagem é menos romântica, transformando o ato em simples e rápida forma de se livrar de dificuldades cotidianas, sejam elas dívidas, excesso de responsabilidades ou prosaicos problemas de baixa auto-estima. Na interpretação de Albert Camus – a despeito de eventuais rancores ideológicos, figura de proa na literatura e na filosofia do século 20 –, o suicídio é a questão filosófica primordial. Trata-se de decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida, sendo o resto consequência de tal reflexão. Segundo Sêneca, nas Epístolas Morais a Lucílio, “nada melhor a lei interna fez do que nos dar uma entrada para a vida e muitas saídas”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

GENTE


Zélia Garcia



          Éramos todos muito jovens quando a conheci, nos anos 80, na redação do jornal Zero Hora. Os traços delicados, a pele morena, os cabelos radicalmente negros, a voz suave e algo rouca cujo tom eu jamais a veria elevar, formavam um conjunto que tornava Zélia Garcia uma mulher de todo modo interessante, mas havia mais: a delicadeza dos gestos, a educação refinada, os modos elegantes, a discrição sobre a vida pessoal, o charme natural reforçado por um guarda-roupa de bom gosto, com ênfase em cores escuras, em especial o preto, concediam a ela uma aura especial.
           Aos poucos nos aproximamos, mas foi quando troquei o Esporte pelo Segundo Caderno, no final daquela década, que o caminho de Zélia Garcia e o meu se cruzaram em definitivo. Eu era editor assistente e ela repórter especializada em moda, beleza, estilo e comportamento, assuntos sobre os quais viria a escrever para as maiores revistas nacionais do segmento, como Vogue, Marie Claire e Elle. Na primeira vez em que peguei um texto dela para editar, uma matéria sobre beleza para a contracapa da Revista ZH, chamei-a e perguntei se gostaria de me ajudar. Zélia, de acordo com os usos e costumes das redações de então, entregara o material e dera o assunto por encerrado, uma vez que os repórteres não costumavam ser convidados a participar da edição.

sábado, 17 de julho de 2010

LITERATURA


            A Humilhação de Philip Roth

            O americano Philip Roth publicou seu primeiro livro quando contava apenas 26 anos. Nem sempre escritores precoces se revelam dignos de nota, ao contrário, na maioria das vezes apenas contribuem para aumentar a pilha de obras descartáveis que se acumulam nas estantes do esquecimento literário. Roth estreou em grande estilo. Goodbye, Columbus, coletânea de novelas lançada em 1959, abriu-lhe as portas das livrarias e dos salões acadêmicos. De lá para cá foram três dezenas de títulos, nos quais, na média, saiu-se muitíssimo bem, tendo sido agraciado com incontáveis prêmios e amealhado legiões de aficionados mundo afora.
            A Humilhação, trigésimo livro de Roth, que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras, está longe de representar o melhor de sua obra e recebeu, com justiça, muitas críticas negativas. Aos 77 anos, Roth parece ter ingressado na inescapável zona de conforto a que estão submetidos todos os autores, mesmo os mais talentosos, em especial os prolixos e os longevos. Ainda assim, seria injusto relegar A Humilhação ao limbo das obras menores. Até porque, em certos momentos emerge de páginas menos estimulantes o velho brilho que nunca se apaga de todo.

domingo, 6 de junho de 2010

LITERATURA

A desconstrução de J. M. Coetzee

           
            Vincent, um jovem biógrafo inglês, baseia-se em anotações inéditas de seu biografado e em depoimentos de pessoas que conviveram com ele antes da fama – especialmente mulheres – para montar um surpreendente retrato do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Romancista de talento invulgar, dono de uma prosa simples e elegante, capaz de conceder ao cotidiano um caráter envolvente e engajado, Coetzee sempre foi reconhecido também pela força de suas convicções políticas, suas críticas ácidas a questões que perpassam a formação da África do Sul como nação, sua autocrítica em relação às próprias fragilidades e uma visão sistêmica e lúcida da sociedade moderna.

            Em Verão, que acaba de sair no Brasil pela Cia. Das Letras, o jovem Vincent nos revela que Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel e morto em 2005, jamais soube conduzir sua própria vida com a mesma desenvoltura exibida nas páginas de seus incontáveis livros de sucesso. Os fragmentos e relatos reunidos pelo biógrafo acabam por moldar a imagem de um homem tímido, de poucas ambições e iniciativas, dotado de um conformismo ancestral, de uma absoluta inabilidade no trato com as mulheres e quase assexuado.

PENSATA

O perigo da história única


Este vídeo traz uma reflexão interessante sobre a arte - e a responsabilidade - de contar histórias. Vale a pena.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

LITERATURA


Paul Auster apenas flerta com
retorno a seus melhores momentos


      Utilizar um escritor como personagem central de um romance é recurso adotado por muitos autores, e tampouco é a primeira vez que Paul Auster o emprega. Romances, sabe-se, tem sempre muito de autobiográfico, até pela impossibilidade de se promover uma separação absoluta entre o experimentado e o imaginado (por certo na hora de escrever, talvez mesmo na hora de recordar). O primeiro capítulo de Invisível, mais recente título de Auster que a Companhia das Letras acaba de lançar no Brasil, é narrado na primeira pessoa pelo jovem Adam Walker, um estudante com pretensões literárias que se envolve com Rudolf Born e Margot, uma dupla tão sedutora quanto misteriosa. Born propõe ao jovem a produção de uma revista literária bancada por ele, mas o que parecia um belo sonho aos poucos vai se transformando em pesadelo, compensando no início por uma relação fugaz com Margot.

     Em determinando momento, Walker, já velho, doente e com pouco tempo de vida, resolve pedir ajuda a um colega que não via desde a faculdade e que, ao contrário dele, obteve sucesso como escritor. Walker não sabe como seguir adiante com a história, até por envolver um tema muito delicado – o qual ele não revela ao amigo. Uma das maneiras de superar bloqueios temporários, sugere o velho parceiro, é mudar o discurso, passando da primeira para a terceira pessoa, por exemplo. Assim, no segundo capítulo o “eu” dá lugar ao “você”, numa interessante variação narrativa. O tema mantido em sigilo é nada menos do que um tórrido caso de Walker com a própria irmã. Questões morais à parte, certos trechos soam apelativos, falta-lhe alguma sutileza, quem sabe, mas o principal problema é que parece que se está diante de um outro Walker, não porque o autor obtenha sucesso em mostrar todas as facetas de um ser humano em conflito, mas por parecer meramente desencaixado.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

JORNALISMO LITERÁRIO

Gay Talese é sempre
uma ótima notícia

(Texto publicado originalmente na revista Aplauso) 


Depois de me engalfinhar por alguns minutos com a conexão do fone de ouvido e de aceitar o fato de que mais um equipamento novo, e caro, não funciona adequadamente, e de maldizer os fabricantes de tudo que não funciona adequadamente, olhei para o relógio e pensei no meu editor chegando à sua mesa de trabalho, pela manhã, e esbravejando ainda mais ao não encontrar o meu texto em seu e-mail. Flávio Ilha é um homem experimentado, inclusive nos círculos do poder, tendo sido repórter na capital federal por muitos anos e, após passar por tão variadas e ricas experiências, tolerar alguns atrasos de um resenhista veterano talvez não seja assim tão exasperante. Ele tem sido compreensivo, quem sabe porque eu tenha crédito, e um raro atraso em função de compromissos profissionais de conhecimento público seja mesmo aceitável.

          O fato é que deixei para o último minuto, pensei em escrever a mão e depois pedir para alguém transcrever enquanto eu dormia por um período decente, só para quebrar a rotina dos últimos dias. Valer-me da caneta teria sido uma bela homenagem ao autor do livro que me dispus a comentar – como o foi abrir o texto desse modo –, ainda que qualquer comparação esteja a anos-luz de todos nós, uma vez que se trata de um dos maiores jornalistas de que se tem notícia, um ícone, alguém capaz de fazer jovens enveredarem pelo caminho tortuoso da cobertura dos fatos, tanto quanto de devolver aos mais experientes um genuíno orgulho pelo ofício.

sexta-feira, 26 de junho de 2009




MICHAEL JACKSON

Jamais haverá outro como ele

Lembro-me de tê-lo ouvido pela primeira vez quando eu tinha uns oito anos de idade, e ele 10, embora possa ter sido antes. I’ll be there, Ben, Music and Me, Happy, canções pueris, cujas letras eu desconhecia, embalavam meus irrealizáveis sonhos românticos da infância. Então, o menino-prodígio do Jackson Five cresceu, mas conseguiu segurar os agudos, deu show de bola na carreira-solo e virou ícone mundial. Tive o privilégio de cobrir para Zero Hora quatro shows da turnê Dangerous, dois em Buenos Aires e dois no Morumbi, em São Paulo, em outubro de 1993. Momentos inesquecíveis em que assisti ao vivo a toda aquela magia.

Genuíno príncipe herdeiro da música negra americana, Michael misturou ritmos improváveis, revitalizou o pop, reinventou o videoclipe, cantou e dançou como ninguém. Elevado à categoria de mito, depois de personagem quase ficcional, isolado em sua Terra do Nunca particular, por vezes sucumbiu à própria fantasia. E como a mídia que incensa é a mesma que destrói, virou fonte inesgotável de assunto. Mas não podia se queixar disso, ao menos não inteiramente, pois contribuía para sua própria desconstrução. “Ninguém é normal quando está no palco desde os cinco anos de idade”, desabafou certa vez, ao receber o Grammy na auto-explicativa categoria de Lenda.

Lamentavelmente, a cor de sua pele, a sexualidade, as cirurgias plásticas, as acusações de abuso, tudo isso acabou se sobrepondo no imaginário de milhões de pessoas aos atributos do artista genial, cujo legado para a música internacional é de uma dimensão que a maioria ainda levará muito tempo para compreender. Michael era único, daquela categoria de artistas dos quais se pode dizer que jamais haverá outro sequer parecido. Um dos últimos grandes, verdadeiramente grandes. E como a maioria deles, parte cedo. A relação brilho intenso, vida breve prevalece mais uma vez.

Enquanto escrevia eu ouvia algumas de suas incontáveis canções de sucesso – Man in the Mirror é minha predileta, e era também a dele. Este texto está longe de expressar todo o significado de Michael, mas foi escrito sob a emoção da notícia que acabou de chegar, e que ainda nem foi adequadamente digerida. A notícia de que milhões de fãs em todo o mundo perderam sua estrela, de que ele nos deixou em desassossego, mas de que talvez ele, enfim, tenha paz.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

BOM FIM DE SEMANA




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FRASE

“É preciso ter estrela. O Rubinho Barrichello, por exemplo, tem estrela, apesar de muitos dizerem que não. É milionário, ganha muito dinheiro. O problema é que a estrela dele fica na bunda e se apaga quando ele senta no cockpit”.

Autora da elegante frase acima, e assustada com a repercussão, Hortência (que se fosse flor seria grafada com s), tentou se explicar em um confuso texto postado em seu blog. Depois de dizer que fizera uma brincadeira de mau gosto, pediu desculpas ao "grande amigo, inclusive já jogamos Golf juntos, e também uma pessoa que admiro Rubens Barriquelo." (o negrito é meu)

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