quinta-feira, 11 de abril de 2013

Os suspeitos de sempre

Em 1994 eu era editor executivo do jornal Zero Hora e tinha, entre minhas tarefas, editar a capa do jornal e coordenar a reunião de capa, da qual nem sempre participavam o diretor de redação e o editor-chefe. Nesta reunião os editores de cada área apresentavam os assuntos que teriam destaque na edição. Logo depois da implantação do Real, ao final de uma reunião na qual todos disseram não ter nada interessante naquele dia – cheguei a brincar: “Ok, a gente cancela a capa” –, solicitei à Rosane de Oliveira, editora de política, e ao Moisés Mendes, da economia, que permanecessem mais um pouco comigo e com o Ricardo Chaves, editor de fotografia, pois não poderíamos sair dali sem ao menos uma sugestão de manchete.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

sexta-feira, 20 de maio de 2011

LIVROS

A revolução de 1989

“Esta é uma história com um final feliz”, informa o autor na primeira linha de A Revolução de 1989 - A Queda do Império Soviético. "Ninguém que tenha testemunhado a alegria nas ruas de Berlim, Praga ou Budapeste no final de 1989 conseguirá esquecer aquelas extraordinárias cenas de celebração", segue Victor Sebestyen a respeito do tsuname libertário que encontrou seu ícone maior na queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. O final feliz, no caso a derrocada do comunismo patrocinado pela União Soviética que dominara a Europa Oriental desde o final da Segunda Guerra Mundial, foi especialmente feliz para o autor, jornalista húngaro obrigado a deixar sua terra natal após a invasão soviética. Nas décadas seguintes, Sebestyen acompanhou as transformações ocorridas na região a partir do privilegiado posto de correspondente internacional de publicações britânicas. A abordagem e a linguagem jornalísticas são, por sinal, uma das virtudes do livro. A narrativa direta e simples - prejudicada por uma revisão algo descuidada da edição brasileira - aproxima-se do didatismo. Embora pouco acrescente a quem acompanhou com atenção o desenrolar da história na segunda metade do século 20, traz detalhes que ajudam a iluminar um período sombrio da trajetória europeia e mundial.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LITERATURA

Suicídios exemplares


         Se o pensamento é o único território realmente livre de que dispomos, uma vez que os sonhos abarcam doses de desejos, temores e outras sensações obscuras despejadas pelo inconsciente – embora bem possa ser o contrário –, o suicídio é a última fronteira da capacidade humana de se rebelar contra as circunstâncias de vida, considere isso destino ou mera sequência aleatória de acontecimentos. A criatura, num ato de extrema rebeldia, desafia o poder de vida e morte do criador, ou simplesmente abre mão da própria vida na tentativa vã de provar algo a si mesmo ou, invariavelmente, a alguém, mesmo sabendo que, ainda que a mensagem chegue ao destinatário, o sacrifício já não lhe servirá de nada.
         Muitas vezes, a abordagem é menos romântica, transformando o ato em simples e rápida forma de se livrar de dificuldades cotidianas, sejam elas dívidas, excesso de responsabilidades ou prosaicos problemas de baixa auto-estima. Na interpretação de Albert Camus – a despeito de eventuais rancores ideológicos, figura de proa na literatura e na filosofia do século 20 –, o suicídio é a questão filosófica primordial. Trata-se de decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida, sendo o resto consequência de tal reflexão. Segundo Sêneca, nas Epístolas Morais a Lucílio, “nada melhor a lei interna fez do que nos dar uma entrada para a vida e muitas saídas”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

GENTE


Zélia Garcia



          Éramos todos muito jovens quando a conheci, nos anos 80, na redação do jornal Zero Hora. Os traços delicados, a pele morena, os cabelos radicalmente negros, a voz suave e algo rouca cujo tom eu jamais a veria elevar, formavam um conjunto que tornava Zélia Garcia uma mulher de todo modo interessante, mas havia mais: a delicadeza dos gestos, a educação refinada, os modos elegantes, a discrição sobre a vida pessoal, o charme natural reforçado por um guarda-roupa de bom gosto, com ênfase em cores escuras, em especial o preto, concediam a ela uma aura especial.
           Aos poucos nos aproximamos, mas foi quando troquei o Esporte pelo Segundo Caderno, no final daquela década, que o caminho de Zélia Garcia e o meu se cruzaram em definitivo. Eu era editor assistente e ela repórter especializada em moda, beleza, estilo e comportamento, assuntos sobre os quais viria a escrever para as maiores revistas nacionais do segmento, como Vogue, Marie Claire e Elle. Na primeira vez em que peguei um texto dela para editar, uma matéria sobre beleza para a contracapa da Revista ZH, chamei-a e perguntei se gostaria de me ajudar. Zélia, de acordo com os usos e costumes das redações de então, entregara o material e dera o assunto por encerrado, uma vez que os repórteres não costumavam ser convidados a participar da edição.

sábado, 17 de julho de 2010

LITERATURA


            A Humilhação de Philip Roth

            O americano Philip Roth publicou seu primeiro livro quando contava apenas 26 anos. Nem sempre escritores precoces se revelam dignos de nota, ao contrário, na maioria das vezes apenas contribuem para aumentar a pilha de obras descartáveis que se acumulam nas estantes do esquecimento literário. Roth estreou em grande estilo. Goodbye, Columbus, coletânea de novelas lançada em 1959, abriu-lhe as portas das livrarias e dos salões acadêmicos. De lá para cá foram três dezenas de títulos, nos quais, na média, saiu-se muitíssimo bem, tendo sido agraciado com incontáveis prêmios e amealhado legiões de aficionados mundo afora.
            A Humilhação, trigésimo livro de Roth, que acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras, está longe de representar o melhor de sua obra e recebeu, com justiça, muitas críticas negativas. Aos 77 anos, Roth parece ter ingressado na inescapável zona de conforto a que estão submetidos todos os autores, mesmo os mais talentosos, em especial os prolixos e os longevos. Ainda assim, seria injusto relegar A Humilhação ao limbo das obras menores. Até porque, em certos momentos emerge de páginas menos estimulantes o velho brilho que nunca se apaga de todo.

domingo, 6 de junho de 2010

LITERATURA

A desconstrução de J. M. Coetzee

           
            Vincent, um jovem biógrafo inglês, baseia-se em anotações inéditas de seu biografado e em depoimentos de pessoas que conviveram com ele antes da fama – especialmente mulheres – para montar um surpreendente retrato do escritor sul-africano J. M. Coetzee. Romancista de talento invulgar, dono de uma prosa simples e elegante, capaz de conceder ao cotidiano um caráter envolvente e engajado, Coetzee sempre foi reconhecido também pela força de suas convicções políticas, suas críticas ácidas a questões que perpassam a formação da África do Sul como nação, sua autocrítica em relação às próprias fragilidades e uma visão sistêmica e lúcida da sociedade moderna.

            Em Verão, que acaba de sair no Brasil pela Cia. Das Letras, o jovem Vincent nos revela que Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel e morto em 2005, jamais soube conduzir sua própria vida com a mesma desenvoltura exibida nas páginas de seus incontáveis livros de sucesso. Os fragmentos e relatos reunidos pelo biógrafo acabam por moldar a imagem de um homem tímido, de poucas ambições e iniciativas, dotado de um conformismo ancestral, de uma absoluta inabilidade no trato com as mulheres e quase assexuado.

PENSATA

O perigo da história única


Este vídeo traz uma reflexão interessante sobre a arte - e a responsabilidade - de contar histórias. Vale a pena.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

LITERATURA


Paul Auster apenas flerta com
retorno a seus melhores momentos


      Utilizar um escritor como personagem central de um romance é recurso adotado por muitos autores, e tampouco é a primeira vez que Paul Auster o emprega. Romances, sabe-se, tem sempre muito de autobiográfico, até pela impossibilidade de se promover uma separação absoluta entre o experimentado e o imaginado (por certo na hora de escrever, talvez mesmo na hora de recordar). O primeiro capítulo de Invisível, mais recente título de Auster que a Companhia das Letras acaba de lançar no Brasil, é narrado na primeira pessoa pelo jovem Adam Walker, um estudante com pretensões literárias que se envolve com Rudolf Born e Margot, uma dupla tão sedutora quanto misteriosa. Born propõe ao jovem a produção de uma revista literária bancada por ele, mas o que parecia um belo sonho aos poucos vai se transformando em pesadelo, compensando no início por uma relação fugaz com Margot.

     Em determinando momento, Walker, já velho, doente e com pouco tempo de vida, resolve pedir ajuda a um colega que não via desde a faculdade e que, ao contrário dele, obteve sucesso como escritor. Walker não sabe como seguir adiante com a história, até por envolver um tema muito delicado – o qual ele não revela ao amigo. Uma das maneiras de superar bloqueios temporários, sugere o velho parceiro, é mudar o discurso, passando da primeira para a terceira pessoa, por exemplo. Assim, no segundo capítulo o “eu” dá lugar ao “você”, numa interessante variação narrativa. O tema mantido em sigilo é nada menos do que um tórrido caso de Walker com a própria irmã. Questões morais à parte, certos trechos soam apelativos, falta-lhe alguma sutileza, quem sabe, mas o principal problema é que parece que se está diante de um outro Walker, não porque o autor obtenha sucesso em mostrar todas as facetas de um ser humano em conflito, mas por parecer meramente desencaixado.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

JORNALISMO LITERÁRIO

Gay Talese é sempre
uma ótima notícia

(Texto publicado originalmente na revista Aplauso) 


Depois de me engalfinhar por alguns minutos com a conexão do fone de ouvido e de aceitar o fato de que mais um equipamento novo, e caro, não funciona adequadamente, e de maldizer os fabricantes de tudo que não funciona adequadamente, olhei para o relógio e pensei no meu editor chegando à sua mesa de trabalho, pela manhã, e esbravejando ainda mais ao não encontrar o meu texto em seu e-mail. Flávio Ilha é um homem experimentado, inclusive nos círculos do poder, tendo sido repórter na capital federal por muitos anos e, após passar por tão variadas e ricas experiências, tolerar alguns atrasos de um resenhista veterano talvez não seja assim tão exasperante. Ele tem sido compreensivo, quem sabe porque eu tenha crédito, e um raro atraso em função de compromissos profissionais de conhecimento público seja mesmo aceitável.

          O fato é que deixei para o último minuto, pensei em escrever a mão e depois pedir para alguém transcrever enquanto eu dormia por um período decente, só para quebrar a rotina dos últimos dias. Valer-me da caneta teria sido uma bela homenagem ao autor do livro que me dispus a comentar – como o foi abrir o texto desse modo –, ainda que qualquer comparação esteja a anos-luz de todos nós, uma vez que se trata de um dos maiores jornalistas de que se tem notícia, um ícone, alguém capaz de fazer jovens enveredarem pelo caminho tortuoso da cobertura dos fatos, tanto quanto de devolver aos mais experientes um genuíno orgulho pelo ofício.

sexta-feira, 26 de junho de 2009




MICHAEL JACKSON

Jamais haverá outro como ele

Lembro-me de tê-lo ouvido pela primeira vez quando eu tinha uns oito anos de idade, e ele 10, embora possa ter sido antes. I’ll be there, Ben, Music and Me, Happy, canções pueris, cujas letras eu desconhecia, embalavam meus irrealizáveis sonhos românticos da infância. Então, o menino-prodígio do Jackson Five cresceu, mas conseguiu segurar os agudos, deu show de bola na carreira-solo e virou ícone mundial. Tive o privilégio de cobrir para Zero Hora quatro shows da turnê Dangerous, dois em Buenos Aires e dois no Morumbi, em São Paulo, em outubro de 1993. Momentos inesquecíveis em que assisti ao vivo a toda aquela magia.

Genuíno príncipe herdeiro da música negra americana, Michael misturou ritmos improváveis, revitalizou o pop, reinventou o videoclipe, cantou e dançou como ninguém. Elevado à categoria de mito, depois de personagem quase ficcional, isolado em sua Terra do Nunca particular, por vezes sucumbiu à própria fantasia. E como a mídia que incensa é a mesma que destrói, virou fonte inesgotável de assunto. Mas não podia se queixar disso, ao menos não inteiramente, pois contribuía para sua própria desconstrução. “Ninguém é normal quando está no palco desde os cinco anos de idade”, desabafou certa vez, ao receber o Grammy na auto-explicativa categoria de Lenda.

Lamentavelmente, a cor de sua pele, a sexualidade, as cirurgias plásticas, as acusações de abuso, tudo isso acabou se sobrepondo no imaginário de milhões de pessoas aos atributos do artista genial, cujo legado para a música internacional é de uma dimensão que a maioria ainda levará muito tempo para compreender. Michael era único, daquela categoria de artistas dos quais se pode dizer que jamais haverá outro sequer parecido. Um dos últimos grandes, verdadeiramente grandes. E como a maioria deles, parte cedo. A relação brilho intenso, vida breve prevalece mais uma vez.

Enquanto escrevia eu ouvia algumas de suas incontáveis canções de sucesso – Man in the Mirror é minha predileta, e era também a dele. Este texto está longe de expressar todo o significado de Michael, mas foi escrito sob a emoção da notícia que acabou de chegar, e que ainda nem foi adequadamente digerida. A notícia de que milhões de fãs em todo o mundo perderam sua estrela, de que ele nos deixou em desassossego, mas de que talvez ele, enfim, tenha paz.

Publicado originalmente no jornal Zero Hora.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

BOM FIM DE SEMANA




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FRASE

“É preciso ter estrela. O Rubinho Barrichello, por exemplo, tem estrela, apesar de muitos dizerem que não. É milionário, ganha muito dinheiro. O problema é que a estrela dele fica na bunda e se apaga quando ele senta no cockpit”.

Autora da elegante frase acima, e assustada com a repercussão, Hortência (que se fosse flor seria grafada com s), tentou se explicar em um confuso texto postado em seu blog. Depois de dizer que fizera uma brincadeira de mau gosto, pediu desculpas ao "grande amigo, inclusive já jogamos Golf juntos, e também uma pessoa que admiro Rubens Barriquelo." (o negrito é meu)

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PLANETA TERRA




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COTIDIANO

Vide o verso

A prefeitura de Porto Alegre promove, há alguns anos, o concurso Poemas no Ônibus, cujos vencedores, como o nome indica, têm sua obra exibida internamente nos coletivos. Motivado por interesses, digamos, arqueológicos, dia desses decidi embarcar em algumas linhas por breves trechos, o bastante para fazer um pequeno inventário desses trabalhos e quem sabe escrever algo a respeito. Poderia, é claro, valer-me da internet, mas queria observar de que modo eram distribuídos e, acima de tudo, qual era a reação dos passageiros. Alguém se daria ao trabalho de lê-los ou tais poemas passavam despercebidos como placas de “não fume” ou “fale com o motorista somente o indispensável”?

Embarquei no primeiro ônibus do que imaginava seria uma sequência, sentei-me e lá estava:

"Minas de poesia
calos
drumond
de andar"

Sim, era isso mesmo, e só isso, um dos vencedores. Puxei a tradicional cordinha e desci na próxima parada.



Acidentes necessários

Antes de desembarcar do ônibus, ainda tive tempo de ler um aviso:

"Segure-se: evite acidentes desnecessários."

Eu não consegui imaginar o que seriam acidentes necessários, mas, depois que um prestigiado jornal gaúcho criou o “assalto-surpresa” em uma chamada de capa, tudo é possível.



Mas, se o mesmo encontra-se...

Lembrei-me então daquele clássico:
“Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.”



The best

Jamais encontrei, no entanto, algo parecido com o aviso afixado na vitrina de uma loja de objetos de decoração em Florianópolis:
“O estacionar, para não compra, será cobrado R$ 17,00.”


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terça-feira, 28 de abril de 2009

CRÔNICA

Passeio numa tarde de sábado

Miley (pronuncia-se Máili), a siamesa de nome inspirado em Miley Cyrus, estrela da hora da Disney, e obviamente colocado por minhas filhas, arregala os olhos que à luz do sol são de um azul improvavelmente cristalino, observa-me a amarrar os cadarços dos tênis, resmunga alguma coisa e se conforma num canto da sala. Estamos em pleno outono, estação rebaixada à condição de breve ponte entre verões insistentes e invernos tardios. O aquecimento global é mais presente do que gostaríamos de supor, mas agora só me importa ganhar as ruas e queimar algumas calorias, sentir a liberdade da leve brisa de encontro ao rosto, o prazer do suor a empapar a camiseta preta e quem sabe, com pouco mais de uma hora de esforço, saborear uma compensadora dose de endorfina (cujo nome, aprendi só outro dia, significa “a morfina que vem de dentro”, ou algo assim).

O percurso começa lomba acima, trecho curto, no qual passo por um mercadinho com um cão muito esquisito por trás das grades do pátio, uma oficina mecânica e uma igreja messiânica qualquer, de nome indecorável, mas chamativo o bastante para lotar o salão tão logo se instalou numa antiga loja de flores, plantas e supostos projetos de paisagismo. Uma descida média, agora. À direita encaro o semblante desconsolado de um homem de meia-idade sentado numa cadeira comum em frente à Zélia Modas, loja de confecções gradeada situada num ponto morto da rua, de pedestres e carros escassos, sobrevivendo sabe-se lá como enquanto, à esquerda, desvio rapidamente o olhar de um casal jovem num carro popular estacionado, trocando juras de amor eterno que se desvanecerão em breve como seu melhor jeans.

Outra subida, desta vez mais curta, mas bem mais íngreme, e chego a uma praça que ocupa duas quadras, cortada ao meio, na vertical, por uma ruela que leva de nada a lugar algum. Arrisco dar algumas voltas na segunda metade, tendo de desviar de cacos de vidros de garrafas atiradas por bêbados ou vândalos, e cruzo com duas velhinhas a caráter, vestidas com aquele tipo de roupa que se compra para mostrar para todo mundo, em especial os vizinhos, que se pratica algum tipo de esporte. Eu corro, elas caminham, mas, a cada volta, eu as encontro num ponto anterior, o que significa que elas devem estar indo mais rápido do que eu. Estranho... Mas deve haver uma explicação.

Mais uma ladeira a desbravar, ainda mais longa e extenuante. Ao final dela, passo defronte a um posto da antiga LBA, a Legião Brasileira de Assistência, desmoralizada e extinta pelas roubalheiras da Era Collor, e que em minha infância eu conhecia como “A Legião”. Vem-me à mente, com a clareza das memórias necessárias para preservar um pouco do lúdico perdido, a ocasião em que, levado por Emília, minha avó materna, para tomar uma vacina ali, recebi depois como recompensa pela agulhada um compacto simples, disco de vinil com uma faixa de cada lado, dos Carpenters. De um lado, Mr. Postman; de outro, This Masquerade. A doce voz de Karen se faz ouvir ao longe, a long, long time ago.

As subidas acabaram. Agora vem um trecho plano, algumas descidas. Passo em frente a uma casa de madeira, daquelas típicas do bairro da infância, quase vizinho dali. Esta difere das outras apenas por uma placa na fachada: “Cartomante, Tarô, Bruxaria, Wicka. Consultas somente agendadas” e um número de telefone que, na dúvida, registro na agenda do celular. Quem sabe em que momento da vida o impensável pode se converter em razoável?

Mais subida, agora longa, bem longa, e vou parar numa avenida quase estrada, a um só tempo movimentada e remota, muito além do que imaginava ir. Será a endorfina? Será a wicka?
Duas prostitutas tentam, à luz do dia e às portas de um novo empreendimento imobiliário que se imagina exclusivo, oferecer seus corpos precários a motoristas solitários, um Gol com uns bons vinte anos de uso para, uma delas corre para negociar, a outra observa interessada, afinal, são dois os ocupantes do veículo.

Sei onde estou, mas não conheço aquelas ruas, entro em duas ou três delas, todas sem saída. Alguém teve a idéia de tornar o lugar exclusivo abrindo ruas sem saída. Melhor que fechassem tudo logo, mas preferiram se apoderar da via pública sem de fato fazê-lo (e sem pagar os impostos subjacentes), tornando qualquer passante um intruso, alguém que não deveria estar ali, olhado com desconfiança por senhoras zelosas de seus jardins e homens barrigudos a lavar os carros nas calçadas.

Agora tenho pela frente uma forte descida, que ao contrário do que pensam os não habitués, nada oferece de conforto, ao contrário, exige das articulações um sacrifício já demasiado depois de tanto esforço.

Enfim, um terreno levemente inclinado para cima. Terei subidas piores depois, mas ainda é cedo para me preocupar com isso. O caminho que sigo agora ladeia um campo de várzea, cuja extinção absoluta, embora lamentada com certo entusiasmo, está fadada a jamais se confirmar. O campo fica lá embaixo, estou no topo do barranco e encontro um toco de árvore, próximo a uma parada de ônibus, que por algum tempo será meu desconfortável acento no que passo a considerar a arquibancada superior. Uma equipe de vermelho enfrenta outra de laranja. Na maioria, homens passados dos quarenta, ao menos três deles com mais de sessenta. E ruins, de modo geral, em especial os goleiros. Nas peladas, sabe-se, vão para o gol não os mais habilidosos no gol, mas os de futebol mais medíocre, despachados para o lugar no qual, supostamente, causarão menos estragos.

Dois atletas de fim de semana, com suas barrigas de segunda a domingo, chamam-me a atenção. Um é do time laranja: negro alto, magro, cheio de pose, joga de volante e, quem sabe influenciado pela cor da camisa, porta-se como um Gullit. Embora exiba boa técnica, Gullit, como passo a vê-lo, é muito individualista, acaba sempre perdendo a bola no momento crucial. Seria mais produtivo se passasse mais. O outro é da equipe vermelha e usa uma chamativa bandana estampada, razão pela qual eu o apelido mentalmente de Pirata. O Pirata é o atacante mais efetivo, o que sempre busca a grande área.

Na linha de fundo à minha direita, lá embaixo, um bêbado reclama do goleiro, brandindo uma garrafa em cada mão. Minha bunda começa a doer. O toco de árvore é providencial, mas muito desconfortável. Penso nisso quando sinto algo se aproximar demais de mim, viro-me à esquerda e entra em primeiro plano as rodas de um táxi. Talvez entediado por trabalhar num dia de sol tão lindo, talvez porque os passageiros sumiram, o taxista invadiu a escassa relva do barranco para ver homens sem habilidade brigando pela bola num campo cuja grama se restringe a uma rala moldura. O jogo todo se desenvolve na areia. É quase beach soccer, mas mais duro.

Boa, Pirata, vai! Não adianta, bucaneiro, você está só. Um atacante com barriga acima do aceitável, mesmo para os padrões dali, recebe a bola sozinho, corre, corre, corre, chega na frente do goleiro e toca para fora de modo patético. Levanto-me de imediato, no que sou acompanhado pelo taxista. Isso fora demais para nós dois.

Depois de quase quarenta minutos no toco, não é só a bunda que dói. Os pés, as pernas, antes em intensa atividade, foram parados de súbito e tiveram de se adaptar ao toco nada ergonômico. A circulação agora cobrará seu preço, o caminho que resta de volta será penoso, entre ruas mal calçadas e dribles em cocôs caninos nas praças. Já próximo da chegada, cruzo com duas velhinhas bem vestidas, com aquelas roupas que... não, não pode ser.

Miley me recebe com um ronronado, um bocejo, uma espreguiçada e alguma ironia. Passara a tarde toda cochilando, agora comeria algo e voltaria a cochilar, enquanto eu suava feito doido.


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MÍDIA

Bocelli nada viu em 35 de abril

Quando o politicamente correto ainda não eliminara certas anedotas, ouvia-se muito a seguinte frase: “Você viu o novo disco (nem havia CD ainda) do Steve Wonder?” Se o incauto respondesse “não”, vinha o complemento: “Nem ele”, e o piadista caía na risada. O gracejo já era velho quando surgiu o CD. Ainda assim, muitos continuaram a aplicá-lo. Difícil imaginar quem nunca ouviu tal bobagem. Na terça-feira 21 de abril, no entanto, uma repórter do Jornal Nacional, cujo nome não registrei, começou o texto da cobertura do show de Andréa Bocelli em São Paulo com a seguinte frase: “Deficiente visual, Andréa Bocelli não viu as 25 mil pessoas que...”

Na edição de 25 de abril, o repórter Pedro Bassan, direto de Portugal, abriu assim a matéria sobre os 35 anos da Revolução dos Cravos: “35 de abril. Uma data...”
A MÚSICA NA HISTÓRIA


Veja o depoimento de Chico Buarque a respeito das duas versões da canção Tanto Mar, criada em homenagem à Revolução dos Cravos.





MÍDIA



A coluna de Augusto Nunes na Veja.com está no ar desde a semana passada, com atualizações diárias.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/


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quinta-feira, 9 de abril de 2009

B O M F E R I A D O

Fiquem com a mensagem de Always Look on the Bright Side of Life, do filme A Vida de Brian (1979), do Monty Python.




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M Í D I A

Nas trincheiras da notícia

O GP da Malásia de Fórmula-1 é um teste de audiência no Brasil: só assiste quem gosta muito de ver carrinhos andando velozes por quase duas horas, afinal, 6h da manhã é tarde demais para uns, cedo demais para outros. Na dúvida, emendei. A corrida começou num ritmo capaz de espantar o sono, e a chuvarada que caiu em seguida parecia prometer grandes emoções. Que nada, a prova acabou com os carros parados, depois de uma espera de 50 minutos até ela ser encerrada por falta de condições da pista, por falta de luminosidade e por falta de bom senso dos dirigentes que – para torná-la mais agradável aos europeus – a colocaram num horário de chuvas notórias e anoitecer iminente.

Tão logo os carros foram alinhados no grid à espera da nova largada que não viria, enquanto os pilotos eram cobertos com guarda-chuvas, suas sapatilhas com galochas e os carros protegidos por lonas, Galvão Bueno pediu ao repórter Carlos Gil para que contasse o que acontecia na pista e nos boxes, o que pensavam os brasileiros, enfim, algo que não se estivesse vendo pela TV. Gil informou então que ele, a exemplo da maioria dos jornalistas, havia se abrigado numa área VIP de um dos patrocinadores do GP tão logo irrompera o aguaceiro. Galvão emendou: “Gil, sugiro que você vá até lá e nos conte o que está acontecendo”. O sugiro, antes de gentileza, foi por certo um merecido deboche. O friorento repórter não se constrangeu: “Pô, mui amigo, hein?”. Ou seja: o sujeito é pago para cobrir um dos mais importantes eventos esportivos do mundo para a maior rede de TV do País, que o manda até a Malásia e, quando uma enxurrada interrompe a prova sua primeira atitude é se abrigar, ficando bem longe da chuva. E da notícia.

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M Í D I A

Um dia a casa cai

A Veja da semana passada trouxe como matéria de capa o caso Daslu, com a chamada “A Queda da Casa do Luxo”. A associação foi imediata, afinal, “A Queda da Casa de Usher” é um dos mais famosos contos de Edgar Alan Poe. Esse foi meu primeiro pensamento. O segundo foi: quantos leitores ligaram o nome à pessoa? Não me considero possuidor de uma formação especialmente sólida, mas a simples condição de jornalista já implica certas obrigações, como níveis de leitura, de cultura geral e de atenção aos detalhes superiores à média. Comentei o título da Veja, sem citar Poe, com alguns jornalistas de, digamos, pouca milhagem, e nenhum deles fez a referência. Alguns sequer conheciam o conto. Felizmente, todos conheciam Poe, embora eu desconfie que poucos o tenham lido. O nível de cultura, tanto da alta quanto da baixa, cultura geral mesmo, anda cada vez menor, mesmo entre profissionais que ganham a vida com as palavras. O editor da Veja teve uma sacada, deve ter se sentido contente com isso, mas o segundo pensamento dele deve ter sido semelhante ao meu.

Leia A Queda da Casa de Usher na íntegra:
L I T E R A T U R A

Império à deriva


Raramente releio algo. A idéia de morrer sem ler tudo de bom que já foi escrito – temor comum a todos os apaixonados por livros –, e a certeza de que assim será, induzem-nos a deixar para trás textos já saboreados, ainda que prazeres incomparáveis nos façam sempre querer retornar a velhas páginas. Por razões de pesquisa – o livro é muito bom, mas está longe de integrar a estante VIP de minha biblioteca –, acabo de reler Império à Deriva, que lera havia apenas uns dois anos. O australiano Patrick Wilcken conta a saga da transferência da corte portuguesa para os trópicos, fugindo da dominação napoleônica na Europa, e os anos passados no Brasil até novas urgências a fazerem percorrer o caminho de volta. O livro, publicado pela Objetiva, traça um retrato deliciosamente cru do choque cultural inicial e de como a aristocracia de além-mar e a incipiente burguesia nacional souberam se adaptar e tirar vantagens mútuas da situação, num pacto de convivência que ajuda a entender a formação da moderna sociedade brasileira.


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