quinta-feira, 21 de agosto de 2008
O olhar erguido para o céu, o semblante crispado pelo cansaço e pela revolta, e a indagação suprema: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?” Nada, Marta. Não é assim que funciona no futebol. Tampouco na vida. Tanto aí, neste espaço verde que flutua entre o sacro e o demoníaco, quanto aqui fora, no imenso vazio de justiça e paz.
Você, Marta, ao contrário de tantos integrantes do time olímpico brasileiro, em especial aqueles rapazes que são seus colegas de modalidade, ao menos tem o direito de perguntar. Eles não precisam, seja porque já sabem, seja porque vão dormir com a serenidade dos inconscientes.
Sabe, Marta, esporte é assim mesmo, ainda mais esporte coletivo, que depende de tanta gente acertar ao mesmo tempo e, quando isso acontece, nem sempre se traduz em vitória. A vida é assim, Marta.
Milhões de pessoas se perguntam todos os dias, ao acordar para mais uma jornada exaustiva de trabalho, de transporte coletivo abarrotado, de remuneração miserável, enquanto tantos enriquecem roubando, alguns roubando dinheiro público, produzido com o suor desta jornada exaustiva: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”
São outros tantos, que sempre praticaram o bem, a solidariedade, a generosidade, e que acabam por se tornar vítimas da violência de nossos tempos, a se perguntar diante de tanta crueldade: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”
O cidadão que nada fez de errado, e ainda assim sofre com atos prepotentes ou equivocados da Justiça, ao observá-la tão branda com criminosos notórios de ternos bem cortados, ou concedendo penas leves à bandidagem pesada, este por certo se pergunta: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”
Não vivemos numa meritocracia. Honestidade, esforço, dedicação, suor, competência, talento, lealdade, nada disso é sinônimo de recompensa.
No futebol é diferente, é verdade. Não adianta jogar melhor, não basta ter mais técnica ou se esforçar ao extremo. Você fez tudo isso, mas desta vez, você e suas colegas não conseguiram fazer o gol, e isso se sobrepõe a todo o resto. Pensando friamente, venceu quem marcou gol, que é o objetivo do futebol, e isso não pode ser classificado como injustiça.
Claro, Marta, você já está cansada de ser vice, duas vezes no Mundial, duas nas Olimpíadas, duas na Europa. É, deve cansar mesmo. Além do mais, o que para nós é apenas um jogo, para você é imensamente mais do que isso. Mas você foi eleita duas vezes a melhor do mundo e é ídolo de milhões.
De todo modo, seu desabafo repete o desabafo de muita gente, todos os dias. Sua identificação com o povo, que já era enorme, certamente aumentou.
O ouro seria uma maravilha, até para ficar marcado como o primeiro desta modalidade em que os rapazes não conseguem triunfar. Não seria o máximo, no machista país do futebol, o primeiro ouro ser das mulheres?
Mas você tentou, fez de tudo, a gente viu. A medalha é de prata, você é de ouro.
Beijos no coração, Marta.
Durma bem.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
O CLASSE MÉDIA QUE SOBE
Augusto Nunes
O paulistano João Rogério da Silva Alves, 36 anos, 15 dos quais casado com Maria Cavalcanti, é motorista de táxi há 13. Mora com a mulher e duas filhas (14 e 9 anos) no bairro de Cachoeira, um amontoado de construções tristonhas que parecem mais velhas do que são – e sempre à espera do acabamento, dos atavios e dos móveis que não virão. O serviço de água funciona razoavelmente, a rua é asfaltada, mas a rede de saneamento básico ainda não chegou lá. A exemplo dos vizinhos, os Alves se livram dos detritos e dejetos do dia no leito de um córrego que depois os despeja no Rio Tietê.
A casa, alugada por R$ 300 mensais, tem dois cômodos de 12 m². O reservado à cozinha acabou acumulando as funções de sala de visitas, sala de jantar e copa. O outro é o quarto, dividido ao meio por um lençol ali pendurado para sugerir a inexistente privacidade. Nesse espaço estão a cama do casal e a das filhas, separadas por centímetros, além da TV comprada em janeiro de 2006 por R$ 800, fatiados em 12 prestações. "De lá para cá não tive dinheiro para mais nada", diz Alves. Nem para o carro próprio, que o dispensaria da porcentagem cobrada pelo patrão.
Há 13 anos a serviço do dono de uma frota de táxis, acorda sempre às 5h, busca o veículo na garagem da empresa e estaciona antes das 6h no ponto localizado na esquina entre a Alameda Peixoto Gomide e a Rua Oscar Freire, no coração dos Jardins. Nas 16 horas seguintes, estará ou à espera de algum passageiro, ou circulando pelos labirintos da metrópole, ou testando a paciência em ruas congestionadas.
Dorme perto de meia-noite. Folga aos domingos se juntou o suficiente durante a semana. Não tira férias há mais de 10 anos. "Com o que ganho, não dá para ter luxos, mas não devo nada a ninguém", diz. "Vivo uma vida de pobre". Ganha por mês cerca de R$ 1.800, que se somam aos R$ 400 que a mulher consegue como diarista. A renda familiar ultrapassa amplamente a fronteira, redefinida em 6 de agosto pela Fundação Getúlio Vargas, que separa a pobreza da classe média. "Você chegou aos R$ 1.064", deveria prevenir alguma placa. Por falta de aviso, Alves só soube na quinta-feira que subira na vida sem mudar de vida. Continuava pobre, mas na classe média.
"Como é que posso ser da classe média se não tenho como fazer o que faz a classe média?", intriga-se. Pergunto-lhe o que acha que faz a turma da divisão a que foi promovido. A classe média vai ao cinema ou ao teatro uma vez por semana, exemplifica. "E sai para comer num restaurante melhorzinho". Alves não vai ao cinema há 15 anos e nunca foi ao teatro. "Vontade eu tenho, o que não tenho é dinheiro", desculpa-se. Mas de vez em quando vai com a família a uma churrascaria, ressalva. Foi pela última vez faz três anos.
Ele por acaso notou que a pobreza está diminuindo, e em alta velocidade, como garante a pesquisa? "Só se os pobres dos bairros que esses caras pesquisaram mudaram todos para o meu", acha graça. Aponta um punhado de deficientes físicos e mulheres em andrajos com crianças de colo e emenda: "É assim em qualquer esquina". No fim da corrida, ele avisa que resolveu conferir a promoção: "Se entrei na classe média, vou usar o elevador social", sorri. "Até hoje só pude usar o elevador de serviço".
O indigente e a ararinha azul

Os alquimistas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas não fariam feio se disputassem com os curandeiros da Fundação Getúlio Vargas a final do campeonato brasileiro de levantamento de pobre. Só anda faltando à direção do time mais esperteza marqueteira. Foi um erro, por exemplo, divulgar o levantamento do IPEA, também circunscrito às seis maiores metrópoles do País, junto com estudo da FGV intitulado A nova classe média. Ao transplantar um pedaço da pobreza para o organismo debilitado da classe média, a FGV mandou um petardo no ângulo que acabou ofuscando os dribles e passes de trivela dos craques do IPEA.
Um dos lances mais vistosos resultou na expulsão de milhões de brasileiros do campo da pobreza, restrito a famílias com renda mensal abaixo de R$ 207. De 2003 a 2008, segundo o IPEA, o índice baixou de 35% para 21,1%. Eram 14.352.753 no primeiro dia da Era Lula. Cinco anos depois, 4 milhões saíram do atoleiro. Os efeitos da pesquisa foram ainda mais agudos entre os miseráveis, rebatizados como "indigentes": os que sobrevivem com menos de R$ 103,75 caíram de 13,7% para 6,6%. Indigente agora virou uma espécie em extinção. Em 2010, será mais fácil enxergar uma ararinha azul que um genuíno miserabilis brasilis.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
No início dos anos 90, o jornal Zero Hora publicava em sua revista dominical três seções com textos bem humorados: “Um Lugar”, “Espécies em Extinção” e “História Universal da Infâmia”. Escrevi vários deles, entre os quais o “Um Lugar” que reproduzo a seguir.
A Casa da Mãe Joana
A Casa da Mãe Joana – que me perdoem os filhos de Joanas – é uma zona. A qualquer hora do dia ou da noite registra um constante e insondável trânsito de indivíduos, a maioria dos quais nem a dona da Casa, a Joana em pessoa, seria capaz de identificar. Como uma genuína área conflagrada, exibe muito barulho, sujeira e um toque de surrealismo. Nela, misturam-se espécimes das mais exóticas tribos. Trata-se de um dos poucos lugares do mundo em que é impossível se sentir solitário.
Encontrar um objeto perdido na Casa, nem pensar. Ele tanto poderá estar dentro da tuba do tio-avô Eraldo (filho, dizem, da primeira Joana de que se tem notícia) quanto no baú de mágico daquele sujeito que afirma pertencer à família, tem o melhor quarto da Casa e ocupa a cabeceira às refeições, mas que ninguém sabe de onde veio. As refeições, por sinal, provocam cenas dantescas. Melhor esquecê-las. Não seria elegante falarmos aqui de temas como canibalismo.
A Casa da Mãe Joana é um terreno no qual confraternizam pervertidos, corruptos, vigaristas, aproveitadores em geral e mesmo algumas estirpes politicamente corretas. A Mãe Joana tudo permite, nada vê. Seus domínios há muito se expandiram. Tomaram conta do bairro, da cidade, da região e, finalmente, do País. Um dia a gandaia se generalizou. O Brasil transformou-se numa imensa Casa, e lá estava Mãe Joana, pronta para tomar conta do pedaço.
Ao longo dos anos, ocasionalmente apareceu alguém disposto a botar ordem na Casa. Perda de tempo. Em seguida, como toda mãe que se preza, ela desautorizava qualquer repreensão e passava a mão na cabeça dos filhos errantes. A Mãe Joana sobreviveu a vários golpes, a muitos dígitos de inflação, a uma roubalheira desmedida, sempre com a mesma fleuma. Há quem diga que, não fosse a Mãe Joana, o País entraria nos eixos. Mas Mãe Joana é imperecível.
A Casa da Mãe Joana é como sabonete de quartel: todos põem a mão. Tentar entender o mecanismo que move o cotidiano da Casa da Mãe Joana converte-se em esforço inútil. Quando algo se revela previsível, lógico, Joana se encarrega de desfazer o mal-entendido. “Tá pensando que isso aqui é o quê? A Casa da Sogra?” – esbraveja. Ela não admite comparações. A Casa da Sogra é noutro lugar, a despeito de eventuais semelhanças. Algumas sogras se chamam Joana, é verdade, e tentam imitar a original, mas nenhuma tem o seu talento para o inverossímil e para a contemplação do absurdo. A Sogra também é pródiga em abrigar confusão, mas ainda é possível entender o funcionamento de sua Casa e identificar os protagonistas.
Consta do imaginário do Rio (aquela parte do Rio que ainda se dá ao luxo de ter imaginário) uma Casa da Mãe Joana real, refúgio de boêmios, deserdados e sonhadores. Consta ainda que um dia a Casa migrou para Brasília, onde Joana acabou por se sentir incomodada com a vizinhança. Mas, claro, o imaginário é por vezes apenas um punhado de lendas com arrogância de realidade.
Nos últimos anos pouco se tem ouvido falar na Mãe Joana. Dizem que se desiludiu com a vulgarização de suas teses, especialmente no Planalto. “Hoje todos se acham no direito de esculhambar a Casa”. Isso a derrotou. A Mãe Joana foi vista pela última vez num boteco da Avenida Atlântica, em Copacabana. Vestia-se como vedete de teatro de revista em versão punk, bebia sem parar e gritava com orgulho: “Eu fui a primeira!”. Os habitués do local não pareciam compreendê-la.
Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 2 de janeiro de 1994.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O português da última página
Lá pelo final dos anos 70, início dos 80, uma revista hoje extinta brilhava sozinha no mercado brasileiro das masculinas da era pré-Playboy. O diretor de redação era Wagner Carelli. A última página da publicação costumava ser ocupada por textos de colaboradores variados. Um dia, Wagner, que ainda não completara 30 anos de idade, mas já revelara seu imenso talento, cruzou nos corredores da editora com o chefe, mais experiente, famoso, e seu amigo de longa data. “Quem diabos é aquele português que você colocou na última página?” – perguntou o amigo. Tratava-se de um completo desconhecido. Aparentemente, não fazia sentido dedicar espaço tão nobre a alguém sem projeção. Carelli não vacilou: “Ele escreve bem pra caramba”, respondeu, mas não foi levado muito a sério.
Alguns meses depois, o tal português voltou a freqüentar as páginas e o diretor de redação foi novamente questionado pelo colega. “Por que você insiste com este português do qual ninguém nunca ouviu falar?” Carelli limitou-se a repetir: “Ele escreve bem pra caramba.” Com pequenas variações, a cena se repetiu várias vezes nos meses seguintes. Tornara-se um ritual. Saía um texto do português, Carelli era interpelado pelo amigo, respondia do mesmo jeito. Aos poucos, acrescentou mais ousadia às suas palavras: “Ele escreve bem pra caramba. Na verdade, é um dos autores que melhor escreve em língua portuguesa hoje em dia.” O colega balançava a cabeça em sinal de desaprovação. Às vezes retrucava: “Não vejo nada de mais no texto deste cara.”
O tema tornou-se tedioso, mas agora era um jogo do qual nenhum dos dois conseguia sair. A cada investida, aumentavam os adjetivos de ambos os lados. “O que você viu neste porra de português?” “Ele escreve bem pra caramba, e vou te dizer mais, ele ainda vai ganhar o Nobel”. O limite havia sido ultrapassado. A engolir o português o colega já se acostumara, mas ouvir tal disparate já era demais. O resultado foi uma grande gargalhada. Daí em diante, a história do Nobel tornou-se a chave do amistoso bate-boca.
Uma das últimas vezes em tocaram no assunto foi quando o português esteve no Brasil e visitou a editora. Ele estava muito grato pela confiança nele depositada. Já havia publicado dois livros em seu país, que podiam ser adquiridos no Brasil, mas em edições caras e limitadas: Levantando do Chão e Memorial do Convento. Preparava o lançamento de Jangada de Pedra. Ainda não podia se dar ao luxo de viver só dos livros, precisava dos frees para sobreviver. Chamava-se José Saramago, nome que, para a maioria, era apenas o do português da última página.
Como sabemos, o tal português virou best-seller, escreveu obras-primas e ganhou o Nobel. Essa história é pouco conhecida. Por timidez ou alguma outra razão, Carelli a manteve restrita aos amigos e jamais publicou qualquer linha a respeito. Mas ilustra bem o quanto é importante em atividades tão subjetivas quanto o jornalismo ou a literatura ser dotado de uma espécie de radar para talentos e potencialidades. Este faro, por certo, vale muito mais do que simplesmente examinar a ficha repassada pelo RH e concluir que a fluência em idioma estrangeiro ou um certificado de MBA implicam necessariamente uma grande capacidade prática de exercer seu ofício.
Ainda bem que no jornalismo tais requisitos ainda são menos valorizados do que em outras profissões. Até porque corremos o risco de formar gerações que transitam com desenvoltura pelo mundo virtual, mas não revelam o mesmo desembaraço na vida real. Que sabem tudo da língua inglesa, mas não dominam o idioma pátrio. Basta ler os textos de algumas publicações. Editores têm de ficar atentos. Ocasionalmente, surge um português na última página.
Publicado originalmente no site coletiva.net
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
A convidada especial de hoje é Luciana Pinsky, de quem tive o prazer de ser colega na revista Época. Escritora, jornalista e editora, Luciana terá seu primeiro romance, Sujeito Oculto e Novas Graças do Amor, lançado em outubro pela editora Record. Quem quiser conhecer mais seus textos ficcionais pode entrar em sua comunidade do Orkut.
http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=6471973
Luciana Pinsky

Você me desafiou para uma descida. Ninguém me desafia para uma descida. Não há pessoa louca suficiente para acompanhar-me em uma descida. Você passa, magnética. Eu vou. Não freio. Pego mais e mais impulso. As rodas fervem. Vivo velocidade. Não quero morrer ainda, tenho tantos países a percorrer, tanto caminho para descobrir, tanta cerveja para beber, tanta vida me espera, mas se for para morrer que seja assim, descendo a tantos mil por hora. Se for para morrer, que seja como macho. E você me instiga. “Vamos, vamos”.
Você e esses olhos azuis angelicais que de anjo nada tem. Fui. E você grita. Cada vez mais alto. AAAAAAAAA. Eu grito junto, sua voz colando na minha, como se houvéssemos ensaiado. AAAAAAAAA.
Dois patinadores, descendo uma ladeira de forma alucinada, barulhentos como hooligans prestes a se enfrentar. Era assustador.
O desejo mais primitivo expresso sobre aquelas tantas rodas por um casal em bodas. Era a comunhão completa.
Só que não éramos um casal, não tínhamos relação alguma e aquilo resumia-se a uma descida muito rápida de patins pelo asfalto de Perdizes. Mas isso só depois. Na hora era a união. Descendo com você aquela ladeira, eu era tão eu como era possível ser.
Lá embaixo ela me esperava. Minha companheira real, aquela que sabe o nome da minha irmã, o dia em que nasci, compartilha meu dia-a-dia, ainda que tema patins – “é perigoso”, diz sempre. Claro que é. Se não fosse, eu continuaria em casa navegando na internet.
– Que alívio vê-lo bem. Ouvi tanta gritaria que fiquei assustada.
– Obrigado, estou inteiro.
Ela ensaiou um cafuné e eu queria desafio. Seu toque era amigável, lembrei-me da minha mãe me pondo para dormir há um milhão de anos, com um tranqüilo aroma de alfazema. Ela era alfazema. Eu sonhava alcatrão. Ela me olhava com doçura, eu buscava brilho. Ela ofereceu-me chá, eu queria chope. Ela, sabonete. Eu, suor conquistado.
Você agradeceu a disputa. “Quem ganhou”? Eu ainda não sabia. Limpou o suor do rosto com a camiseta. Tal gesto deixou seu umbigo à mostra por alguns poucos segundos. A barriga tão lisa, quase podia senti-la nos meus dedos molhados. A barriga, tão fina, tão frágil, ali. Quem diria, você frágil. Você foi. Ela me deu a mão seca de alfazema.
Publicado originalmente no Blog do Noblat
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
O leopardo e o macaquinho
Belas imagens de um relacionamento improvável.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Stop the machines: inventaram o “assalto-surpresa”
Chamada de capa do Correio do Povo, de Porto Alegre, nesta terça-feira:
ASSALTO-SURPRESA
Encapuzados levam malotes
Estou até agora tentando entender. Vai ver é cafeína demais. Assalto-surpresa? E não são todos assim? De modo geral os assaltantes avisam quando e onde vão atacar? Como seria esta nova modalidade? Os bandidos olham para a vítima, abrem um sorriso e os braços e gritam: Surpresa!?
Anos atrás eu lia o Correio depois de longo tempo afastado de suas páginas – até por razões geográficas – quando me deparei com tantos textos confusos que acabei desistindo. Vejam o que encontrei:
Título do Correio do Povo, na edição dominical (29/9/2003): “Schumacher corre pelo hepta.”
O texto esclarecia: “O alemão Michael Schumacher poderá conquistar neste domingo, em Indianápolis, o inédito título de pentacampeão...”
Schumacher, na verdade, corre pelo hexa.
Duas páginas antes, matéria sobre a Bienal do Mercosul começava com esta frase:
“A maior exposição de artes visuais do Sul do Brasil tem data para começar: 4 de outubro”.
Ainda bem, uma exposição sem data para começar receberia poucos visitantes, isso se começasse.
No texto de apoio ficava-se sabendo que “O curador-geral da 4ª Bienal do mercosul, Nelson Aguilar, é o grande maestro da megaexposição.”
Esclarecedor saber que o curador-geral é quem coordena.
E que é o grande da mega. Pelo menos é superlativo.
Ainda mais duas páginas de trás para frente, sob o título “Grupo combate trabalho escravo” se encontrava a informação de que “Prevenir e repreender o trabalho escravo no Brasil será a função do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado”.
Incomum, portanto, necessário esclarecer.
Sem falar na repetição em relação ao título.
E reprimir era mais adequado do que repreender, mas o editor é contra repetições.
Eu não procurava erros, apenas folheava o jornal. Achei melhor parar.
Resgato o texto pela curiosidade, pois tais deslizes, infelizmente ocorrem em qualquer jornal. Às vezes a confusão mental dos redatores rende boas risadas, embora seja um perigoso sintoma de imperícia das redações. A seguir, algumas mancadas clássicas de jornais do sul do País que integram o livro Jornal da Imprença – A Notícia Levada Açério, do ótimo Moacir Japiassu, o maior colecionador de gafes da imprensa no Brasil.
Luzes da Ciência
Da Zero Hora, de Porto Alegre, em “pirulito” semiclandestino num canto de página: Assassinado pelo rival em Canoas. Abaixo, o textinho esclarecia: “(...) Ele se encontra internado no Hospital Nossa Senhora das Graças, em estado grave”. Segundo Janistraquis, este é um raríssimo caso de assassinado em estado grave, à espera das luzes da ciência (novembro de 1992).
Texto enrolado
Nosso mais novo correspondente gaúcho, Marcelo Soares da Silva, de Porto Alegre, envia nota do Correio do Povo, pela qual é possível avaliar a escolaridade dos cartolas do futebol, empresários e (por que não dizer logo??) jornalistas. Ei-la: Gomes, caso complicado é o título; texto-charada: “O Cruzeiro quer Luís Fernando Gomes, diz que está tudo certo com o Internacional, mas que o empresário português Manuel Barbosa está complicando tudo. O Inter afirma que vende o jogador por 600 mil dólares, dos quais 400 mil ficam com o clube e 200 mil com o empresário. Manuel Barbosa, por sua vez, garante que é o contrário: ele fica com 200 mil e o Inter, com 400. Um caso muito complicado”.
Leiam, releiam e concluam: textinho enrolado esse do Correio, não? (junho de 1995)
Poste vs. Aids
Título, digamos, priápico, do jornal gaúcho Zero Hora: Camisinhas em postes previnem contra a Aids. Perplexo, o leito Paulo Hebmuller escreveu a esta coluna: “Sempre pensei que a camisinha tinha que ser colocada em outro lugar”. Num país tão despreparado, Paulo, é sempre difícil saber o que fazer com uma camisinha. Um jornalista amigo de Janistraquis, por exemplo, engoliu duas. (março de 1994)
Confundindo
Legenda de foto do Diário Catarinense: Casanova retrata a vida do maior amante do século 18. Acima, ao redor do piano de Dooley Wilson, encontravam-se Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Quer dizer: o redator, que não se pode chamar de cinéfilo, confundiu Casanova com Casablanca. Janistraquis comentou: “Isso, considerado, apesar do piano de cauda e do jaquetão do Bogart, que, sem a menor dúvida, inexistiam no tempo do Casanova...” A jóia pertence à coleção do leitor Arden Zylbersztajn. (março de 1995)
Este texto inclui trechos de artigos publicados originalmente no site coletiva.net
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
O DUPLO TRIUNFO DA IMPUNIDADE
Augusto Nunes
"Ele estava feliz como pinto no lixo", teria o cantor Jamelão repetido a perfeita síntese da passagem de Bill Clinton pela Mangueira se pudesse ver o homem empoleirado no palanque em Goiânia. Ao lado do prefeito Iris Rezende, em marcha acelerada para a conquista do segundo mandato, lá estava Delúbio Soares – ele mesmo, o ladrão que rebatizou de "recursos não-contabilizados" o produto do roubo, o chefe da quadrilha do mensalão, o ex-tesoureiro nacional que reduziu a farrapos a bandeira da ética na política desfraldada pelo PT no dia do nascimento. Delúbio estava de volta. E tão risonho quanto Clinton na visita à Mangueira.
Ambos festejaram a sensação de liberdade. No Rio, o presidente americano estava distante da trabalheira na Casa Branca, longe de Hillary e no meio de um batalhão de mulatas. No comício de quinta-feira, o gatuno goiano estava longe da polícia, distante dos tribunais, no alto do palanque do favorito e no meio de possíveis patrocinadores, patrocinados e parceiros. É disso que Delúbio gosta. É isso o que Delúbio quer. Como nos bons tempos, recebera um convite da estrela do elenco. Iris avisou que ficaria honrado com a presença do aliado que costurou a aliança entre o PMDB do prefeito e a seção goiana do PT – o mesmo partido que expulsou Delúbio em 2005.
Como as vacinas e as leis, no Brasil também punições partidárias às vezes não pegam. "Essa coisa de mensalão vai acabar virando piada de salão", avisou Delúbio um ano depois de desbaratado o esquema que produziu o mais medonho episódio da história político-policial brasileira. Não pensava em vacinas no momento da profecia. Pensava na expulsão de araque, forjada para que fossem esquecidos dezenas de comparsas. Pensava na Justiça, que jamais castiga quem pode comprar roupas de grife e alugar advogados espertos. E pensava na memória curta do país. Estava certo, constatou no comício em Goiânia.
Dois anos depois de divulgado o relatório em que o procurador-geral da República radiografou a "organização criminosa sofisticada", um ano depois de formalizado pelo STF o início do processo contra os mensaleiros, Delúbio exibia, entre um sorriso e outro, a inconfundível placidez dos condenados à impunidade. Durante o curto degredo na fazenda da família, é provável que tenha despertado no meio da madrugada com medo do carcereiro ou dando cabeçadas numa grade. Para exorcizar pesadelos, certamente amparou-se no caso exemplar de Paulo Maluf.
Na mesma noite de quinta-feira, enquanto Delúbio comemorava em Goiânia quase 10 anos de trapaças impunes (ele debutou em 1996, tungando entidades sindicais), Maluf reapareceu em São Paulo cavalgando o cartel admirável. Aos 76 anos, há 37 na vida pública, enfrentou quase 150 processos. Só dormiu na cadeia 40 noites. Durante o debate entre os candidatos à prefeitura paulistana, ninguém mencionou as sete ações judiciais que, em repouso no STF e em instâncias inferiores, envolvem Maluf em delinqüências que vão da improbidade administrativa à formação de quadrilha ou bando, de crimes contra o sistema financeiro e à paz pública à ocultação de bens ou valores.
Por que os parceiros de debate optaram pela amnésia? Talvez tenham preferido não perder tempo com um concorrente condenado a perder a eleição. Talvez se tenham curvado à evidência de que o ícone dos fora-da-lei da classe executiva jamais se sentará num banco dos réus. Ele trava duelos com tribunais há 40 anos. Ganhou todos. No mais recente, impôs à Justiça Eleitoral a oficialização do campeão brasileiro da ficha suja.
O sorriso no palanque em Goiânia faz sentido. Delúbio também acha que vai ser Paulo Maluf.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil
quarta-feira, 30 de julho de 2008
BRASIL
Honestidade. Só de sacanagem
Este vídeo não é muito recente, mas segue atual. Ana Carolina não canta, e sim lê um texto sobre a resistência do Brasil decente.
terça-feira, 29 de julho de 2008
DEPOIS DE DANTAS, NÃO FALTA NINGUÉM
Augusto Nunes
Até 29 de junho de 1958, os brasileiros ficavam ruborizados, olhavam para os lados, balbuciavam incongruências sempre que um gringo qualquer reabria a chaga dolorosa: se jamais conquistara uma Copa do Mundo, o que autorizava o Brasil a apresentar-se como O País do Futebol? Faltava a Copa, sabiam até o pau de escanteio e a marca do pênalti. E então veio o triunfo na Suécia. E então não ficou faltando mais nada. E enfim as arquibancadas, tribunas e gerais conseguiram livrar-se do que Nelson Rodrigues batizou de complexo de vira-lata.
Até 8 de julho de 2008, alguém estará escrevendo daqui a 50 anos, os brasileiros se encolhiam feito ladrão pilhado em flagrante, tossiam no meio da frase desconexa quando um gringo qualquer cutucava a fratura exposta: se o Brasil não tinha um legítimo escroque internacional, o que o autorizava a considerar-se um paraíso da bandidagem impune? Faltava o escroque internacional, envergonhavam-se tanto o trombadinha quanto o ministro larápio. Depois da atualização do prontuário de Daniel Dantas, não falta mais nada. O país está pronto para buscar a taça também nos campos da delinqüência de fina linhagem.
Daqui por diante, nenhum patriota precisará evocar meliantes que, apesar do fichário notável, por algum motivo não estão qualificados para o posto assumido por Dantas. "Temos o Naji Nahas", balbuciaram, por exemplo, milhares de defensores da nação. "Esse não vale, já veio pronto", retrucavam os adversários. Reconheciam que se tratava de um genuíno escroque internacional. Mas já era muito respeitado no ramo quando chegou aos pântanos do Brasil, onde conseguiu a dupla cidadania. Naji não é coisa nossa. Foi num berçário do Líbano que aprendeu a levar vantagem em qualquer negócio. Foi lá que começou a comprar na baixa a fralda do bebê que estava de saída para vendê-la ao bebê que acabara de chegar. Pelo triplo do preço.
Daniel Dantas é outra coisa. É o primeiro escroque internacional inteiramente fabricado no Brasil. É coisa nossa, o que não é pouca coisa. Agem no mundo milhões de fora-da-lei. Não passam de mil os integrantes do grupo de elite a que Dantas está incorporado. Ele está para o paraíso dos corruptos como a Seleção de 1958 para o País do Futebol. É um cracaço completo.
Vai em todas como Gilmar. Finta pela direita como Djalma Santos, avança pela esquerda como Newton Santos. Entra em bolas divididas como Bellini, marca o adversário como Orlando, muda o jogo como Zito, engana a polícia e a Justiça com a esperteza de Didi. Dribla sócios e concorrentes como Garrincha, recua como Zagallo na hora do perigo, atropela as leis com o ímpeto de Vavá. Pensa primeiro, como Pelé. E, também como o Rei, recupera o equilíbrio e segue adiante quando todo mundo pensa que vai cair.
Dantas atende a todos os pré-requisitos impostos a candidatos ao clube dos escroques internacionais, onde só entram figuras que, embora evitem violências físicas, são freqüentemente mais assustadoras que serial killer americano. Passam o dia cometendo crimes ou planejando os próximos. Decidem tudo, mas os outros é que executam. Viciados em bandidagem, preferem lucrar menos com um negócio ilegal a ganhar bilhões a mais honestamente. Enganam sócios e parceiros enquanto golpeiam adversários. Não gostam de publicidade, não casam com a Miss Brasil quase balzaquiana, evitam a imprensa, não aparecem em colunas sociais. Não ostentam a riqueza que acumulam. Nem fazem tanta questão de viver com luxo. O que querem é viver perigosamente.
Nosso escroque nativo preenche todas as outras exigências. Dono de tudo, oficialmente não tem nada. É banqueiro, mas oficialmente o banco não é dele. Fala mais de um idioma. É investigado em mais de um país. Não muda de ramo quando muda o governo. Trapaceou na Era FH como trapaceia na Era Lula. Oferece suborno a policiais, aluga figurões nos Três Poderes, arrenda amigos do presidente da vez. Nunca fica preso mais de dois dias. Se acontecem acidentes de percurso, como operações da Polícia Federal, consegue um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal. Ou dois, se for o caso.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil
Amazônia perde o equivalente a um
campo e meio de futebol por minuto
Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O desmatamento em junho foi de 612 km², 23% maior do que em junho de 2007. O Pará detém o desonroso título de campeoníssimo da matança: derrubou 63% desse total, contra 12% de Mato Grosso e 11% de Roraima.
Ibama deu motosserras para os sem-terra
O superintendente do Ibama em Rondônia, Oswaldo Luiz Pittaluga, foi demitido pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, depois que o jornal O Globo revelou o resultado de uma auditoria interna do órgão. Pittaluga, que estava no cargo desde o início do primeiro mandato do presidente Lula, doou 36 motosserras e duas serrarias a um tal de Movimento Camponês Corumbiara (MCC), uma dissidência do MST.

segunda-feira, 28 de julho de 2008
BRASIL
O caos é o limite
Escoltada pela impunidade, a delinqüência organizada do Rio decidiu expandir seus mercados e encorpar o portfólio de produtos e serviços. Depois de corromper políticos escolhidos livremente pelo povo, chegou a hora de dizer ao povo em quem votar. Chega de intermediários, bradaram os criminosos, de olho no melhor custo-benefício de eleger candidatos bandidos em vez de comprá-los depois.
Campanha eleitoral, só com autorização do tráfico. O corpo-a-corpo é liberado apenas para os políticos amigos. Fazer campanha no Rio virou mau negócio: o candidato tem de enfrentar as ameaças da bandidagem e, caso consiga chegar até o eleitor sem maiores contratempos, sai com o rótulo de aliado do submundo.
A ausência do Estado levou a mais bela cidade brasileira, e uma das metrópoles mais celebradas no mundo, a uma situação que já não desperta cobiça, mas piedade. Ao longo de décadas, sucessivos governos, em todos os níveis, limitaram-se a adotar medidas paliativas, isso quando não ficaram no bate-boca sobre a jurisdição de cada um, ou simplesmente se omitiram. Andar nas ruas em qualquer horário é temerário, circular à noite por determinadas regiões evidencia traços suicidas.
Muitas grandes cidades brasileiras sofrem com a violência urbana, mas é no Rio que a substituição do poder do Estado pelo poder da contravenção é mais evidente e preocupante. A imposição das leis do narcotráfico, a proliferação de milícias operando à luz do dia, a corrupção e o despreparo da polícia compõem um cenário de guerra civil que a autoridades insistem em negar. Se o Estado não acolhe o cidadão, o crime o acolhe, num círculo vicioso que transforma pessoas cada vez mais jovens em bandidos, que acolherão outras, que virarão bandidos, numa tragédia sem fim.
Ao definir quem pode e quem não pode fazer campanha em seus domínios, os criminosos atacam a democracia no que ela tem de mais básico: um sistema eleitoral livre. A partir daí, o caos é o limite.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
O nome do jogo
O noticiário sobre a corrupção no Brasil nunca esteve tão farto? Infelizmente, quase sempre esteve. Em 1993, quando eu era editor executivo do jornal Zero Hora, costumávamos publicar aos sábados algo diferente na contracapa a fim de aliviar um pouco o noticiário sempre recheado de más notícias. Uma das idéias mais ousadas – considerando-se que se tratava da contracapa de um jornal diário de grande circulação – foi o Jogo da Corrupção. Criei o texto e a editoria de arte fez o desenho, bem ao estilo dos tradicionais joguinhos de “avance uma casa, recue duas casas etc”.
Passados 15 anos, o texto pode ser publicado quase na íntegra. Mudei apenas detalhes como colocar Daniel Dantas em lugar do deputado João Alves, ou retirar uma referência aos Anões do Orçamento. De resto, continua fazendo sentido.
O jogo da corrupção
PARTIDA
Você encontrou uma mala cheia de dólares. Avance cinco casas.
Seus cheques caíram nas mãos de uma CPI. Fique sem jogar por duas rodadas enquanto suas contas bancárias são devassadas.
Acaba de ser liberada verba pública para uma empreiteira construir estufas de orquídeas raras em Itaquaquecetuba. Você tem direito a uma propina de 10%. Avance uma casa.
Sua primeira ex-mulher resolveu abrir a boca e revelar suas perversões sexuais com sua segunda ex-mulher, que agora está casada com o segundo ex-marido de sua primeira ex-mulher. Fique escondido por três rodadas até as coisas esfriarem.
Você ganhou na loteria pela quinta vez na semana, e recém é segunda-feira. Aproveite para lavar dinheiro três casas adiante.
Você terá de devolver aquela cobertura que ganhou de um empreiteiro no Natal passado. Permaneça por uma rodada nesta casa, que agora é única que você tem.
Seu novo assessor parece não entender muito do assunto. Ligaram da lavanderia perguntando se é para lavar e passar as cédulas. Recue três casas.
Acaba de ser liberada uma verba de US$ 200 milhões para atender as 30 crianças de uma creche em Juazeiro do Norte. Vá gastando por conta e avance duas casas.
Foram reveladas gravações de conversas entre você e um homem cujas iniciais são Daniel Dantas. Negue até o fim, mas volte para o início.
CHEGADA
Parabéns, você se deu bem. Tente não ser exageradamente ostensivo na comemoração.
REGRAS
O número de participantes é livre. Aliás, pouco importa quantos estejam à mesa, nunca se saberá quantos estão por trás.
Para participar, basta fazer um lance. Em dólares. Cheques não são aceitos, muito menos de políticos.
Começa o jogo quem der o maior lance e não for descoberto em tempo.
Usa-se, claro, um dado viciado.
Ganha quem se livrar da Polícia Federal e das CPIs e conseguir embarcar para o exterior.
Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 13 de novembro de 1993.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Ninguém que o conhecesse estranharia, caso tivesse a oportunidade de assistir à insólita cena de Etelvino Peixoto entregando o chapéu aos cuidados do noviço Adamastor, retirando o sobretudo preto de lã, inverossímil na canícula latina, e se acomodando no sofá cor de vinho com listras douradas do arcebispado de Recife e Olinda. Os três dias em lombo de burro desde Pontal dos Errantes não lhe subtraíra o otimismo. Tampouco dava sinais de desânimo. Se era isto que tinha de fazer para ser ouvido, era isto que faria. Sua determinação era notória, tanto quanto a incapacidade de discernir tons de voz ou intenções ocultas, por isso as 4.499 almas do lugarejo que já fora um importante entreposto comercial e nos últimos anos virara paragem de última chance entre a civilização e a impossível caatinga consideraram natural tal empreendimento.
Etelvino, o Literal, como era conhecido, já dera incontáveis provas de uma simpática demência, e todos a ela se acostumaram com invulgar despudor. Antes de ser visto como um morador estranho, Etelvino, à custa do perfil folclórico e o semblante de pai da noiva em casamento arranjado, orgulhoso da própria obra, por mais despropositada que fosse, conseguira granjear amigos com uma facilidade da qual ele próprio desconfiava eventualmente, mas que o fazia sentir-se como o mais normal dos habitantes. Não o era, mas como a louco não se contraria, davam-lhe o crédito possível, embora muitos alertassem para os perigos de se dizer qualquer coisa sem total precisão a alguém tão literal.
Numa certa manhã, indignara-se com o suposto aumento dos tomates, que no entanto tinham o mesmo preço havia vários anos, apesar da seca implacável, talvez porque a depauperada população de Errantes carecesse de recursos para arcar com qualquer elevação. O quitandeiro Rudolfo Alamedas, agastado com os dezoito minutos de duração da refrega, aconselhou-o a se queixar ao bispo. Etelvino viu sentido na sugestão, posto que via sentido em tudo, já que nada lhe fazia sentido. Acomodou sobre o animal esqueletizado pela estiagem, em surradíssimos alforjes cor de abacate, uns poucos pertences, entre os quais um escapulário dos tempos de primeira comunhão, e se precipitou por trilhas inóspitas, cujos traçados eram evocados apenas em literatura de cordel, e ainda assim como cenário das tragédias nada épicas da miséria.
Mesmo Rudolfo Alamedas, homem conhecido por lhe faltar em paciência o que lhe sobrava em massa física, teria se poupado da culpa de condenar um pobre diabo a mormaços intermináveis caso acreditasse mesmo nas razões do adjetivo incorporado ao nome de Etelvino. Qualquer um que tivesse sido criado num raio de milhares de quilômetros acreditaria, mas Rudolfo era recém-chegado, pouco familiarizado com as lendas do lugar, e podia se dispensar de levá-las a sério. Naquela manhã diáfana, recomendara, para se livrar do chato, apenas por isso, que se queixasse ao bispo do preço dos tomates. A expressão popular era por demais conhecida para ser levada ao pé-da-letra mesmo por um lunático, pensara.
E foi assim que Etelvino, o Literal, viu-se na antessala do arcebispo Manfredo Perez de Lima e Silva, numa tarde de quarta-feira outonal, se bem que as estações do ano não passam de miragem naquela região onde o calor não amaina em tempo algum e poucas são as folhas disponíveis para cair em qualquer tempo. O arcebispo, homem ocupado e famoso pelo temperamento irascível, característica pouco cristã, mas muito útil para manter à distância os indesejáveis, só foi recebê-lo ao cabo de outros três dias, quando o persistente interlocutor emitia preocupantes sinais de fadiga e anemia, apesar das rosquinhas de polvilho com chá de maçã religiosamente servidos pelo noviço Adamastor.
A espera revelar-se-ia inútil. Arcebispo Manfredo, fustigado pelo calor da batina de pano duplo e pelos calores da idade, ouviu-o com uma paciência tirada de onde nem ele sabia, paciência destinada apenas a peregrinos de terras distantes e a insanos de quaisquer terras, mas nem com inspiração divina seria capaz de lhe dar uma resposta satisfatória. Etelvino enfrentou a jornada de volta com o mesmo estoicismo e nenhuma desesperança, disposto a procurar Rudolfo Alamedas e lhe relatar que a queixa ao arcebispo de nada adiantara, e que portanto era necessário rediscutir o preço dos tomates.
Não era a primeira vez que episódio semelhante ocorria. A primeira fora aos 14 anos quando, acometido pela inevitável paixão de adolescente, declarara-se a Fátima Gatoeiro, a linda filha de um comerciante português, uma morena de olhos profundos como as águas do Tejo, que sem saber como se livrar de tão aloprado galanteador lhe perguntara se ele não tinha espelho em casa. Etelvino, desprovido das bênçãos da natureza, e ainda por cima infestado pelas acnes da juventude, entendeu a frase como uma promessa de favores da inatingível donzela, e permaneceu por dias e noites em frente ao espelho incrustado na cristaleira que acompanhava a família havia três gerações, de um tempo em que cupim algum era capaz de destruir a madeira entalhada pela história, na esperança de que este gesto colaborativo o deixasse em alta conta com o objeto de seus sonhos. Apresentou-se a Fátima Gatoeiro mais apaixonado do que nunca, só para atrair a ira de seu pai, que por pouco não revogou a proverbial complacência de Errantes para com seu filho descerebrado e não lhe enfiou barriga adentro o facão de pura prata além-mar.
O mesmo ocorreu quando um vizinho de quarteirão proferiu a famosa frase “vá ver se estou na esquina”, o que o deixou durante horas plantado entre as acácias adornadoras da confluência entre as ruas General Almeida de Mesquita e Florentino Alvarenga, como se à espera de uma nau fantasma que jamais cumpriria tal trajeto.
A ensandecida peregrinação ao arcebispado talvez se tivesse convertido em ensinamento permanente, não fosse tão curta e desprovida de conseqüência a memória popular. Com as forças revigoradas pela conversa com o arcebispo Manfredo, Etelvino, o Literal, comprou muitas brigas nos tempos seguintes. Numa contenda de especial fragor, levou o adversário a tal grau de irritação, que a este nada restou senão tentar encerrar o diálogo com uma vociferação célebre. “Vá para o raio que o parta”, grasnou o truculento Chico Malffati, depois de horas de bate-boca.
O dia amanheceu com semblante assustador. As nuvens negras não condiziam com as folhas do calendário. A primavera se avizinhava, o clima deveria se revelar menos implacável, mas estava tão escuro quanto nas mais escuras noites. Os trovões eram ouvidos a muitas léguas, e os raios entrecortavam o céu como flechas atravessadas nos corações dos amantes. Etelvino, o Literal, indiferente à fúria dos elementos, vestiu a roupa domingueira, pois para tipos como ele qualquer dia é domingo, e domingo é qualquer dia, e acelerou o passo para tomar café na pousada de Maria Narrimar, que ficava do outro lado da praça, onde iria saborear o queijo forte com melado que era seu prato predileto. Deu poucos passos, e mais passos não pôde dar, porque ao se colocar bem no meio do enorme – para os padrões locais – losango que formava a praça, foi colhido por um raio, e nunca mais foi visto, nem por ali nem em lugar algum. No dia seguinte, os enfastiados moradores de Pontal dos Errantes limitaram-se a comentar: “Quem diria que ele era capaz!”. Desta vez, Etelvino, o Literal, levara-se a sério demais.
Publicado originalmente no site coletiva.net
quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um milhão de adesões
Comunicamos que o Projeto Amazônia para Sempre alcançou em maio último o seu primeiro objetivo, um milhão de adesões ao seu manifesto, e gostaríamos de agradecer e comemorar com você este sucesso.
Como primeira ação efetiva, estamos finalizando o documento para encaminhar estas assinaturas ao Presidente da Repúbica exigindo providências no sentido de que se cumpra a Constituição. Para o futuro, uniremos esforços com instituições ambientais para que novas ações sejam promovidas em benefício da região.

Algo importante acontece nesta quinta
Estimado Eliziário:
Seu discurso vai gerar uma grande dose de atenção. Queríamos que você, como membro da campanha We, soubesse isso com antecedência. Avisaremos quando tivermos postado o vídeo, informações sobre os próximos passos e outros recursos.
Atenciosamente,
Cathy Zoi
CEO
http://www.wecansolveit.org/
