sexta-feira, 18 de julho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Ronaldo Resedá (com Heloísa Millet) e a Kitch Zona Sul.
Obrigado pela audiência. Até segunda.

Etelvino, o literal

Ninguém que o conhecesse estranharia, caso tivesse a oportunidade de assistir à insólita cena de Etelvino Peixoto entregando o chapéu aos cuidados do noviço Adamastor, retirando o sobretudo preto de lã, inverossímil na canícula latina, e se acomodando no sofá cor de vinho com listras douradas do arcebispado de Recife e Olinda. Os três dias em lombo de burro desde Pontal dos Errantes não lhe subtraíra o otimismo. Tampouco dava sinais de desânimo. Se era isto que tinha de fazer para ser ouvido, era isto que faria. Sua determinação era notória, tanto quanto a incapacidade de discernir tons de voz ou intenções ocultas, por isso as 4.499 almas do lugarejo que já fora um importante entreposto comercial e nos últimos anos virara paragem de última chance entre a civilização e a impossível caatinga consideraram natural tal empreendimento.

Etelvino, o Literal, como era conhecido, já dera incontáveis provas de uma simpática demência, e todos a ela se acostumaram com invulgar despudor. Antes de ser visto como um morador estranho, Etelvino, à custa do perfil folclórico e o semblante de pai da noiva em casamento arranjado, orgulhoso da própria obra, por mais despropositada que fosse, conseguira granjear amigos com uma facilidade da qual ele próprio desconfiava eventualmente, mas que o fazia sentir-se como o mais normal dos habitantes. Não o era, mas como a louco não se contraria, davam-lhe o crédito possível, embora muitos alertassem para os perigos de se dizer qualquer coisa sem total precisão a alguém tão literal.

Numa certa manhã, indignara-se com o suposto aumento dos tomates, que no entanto tinham o mesmo preço havia vários anos, apesar da seca implacável, talvez porque a depauperada população de Errantes carecesse de recursos para arcar com qualquer elevação. O quitandeiro Rudolfo Alamedas, agastado com os dezoito minutos de duração da refrega, aconselhou-o a se queixar ao bispo. Etelvino viu sentido na sugestão, posto que via sentido em tudo, já que nada lhe fazia sentido. Acomodou sobre o animal esqueletizado pela estiagem, em surradíssimos alforjes cor de abacate, uns poucos pertences, entre os quais um escapulário dos tempos de primeira comunhão, e se precipitou por trilhas inóspitas, cujos traçados eram evocados apenas em literatura de cordel, e ainda assim como cenário das tragédias nada épicas da miséria.

Mesmo Rudolfo Alamedas, homem conhecido por lhe faltar em paciência o que lhe sobrava em massa física, teria se poupado da culpa de condenar um pobre diabo a mormaços intermináveis caso acreditasse mesmo nas razões do adjetivo incorporado ao nome de Etelvino. Qualquer um que tivesse sido criado num raio de milhares de quilômetros acreditaria, mas Rudolfo era recém-chegado, pouco familiarizado com as lendas do lugar, e podia se dispensar de levá-las a sério. Naquela manhã diáfana, recomendara, para se livrar do chato, apenas por isso, que se queixasse ao bispo do preço dos tomates. A expressão popular era por demais conhecida para ser levada ao pé-da-letra mesmo por um lunático, pensara.

E foi assim que Etelvino, o Literal, viu-se na antessala do arcebispo Manfredo Perez de Lima e Silva, numa tarde de quarta-feira outonal, se bem que as estações do ano não passam de miragem naquela região onde o calor não amaina em tempo algum e poucas são as folhas disponíveis para cair em qualquer tempo. O arcebispo, homem ocupado e famoso pelo temperamento irascível, característica pouco cristã, mas muito útil para manter à distância os indesejáveis, só foi recebê-lo ao cabo de outros três dias, quando o persistente interlocutor emitia preocupantes sinais de fadiga e anemia, apesar das rosquinhas de polvilho com chá de maçã religiosamente servidos pelo noviço Adamastor.

A espera revelar-se-ia inútil. Arcebispo Manfredo, fustigado pelo calor da batina de pano duplo e pelos calores da idade, ouviu-o com uma paciência tirada de onde nem ele sabia, paciência destinada apenas a peregrinos de terras distantes e a insanos de quaisquer terras, mas nem com inspiração divina seria capaz de lhe dar uma resposta satisfatória. Etelvino enfrentou a jornada de volta com o mesmo estoicismo e nenhuma desesperança, disposto a procurar Rudolfo Alamedas e lhe relatar que a queixa ao arcebispo de nada adiantara, e que portanto era necessário rediscutir o preço dos tomates.

Não era a primeira vez que episódio semelhante ocorria. A primeira fora aos 14 anos quando, acometido pela inevitável paixão de adolescente, declarara-se a Fátima Gatoeiro, a linda filha de um comerciante português, uma morena de olhos profundos como as águas do Tejo, que sem saber como se livrar de tão aloprado galanteador lhe perguntara se ele não tinha espelho em casa. Etelvino, desprovido das bênçãos da natureza, e ainda por cima infestado pelas acnes da juventude, entendeu a frase como uma promessa de favores da inatingível donzela, e permaneceu por dias e noites em frente ao espelho incrustado na cristaleira que acompanhava a família havia três gerações, de um tempo em que cupim algum era capaz de destruir a madeira entalhada pela história, na esperança de que este gesto colaborativo o deixasse em alta conta com o objeto de seus sonhos. Apresentou-se a Fátima Gatoeiro mais apaixonado do que nunca, só para atrair a ira de seu pai, que por pouco não revogou a proverbial complacência de Errantes para com seu filho descerebrado e não lhe enfiou barriga adentro o facão de pura prata além-mar.

O mesmo ocorreu quando um vizinho de quarteirão proferiu a famosa frase “vá ver se estou na esquina”, o que o deixou durante horas plantado entre as acácias adornadoras da confluência entre as ruas General Almeida de Mesquita e Florentino Alvarenga, como se à espera de uma nau fantasma que jamais cumpriria tal trajeto.

A ensandecida peregrinação ao arcebispado talvez se tivesse convertido em ensinamento permanente, não fosse tão curta e desprovida de conseqüência a memória popular. Com as forças revigoradas pela conversa com o arcebispo Manfredo, Etelvino, o Literal, comprou muitas brigas nos tempos seguintes. Numa contenda de especial fragor, levou o adversário a tal grau de irritação, que a este nada restou senão tentar encerrar o diálogo com uma vociferação célebre. “Vá para o raio que o parta”, grasnou o truculento Chico Malffati, depois de horas de bate-boca.

O dia amanheceu com semblante assustador. As nuvens negras não condiziam com as folhas do calendário. A primavera se avizinhava, o clima deveria se revelar menos implacável, mas estava tão escuro quanto nas mais escuras noites. Os trovões eram ouvidos a muitas léguas, e os raios entrecortavam o céu como flechas atravessadas nos corações dos amantes. Etelvino, o Literal, indiferente à fúria dos elementos, vestiu a roupa domingueira, pois para tipos como ele qualquer dia é domingo, e domingo é qualquer dia, e acelerou o passo para tomar café na pousada de Maria Narrimar, que ficava do outro lado da praça, onde iria saborear o queijo forte com melado que era seu prato predileto. Deu poucos passos, e mais passos não pôde dar, porque ao se colocar bem no meio do enorme – para os padrões locais – losango que formava a praça, foi colhido por um raio, e nunca mais foi visto, nem por ali nem em lugar algum. No dia seguinte, os enfastiados moradores de Pontal dos Errantes limitaram-se a comentar: “Quem diria que ele era capaz!”. Desta vez, Etelvino, o Literal, levara-se a sério demais.


Publicado originalmente no site coletiva.net

quinta-feira, 17 de julho de 2008





Um milhão de adesões


Comunicamos que o Projeto Amazônia para Sempre alcançou em maio último o seu primeiro objetivo, um milhão de adesões ao seu manifesto, e gostaríamos de agradecer e comemorar com você este sucesso.

Como primeira ação efetiva, estamos finalizando o documento para encaminhar estas assinaturas ao Presidente da Repúbica exigindo providências no sentido de que se cumpra a Constituição. Para o futuro, uniremos esforços com instituições ambientais para que novas ações sejam promovidas em benefício da região.

www.amazoniaparasempre.com.br





Together, we can meet the challenge





Algo importante acontece nesta quinta

Estimado Eliziário:
Em um discurso em Washington, DC, o Prêmio Nobel e ex-vice-presidente Al Gore fará um grande desafio ao propor que pressionemos o botão 'Reiniciar' sobre a forma como pensamos acerca da energia e das condições climáticas, e sobre como podemos criar prosperidade na América.

Seu discurso vai gerar uma grande dose de atenção. Queríamos que você, como membro da campanha We, soubesse isso com antecedência. Avisaremos quando tivermos postado o vídeo, informações sobre os próximos passos e outros recursos.


Atenciosamente,

Cathy Zoi
CEO

http://www.wecansolveit.org/



quarta-feira, 16 de julho de 2008

TOCO Y ME VOY

Salvatore Cacciolla retorna na madrugada desta quinta-feira ao Brasil na condição de extraditado. Condenado em primeira instância pelos crimes de corrupção passiva, peculato e gestão fraudulenta que levou à quebra do banco Marka, Cacciola fugira para a Itália oito anos atrás depois de ser beneficiado por um habeas-corpus do Supremo.

Com Daniel Dantas à solta o filme pode se repetir?

No Toco y Me Voy de hoje, Augusto Nunes comenta a postura do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, diante das tentativas da Polícia Federal de manter Dantas na prisão.
O ESPETÁCULO DA IMPUNIDADE SELETIVA

Augusto Nunes

Surpreendido pelo desfecho da Operação Satiagraha, que desbaratou a maior e mais atrevida quadrilha da história do sistema financeiro nacional, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, dispensou-se de comentários sobre as espantosas descobertas da Polícia Federal. Nenhuma frase sobre o desfile de delinqüências bilionárias. Nenhuma palavra sobre o prontuário dos integrantes da comissão de frente. Nenhuma perplexidade com a propina oferecida a um delegado por comparsas de Daniel Dantas, entre uma e outra alusão insultuosa ao STF. O ministro não estava preocupado com o conteúdo das revelações, mas com a forma da captura. E esqueceu os bandidos para condenar os xerifes.

“A espetacularização das prisões é evidente e dificilmente compatível com o Estado de Direito”, irritou-se. Sim, a PF voltou a escorregar em exageros reprováveis e exibicionismos circenses. Nada justifica, por exemplo, a idéia de prender a jornalista Andréa Michael, da Folha de S. Paulo, por ter cometido um furo de reportagem. Nada justifica a incorporação de uma equipe da TV Globo ao grupo de policiais encarregados de cumprir os mandados judiciais. Feita a ressalva, o Brasil decente comunica ao presidente do STF que o espetáculo da impunidade seletiva, protagonizado pelo Poder Judiciário, é tão evidente quanto a espetacularização das prisões – e mais gritantemente incompatível com o Estado de Direito.

Duram pouco esses intervalos preenchidos por imagens que mostram um Daniel Dantas saindo da parte traseira do camburão com as algemas camufladas pelo paletó, um Naji Nahas aparvalhado com a iminência da primeira noite no catre, ou um Celso Pitta de pijama abrindo a porta do apartamento para ouvir, estremunhado, a voz de prisão. Artistas dessa categoria nunca ficam em cena por muito tempo. Logo são devolvidos às coxias pelo reinício do interminável espetáculo da impunidade. Não seria diferente desta vez.

Horas depois de solidarizar-se com os delinqüentes submetidos a humilhações por policiais desalmados, o presidente do STF determinou a soltura de Dantas e 11 comparsas. A Polícia Federal prendeu-o de novo. O presidente do STF tornou a tirá-lo da cadeia. O certo é que, em poucos dias, a turma inteira estará liberada para oferecer propinas a policiais, monitorar as ações da bancada suprapartidária infiltrada no Congresso, trocar idéias com advogados espertalhões ou estafetas do PT fantasiados de bacharel, pensar na melhor maneira de seduzir juízes, desembargadores ou ministros togados.

Os brasileiros comuns também recriminariam o comportamento dos captores se não os angustiassem a sensação de que respeitar a lei é coisa de otário e, sobretudo, a certeza de que as cadeias do país não aceitam hospedar quadrilheiros ricaços, com dinheiro de sobra para contratar advogados eficientes e amigos influentes ao alcance do celular. O castigo jamais vai além das prisões espetacularizadas. É um consolo para os cidadãos honestos. É um abuso intolerável para Gilmar Mendes.

Intolerável, para os incumbidos de fazer Justiça, deveria ser a obscena indulgência que contempla figuras como Daniel Dantas, Naji Nahas ou Celso Pitta. A Operação Satiagraha não fez mais que acrescentar alguns metros à pilha de provas acumuladas contra os integrantes do bando desde o fim do século passado. Sobram razões e evidências para prendê-los. O que falta é vontade de punir, sobretudo nas camadas superiores do Judiciário. Gilmar Mendes quer saber por que os policiais federais algemaram os capturados e permitiram que fossem filmados. O país que pensa quer saber o que espera a Justiça para trancafiá-los em celas providas de câmeras de vigilância.

“Só tenho medo da Polícia Federal”, disse Dantas em entrevista à revista Piauí, disfarçando com um sorriso esse temor genuíno. “A gente só se preocupa com a primeira instância, porque no STF ele resolve”, explicaram os emissários do banqueiro ao delegado que tentavam subornar. Presos por ordem de um juiz federal, os quadrilheiros foram soltos pelo presidente do Supremo. A imagem do Judiciário não ficou melhor. Ficará consideravelmente prejudicada se algum criminoso transformar o habeas corpus num salvo-conduto para a primeira etapa da viagem para fora do Brasil – e para longe da cadeia. Como fez Salvatore Cacciolla.

Resgatar Cacciolla do cárcere foi um erro bisonho do STF. Qualquer reprise do caso será mais que outro equívoco lastimável. Será uma reincidência criminosa.


Ampliação de texto publicado originalmente no Jornal do Brasil

terça-feira, 15 de julho de 2008




FÁBULA

Texto enviado aos amigos pelo jornalista Madruga Duarte, do Consultório de Idéias.

Um caminhante se perdeu num deserto.
Quando está próximo de morrer, por falta de água, chega até ele um cavaleiro que lhe oferece um cantil de água, em troca de uma enorme soma de dinheiro, que equivale a todo o seu patrimônio. O caminhante aceita. Porem o cavaleiro quer, então, uma segunda condição: que o caminhante aceite também ser seu escravo. O caminhante se nega.

Depois de afastar-se dele e de permitir uma morte eminente, o cavaleiro parece não entender o caminhante. Se estava disposto a perder o seu patrimônio para salvar sua vida, por que preferiu depois perdê-la?

O que o cavaleiro, que era mercador, não havia compreendido era que a segunda condição havia mudado a natureza de seu encontro com o caminhante. Porque era traduzida em dinheiro, a primeira condição refletia um interesse e os interesses são negociáveis. De fato, desde o ponto de vista de seus interesses, nesse momento, o cantil de água valia mais que todo o patrimônio do caminhante. Porém, este não aceitou a segunda condição depois de haver aceitado a primeira, porque ela já não estava focada numa questão de valores, sim numa questão de princípios e, ao contrário dos valores, os princípios são inegociáveis.

Traduzido do espanhol por Md. Autor desconhecido.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

BRASIL


Fala, Dantas!

No final da semana eu pensava sobre o artigo que escreveria hoje e decidi que o título óbvio seria “Fala, Dantas!” Como era óbvio, foi a manchete da Veja. Não faz mal. Proponho que todos que abordem o assunto o utilizem. “Fala, Dantas!”, apelo constante, em coro, uma ladainha sem fim. “Fala, Dantas!” Uma campanha nacional, o povo nas ruas. "Fala, Dantas!"

O fato de o delegado da PF ter atropelado seu comandante e até o ministro Tarso Genro – ambos só souberam da investigação quando ela já estava bem adiantada –, a inegável espetacularização das prisões, ou ainda o embate entre o juiz paulista que manda prender e o presidente do Supremo que manda soltar são questões acessórias.

Que Daniel Dantas está envolvido em uma série de ilegalidades é fato concreto, e provar isso é só uma questão de tempo.

Portanto, vamos ao que interessa: “Fala, Dantas!”.

Daniel Dantas é um arquivo ambulante de valiosas informações sobre corrupção e desvio de dinheiro público. Talvez como nunca na história desse País, tantos temeram tanto a eventual confissão de um único homem. Para a bandidagem graúda ele vale mais solto do que preso. Solto, podo continuar subornando à vontade, de seu escritório no Rio ou de um quiosque à beira-mar num paraíso fiscal. Preso, fecha o propinoduto e ainda pode levar muita gente junto para a carceragem.

Fala, Dantas!
BOA SEMANA

Johnny Mathis interpreta Misty no Ed Sullivan Show, em 1959.
A todos, uma ótima semana.

Fernandinha e Ingra

No inverno de 1987, eu assistia a um filme de Indiana Jones em vídeo com o então meu chefe, e até hoje amigo, Jorge Olavo de Carvalho Leite. Era um domingo à tarde, fazia muito frio, a lareira estava acesa e bebíamos algo quando, vinda de um dos quartos da casa antiga e bela no bairro Floresta, em Porto Alegre, entrou na sala uma menina de cabelos claros cacheados, rosto de anjo e corpo adolescente envolto por uma camisola semitransparente, curta e com babados.

Era uma visão do paraíso. O pai, preocupado com meu eventual olhar malicioso, pediu de imediato que ela fosse se vestir direito, pois aquilo não eram trajes para aparecer diante de marmanjos. Ele fez bem, é sempre melhor não arriscar, mas não havia grande perigo. Além do respeito pelo amigo leal e pelo local que me acolhera, ela tinha 13 anos e eu 26. Eu ainda era, portanto, muito jovem para sonhar com anjos.

A menina cresceu, ampliou a beleza, mostrou talento e hoje é uma grande e consagrada atriz. O pai, jornalista famoso nas redações de Porto Alegre, por certo não se importou quando ela deixou de ser a filha do Jorge Olavo para ele se tornar o pai da Fernanda.

A Fernandinha, querida amiga, faz tremendo sucesso atualmente com a peça Inimigas Íntimas, na companhia da também talentosa e bela Ingra Liberato, que conheci um pouco depois, na tela da TV, aos 23 anos, exalando sensualidade e talento em Pantanal. Inimigas Íntimas tem texto de Artur Pinto e direção de Néstor Monastério. A próxima temporada vai desta quinta, 17 de julho, até 10 de agosto no Teatro da Amrigs, em Porto Alegre. Mas o convite elas mesmas fazem no vídeo abaixo.
Inimigas Íntimas

sexta-feira, 11 de julho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Fiquem com Ella Fitzgerald ao vivo em Londres, 1965, interpretando Manhattan e Every Time We Say Goodbye. Tenham um ótimo final de semana. Até segunda.

O eterno retorno

O fim de tarde aproxima-se a passos acelerados. Os dias são curtos nesta época do ano. Moro num país tropical, mas em sua porção mais meridional, o que significa menos sol ao longo do ano inteiro, embora com anoiteceres mais tardios. Ainda assim, o dia é curto neste inverno que recém se iniciou. Acelero meus passos. Caminhei por quase meia hora para chegar até aqui e ainda quero correr meia-dúzia de voltas na praça antes de retornar. A cada passada, a cada golfada de ar expelido contra a temperatura baixa, avanço não apenas em direção aos próximos quatrocentos metros. Avanço em direção ao passado.

A praça redescoberta fica em frente à escola na qual cursei da quinta à oitava série. A igreja de tantos momentos importantes também está ali. Os ônibus que muito utilizei, e que partiam de um local que então parecia distante, fazem agora ali seu fim de linha. Os referenciais são fortes, mas a praça parece bem diferente.

Apresso o passo. Nos últimos meses emagreci dezessete quilos, havia prometido emagrecer vinte, mas agora quero vinte e cinco. Dos noventa e cinco aos setenta. Quilos? Anos? Tanto faz. Faltam oito, portanto, que terei de queimar até setembro, para entrar no mês da Primavera, a Primavera de crespas chuvas, odores incomparáveis, cores e texturas indizíveis e aquele brilho arrebatador da vida, com a certeza do dever cumprido, ao menos no que me é possível cumprir apenas com a força de vontade.

As divagações cessam quando avisto um cão enorme com aparência de leão, mas serenidade de cordeiro, a descansar à sombra de uma grande árvore à frente do armazém inverossímil, fruto de uma página passada, insistentemente ainda ali, de portas abertas, a servir aguardente, quem sabe pastéis e paçocas a minguados clientes errantes de final de tarde.

O fôlego começa a escassear, mas o percurso ainda será longo. Retomo o ritmo ao observar o jogo de bocha no centro da praça, destinado a homens aos quais o prazer hoje se resume ao encontro com os velhos camaradas para competições sem perdedores, apostas nunca pagas e a esperança de ainda estar ali no dia seguinte.

Da fileira de ônibus estacionados não espero qualquer cena significativa, mas eis que ela surge na forma de uma rede pendurada entre os bancos, amarrada nos altos corrimões que servem de apoio aos passageiros na hora do rush, e onde agora um motorista dorme de boca aberta à espera do chamado para assumir a pole position da estação.

A praça antes parecia ameaçadora em certos horários, com seu matagal descuidado, seus recantos escuros, e acolhedora em outros, em seu lúdico abandono. Hoje já não parece assustadora, mas está tão bem cuidada que perdeu a poesia. Tanto quanto começo a perder as energias. Uma hora de caminhada e corrida, e ainda tenho de voltar. Melhor esquecer as recordações e poupar o fôlego para a caminhada de retorno. Esqueço que todo retorno possível está apenas nas lembranças.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Vendeta tropical

O presidente Lula foi dormir feliz no Japão. A operação Satiagraha (expressão celebrizada por Mahatma Gandhi e que significa “resistência pacífica e silenciosa”) da Polícia Federal deflagrada nesta manhã envolveu 300 agentes, 24 mandatos de prisão e 56 ordens de busca e apreensão, e levou para a cadeia, entre outros, o especulador Naji Nahas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o banqueiro Daniel Dantas. Tudo normal. Tudo merecido. Nahas é velho conhecido no submundo das altas finanças e o ex-pupilo de Paulo Maluf igualmente dispensa apresentações, mas foi o encarceramento de Dantas que fez Lula adormecer contente.

Membro graduado do clube dos capitalistas ferozes, Dantas há muito é figurinha carimbada em operações empresariais obscuras, negociatas e farras com dinheiro suspeito em paraísos fiscais. Capaz de transitar com invulgar desenvoltura nos bastidores dos grandes negócios, Dantas ganha inimigos com a mesma velocidade com que fecha contratos milionários. Um destes inimigos é o presidente Lula.

À frente de um grupo de investidores, Dantas, dono do Grupo Opportunity detinha o controle da Brasil Telecom quando lhe sussurraram, durante a campanha presidencial de 2002, que o presidente da Oi (“simples assim”) Telemar, Carlos Jereissati, teria fechado acordo com o PT. Jereissati contribuiria com uma bolada para a campanha de Lula que, uma vez eleito, daria um jeito de arrancar a BR Telecom das mãos de Dantas e atirá-la nos braços do dono da Telemar (e da rede de shoppings Iguatemi, entre outros empreendimentos).

Dantas contra-atacou oferecendo outra bolada, que teria sido repassada por meio de Delúbio Soares e Antônio Palocci. Tentou com um considerável mimo de US$ 2 milhões enternecer o coração do poder. Não adiantou. Lula lá, o Citigroup, maior investidor do fundo controlador da Brasil Telecom foi pressionado por representantes do governo brasileiro a tirar Dantas do comando.

Jereissati ganhou o que queria, junto com seu sócio, Sérgio Andrade, da empreiteira Andrade Gutierrez, amigo de Lula. A Telemar injetou R$ 15 milhões na inexpressiva Gamecorp, de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, cujo governo tratou de alterar a lei para permitir a realização do negócio envolvendo a Telemar e a Brasil Telecom. Simples assim. Lula, é claro, não sabia de nada disso. Como não sabia do mensalão, cujas investigações – que até agora não pegaram seus principais protagonistas – acabam de levar Dantas para a cadeia.
AMBIENTE
O que são 42 anos?

Os países que integram o G8 se comprometeram a reduzir à metade a emissão de CO2 até 2050. São só 42 anos, afinal...
JORNALISMO
A China na visão de Sônia Bridi

A Editora Letras Brasileiras lança Laowai, Histórias de uma Repórter Brasileira na China. Laowai significa "estrangeiro". Escrito pela correspondente internacional da Rede Globo Sônia Bridi, com fotos de Paulo Zero, o livro conta com as experiências profissionais e pessoais do casal Sônia e Zero, que foi para a China com um filho pequeno e encarou o desafio de montar a primeira base da Globo naquele lado do mundo.
A obra terá lançamentos em São Paulo (nesta quinta, dia 10, na Cultura do Conjunto Nacional), no Rio (terça, dia 15, na Livraria da Travessa, em Ipanema) e em Florianópolis (quinta, dia 17, na Saraiva do Iguatemi).

CRÉDITO DAS FOTOS
Divulgação

sexta-feira, 4 de julho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Fiquem com Ingrid e Humphrey em Casablanca, enquanto o tempo passa.

Velhas imagens

Em um dos primeiros registros fotográficos de minha existência apareço de tiptop claro e quente, gorro de lã, sentado em um sofá escuro de tecido pesado. Provavelmente fui ajeitado várias vezes até conseguir me manter naquela posição o tempo suficiente para meu pai fazer a foto. Ainda assim, minha mãe teve de se esgueirar por trás do sofá e segurar a gola de meu macacão. Tenho o olhar perplexo dos bebês quando convocados a ficarem quietos por um breve instante enquanto os adultos acionam um mecanismo incompreensível.

Em outro instantâneo estou de camiseta sem mangas, branca e com o escudo do Grêmio no meio, sentado em um pedaço de tecido ou papel num montinho de grama em meio às lajes da calçada. Estou próximo do meio-fio, cercado por outros tufos de capim, e atrás de mim há uma armação de varetas daquelas destinadas a sustentar o crescimento de uma árvore recém-plantada. Olho para a esquerda. Seria minha mãe a despertar minha atenção enquanto meu pai produzia a foto? Ou quem sabe fosse de minha avó, ou de uma vizinha curiosa com a montagem da cena, aquele meio corpo feminino de pé, o equilíbrio mantido por um leve cruzar de pernas, no canto superior esquerdo, vestindo saia branca plissada ou pregueada logo abaixo do joelho, supostamente recostada ao muro baixo de nossa casa, ou da de um vizinho, próxima a um portão escuro, depois do qual se seguiam um muro, outra entrada, uma parede branca e mais uma porta escura. Talvez fosse minha mãe, mas, neste caso, de quem seria aquela mão direita estendendo-se em minha direção a pequena distância, pronta para me amparar caso eu desabasse para o lado certo, ou lado errado, o lado da rua de paralelepípedos? A mão surge à meia altura à direita da foto, cortada tão logo acaba a extensão dos dedos.

Registro posterior me mostra recostado, acuado talvez seja um termo mais preciso, à porta da frente da casa de madeira. A porta é amarela, a parede laranja forte – ou coral, como se dizia –, mas nada disso aparece na foto em preto-e-branco – como as outras duas, sendo que a do sofá ganharia versão colorizada. Eu já não era bebê, mas era bem pequeno. Estava zangado, chorava de raiva enquanto meu pai registrava minha fúria e fraqueza. Lembro de ter decidido fugir de casa, saíra pela frágil porta dos fundos, contornara o pátio lajeado pelo lado esquerdo, mais largo, que conduzia à garagem, e chegara até a frente, mas não passara pelo portão baixo de ferro. Ainda que tivesse altura para escalá-lo, estava de pijama, não carregava roupas, água, comida ou dinheiro, e mesmo uma criança sabe que não se vai longe assim. Era uma manhã de domingo. Tomara uma atitude intempestiva, e agora não sabia o que fazer. Havia jurado nunca mais voltar àquela casa ou àquela gente que me magoara. Não podia retroceder, mas também não tinha como seguir adiante. Para completar, meu pai eternizava minha humilhação. E ainda por cima chovia.

Em outra foto, esta bem menos dramática e de muito tempo depois, tenho 14 anos, sou magro a não poder mais, os cabelos longos e cacheados. Uso relógio no pulso esquerdo – embora não seja canhoto, pouco depois passei a colocá-los no lado direito, o que mantenho até hoje. Deve ser um Sorel que herdei de meu avô, creio que ainda não ganhara meu primeiro relógio zero quilômetro, um Technos dourado presenteado por meio pai, com estojo vermelho forrado de cetim branco, que usei até o perder em assalto à mão armado, numa madrugada fria, já no início dos anos 80.

Visto-me com o alegre excesso dos ’70. Camiseta branca de mangas curtas, de malha canelada, com estampa em pequenas flores nas cores rosa e verde, e um cordão na gola, transformado em pequeno tope como o de um sapato amarrado. As calças são de brim tergalizado, rosa quase choque – chamava-se rosa antigo –, boca-de-sino, cós alto e bem justa, feita na costureira dos rapazes do bairro, que confeccionara para mim outras calças iguais em lilás, azul calipso e bordô. Estou encostado no Gordini de meu pai, placas laranja AJ-9757. O carro é branco, tem sinais de lanternagem no lado esquerdo, oposto ao qual me recosto. Estamos, o Gordini e eu, na alameda de um parque, o piso é uma mistura de paralelepípedo e chão batido, o meio-feio é de pedras pintadas de cal, há árvores aos lados e ao fundo, onde também aparece um Fusca branco estacionado na transversal, e mais ao fundo ainda os morros a emoldurar a cidade.

São apenas fragmentos, fotos encontradas ao acaso, registros de uma vida, coisa pouca, mas nunca coisa pouca. Basta uma breve olhada para o momento retornar em todos os detalhes. Por isso uma fotografia jamais será substituída por qualquer outro meio, como nada substitui um livro. E nada substitui uma vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Plantão de notícias

Agora, na barra lateral deste Blog, você pode acompanhar as mais recentes notícias do Brasil e do mundo por meio do G1, o portal da Globo.

TOCO Y ME VOY

Senhoras e senhores, a conquista da Copa de 58 em mais um belo texto de Augusto Nunes. Como preliminar, o vídeo da decisão contra a Suécia.
Toco y me voy.

TRÊS SORVETES E UMA TAÇA

Augusto Nunes

"Você não vai ouvir o jogo do Brasil? Pensei que gostasse de futebol", estranhou minha mãe quando avisei que estava de saída para a sorveteria. Ela vai ouvir o jogo contra a Suécia?, também estranhei ao vê-la de pé a um metro do rádio, com a caçula no colo e querendo saber dos dois filhos sentados no sofá como era mesmo o nome do juiz. Pensei que não gostasse de futebol.

Eu gostava. Aos 8 anos, ia me entendendo melhor com a bola, meu pai contara que eu era torcedor do Palmeiras e tinha decorado antes da estréia contra a Áustria os nomes dos 22 craques da Seleção. Gostava mais de jogar futebol que de ouvir, mas vinha acompanhando as batalhas da pátria em chuteiras na Guerra da Suécia pelo rádio da minha avó, uma imigrante italiana que se juntara à torcida brasileira ao descobrir que o elenco incluía um Bellini e um Mazzolla. Sabia que o time canarinho estava fazendo bonito, que Garrincha destroçara o futebol científico da comunistada russa e que, naquele domingo, o duelo em Estocolmo decidiria não só a Copa, mas também diria se o Brasil tinha jeito.

O que não sabia é que seriam declarados traidores da nação em perigo, e sumariamente condenados à execração perpétua, sem direito a recursos julgados em instâncias superiores ou apelações a tribunais internacionais, todos os brasileiros, incluídos os recém-nascidos e os mortos do mês, os índios da Amazônia e os imigrantes procedentes de remotíssimas paragens, as normalistas oferecidas e as carmelitas descalças, os inimputáveis em geral e os loucos de hospício em particular, todos os brasileiros que, no dia 19 de junho de 1958, pensassem em qualquer outra coisa além da conquista da Copa. Não sabia disso. E eu também gostava muito de sorvete. E acordei pensando não nos dribles de Garrincha, mas num palito de limão.

“Volto antes da metade do primeiro tempo”, comecei a explicar quando fui aparteado por um dos irmãos. “Não dá, são quinze quarteirões. Fala logo que não gosta de futebol”, provocou. Acusei-o de ter passado na casa de um amigo a tarde do duríssimo combate contra o País de Gales. “Só que ouvindo o rádio e jogando futebol-de botão, não tomando sorvete”, ele mandou no ângulo. Esperei em vão pela cobertura da velha Amabile, sentada na cadeira de balanço. Ela continuou olhando o rádio. “Esse moleque é meio bobo”, resumiu o pensamento geral meu irmão mais velho. Estava pronto para entrar de carrinho quando meu pai entrou em casa e os dois times em campo. Aproveitei a distração do inimigo, fingi que recuava para proteger a retaguarda e invadi o quarto. Precisava de uma camisa. O dia estava meio frio.

O inverno ia chegando ao meio, e ainda havia nos sertão paulista outras estações além do verão que acabaria eternizado pelo oceano de cana que engoliu primeiro as plantações de café, depois os laranjais e enfim, quando já não restavam campos a afogar, até os casarões das fazendas, as tulhas e os canteiros, as hortas e os quintais. Vesti uma camiseta verde, sem distintivo nem número nas costas. Continuei descalço. E com aquele calção detestável que todos os menores de 10 anos usavam, feito pelas mães e tias com a amputação, milímetros acima do joelho, das pernas de alguma calça de adulto severamente castigada pelo tempo.

Se me tratassem com mais cortesia, eu talvez tivesse deixado o sorvete para depois do jogo. Sob pressão é que não fico em casa mesmo. E não vou trazer nem um palito para aquela gente. Nem para a avó, radicalizei no momento em que o juiz, um francês chamado Messiê Guiguê conforme a voz no rádio, apitou o começo da partida e da caminhada rumo à sorveteria. E então notei a paisagem: não havia ninguém na rua da minha casa.

Nem na General Glicério nem Marechal Deodoro, espantei-me no segundo minuto da final e na primeira esquina. Nem em qualquer outra rua de Taquaritinga, fiquei assustado aos 4 do primeiro tempo, quando cheguei ao cruzamento da General Glicério com a Duque de Caxias junto com o gol da Suécia marcado na calçada da casa da família Curti e transmitido pelo locutor, sem entusiasmo, pelo rádio da sala do pai do João Perrone.

Haviam sumido das calçadas os quase 10 mil habitantes, e todos os carros estavam nas garagens dos donos ou encostados no meio-fio. O único sinal de vida era a voz do locutor. Melhor desistir, resolvi. Caminhei com Didi, ambos lentamente, ele em direção do meio de campo, com a cabeça erguida, a bola na mão esquerda e tranqüilizando o time, eu de volta para casa, cabisbaixo, de mãos abanando e tentando preparar-me para a capitulação humilhante que só não foi consumada porque, aos 9 minutos, Vavá empatou na varanda dos Benatti, a última antes da esquina com a Marechal Deodoro.

Todo mundo estava ouvindo o jogo, confirmou a universalização da voz do locutor que se sobrepunha ao berreiro coletivo, a mesmíssima voz agora vinda de todos os pontos cardeais, do céu e da terra, multiplicada por dezenas, centenas, milhares de aparelhos ligados na mesma estação, atravessando todas as janelas que todas as famílias haviam escancarado para que até os jardins, os pomares ou algum transeunte desavisado testemunhassem, sem perderem um único centésimo de segundo, o triunfo da Seleção incomparável. E então os ouvidos atentos como os olhos do goleiro Gilmar captaram o oportuníssimo recado sonoro: a barulheira do lado ocupado só por casas era bem maior que a do outro, onde ficavam a sede do Clube Imperial, o prédio da Caixa Econômica e dois bares. Todos estavam fechados.

É só seguir o caminho das casas, deslumbrei-me ao compreender que poderia tomar sorvete e ouvir jogo, e depois desconcertar a caipirada lá na sala de visitas com o mistério da minha ubiqüidade, porque nenhum parente sabia do que eu acabara de saber e não contaria nem sob tortura. Montei o novo plano com a serenidade de um Feola. O roteiro redesenhado pelas circunstâncias agora passaria ao largo de clubes, repartições públicas, associações, bares ou botequins, estabelecimentos comerciais, escolas – tudo que pudesse estar fechado ou desprovido de aparelhos de rádio.

Subi outra vez pela General Glicério, virei à esquerda com a elegância sutil de Nilton Santos na Duque de Caxias, arranquei rente à lateral direita como Djalma Santos, parei feito Orlando diante do meia-direita francês na esquina com a Campos Salles, virei o jogo para a direita como Zito e corri para o abraço quando Vavá desempatou debaixo da segunda janela do doutor Luizão.

O Brasil descia para o vestiário e eu driblava o terreno da Força e Luz para virar à a esquerda na esquina da Campos Salles com a Visconde do Rio Branco. O jogo estava no intervalo quando enxerguei as portas da Sorveteria do Abbud. Hoje é meu dia, avisaram as portas abertas. Além dos quatro homens sentados na mesa perto do rádio, que nem me olharam, lá estava um dos donos, o irmão mais alto e ainda mais magro, acho que se chamava Elias, que ouviu o pedido sem deixar de ouvir o comentarista.

Antes de terminar o palito de limão, descobri que estava sintonizado na Cadeia Verde-Amarela, liderada pela Bandeirantes, e que o primeiro tempo fora transmitido por Pedro Luiz. Edson Leite narraria o segundo, soube no palito seguinte, outra vez de limão. A voz agora menos veloz, mais grave e igualmente soberba avisou que estavam começando os 45 minutos que decidiriam a sorte do Brasil na Copa do Mundo. Pedi uma casquinha de abacaxi, só para variar, levantei-me certo de que a taça já era nossa e fiquei com cara de campeão no momento do golaço de Pelé ao lado da casa do Turqueta, pai do Zé Ditão e do Tonho Mariano, no fim do primeiro quarteirão do caminho de volta.

Zagallo encaçapou de bico perto da jabuticabeira da minha professora do jardim da infância, nem me abalei com o segundo da Suécia, marcado em frente do casarão da família Mantese em clamoroso impedimento, como assinalou Edson Leite. Resolvi ganhar tempo para entrar em casa no apito final, mas nem pensei em administrar o tempo, isso só existiria no futuro, não naquele junho em que o negócio era jogar pra frente, ou ficar driblando meio mundo, e por isso resolvi aproveitar a falta de espectadores para reproduzir os melhores lances. Saí pela direita como Garrincha na esquina da Duque de Caxias com a General Glicério, percebi que voltara ao ponto de partida depois da quarta arrancada, sempre pela direita, e achei mais sensato avançar sem pressa como Didi, ultrapassei o Chevrolet rabo de peixe do doutor Luizinho Barbosa, encobri um Mercury preto com o chapéu sem bola igualzinho ao de Pelé a caminho do quinto gol, estufei a rede no portão de casa e entrei na sala gritando “Brasil!”

"O único do mundo que não ouviu o jogo", debochou o mais velho. "Não gosta de futebol", o outro pegou-me de novo no tornozelo. Revidei com um elogio ao sorvete, a narração dos cinco gols, um sorriso de campeão do mundo e aquele sorriso no olhar só concedido a quem, ouvindo o rádio, viu como jogavam os heróis de 1958".

Publicado originalmente no Jornal do Brasil

terça-feira, 1 de julho de 2008

JORNALISMO

Ensaio sobre a leitura

A história da leitura registra que os novos meios sempre causaram pânico nos resistentes a mudanças tanto quanto sentimentos alvissareiros nos arautos da modernidade. Invariavelmente, ambos tiveram de recuar até o meio-de-campo e recomeçar do zero a zero. Avanços como a internet, o computador, a máquina de escrever, os sistemas de impressão ou da troca dos rolos de pergaminho pelas folhas de papel, são meros instrumentos, subordinados, portanto, às decisões humanas sobre suas aplicações. Mais amplamente, dependem de mecanismos capazes de promover a inclusão em massa, sem a qual o abismo entre consumidores e excluídos é ampliado.

Trata-se, “apenas” e desde sempre, de uma questão de distribuição justa de riquezas. Que nem seja o ideal, mas o mínimo necessário para que a humanidade usufrua como um todo dos avanços obtidos nos milhares de anos de presença do homem sobre a Terra. Uma história feita de lutas, conquistas e derrotas, mas, sobretudo, de exclusão. O impacto dos novos modos de leitura, amplificado pela rede mundial de computadores, chama a atenção pela alta tecnologia, mas é assim desde Gutenberg, sendo que mesmo ele, embora justamente convertido em ícone da massificação da leitura graças à invenção da imprensa, ou do meio físico que a permitiu vicejar, não tenha alcançado com sua criação o paraíso da leitura em massa que possa ter vislumbrado num primeiro momento.

Conforme lembra o pesquisador e escritor inglês Martyn Lyons em A Palavra Impressa – Histórias da leitura no século XIX, “a imprensa não foi necessariamente revolucionária para o campesinato europeu, exceto no sentido de que a palavra impressa oferecia novos modos de dominação dos governos, aristocratas, religiosos, advogados e coletores de impostos que oprimiam os camponeses”. Uma das trágicas ironias do desenvolvimento dos povos é o distanciamento cada vez maior entre os que possuem e os que não possuem, reforçado a cada degrau tecnológico que se escala.

O poder da palavra, em especial a escrita, sempre foi utilizado como elemento coercitivo pelos poderosos – e de libertação pelos raros oprimidos que logravam atingir a inclusão –, num desigual jogo de palavras, como no diálogo de Alice no País das Maravilhas:
– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem tantas coisas diferentes.
– A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.

A diferença entre o analfabeto e o alfabetizado era menos escandalosa quando só tínhamos papiros. A abundância de oferta de leitura existente hoje escancara de forma avassaladora o abismo entre incluídos e excluídos como jamais ocorrera na história. Embora a frase “como jamais ocorrera na história” possa parecer óbvia, uma vez que a ordem natural da vida indica contínuo crescimento e aperfeiçoamento, ela é pertinente neste caso porque todos os avanços técnicos anteriores da escrita, por mais importantes que fossem, limitavam-se ao ato de escrever e de ler, caso dos livros em folhas de papel, a tipografia, a máquina de escrever e etc.

Muito mais do que substituir totalmente o livro em papel, passo improvável desta evolução, ao menos por um ainda longo período, o computador e seu mais revolucionário aplicativo, a internet, substituíram a ida ao banco, ao correio ou mesmo a lojas e supermercados, e os usuários muitas vezes executam tais tarefas em paralelo à leitura, em sites, das notícias do dia, de estudos acadêmicos e textos dos mais variados estilos, fins e dimensões. O analfabeto, ou o analfabeto funcional, não apenas deixa de ler determinadas obras por falta de acesso a livros, de todo modo já um prejuízo imenso, como fica de fora do clube cujos sócios usufruem de uma série de facilitadores do cotidiano moderno, decisivos em sociedades violentas, de trânsito pesado e de alucinada correria atrás do sustento, aos quais sobra, até, mais tempo para a leitura. Ter um computador conectado à internet é sonho impossível para milhões de pessoas que não sabem de onde sairá o próximo prato de comida. Mesmo na hipótese de conseguir se alfabetizar, como ter acesso aos meios mais modernos?

Ainda que ignoremos o computador como elemento de leitura no sentido mais amplo, atitude no mínimo imprudente, mesmo assim os novos alfabetizados não teriam como pagar pelos livros, ou estariam longe demais das bibliotecas, problema que se agrava em vez de se amenizar. Tal quadro tende a piorar em escala exponencial até que se reduzam as desigualdades de maneira significativa. As grandes bibliotecas em séculos passados eram, sintomaticamente, fechadas ao público. A Ambrosiana, de Milão, surpreendia os visitantes por permitir acesso aos livros, conforme relata Peter Burke em Variedades de História Cultural:

“É claro que nossos visitantes não esperavam que uma biblioteca tão importante fosse realmente acessível. Em Oxford, estrangeiros não podiam tomar notas sobre livros na Biblioteca Bodleiana, a não ser que fossem supervisionados por um bacharel da universidade. Em Londres, a famosa Sala de Leitura do Museu Britânico, completa com escrivaninhas e canetas, só foi aberta ao público em meados do século XIX. Pelo menos dessa vez, o mundo de cabeça para baixo revelou ter suas vantagens (ironia do autor a respeito da notória informalidade italiana).”

Os incluídos, primeiro na sociedade de consumo pura e simplesmente, depois na sociedade de consumo cultural, estágio mais avançado de uma civilização e um de seus mais potentes legitimadores, por certo nem sempre aproveitam as vantagens da inclusão, enviando e recebendo e-mails permeados de siglas, códigos e abreviaturas, matando a velha e boa carta que, ao contrário, deveria ter sido revigorada pelas facilidades da internet. São os auto-excluídos da linguagem elegante, do português, não castiço, mas o básico mesmo. Poucos estão dispostos, por preguiça ou incompetência, a percorrer labirintos de frases, parágrafos, concordâncias, crases, próclises e ênclises. É mais fácil invocar a modernidade.

Para quem já não lia muito, apesar do livre acesso, em especial econômico, ao livro, o e-mail padrão pode ter efeitos devastadores. Há quem diga que estamos diante de uma nova e interessante forma de linguagem. Creio que podemos abrir mão desta modernidade. Tecnologia de ponta é uma coisa, linguagem não-culta é outra, e sequer serve o pretexto de que é a linguagem do povo. Povo mesmo está fora dessa, infelizmente. Ao menos por um bom tempo.


Publicado originalmente no site coletiva.net
Como é fácil prender bêbados

Em dez dias da nova (e excessiva) lei, quase 300 pessoas foram presas por dirigir alcoolizadas. Passados 15 dias, nenhum bandido paisano foi preso pela morte dos três rapazes no Morro da Providência.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Obrigado pela audiência. Fiquem com Michael Bolton.
Até segunda.