sexta-feira, 11 de julho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Fiquem com Ella Fitzgerald ao vivo em Londres, 1965, interpretando Manhattan e Every Time We Say Goodbye. Tenham um ótimo final de semana. Até segunda.

O eterno retorno

O fim de tarde aproxima-se a passos acelerados. Os dias são curtos nesta época do ano. Moro num país tropical, mas em sua porção mais meridional, o que significa menos sol ao longo do ano inteiro, embora com anoiteceres mais tardios. Ainda assim, o dia é curto neste inverno que recém se iniciou. Acelero meus passos. Caminhei por quase meia hora para chegar até aqui e ainda quero correr meia-dúzia de voltas na praça antes de retornar. A cada passada, a cada golfada de ar expelido contra a temperatura baixa, avanço não apenas em direção aos próximos quatrocentos metros. Avanço em direção ao passado.

A praça redescoberta fica em frente à escola na qual cursei da quinta à oitava série. A igreja de tantos momentos importantes também está ali. Os ônibus que muito utilizei, e que partiam de um local que então parecia distante, fazem agora ali seu fim de linha. Os referenciais são fortes, mas a praça parece bem diferente.

Apresso o passo. Nos últimos meses emagreci dezessete quilos, havia prometido emagrecer vinte, mas agora quero vinte e cinco. Dos noventa e cinco aos setenta. Quilos? Anos? Tanto faz. Faltam oito, portanto, que terei de queimar até setembro, para entrar no mês da Primavera, a Primavera de crespas chuvas, odores incomparáveis, cores e texturas indizíveis e aquele brilho arrebatador da vida, com a certeza do dever cumprido, ao menos no que me é possível cumprir apenas com a força de vontade.

As divagações cessam quando avisto um cão enorme com aparência de leão, mas serenidade de cordeiro, a descansar à sombra de uma grande árvore à frente do armazém inverossímil, fruto de uma página passada, insistentemente ainda ali, de portas abertas, a servir aguardente, quem sabe pastéis e paçocas a minguados clientes errantes de final de tarde.

O fôlego começa a escassear, mas o percurso ainda será longo. Retomo o ritmo ao observar o jogo de bocha no centro da praça, destinado a homens aos quais o prazer hoje se resume ao encontro com os velhos camaradas para competições sem perdedores, apostas nunca pagas e a esperança de ainda estar ali no dia seguinte.

Da fileira de ônibus estacionados não espero qualquer cena significativa, mas eis que ela surge na forma de uma rede pendurada entre os bancos, amarrada nos altos corrimões que servem de apoio aos passageiros na hora do rush, e onde agora um motorista dorme de boca aberta à espera do chamado para assumir a pole position da estação.

A praça antes parecia ameaçadora em certos horários, com seu matagal descuidado, seus recantos escuros, e acolhedora em outros, em seu lúdico abandono. Hoje já não parece assustadora, mas está tão bem cuidada que perdeu a poesia. Tanto quanto começo a perder as energias. Uma hora de caminhada e corrida, e ainda tenho de voltar. Melhor esquecer as recordações e poupar o fôlego para a caminhada de retorno. Esqueço que todo retorno possível está apenas nas lembranças.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Vendeta tropical

O presidente Lula foi dormir feliz no Japão. A operação Satiagraha (expressão celebrizada por Mahatma Gandhi e que significa “resistência pacífica e silenciosa”) da Polícia Federal deflagrada nesta manhã envolveu 300 agentes, 24 mandatos de prisão e 56 ordens de busca e apreensão, e levou para a cadeia, entre outros, o especulador Naji Nahas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o banqueiro Daniel Dantas. Tudo normal. Tudo merecido. Nahas é velho conhecido no submundo das altas finanças e o ex-pupilo de Paulo Maluf igualmente dispensa apresentações, mas foi o encarceramento de Dantas que fez Lula adormecer contente.

Membro graduado do clube dos capitalistas ferozes, Dantas há muito é figurinha carimbada em operações empresariais obscuras, negociatas e farras com dinheiro suspeito em paraísos fiscais. Capaz de transitar com invulgar desenvoltura nos bastidores dos grandes negócios, Dantas ganha inimigos com a mesma velocidade com que fecha contratos milionários. Um destes inimigos é o presidente Lula.

À frente de um grupo de investidores, Dantas, dono do Grupo Opportunity detinha o controle da Brasil Telecom quando lhe sussurraram, durante a campanha presidencial de 2002, que o presidente da Oi (“simples assim”) Telemar, Carlos Jereissati, teria fechado acordo com o PT. Jereissati contribuiria com uma bolada para a campanha de Lula que, uma vez eleito, daria um jeito de arrancar a BR Telecom das mãos de Dantas e atirá-la nos braços do dono da Telemar (e da rede de shoppings Iguatemi, entre outros empreendimentos).

Dantas contra-atacou oferecendo outra bolada, que teria sido repassada por meio de Delúbio Soares e Antônio Palocci. Tentou com um considerável mimo de US$ 2 milhões enternecer o coração do poder. Não adiantou. Lula lá, o Citigroup, maior investidor do fundo controlador da Brasil Telecom foi pressionado por representantes do governo brasileiro a tirar Dantas do comando.

Jereissati ganhou o que queria, junto com seu sócio, Sérgio Andrade, da empreiteira Andrade Gutierrez, amigo de Lula. A Telemar injetou R$ 15 milhões na inexpressiva Gamecorp, de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, cujo governo tratou de alterar a lei para permitir a realização do negócio envolvendo a Telemar e a Brasil Telecom. Simples assim. Lula, é claro, não sabia de nada disso. Como não sabia do mensalão, cujas investigações – que até agora não pegaram seus principais protagonistas – acabam de levar Dantas para a cadeia.
AMBIENTE
O que são 42 anos?

Os países que integram o G8 se comprometeram a reduzir à metade a emissão de CO2 até 2050. São só 42 anos, afinal...
JORNALISMO
A China na visão de Sônia Bridi

A Editora Letras Brasileiras lança Laowai, Histórias de uma Repórter Brasileira na China. Laowai significa "estrangeiro". Escrito pela correspondente internacional da Rede Globo Sônia Bridi, com fotos de Paulo Zero, o livro conta com as experiências profissionais e pessoais do casal Sônia e Zero, que foi para a China com um filho pequeno e encarou o desafio de montar a primeira base da Globo naquele lado do mundo.
A obra terá lançamentos em São Paulo (nesta quinta, dia 10, na Cultura do Conjunto Nacional), no Rio (terça, dia 15, na Livraria da Travessa, em Ipanema) e em Florianópolis (quinta, dia 17, na Saraiva do Iguatemi).

CRÉDITO DAS FOTOS
Divulgação

sexta-feira, 4 de julho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Fiquem com Ingrid e Humphrey em Casablanca, enquanto o tempo passa.

Velhas imagens

Em um dos primeiros registros fotográficos de minha existência apareço de tiptop claro e quente, gorro de lã, sentado em um sofá escuro de tecido pesado. Provavelmente fui ajeitado várias vezes até conseguir me manter naquela posição o tempo suficiente para meu pai fazer a foto. Ainda assim, minha mãe teve de se esgueirar por trás do sofá e segurar a gola de meu macacão. Tenho o olhar perplexo dos bebês quando convocados a ficarem quietos por um breve instante enquanto os adultos acionam um mecanismo incompreensível.

Em outro instantâneo estou de camiseta sem mangas, branca e com o escudo do Grêmio no meio, sentado em um pedaço de tecido ou papel num montinho de grama em meio às lajes da calçada. Estou próximo do meio-fio, cercado por outros tufos de capim, e atrás de mim há uma armação de varetas daquelas destinadas a sustentar o crescimento de uma árvore recém-plantada. Olho para a esquerda. Seria minha mãe a despertar minha atenção enquanto meu pai produzia a foto? Ou quem sabe fosse de minha avó, ou de uma vizinha curiosa com a montagem da cena, aquele meio corpo feminino de pé, o equilíbrio mantido por um leve cruzar de pernas, no canto superior esquerdo, vestindo saia branca plissada ou pregueada logo abaixo do joelho, supostamente recostada ao muro baixo de nossa casa, ou da de um vizinho, próxima a um portão escuro, depois do qual se seguiam um muro, outra entrada, uma parede branca e mais uma porta escura. Talvez fosse minha mãe, mas, neste caso, de quem seria aquela mão direita estendendo-se em minha direção a pequena distância, pronta para me amparar caso eu desabasse para o lado certo, ou lado errado, o lado da rua de paralelepípedos? A mão surge à meia altura à direita da foto, cortada tão logo acaba a extensão dos dedos.

Registro posterior me mostra recostado, acuado talvez seja um termo mais preciso, à porta da frente da casa de madeira. A porta é amarela, a parede laranja forte – ou coral, como se dizia –, mas nada disso aparece na foto em preto-e-branco – como as outras duas, sendo que a do sofá ganharia versão colorizada. Eu já não era bebê, mas era bem pequeno. Estava zangado, chorava de raiva enquanto meu pai registrava minha fúria e fraqueza. Lembro de ter decidido fugir de casa, saíra pela frágil porta dos fundos, contornara o pátio lajeado pelo lado esquerdo, mais largo, que conduzia à garagem, e chegara até a frente, mas não passara pelo portão baixo de ferro. Ainda que tivesse altura para escalá-lo, estava de pijama, não carregava roupas, água, comida ou dinheiro, e mesmo uma criança sabe que não se vai longe assim. Era uma manhã de domingo. Tomara uma atitude intempestiva, e agora não sabia o que fazer. Havia jurado nunca mais voltar àquela casa ou àquela gente que me magoara. Não podia retroceder, mas também não tinha como seguir adiante. Para completar, meu pai eternizava minha humilhação. E ainda por cima chovia.

Em outra foto, esta bem menos dramática e de muito tempo depois, tenho 14 anos, sou magro a não poder mais, os cabelos longos e cacheados. Uso relógio no pulso esquerdo – embora não seja canhoto, pouco depois passei a colocá-los no lado direito, o que mantenho até hoje. Deve ser um Sorel que herdei de meu avô, creio que ainda não ganhara meu primeiro relógio zero quilômetro, um Technos dourado presenteado por meio pai, com estojo vermelho forrado de cetim branco, que usei até o perder em assalto à mão armado, numa madrugada fria, já no início dos anos 80.

Visto-me com o alegre excesso dos ’70. Camiseta branca de mangas curtas, de malha canelada, com estampa em pequenas flores nas cores rosa e verde, e um cordão na gola, transformado em pequeno tope como o de um sapato amarrado. As calças são de brim tergalizado, rosa quase choque – chamava-se rosa antigo –, boca-de-sino, cós alto e bem justa, feita na costureira dos rapazes do bairro, que confeccionara para mim outras calças iguais em lilás, azul calipso e bordô. Estou encostado no Gordini de meu pai, placas laranja AJ-9757. O carro é branco, tem sinais de lanternagem no lado esquerdo, oposto ao qual me recosto. Estamos, o Gordini e eu, na alameda de um parque, o piso é uma mistura de paralelepípedo e chão batido, o meio-feio é de pedras pintadas de cal, há árvores aos lados e ao fundo, onde também aparece um Fusca branco estacionado na transversal, e mais ao fundo ainda os morros a emoldurar a cidade.

São apenas fragmentos, fotos encontradas ao acaso, registros de uma vida, coisa pouca, mas nunca coisa pouca. Basta uma breve olhada para o momento retornar em todos os detalhes. Por isso uma fotografia jamais será substituída por qualquer outro meio, como nada substitui um livro. E nada substitui uma vida.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Plantão de notícias

Agora, na barra lateral deste Blog, você pode acompanhar as mais recentes notícias do Brasil e do mundo por meio do G1, o portal da Globo.

TOCO Y ME VOY

Senhoras e senhores, a conquista da Copa de 58 em mais um belo texto de Augusto Nunes. Como preliminar, o vídeo da decisão contra a Suécia.
Toco y me voy.

TRÊS SORVETES E UMA TAÇA

Augusto Nunes

"Você não vai ouvir o jogo do Brasil? Pensei que gostasse de futebol", estranhou minha mãe quando avisei que estava de saída para a sorveteria. Ela vai ouvir o jogo contra a Suécia?, também estranhei ao vê-la de pé a um metro do rádio, com a caçula no colo e querendo saber dos dois filhos sentados no sofá como era mesmo o nome do juiz. Pensei que não gostasse de futebol.

Eu gostava. Aos 8 anos, ia me entendendo melhor com a bola, meu pai contara que eu era torcedor do Palmeiras e tinha decorado antes da estréia contra a Áustria os nomes dos 22 craques da Seleção. Gostava mais de jogar futebol que de ouvir, mas vinha acompanhando as batalhas da pátria em chuteiras na Guerra da Suécia pelo rádio da minha avó, uma imigrante italiana que se juntara à torcida brasileira ao descobrir que o elenco incluía um Bellini e um Mazzolla. Sabia que o time canarinho estava fazendo bonito, que Garrincha destroçara o futebol científico da comunistada russa e que, naquele domingo, o duelo em Estocolmo decidiria não só a Copa, mas também diria se o Brasil tinha jeito.

O que não sabia é que seriam declarados traidores da nação em perigo, e sumariamente condenados à execração perpétua, sem direito a recursos julgados em instâncias superiores ou apelações a tribunais internacionais, todos os brasileiros, incluídos os recém-nascidos e os mortos do mês, os índios da Amazônia e os imigrantes procedentes de remotíssimas paragens, as normalistas oferecidas e as carmelitas descalças, os inimputáveis em geral e os loucos de hospício em particular, todos os brasileiros que, no dia 19 de junho de 1958, pensassem em qualquer outra coisa além da conquista da Copa. Não sabia disso. E eu também gostava muito de sorvete. E acordei pensando não nos dribles de Garrincha, mas num palito de limão.

“Volto antes da metade do primeiro tempo”, comecei a explicar quando fui aparteado por um dos irmãos. “Não dá, são quinze quarteirões. Fala logo que não gosta de futebol”, provocou. Acusei-o de ter passado na casa de um amigo a tarde do duríssimo combate contra o País de Gales. “Só que ouvindo o rádio e jogando futebol-de botão, não tomando sorvete”, ele mandou no ângulo. Esperei em vão pela cobertura da velha Amabile, sentada na cadeira de balanço. Ela continuou olhando o rádio. “Esse moleque é meio bobo”, resumiu o pensamento geral meu irmão mais velho. Estava pronto para entrar de carrinho quando meu pai entrou em casa e os dois times em campo. Aproveitei a distração do inimigo, fingi que recuava para proteger a retaguarda e invadi o quarto. Precisava de uma camisa. O dia estava meio frio.

O inverno ia chegando ao meio, e ainda havia nos sertão paulista outras estações além do verão que acabaria eternizado pelo oceano de cana que engoliu primeiro as plantações de café, depois os laranjais e enfim, quando já não restavam campos a afogar, até os casarões das fazendas, as tulhas e os canteiros, as hortas e os quintais. Vesti uma camiseta verde, sem distintivo nem número nas costas. Continuei descalço. E com aquele calção detestável que todos os menores de 10 anos usavam, feito pelas mães e tias com a amputação, milímetros acima do joelho, das pernas de alguma calça de adulto severamente castigada pelo tempo.

Se me tratassem com mais cortesia, eu talvez tivesse deixado o sorvete para depois do jogo. Sob pressão é que não fico em casa mesmo. E não vou trazer nem um palito para aquela gente. Nem para a avó, radicalizei no momento em que o juiz, um francês chamado Messiê Guiguê conforme a voz no rádio, apitou o começo da partida e da caminhada rumo à sorveteria. E então notei a paisagem: não havia ninguém na rua da minha casa.

Nem na General Glicério nem Marechal Deodoro, espantei-me no segundo minuto da final e na primeira esquina. Nem em qualquer outra rua de Taquaritinga, fiquei assustado aos 4 do primeiro tempo, quando cheguei ao cruzamento da General Glicério com a Duque de Caxias junto com o gol da Suécia marcado na calçada da casa da família Curti e transmitido pelo locutor, sem entusiasmo, pelo rádio da sala do pai do João Perrone.

Haviam sumido das calçadas os quase 10 mil habitantes, e todos os carros estavam nas garagens dos donos ou encostados no meio-fio. O único sinal de vida era a voz do locutor. Melhor desistir, resolvi. Caminhei com Didi, ambos lentamente, ele em direção do meio de campo, com a cabeça erguida, a bola na mão esquerda e tranqüilizando o time, eu de volta para casa, cabisbaixo, de mãos abanando e tentando preparar-me para a capitulação humilhante que só não foi consumada porque, aos 9 minutos, Vavá empatou na varanda dos Benatti, a última antes da esquina com a Marechal Deodoro.

Todo mundo estava ouvindo o jogo, confirmou a universalização da voz do locutor que se sobrepunha ao berreiro coletivo, a mesmíssima voz agora vinda de todos os pontos cardeais, do céu e da terra, multiplicada por dezenas, centenas, milhares de aparelhos ligados na mesma estação, atravessando todas as janelas que todas as famílias haviam escancarado para que até os jardins, os pomares ou algum transeunte desavisado testemunhassem, sem perderem um único centésimo de segundo, o triunfo da Seleção incomparável. E então os ouvidos atentos como os olhos do goleiro Gilmar captaram o oportuníssimo recado sonoro: a barulheira do lado ocupado só por casas era bem maior que a do outro, onde ficavam a sede do Clube Imperial, o prédio da Caixa Econômica e dois bares. Todos estavam fechados.

É só seguir o caminho das casas, deslumbrei-me ao compreender que poderia tomar sorvete e ouvir jogo, e depois desconcertar a caipirada lá na sala de visitas com o mistério da minha ubiqüidade, porque nenhum parente sabia do que eu acabara de saber e não contaria nem sob tortura. Montei o novo plano com a serenidade de um Feola. O roteiro redesenhado pelas circunstâncias agora passaria ao largo de clubes, repartições públicas, associações, bares ou botequins, estabelecimentos comerciais, escolas – tudo que pudesse estar fechado ou desprovido de aparelhos de rádio.

Subi outra vez pela General Glicério, virei à esquerda com a elegância sutil de Nilton Santos na Duque de Caxias, arranquei rente à lateral direita como Djalma Santos, parei feito Orlando diante do meia-direita francês na esquina com a Campos Salles, virei o jogo para a direita como Zito e corri para o abraço quando Vavá desempatou debaixo da segunda janela do doutor Luizão.

O Brasil descia para o vestiário e eu driblava o terreno da Força e Luz para virar à a esquerda na esquina da Campos Salles com a Visconde do Rio Branco. O jogo estava no intervalo quando enxerguei as portas da Sorveteria do Abbud. Hoje é meu dia, avisaram as portas abertas. Além dos quatro homens sentados na mesa perto do rádio, que nem me olharam, lá estava um dos donos, o irmão mais alto e ainda mais magro, acho que se chamava Elias, que ouviu o pedido sem deixar de ouvir o comentarista.

Antes de terminar o palito de limão, descobri que estava sintonizado na Cadeia Verde-Amarela, liderada pela Bandeirantes, e que o primeiro tempo fora transmitido por Pedro Luiz. Edson Leite narraria o segundo, soube no palito seguinte, outra vez de limão. A voz agora menos veloz, mais grave e igualmente soberba avisou que estavam começando os 45 minutos que decidiriam a sorte do Brasil na Copa do Mundo. Pedi uma casquinha de abacaxi, só para variar, levantei-me certo de que a taça já era nossa e fiquei com cara de campeão no momento do golaço de Pelé ao lado da casa do Turqueta, pai do Zé Ditão e do Tonho Mariano, no fim do primeiro quarteirão do caminho de volta.

Zagallo encaçapou de bico perto da jabuticabeira da minha professora do jardim da infância, nem me abalei com o segundo da Suécia, marcado em frente do casarão da família Mantese em clamoroso impedimento, como assinalou Edson Leite. Resolvi ganhar tempo para entrar em casa no apito final, mas nem pensei em administrar o tempo, isso só existiria no futuro, não naquele junho em que o negócio era jogar pra frente, ou ficar driblando meio mundo, e por isso resolvi aproveitar a falta de espectadores para reproduzir os melhores lances. Saí pela direita como Garrincha na esquina da Duque de Caxias com a General Glicério, percebi que voltara ao ponto de partida depois da quarta arrancada, sempre pela direita, e achei mais sensato avançar sem pressa como Didi, ultrapassei o Chevrolet rabo de peixe do doutor Luizinho Barbosa, encobri um Mercury preto com o chapéu sem bola igualzinho ao de Pelé a caminho do quinto gol, estufei a rede no portão de casa e entrei na sala gritando “Brasil!”

"O único do mundo que não ouviu o jogo", debochou o mais velho. "Não gosta de futebol", o outro pegou-me de novo no tornozelo. Revidei com um elogio ao sorvete, a narração dos cinco gols, um sorriso de campeão do mundo e aquele sorriso no olhar só concedido a quem, ouvindo o rádio, viu como jogavam os heróis de 1958".

Publicado originalmente no Jornal do Brasil

terça-feira, 1 de julho de 2008

JORNALISMO

Ensaio sobre a leitura

A história da leitura registra que os novos meios sempre causaram pânico nos resistentes a mudanças tanto quanto sentimentos alvissareiros nos arautos da modernidade. Invariavelmente, ambos tiveram de recuar até o meio-de-campo e recomeçar do zero a zero. Avanços como a internet, o computador, a máquina de escrever, os sistemas de impressão ou da troca dos rolos de pergaminho pelas folhas de papel, são meros instrumentos, subordinados, portanto, às decisões humanas sobre suas aplicações. Mais amplamente, dependem de mecanismos capazes de promover a inclusão em massa, sem a qual o abismo entre consumidores e excluídos é ampliado.

Trata-se, “apenas” e desde sempre, de uma questão de distribuição justa de riquezas. Que nem seja o ideal, mas o mínimo necessário para que a humanidade usufrua como um todo dos avanços obtidos nos milhares de anos de presença do homem sobre a Terra. Uma história feita de lutas, conquistas e derrotas, mas, sobretudo, de exclusão. O impacto dos novos modos de leitura, amplificado pela rede mundial de computadores, chama a atenção pela alta tecnologia, mas é assim desde Gutenberg, sendo que mesmo ele, embora justamente convertido em ícone da massificação da leitura graças à invenção da imprensa, ou do meio físico que a permitiu vicejar, não tenha alcançado com sua criação o paraíso da leitura em massa que possa ter vislumbrado num primeiro momento.

Conforme lembra o pesquisador e escritor inglês Martyn Lyons em A Palavra Impressa – Histórias da leitura no século XIX, “a imprensa não foi necessariamente revolucionária para o campesinato europeu, exceto no sentido de que a palavra impressa oferecia novos modos de dominação dos governos, aristocratas, religiosos, advogados e coletores de impostos que oprimiam os camponeses”. Uma das trágicas ironias do desenvolvimento dos povos é o distanciamento cada vez maior entre os que possuem e os que não possuem, reforçado a cada degrau tecnológico que se escala.

O poder da palavra, em especial a escrita, sempre foi utilizado como elemento coercitivo pelos poderosos – e de libertação pelos raros oprimidos que logravam atingir a inclusão –, num desigual jogo de palavras, como no diálogo de Alice no País das Maravilhas:
– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem tantas coisas diferentes.
– A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.

A diferença entre o analfabeto e o alfabetizado era menos escandalosa quando só tínhamos papiros. A abundância de oferta de leitura existente hoje escancara de forma avassaladora o abismo entre incluídos e excluídos como jamais ocorrera na história. Embora a frase “como jamais ocorrera na história” possa parecer óbvia, uma vez que a ordem natural da vida indica contínuo crescimento e aperfeiçoamento, ela é pertinente neste caso porque todos os avanços técnicos anteriores da escrita, por mais importantes que fossem, limitavam-se ao ato de escrever e de ler, caso dos livros em folhas de papel, a tipografia, a máquina de escrever e etc.

Muito mais do que substituir totalmente o livro em papel, passo improvável desta evolução, ao menos por um ainda longo período, o computador e seu mais revolucionário aplicativo, a internet, substituíram a ida ao banco, ao correio ou mesmo a lojas e supermercados, e os usuários muitas vezes executam tais tarefas em paralelo à leitura, em sites, das notícias do dia, de estudos acadêmicos e textos dos mais variados estilos, fins e dimensões. O analfabeto, ou o analfabeto funcional, não apenas deixa de ler determinadas obras por falta de acesso a livros, de todo modo já um prejuízo imenso, como fica de fora do clube cujos sócios usufruem de uma série de facilitadores do cotidiano moderno, decisivos em sociedades violentas, de trânsito pesado e de alucinada correria atrás do sustento, aos quais sobra, até, mais tempo para a leitura. Ter um computador conectado à internet é sonho impossível para milhões de pessoas que não sabem de onde sairá o próximo prato de comida. Mesmo na hipótese de conseguir se alfabetizar, como ter acesso aos meios mais modernos?

Ainda que ignoremos o computador como elemento de leitura no sentido mais amplo, atitude no mínimo imprudente, mesmo assim os novos alfabetizados não teriam como pagar pelos livros, ou estariam longe demais das bibliotecas, problema que se agrava em vez de se amenizar. Tal quadro tende a piorar em escala exponencial até que se reduzam as desigualdades de maneira significativa. As grandes bibliotecas em séculos passados eram, sintomaticamente, fechadas ao público. A Ambrosiana, de Milão, surpreendia os visitantes por permitir acesso aos livros, conforme relata Peter Burke em Variedades de História Cultural:

“É claro que nossos visitantes não esperavam que uma biblioteca tão importante fosse realmente acessível. Em Oxford, estrangeiros não podiam tomar notas sobre livros na Biblioteca Bodleiana, a não ser que fossem supervisionados por um bacharel da universidade. Em Londres, a famosa Sala de Leitura do Museu Britânico, completa com escrivaninhas e canetas, só foi aberta ao público em meados do século XIX. Pelo menos dessa vez, o mundo de cabeça para baixo revelou ter suas vantagens (ironia do autor a respeito da notória informalidade italiana).”

Os incluídos, primeiro na sociedade de consumo pura e simplesmente, depois na sociedade de consumo cultural, estágio mais avançado de uma civilização e um de seus mais potentes legitimadores, por certo nem sempre aproveitam as vantagens da inclusão, enviando e recebendo e-mails permeados de siglas, códigos e abreviaturas, matando a velha e boa carta que, ao contrário, deveria ter sido revigorada pelas facilidades da internet. São os auto-excluídos da linguagem elegante, do português, não castiço, mas o básico mesmo. Poucos estão dispostos, por preguiça ou incompetência, a percorrer labirintos de frases, parágrafos, concordâncias, crases, próclises e ênclises. É mais fácil invocar a modernidade.

Para quem já não lia muito, apesar do livre acesso, em especial econômico, ao livro, o e-mail padrão pode ter efeitos devastadores. Há quem diga que estamos diante de uma nova e interessante forma de linguagem. Creio que podemos abrir mão desta modernidade. Tecnologia de ponta é uma coisa, linguagem não-culta é outra, e sequer serve o pretexto de que é a linguagem do povo. Povo mesmo está fora dessa, infelizmente. Ao menos por um bom tempo.


Publicado originalmente no site coletiva.net
Como é fácil prender bêbados

Em dez dias da nova (e excessiva) lei, quase 300 pessoas foram presas por dirigir alcoolizadas. Passados 15 dias, nenhum bandido paisano foi preso pela morte dos três rapazes no Morro da Providência.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Obrigado pela audiência. Fiquem com Michael Bolton.
Até segunda.

Concerto para esfera e papel


A velha casa de madeira com seus rangeres noturnos, móveis desgastados e pátio mal cuidado hospedaria uma alvissareira novidade tecnológica naquele ano de 1970. Num final de semana frio, suavizado pelo fogareiro a carvão, meu pai levara serviço para casa e, com ele, uma reluzente IBM elétrica de esfera, dos primeiros modelos, ainda com bordas arredondadas. Aos olhos de um menino de dez anos sem muito contato com as novidades do mundo, a Ferrari das máquinas de escrever, com seu largo e sólido corpo de ferro, sua batida ágil, silenciosa e veloz como nenhuma outra jamais conseguira ser, assemelhava-se a um instrumento dos deuses. Além disso, meu pai devia ser importante na firma, para poder colocá-la embaixo do baixo e se mandar para casa ao final do expediente.

Tão magnífico equipamento era acompanhado de caixinhas com uma fina base de plástico e uma tampa de acrílico em forma de redoma que permitia vislumbrar o instigante conteúdo: em seu interior jaziam, brilhando de novas, uma meia-dúzia de esferas sobressalentes. Ao contrário das outras máquinas de escrever, meros invólucros de plástico recheados de gravetos vacilantes, barulhentos e desencaixantes, com fitas sujas, frágeis e desenroscantes, aquela maravilha permitia a troca da esfera que ia e vinha, vinha e ia sem que nem bem lhe pudéssemos registrar os movimentos.

Pela primeira vez, e muito antes de o computador doméstico entrar em cena, podia-se variar a tipologia de um texto sem recorrer a uma gráfica. Era possível datilografar em itálico, negrito, letra cursiva, corpo maior que o usual, sublinhar, bater de novo por cima para reforçar, traçar fios, cercaduras e, com alguma imaginação, até alguns desenhos primitivos, e tudo de maneira limpa, sem borrões, sem dedos sujos, pois mesmo a fita, encaixotada como uma VHS, era de natureza superior.

Ouvi atentamente às explicações de meu pai, por certo orgulhoso pelo interesse do filho, por poder lhe ensinar algo tão interessante e, mais ainda, por ser reconhecido como o guardião, ainda que temporário, daquele verdadeiro tesouro. Esta não era sua única vantagem sobre mim naquele momento. Havia outra, que se revelaria permanente: meu pai digitava com os dez dedos, em velocidade absurda, sem em momento algum olhar para o teclado, e nunca errava. Pena que tal habilidade não era genética, por isso o filho teria de ganhar a vida com a energia de apenas dois ou três dedos.

O fim de semana foi de vigília, afinal, o sonho se encerraria na segunda-feira pela manhã. Esperava apenas meu pai fazer uma pausa para me posicionar à frente da máquina colocada sobre a penteadeira convertida em mesa de trabalho. Ao menos não precisava fazer escondido. Ele não apenas deixava como dava as dicas. De esfera em esfera, descortinava-se para mim o prazer de escrever, de editar, de diagramar. A pauta era óbvia: vivíamos o ano da Copa do Mundo do México. Não recordo se foi antes ou depois de o Brasil conquistar o tricampeonato, mas deve ter sido antes, pois lembro de fazer tabelas de jogos e de classificação, simulando o formato dos carnês de bolso que eram moda na época, a ponto de muita gente andar mesmo com um, anotando cada resultado, ainda que não fosse do grupo do Brasil.

Havia manchete, títulos secundários, boxes, tudo que um jornal de verdade tinha. Para ficar mais verossímil, eu colocava a folha na horizontal, para transformá-la em página dupla, e depois, graças à boa gramatura do papel almaço, utilizava o verso, e tão grande era a máquina que ainda sobrava bastante espaço nas laterais. Escrevia em colunas, respeitava as margens e depois dobrava. Virava mesmo um jornalzinho.

Dez anos depois me reencontraria com a IBM de esfera como revisor, fazendo emendas, ouvindo o zumbido de dezenas de outras, dali mesmo e da digitação, na sala ao lado. Ainda pretendo ter uma. Como a amante tão desejada que parte ao amanhecer, usei-a, mas jamais cheguei a possuí-la.

Nunca se sabe o exato momento em que tomamos a decisão que muda nossa vida. De modo geral, temos poder sobre decisões banais, como beber água ou ir dormir, apenas para nutrirmos a ilusão de que estamos no controle. As outras coisas, as que realmente importam, escampam-nos totalmente, são decididas de maneira casual, errática, a nos lembrar a inutilidade de fazer planos. Mas, se houve um momento preciso em que me tornei jornalista, bem pode ter sido aquele, num final de semana frio, aquecido pelo fogareiro a carvão e esperando que meu pai interrompesse seu concerto para esfera e papel.


Publicado originalmente no site coletiva.net
A Favorita x Pantanal

A briga pela audiência chega a ser patética. A Globo, que anos atrás sofreu com o bom desempenho de Pantanal, não quer correr riscos. A novela que virou um clássico da TV brasileira não ameaça seriamente A Favorita, até porque é exibida depois, mas há ainda Os Mutantes da Record a lhe arrancar nacos de audiência.

O SBT tem pedido ao público que troque de canal quando termina A Favorita para assistir a Pantanal. O apelo se reflete numa guerra de nervos diária entre as duas emissoras. Ontem, por exemplo, a novela da Globo deveria terminar às 22h10, quando entraria no ar A Grande Família, mas foi esticada para atrapalhar a estratégia da concorrência. Enquanto isso, o Jornal do SBT, que deveria se encerrar às 22h para dar lugar a Pantanal, também seguiu adiante, com Carlos Nascimento apresentando cada reportagem sabendo que poderia ser a última daquela edição. A Grande Família começou às 22h22. Pantanal se iniciou às 22h23.
A despedida de Bill Gates

Bill Gates deixa hoje a presidência da Microsoft. Este vídeo, produzido recentemente, faz uma simulação bem-humorada de como seria este momento.


Video: Último dia do Bill Gates

quarta-feira, 25 de junho de 2008

TOCO Y ME VOY

Hoje o Blog recebe duas convidadas cujo momento profissional oferece certo contraponto. No primeiro texto, a mestre em comunicação Ana Brambilla fala dos tempos em que apenas sonhava com a profissão. No segundo, a caloura de jornalismo da PUC/RS Laís Flores faz uma breve reflexão sobre realidade e mídia.

Ana Brambilla é uma entusiasta do jornalismo colaborativo. Gaúcha radicada em São Paulo, é editora assistente de internet da Editora Abril, leciona na Faculdade Cásper Líbero e na UniSant'Anna e mantém o blog Libellus em anabrambilla.com/blog. Certa vez ela participou da promoção Seja Jornalista por um Dia, do jornal Zero Hora e, diante de sua empolgação, convidei-a posteriormente a integrar o conselho editorial jovem da editoria de esportes, que eu acabara de lançar e que representava uma inovação na época. Por isso a referência que ela faz a mim no final do texto, publicado originalmente em seu blog.

Laís Flores tem 20 anos de idade, gosta de literatura, cinema, música, aquele mix cultural comum a quem envereda por este terreno. E já exibe desenvoltura ao lidar com as palavras.

Agora, toco y me voy.
CONSELHO EDITORIAL DO LEITOR


Ana Brambilla

Então chegou um telegrama lá em casa, dizendo para eu comparecer ao departamento de Recursos Humanos da RBS (Zero Hora) dia tal, a tal hora. Av. Ipiranga, 1075. Eu tremi nas bases. Tinha só 13 anos. E recém havia decidido ser jornalista.

Então passei uma tarde maravilhosa com uma equipe de jornalistas e outros adolescentes leitores do Caderno de Esportes de ZH, fazendo aquilo que eu já gostava naquela época: dar pitacos no jornalismo.

A tarde terminou afundada num BigMac trazido por uma das jornalistas àquela sala no térreo do prédio da Ipiranga esquina Erico Verissimo.

Alguns… 13 anos se passam (eita!!) e hoje eu vejo que o espanhol La Vanguardia convida internautas de várias faixas etárias e profissões para comporem o “Consejo Editorial de los Usuarios de LV.es”” – uma iniciativa pra lá de bacanuda que visa a extrair desse povo idéias para melhorar o site do jornal… “… ejerciendo de “ojos críticos” con el objetivo de corregir errores, mejorar día a día y de ser más próximos a los lectores y usuarios”.

Será que eles vão ganhar BigMac no final?

(Valeu Eliziário Goulart Rocha!)

Muitos, talvez TODOS os veículos de imprensa devessem fazer o mesmo.

FALTA CRIATIVIDADE NO MUNDO REAL


Laís Flores

Eu vejo o futuro repetir o passado. / Eu vejo um museu de grandes novidades. (Cazuza em O Tempo não Pára).

As notícias nos jornais e na TV se repetem de tal forma que nunca sabemos se o que o casal das oito e quinze da noite diz é algo que aconteceu muito ou pouco tempo atrás. Os Nardoni, por exemplo, ganharam seguidores e agora uma mãe e um padrasto são acusados de matar um menino de cinco anos. Mudaram apenas o sexo dos personagens e a verba da produção do filme – sai muito caro para a polícia contratar um promotor com cara de mau, um policial pedófilo e helicópteros para a reconstituição da cena do crime.

Se o assunto é recorde de bilheteria, as garotas de Massachusetts tentaram ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original, assim como no filme Juno, engravidando ainda na adolescência e achando a coisa mais normal do mundo. Isso sem falar dos soldados que, pensando estar no filme de José Padilha, entregam três jovens residentes do Morro da Providência para traficantes da favela vizinha pois, como diria o Capitão Nascimento, “quem é fanfarrão tem de ser torturado e pedir pra sair”. As atitudes dos soldados não os fizeram conquistar prêmios em Berlim, e o único “prêmio” que as 17 adolescentes grávidas ganharam virá em nove meses.

Sempre pensei que tais atitudes, como bater em uma atriz pensando que esta fosse de fato alguma assassina sanguinária, ou imitar a ação de um personagem de novela fosse coisa de “tia velha”, que dá “bom dia” para o Renato Machado e “boa noite” para o William Bonner, mas parece que teremos de voltar aos velhos tempos e colocar mais mocinhas de novela das seis que comem o pão que o Diabo amassou nas mãos do marido malvado e menos Jack Bauers lutando contra o vilão do terrorismo.

terça-feira, 24 de junho de 2008

JORNALISMO

Mainás e aves de rapina

Ressabiadas por freqüentes atentados à liberdade de imprensa cometidos sob a forma de ações judiciais, há muito as empresas jornalísticas submetem os textos de matérias polêmicas a seus advogados. Um dia os jornalistas serão comandados não por um diretor de redação, mas por um diretor jurídico.

O procedimento vale não apenas para matérias políticas, mas também para as que abordam denúncias contra empresários espertalhões ou contraventores de ocasião. O público não fica sabendo, e deveria. Assim como os veículos são hoje tão zelosos em corrigir os erros na edição seguinte, deveriam também fazer constar no início da reportagem explicações como “este texto foi lido antes por nossos advogados, que não viram problemas em sua publicação” ou “parte do texto foi suprimida por orientação do departamento jurídico”.

Como o leitor não fica sabendo, desconhece os eventuais prejuízos, mas os editores pensarão duas vezes antes de fechar uma página ou colocar uma reportagem no ar depois de terem sido forçados a refazer o trabalho, contrariando a realidade e suas convicções, porque poderia custar caro na justiça. Os repórteres, depois de passar semanas apurando uma matéria especial, acabam vendo cortada a parte mais conclusiva. A autocensura instala-se com facilidade, para deleite de quem tem interesse em manter subterrâneas determinadas informações.

Todo jornalista, é claro, tem o dever de realizar uma apuração precisa, consistente e isenta, tanto quanto de lutar contra o denuncismo, praga capaz de destruir reputações e carreiras à base de hipóteses, e não de fatos comprovados. É igualmente óbvio que as empresas de comunicação têm de se acautelar contra ações judiciais capazes de impingir a seus cofres considerável sangria, principalmente quando os detalhes omitidos não forem assim tão relevantes para o resultado final da reportagem. O problema é estabelecer esse limite.

Alguns veículos, na dúvida, submetem ao jurídico todo o material a ser publicado. Para piorar a situação, nem sempre o potencial explosivo de determinada reportagem é analisada por experientes homens do direito. Muitas vezes, longa e esmerada apuração acaba caindo nas mãos de um estudante em cumprimento de estágio.

A influência do jurídico também pode levar a certos disparates. Anos atrás, o diretor de uma grande redação espantou-se ao ler o relatório sobre a edição prestes a ir às bancas. Uma notícia que seria publicada em forma de nota dava conta de que, numa província da China, um mainá havia sido arrolado como testemunha em um processo de divórcio. Ao retornar de uma viagem, a mulher descobrira que o marido a traía quando o pássaro, capaz de repetir palavras como um papagaio, começara a dizer “eu te amo”, “tenha paciência” ou “divórcio”.

Confrontado com a informação irrelevante, mas sem dúvida curiosa e engraçada, o jurídico, determinado a orientar os jornalistas na busca da precisão, observou o seguinte: “Aqui, precisaríamos pesquisar para saber se a presença de um pássaro como testemunha seria fato aceito em tribunais, de acordo com as leis de nosso país...” e por aí afora. Virou piada, mas no fundo deveria ser levado a sério, embora não no sentido que o jurídico queria. Até porque o excesso de zelo, além de preservar mainás, muitas vezes acaba beneficiando aves de rapina.


Publicado originalmente no site coletiva.net

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O arraial da impunidade

Convencidos de que têm cumprido seu dever e de que a pauta do País não inclui qualquer problema urgente, nossos parlamentares decidiram se dar ao luxo de acrescentar mais um item à extensa lista de feriadões nacionais. Trata-se do feriadão junino. Ao contrário do que ocorre no Brasil, no calendário legislativo esta semana é dedicada a festas, não a trabalho. Em vez de cafezinho, quentão.

A inconveniente iniciativa é uma espécie de aquecimento para o que vem por aí. De 10 a 17 de julho haverá o recesso formal e, em seguida, as campanhas eleitorais esvaziarão outra vez nossas torres gêmeas.

Na Câmara dos Deputados ao menos os folgazões passarão algum constrangimento. O presidente da casa, Arlindo Chinaglia, avisou que as sessões e comissões terão funcionamento normal nesta semana, ao menos oficialmente, pois será difícil obter quorum.

No Senado os gazeteiros, sempre inclinados a acreditar que o povo esquecerá tudo até a próxima visita às urnas, podem cair na farra tranqüilos. Seu presidente, Garibaldi Alves Filho, decretou “recesso branco” e liberou a turma para se divertir à beça, expressão que Alves por certo aprovaria.

“Não pega bem se alguém deixar de aparecer nas festas”, declarou o presidente do Senado com o tradicional e desanimado semblante daquele tio que costuma aparecer sem convite no almoço de domingo e que, entre um cochilo e outro, conta sempre as mesmas piadas. “Como bom nordestino”, argumentou, entende a importância das festas para o povo da região.

Alguém deveria informar ao dinâmico senador que o povo por certo prefere ver seus representantes resolvendo os problemas do País e não dançando a quadrilha, ainda que este seja um tema familiar a alguns deles.

Enquanto o brasileiro comum trabalha duro para pagar impostos excessivos e, se sobrar alguma coisa, comprar os serviços que o Estado não consegue suprir, os congressistas se entregam à folia fora de hora. Deve ser hilário assistir à performance de certos políticos na pescaria ou na dança em volta da fogueira. Dispostos a amealhar preciosos votos, eles só não topam participar da brincadeira da cadeia. Vai que alguém leve a sério. Vadiagem é crime.


Crédito da foto:
Jane de Araújo - Agência Senado

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Bom fim de semana

Obrigado pela companhia em mais uma semana. Fiquem com Fergie e Big Girls Don't Cry.

Quando as noites não eram tão escuras

Um tempo houve em que as noites, mesmo as mais frias e mais longas do rigoroso inverno do sul não pareciam tão frias ou tão longas, ou ao menos era possível atravessá-las com razoável dose de sonho e esperança.


Recém passa das seis da tarde, eu acabo de chegar da escola, mal tive tempo de fazer os temas, comer um pedaço de pão com patê de fígado ou schimia de abóbora com cravo acompanhado de um Guaraná Frisante Polar e saí à rua para um jogo de taco, ou de bola, ou de bolinhas de gude, e já está minha avó a gritar meu nome. Emília, a quem eu chamo de mãe, cuida de mim enquanto minha mãe, Terezinha, a quem todos chamamos de Santa, trabalha para pagar a escola particular do único filho.

O brado de Emília significa que é hora de se recolher, sair do frio e do escuro, hora em que, ela diz, só os meninos sem eira nem beira, de pais relapsos e irresponsáveis circulam pelas ruas do bairro de periferia. A violência urbana ainda não é o monstro que temem que se torne um dia, tampouco esta periferia é assim tão periférica, mas crimes e brutalidades de todo tipo espreitam na calada da noite por detrás de muros de esquina, árvores frondosas e cercas carcomidas de terrenos baldios.

Enquanto eu assisto a Daniel Boone na precária TV em preto e branco, com Bom Bril na antena, e cujo seletor de canais precisa de um calço para não trocar a imagem por um amontoado de chuviscos, minha avó está no pátio, enfrentando a temperatura gélida, a preparar um fogareiro a carvão. Depois de colocar querosene e atear fogo, ela espera a queima inicial, a saída de toda aquela fumaça tóxica, para só então, com as brasas em seu laranja vivo, levá-lo para dentro da casa de madeira, onde será instalado em meio à sala de jantar, que será também sala de estar no final da noite. Ali, depois de uma sopa na qual predominam as batatas, ficaremos reunidos a conversar, contar histórias, brincar com os gatos ou simplesmente aproveitar o calorzinho.

Não penso no perigo dos gases do carvão ou do fogareiro aceso sobre um piso de madeira velha, separados apenas pelo latão da tampa de um galão de tinta. Penso em como estou aquecido, talvez coma uma colher de Toddy quando ninguém estiver olhando, isso caso não tenhamos pinhões nesta noite. Depois, um gibi ou dois, quem sabe o segundo à luz de vela ou então de uma lanterna embaixo do cobertor. Amanhã, se continuar assim tão frio, pode ser que eu me finja de doente para não ir à aula, apesar de estudar à tarde, o que diminui o meu problema.

Antes de dormir fico animado ao me lembrar que no dia seguinte teremos o Cinema do Sesi, quando eles param um furgão bem no meio da minha rua, que se chama Vera Cruz, como se estivéssemos na aurora do Brasil, e então estendem uma tela que interrompe o trânsito, mas não faz mal, porque os moradores já chegaram mesmo, e quase nenhum tem carro, e ninguém mais passaria por ali. Temos sorte, a tela fica perto de nossa casa, e então eu mal preciso sair pelo portão e me encostar no nosso muro para ver um filme do Tarzan, ou do Mazzaropi, ou alguma chanchada da Atlântida. Em seguida minha mãe trará pipocas e guaraná, e tudo parecerá perfeito, a japona, o gorro e a manta a mitigar a friagem.

Será uma noite feliz, como felizes, decerto, são quase todas as noites. Até nas de temporal, quando o vento castiga a casa insegura, balança ameaçadoramente o velho poste de madeira, um dia ainda vamos trocá-lo por um de concreto, e quase sempre algum fio se rompe em algum lugar ali perto, e aí a ventania fica ainda mais sinistra, em meio à escuridão, a vela a tremeluzir gerando sombras fantasmagóricas enquanto minha avó segura um rosário e evoca incessantemente “Santa Bárbara, São Jerônimo”, e ouvimos no rádio a pilha notícias sobre a devastação provocada pela fúria dos ventos, isso enquanto a própria emissora não sai do ar.

Em compensação, às vezes meu pai volta de viagem, e ele está sempre viajando, e sempre volta, embora às vezes demore muito, e se ele voltar vai trazer bugigangas, gibis, artigos de toucador subtraídos ao hotel barato, e tudo isso será novidade num mundo de tão poucas novidades, solitário, onde o tempo demora a passar, onde às vezes venta muito, faz muito frio, mas sempre tem o fogareiro a carvão, e o cinema do Sesi, e a proteção de Santa Bárbara, e meu pai sempre acaba voltando.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MURAL
Pequenas opiniões (ou nano opiniões, para ficar na moda) sobre assuntos variados.


Boa notícia

Sábado ocorre o solstício do Inverno (que começa oficialmente às 20h59 de amanhã), o dia mais curto do ano. Quem odeia anoitecer precoce (é o meu caso) pode comemorar dias cada vez mais longos. Alguns minutos, enfim, mas aos poucos o sol avançará noite adentro, rumo a tempos menos sombrios. Tudo meio metafórico, mas muito climático.


A hierarquia do abuso

A morte dos três rapazes nos morros do Rio foi um fato isolado, claro, cometido por bandidos fardados, e não pelo Exército como instituição. As questões são outras:
1) O que o Exército fazia (e ainda faz) lá?
2) Por que o governo misturou verbas do Ministério da Defesa e do Ministério das Cidades para conseguir votos para o senador Marcelo Crivella, cujo maior "mérito" foi o de ter sido "bispo" da Universal?
3) Por que ainda não foram atrás dos executores, se sabem exatamente quem são?


Enquanto isso...

Os militares gays continuam presos.
Como se gays fossem raridade nas Forças Armadas.


Hei, Dunga...

Faço minhas as palavras dos torcedores presentes ao Mineirão.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Programação do Blog

Tenho dedicado as segundas-feiras à abordagem de temas do cotidiano do Brasil e do mundo. A partir de hoje, terça será o dia de postar textos sobre Jornalismo (opiniões, histórias de bastidores, reflexões e etc). Leia abaixo o primeiro texto da série. Este item foi um dos mais votados na enquete inicial do Blog, por isso merece um espaço regular. Quarta é o dia do Toco y Me Voy, no qual publico textos de jornalistas amigos ou grandes jornalistas, quando possível, ambas as coisas, caso de Augusto Nunes, que ocupou o espaço na semana passada. Aos poucos vai se definindo uma "grade de programação", usando a expressão consagrada pelo Boni na Globo.

Além disso, todos os dias, de segunda a sexta, notas diversas sobre temas variados.

Sugiram, critiquem e irei adaptando o Blog ao perfil dos leitores.
Obrigado.
Abraço. Eliziário.
JORNALISMO

O Homem Providencial

Quase todas as grandes redações já assistiram à chegada do Homem Providencial. Não importa de onde venha, qual o tamanho do currículo ou do salário, ele desembarca com todas as respostas. Ele sabe o que funciona e o que não funciona em jornalismo, o que exatamente o leitor quer, quais os melhores enfoques para todas as melhores reportagens que serão feitas a partir daquele momento, baseadas nas melhores pautas que ele também tem, reforçadas por informações das melhores fontes, que são as dele. Basta seguir o que ele fala e tudo dará certo. O Homem Providencial só não faz o jornal (ou revista, ou programa etc.) sozinho porque o tempo é curto, e o dele mais ainda, uma vez que só ele sabe as respostas e, portanto, tem de ser consultado sobre tudo.

O Homem Providencial não precisa vir de longe, tampouco receber salários milionários. Muitas vezes ele já estava na redação, à espera da promoção a um cargo que o permitisse mostrar seus conhecimentos sobre jornalismo que, é claro, são todos os conhecimentos possíveis. Quando se diz que a nova função “subiu à cabeça” de alguém, muitas vezes pode se estar cometendo a heresia de não identificar de imediato a assunção do Homem Providencial. Mas nas nem sempre é fácil reconhecê-lo.

Há, basicamente, cinco tipos de chefe:
* O que toma e anuncia as decisões sem consultar a equipe.
* O que toma as decisões e, antes de anunciá-la, consulta a equipe, mas não tem qualquer intenção de modificar o que já decidira.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões, mas acaba por não levar em conta nada do que lhe foi dito e segue os próprios critérios.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões e leva em conta as sugestões.
* O que orienta a equipe para que ela tome as próprias decisões.

O Homem Providencial poderá adotar qualquer uma das três primeiras alternativas, mas a primeira é a mais provável, porque uma das principais características do Homem Providencial é deixar claro, desde o primeiro discurso, que o interlocutor está diante do Homem Providencial, fato do qual é melhor não discordar. Em qualquer ofício ele é nocivo, mas, em redações, é especialmente destrutivo.

Quando se lida com produtos bem definidos como um par de sapatos ou uma lata de sardinhas em conserva, o Homem Providencial pode reprimir idéias que contribuiriam para a melhoria da qualidade ou o aumento do lucro, mas os sapatos continuarão sendo sapatos e as sardinhas continuarão sendo sardinhas. Quando a mercadoria é a informação, ele pode causar estragos bem maiores. A premissa de ouvir todos os lados de uma questão começa dentro de casa. Se os profissionais não discutem as pautas antes de realizá-las, certamente o leitor será no prejuízo. Mas é melhor nunca dizer isso ao Homem Providencial. Até porque ele já sabe tudo que é importante saber.


Publicado originalmente no site coletiva.net