sexta-feira, 27 de junho de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Obrigado pela audiência. Fiquem com Michael Bolton.
Até segunda.

Concerto para esfera e papel


A velha casa de madeira com seus rangeres noturnos, móveis desgastados e pátio mal cuidado hospedaria uma alvissareira novidade tecnológica naquele ano de 1970. Num final de semana frio, suavizado pelo fogareiro a carvão, meu pai levara serviço para casa e, com ele, uma reluzente IBM elétrica de esfera, dos primeiros modelos, ainda com bordas arredondadas. Aos olhos de um menino de dez anos sem muito contato com as novidades do mundo, a Ferrari das máquinas de escrever, com seu largo e sólido corpo de ferro, sua batida ágil, silenciosa e veloz como nenhuma outra jamais conseguira ser, assemelhava-se a um instrumento dos deuses. Além disso, meu pai devia ser importante na firma, para poder colocá-la embaixo do baixo e se mandar para casa ao final do expediente.

Tão magnífico equipamento era acompanhado de caixinhas com uma fina base de plástico e uma tampa de acrílico em forma de redoma que permitia vislumbrar o instigante conteúdo: em seu interior jaziam, brilhando de novas, uma meia-dúzia de esferas sobressalentes. Ao contrário das outras máquinas de escrever, meros invólucros de plástico recheados de gravetos vacilantes, barulhentos e desencaixantes, com fitas sujas, frágeis e desenroscantes, aquela maravilha permitia a troca da esfera que ia e vinha, vinha e ia sem que nem bem lhe pudéssemos registrar os movimentos.

Pela primeira vez, e muito antes de o computador doméstico entrar em cena, podia-se variar a tipologia de um texto sem recorrer a uma gráfica. Era possível datilografar em itálico, negrito, letra cursiva, corpo maior que o usual, sublinhar, bater de novo por cima para reforçar, traçar fios, cercaduras e, com alguma imaginação, até alguns desenhos primitivos, e tudo de maneira limpa, sem borrões, sem dedos sujos, pois mesmo a fita, encaixotada como uma VHS, era de natureza superior.

Ouvi atentamente às explicações de meu pai, por certo orgulhoso pelo interesse do filho, por poder lhe ensinar algo tão interessante e, mais ainda, por ser reconhecido como o guardião, ainda que temporário, daquele verdadeiro tesouro. Esta não era sua única vantagem sobre mim naquele momento. Havia outra, que se revelaria permanente: meu pai digitava com os dez dedos, em velocidade absurda, sem em momento algum olhar para o teclado, e nunca errava. Pena que tal habilidade não era genética, por isso o filho teria de ganhar a vida com a energia de apenas dois ou três dedos.

O fim de semana foi de vigília, afinal, o sonho se encerraria na segunda-feira pela manhã. Esperava apenas meu pai fazer uma pausa para me posicionar à frente da máquina colocada sobre a penteadeira convertida em mesa de trabalho. Ao menos não precisava fazer escondido. Ele não apenas deixava como dava as dicas. De esfera em esfera, descortinava-se para mim o prazer de escrever, de editar, de diagramar. A pauta era óbvia: vivíamos o ano da Copa do Mundo do México. Não recordo se foi antes ou depois de o Brasil conquistar o tricampeonato, mas deve ter sido antes, pois lembro de fazer tabelas de jogos e de classificação, simulando o formato dos carnês de bolso que eram moda na época, a ponto de muita gente andar mesmo com um, anotando cada resultado, ainda que não fosse do grupo do Brasil.

Havia manchete, títulos secundários, boxes, tudo que um jornal de verdade tinha. Para ficar mais verossímil, eu colocava a folha na horizontal, para transformá-la em página dupla, e depois, graças à boa gramatura do papel almaço, utilizava o verso, e tão grande era a máquina que ainda sobrava bastante espaço nas laterais. Escrevia em colunas, respeitava as margens e depois dobrava. Virava mesmo um jornalzinho.

Dez anos depois me reencontraria com a IBM de esfera como revisor, fazendo emendas, ouvindo o zumbido de dezenas de outras, dali mesmo e da digitação, na sala ao lado. Ainda pretendo ter uma. Como a amante tão desejada que parte ao amanhecer, usei-a, mas jamais cheguei a possuí-la.

Nunca se sabe o exato momento em que tomamos a decisão que muda nossa vida. De modo geral, temos poder sobre decisões banais, como beber água ou ir dormir, apenas para nutrirmos a ilusão de que estamos no controle. As outras coisas, as que realmente importam, escampam-nos totalmente, são decididas de maneira casual, errática, a nos lembrar a inutilidade de fazer planos. Mas, se houve um momento preciso em que me tornei jornalista, bem pode ter sido aquele, num final de semana frio, aquecido pelo fogareiro a carvão e esperando que meu pai interrompesse seu concerto para esfera e papel.


Publicado originalmente no site coletiva.net
A Favorita x Pantanal

A briga pela audiência chega a ser patética. A Globo, que anos atrás sofreu com o bom desempenho de Pantanal, não quer correr riscos. A novela que virou um clássico da TV brasileira não ameaça seriamente A Favorita, até porque é exibida depois, mas há ainda Os Mutantes da Record a lhe arrancar nacos de audiência.

O SBT tem pedido ao público que troque de canal quando termina A Favorita para assistir a Pantanal. O apelo se reflete numa guerra de nervos diária entre as duas emissoras. Ontem, por exemplo, a novela da Globo deveria terminar às 22h10, quando entraria no ar A Grande Família, mas foi esticada para atrapalhar a estratégia da concorrência. Enquanto isso, o Jornal do SBT, que deveria se encerrar às 22h para dar lugar a Pantanal, também seguiu adiante, com Carlos Nascimento apresentando cada reportagem sabendo que poderia ser a última daquela edição. A Grande Família começou às 22h22. Pantanal se iniciou às 22h23.
A despedida de Bill Gates

Bill Gates deixa hoje a presidência da Microsoft. Este vídeo, produzido recentemente, faz uma simulação bem-humorada de como seria este momento.


Video: Último dia do Bill Gates

quarta-feira, 25 de junho de 2008

TOCO Y ME VOY

Hoje o Blog recebe duas convidadas cujo momento profissional oferece certo contraponto. No primeiro texto, a mestre em comunicação Ana Brambilla fala dos tempos em que apenas sonhava com a profissão. No segundo, a caloura de jornalismo da PUC/RS Laís Flores faz uma breve reflexão sobre realidade e mídia.

Ana Brambilla é uma entusiasta do jornalismo colaborativo. Gaúcha radicada em São Paulo, é editora assistente de internet da Editora Abril, leciona na Faculdade Cásper Líbero e na UniSant'Anna e mantém o blog Libellus em anabrambilla.com/blog. Certa vez ela participou da promoção Seja Jornalista por um Dia, do jornal Zero Hora e, diante de sua empolgação, convidei-a posteriormente a integrar o conselho editorial jovem da editoria de esportes, que eu acabara de lançar e que representava uma inovação na época. Por isso a referência que ela faz a mim no final do texto, publicado originalmente em seu blog.

Laís Flores tem 20 anos de idade, gosta de literatura, cinema, música, aquele mix cultural comum a quem envereda por este terreno. E já exibe desenvoltura ao lidar com as palavras.

Agora, toco y me voy.
CONSELHO EDITORIAL DO LEITOR


Ana Brambilla

Então chegou um telegrama lá em casa, dizendo para eu comparecer ao departamento de Recursos Humanos da RBS (Zero Hora) dia tal, a tal hora. Av. Ipiranga, 1075. Eu tremi nas bases. Tinha só 13 anos. E recém havia decidido ser jornalista.

Então passei uma tarde maravilhosa com uma equipe de jornalistas e outros adolescentes leitores do Caderno de Esportes de ZH, fazendo aquilo que eu já gostava naquela época: dar pitacos no jornalismo.

A tarde terminou afundada num BigMac trazido por uma das jornalistas àquela sala no térreo do prédio da Ipiranga esquina Erico Verissimo.

Alguns… 13 anos se passam (eita!!) e hoje eu vejo que o espanhol La Vanguardia convida internautas de várias faixas etárias e profissões para comporem o “Consejo Editorial de los Usuarios de LV.es”” – uma iniciativa pra lá de bacanuda que visa a extrair desse povo idéias para melhorar o site do jornal… “… ejerciendo de “ojos críticos” con el objetivo de corregir errores, mejorar día a día y de ser más próximos a los lectores y usuarios”.

Será que eles vão ganhar BigMac no final?

(Valeu Eliziário Goulart Rocha!)

Muitos, talvez TODOS os veículos de imprensa devessem fazer o mesmo.

FALTA CRIATIVIDADE NO MUNDO REAL


Laís Flores

Eu vejo o futuro repetir o passado. / Eu vejo um museu de grandes novidades. (Cazuza em O Tempo não Pára).

As notícias nos jornais e na TV se repetem de tal forma que nunca sabemos se o que o casal das oito e quinze da noite diz é algo que aconteceu muito ou pouco tempo atrás. Os Nardoni, por exemplo, ganharam seguidores e agora uma mãe e um padrasto são acusados de matar um menino de cinco anos. Mudaram apenas o sexo dos personagens e a verba da produção do filme – sai muito caro para a polícia contratar um promotor com cara de mau, um policial pedófilo e helicópteros para a reconstituição da cena do crime.

Se o assunto é recorde de bilheteria, as garotas de Massachusetts tentaram ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original, assim como no filme Juno, engravidando ainda na adolescência e achando a coisa mais normal do mundo. Isso sem falar dos soldados que, pensando estar no filme de José Padilha, entregam três jovens residentes do Morro da Providência para traficantes da favela vizinha pois, como diria o Capitão Nascimento, “quem é fanfarrão tem de ser torturado e pedir pra sair”. As atitudes dos soldados não os fizeram conquistar prêmios em Berlim, e o único “prêmio” que as 17 adolescentes grávidas ganharam virá em nove meses.

Sempre pensei que tais atitudes, como bater em uma atriz pensando que esta fosse de fato alguma assassina sanguinária, ou imitar a ação de um personagem de novela fosse coisa de “tia velha”, que dá “bom dia” para o Renato Machado e “boa noite” para o William Bonner, mas parece que teremos de voltar aos velhos tempos e colocar mais mocinhas de novela das seis que comem o pão que o Diabo amassou nas mãos do marido malvado e menos Jack Bauers lutando contra o vilão do terrorismo.

terça-feira, 24 de junho de 2008

JORNALISMO

Mainás e aves de rapina

Ressabiadas por freqüentes atentados à liberdade de imprensa cometidos sob a forma de ações judiciais, há muito as empresas jornalísticas submetem os textos de matérias polêmicas a seus advogados. Um dia os jornalistas serão comandados não por um diretor de redação, mas por um diretor jurídico.

O procedimento vale não apenas para matérias políticas, mas também para as que abordam denúncias contra empresários espertalhões ou contraventores de ocasião. O público não fica sabendo, e deveria. Assim como os veículos são hoje tão zelosos em corrigir os erros na edição seguinte, deveriam também fazer constar no início da reportagem explicações como “este texto foi lido antes por nossos advogados, que não viram problemas em sua publicação” ou “parte do texto foi suprimida por orientação do departamento jurídico”.

Como o leitor não fica sabendo, desconhece os eventuais prejuízos, mas os editores pensarão duas vezes antes de fechar uma página ou colocar uma reportagem no ar depois de terem sido forçados a refazer o trabalho, contrariando a realidade e suas convicções, porque poderia custar caro na justiça. Os repórteres, depois de passar semanas apurando uma matéria especial, acabam vendo cortada a parte mais conclusiva. A autocensura instala-se com facilidade, para deleite de quem tem interesse em manter subterrâneas determinadas informações.

Todo jornalista, é claro, tem o dever de realizar uma apuração precisa, consistente e isenta, tanto quanto de lutar contra o denuncismo, praga capaz de destruir reputações e carreiras à base de hipóteses, e não de fatos comprovados. É igualmente óbvio que as empresas de comunicação têm de se acautelar contra ações judiciais capazes de impingir a seus cofres considerável sangria, principalmente quando os detalhes omitidos não forem assim tão relevantes para o resultado final da reportagem. O problema é estabelecer esse limite.

Alguns veículos, na dúvida, submetem ao jurídico todo o material a ser publicado. Para piorar a situação, nem sempre o potencial explosivo de determinada reportagem é analisada por experientes homens do direito. Muitas vezes, longa e esmerada apuração acaba caindo nas mãos de um estudante em cumprimento de estágio.

A influência do jurídico também pode levar a certos disparates. Anos atrás, o diretor de uma grande redação espantou-se ao ler o relatório sobre a edição prestes a ir às bancas. Uma notícia que seria publicada em forma de nota dava conta de que, numa província da China, um mainá havia sido arrolado como testemunha em um processo de divórcio. Ao retornar de uma viagem, a mulher descobrira que o marido a traía quando o pássaro, capaz de repetir palavras como um papagaio, começara a dizer “eu te amo”, “tenha paciência” ou “divórcio”.

Confrontado com a informação irrelevante, mas sem dúvida curiosa e engraçada, o jurídico, determinado a orientar os jornalistas na busca da precisão, observou o seguinte: “Aqui, precisaríamos pesquisar para saber se a presença de um pássaro como testemunha seria fato aceito em tribunais, de acordo com as leis de nosso país...” e por aí afora. Virou piada, mas no fundo deveria ser levado a sério, embora não no sentido que o jurídico queria. Até porque o excesso de zelo, além de preservar mainás, muitas vezes acaba beneficiando aves de rapina.


Publicado originalmente no site coletiva.net

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O arraial da impunidade

Convencidos de que têm cumprido seu dever e de que a pauta do País não inclui qualquer problema urgente, nossos parlamentares decidiram se dar ao luxo de acrescentar mais um item à extensa lista de feriadões nacionais. Trata-se do feriadão junino. Ao contrário do que ocorre no Brasil, no calendário legislativo esta semana é dedicada a festas, não a trabalho. Em vez de cafezinho, quentão.

A inconveniente iniciativa é uma espécie de aquecimento para o que vem por aí. De 10 a 17 de julho haverá o recesso formal e, em seguida, as campanhas eleitorais esvaziarão outra vez nossas torres gêmeas.

Na Câmara dos Deputados ao menos os folgazões passarão algum constrangimento. O presidente da casa, Arlindo Chinaglia, avisou que as sessões e comissões terão funcionamento normal nesta semana, ao menos oficialmente, pois será difícil obter quorum.

No Senado os gazeteiros, sempre inclinados a acreditar que o povo esquecerá tudo até a próxima visita às urnas, podem cair na farra tranqüilos. Seu presidente, Garibaldi Alves Filho, decretou “recesso branco” e liberou a turma para se divertir à beça, expressão que Alves por certo aprovaria.

“Não pega bem se alguém deixar de aparecer nas festas”, declarou o presidente do Senado com o tradicional e desanimado semblante daquele tio que costuma aparecer sem convite no almoço de domingo e que, entre um cochilo e outro, conta sempre as mesmas piadas. “Como bom nordestino”, argumentou, entende a importância das festas para o povo da região.

Alguém deveria informar ao dinâmico senador que o povo por certo prefere ver seus representantes resolvendo os problemas do País e não dançando a quadrilha, ainda que este seja um tema familiar a alguns deles.

Enquanto o brasileiro comum trabalha duro para pagar impostos excessivos e, se sobrar alguma coisa, comprar os serviços que o Estado não consegue suprir, os congressistas se entregam à folia fora de hora. Deve ser hilário assistir à performance de certos políticos na pescaria ou na dança em volta da fogueira. Dispostos a amealhar preciosos votos, eles só não topam participar da brincadeira da cadeia. Vai que alguém leve a sério. Vadiagem é crime.


Crédito da foto:
Jane de Araújo - Agência Senado

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Bom fim de semana

Obrigado pela companhia em mais uma semana. Fiquem com Fergie e Big Girls Don't Cry.

Quando as noites não eram tão escuras

Um tempo houve em que as noites, mesmo as mais frias e mais longas do rigoroso inverno do sul não pareciam tão frias ou tão longas, ou ao menos era possível atravessá-las com razoável dose de sonho e esperança.


Recém passa das seis da tarde, eu acabo de chegar da escola, mal tive tempo de fazer os temas, comer um pedaço de pão com patê de fígado ou schimia de abóbora com cravo acompanhado de um Guaraná Frisante Polar e saí à rua para um jogo de taco, ou de bola, ou de bolinhas de gude, e já está minha avó a gritar meu nome. Emília, a quem eu chamo de mãe, cuida de mim enquanto minha mãe, Terezinha, a quem todos chamamos de Santa, trabalha para pagar a escola particular do único filho.

O brado de Emília significa que é hora de se recolher, sair do frio e do escuro, hora em que, ela diz, só os meninos sem eira nem beira, de pais relapsos e irresponsáveis circulam pelas ruas do bairro de periferia. A violência urbana ainda não é o monstro que temem que se torne um dia, tampouco esta periferia é assim tão periférica, mas crimes e brutalidades de todo tipo espreitam na calada da noite por detrás de muros de esquina, árvores frondosas e cercas carcomidas de terrenos baldios.

Enquanto eu assisto a Daniel Boone na precária TV em preto e branco, com Bom Bril na antena, e cujo seletor de canais precisa de um calço para não trocar a imagem por um amontoado de chuviscos, minha avó está no pátio, enfrentando a temperatura gélida, a preparar um fogareiro a carvão. Depois de colocar querosene e atear fogo, ela espera a queima inicial, a saída de toda aquela fumaça tóxica, para só então, com as brasas em seu laranja vivo, levá-lo para dentro da casa de madeira, onde será instalado em meio à sala de jantar, que será também sala de estar no final da noite. Ali, depois de uma sopa na qual predominam as batatas, ficaremos reunidos a conversar, contar histórias, brincar com os gatos ou simplesmente aproveitar o calorzinho.

Não penso no perigo dos gases do carvão ou do fogareiro aceso sobre um piso de madeira velha, separados apenas pelo latão da tampa de um galão de tinta. Penso em como estou aquecido, talvez coma uma colher de Toddy quando ninguém estiver olhando, isso caso não tenhamos pinhões nesta noite. Depois, um gibi ou dois, quem sabe o segundo à luz de vela ou então de uma lanterna embaixo do cobertor. Amanhã, se continuar assim tão frio, pode ser que eu me finja de doente para não ir à aula, apesar de estudar à tarde, o que diminui o meu problema.

Antes de dormir fico animado ao me lembrar que no dia seguinte teremos o Cinema do Sesi, quando eles param um furgão bem no meio da minha rua, que se chama Vera Cruz, como se estivéssemos na aurora do Brasil, e então estendem uma tela que interrompe o trânsito, mas não faz mal, porque os moradores já chegaram mesmo, e quase nenhum tem carro, e ninguém mais passaria por ali. Temos sorte, a tela fica perto de nossa casa, e então eu mal preciso sair pelo portão e me encostar no nosso muro para ver um filme do Tarzan, ou do Mazzaropi, ou alguma chanchada da Atlântida. Em seguida minha mãe trará pipocas e guaraná, e tudo parecerá perfeito, a japona, o gorro e a manta a mitigar a friagem.

Será uma noite feliz, como felizes, decerto, são quase todas as noites. Até nas de temporal, quando o vento castiga a casa insegura, balança ameaçadoramente o velho poste de madeira, um dia ainda vamos trocá-lo por um de concreto, e quase sempre algum fio se rompe em algum lugar ali perto, e aí a ventania fica ainda mais sinistra, em meio à escuridão, a vela a tremeluzir gerando sombras fantasmagóricas enquanto minha avó segura um rosário e evoca incessantemente “Santa Bárbara, São Jerônimo”, e ouvimos no rádio a pilha notícias sobre a devastação provocada pela fúria dos ventos, isso enquanto a própria emissora não sai do ar.

Em compensação, às vezes meu pai volta de viagem, e ele está sempre viajando, e sempre volta, embora às vezes demore muito, e se ele voltar vai trazer bugigangas, gibis, artigos de toucador subtraídos ao hotel barato, e tudo isso será novidade num mundo de tão poucas novidades, solitário, onde o tempo demora a passar, onde às vezes venta muito, faz muito frio, mas sempre tem o fogareiro a carvão, e o cinema do Sesi, e a proteção de Santa Bárbara, e meu pai sempre acaba voltando.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

MURAL
Pequenas opiniões (ou nano opiniões, para ficar na moda) sobre assuntos variados.


Boa notícia

Sábado ocorre o solstício do Inverno (que começa oficialmente às 20h59 de amanhã), o dia mais curto do ano. Quem odeia anoitecer precoce (é o meu caso) pode comemorar dias cada vez mais longos. Alguns minutos, enfim, mas aos poucos o sol avançará noite adentro, rumo a tempos menos sombrios. Tudo meio metafórico, mas muito climático.


A hierarquia do abuso

A morte dos três rapazes nos morros do Rio foi um fato isolado, claro, cometido por bandidos fardados, e não pelo Exército como instituição. As questões são outras:
1) O que o Exército fazia (e ainda faz) lá?
2) Por que o governo misturou verbas do Ministério da Defesa e do Ministério das Cidades para conseguir votos para o senador Marcelo Crivella, cujo maior "mérito" foi o de ter sido "bispo" da Universal?
3) Por que ainda não foram atrás dos executores, se sabem exatamente quem são?


Enquanto isso...

Os militares gays continuam presos.
Como se gays fossem raridade nas Forças Armadas.


Hei, Dunga...

Faço minhas as palavras dos torcedores presentes ao Mineirão.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Programação do Blog

Tenho dedicado as segundas-feiras à abordagem de temas do cotidiano do Brasil e do mundo. A partir de hoje, terça será o dia de postar textos sobre Jornalismo (opiniões, histórias de bastidores, reflexões e etc). Leia abaixo o primeiro texto da série. Este item foi um dos mais votados na enquete inicial do Blog, por isso merece um espaço regular. Quarta é o dia do Toco y Me Voy, no qual publico textos de jornalistas amigos ou grandes jornalistas, quando possível, ambas as coisas, caso de Augusto Nunes, que ocupou o espaço na semana passada. Aos poucos vai se definindo uma "grade de programação", usando a expressão consagrada pelo Boni na Globo.

Além disso, todos os dias, de segunda a sexta, notas diversas sobre temas variados.

Sugiram, critiquem e irei adaptando o Blog ao perfil dos leitores.
Obrigado.
Abraço. Eliziário.
JORNALISMO

O Homem Providencial

Quase todas as grandes redações já assistiram à chegada do Homem Providencial. Não importa de onde venha, qual o tamanho do currículo ou do salário, ele desembarca com todas as respostas. Ele sabe o que funciona e o que não funciona em jornalismo, o que exatamente o leitor quer, quais os melhores enfoques para todas as melhores reportagens que serão feitas a partir daquele momento, baseadas nas melhores pautas que ele também tem, reforçadas por informações das melhores fontes, que são as dele. Basta seguir o que ele fala e tudo dará certo. O Homem Providencial só não faz o jornal (ou revista, ou programa etc.) sozinho porque o tempo é curto, e o dele mais ainda, uma vez que só ele sabe as respostas e, portanto, tem de ser consultado sobre tudo.

O Homem Providencial não precisa vir de longe, tampouco receber salários milionários. Muitas vezes ele já estava na redação, à espera da promoção a um cargo que o permitisse mostrar seus conhecimentos sobre jornalismo que, é claro, são todos os conhecimentos possíveis. Quando se diz que a nova função “subiu à cabeça” de alguém, muitas vezes pode se estar cometendo a heresia de não identificar de imediato a assunção do Homem Providencial. Mas nas nem sempre é fácil reconhecê-lo.

Há, basicamente, cinco tipos de chefe:
* O que toma e anuncia as decisões sem consultar a equipe.
* O que toma as decisões e, antes de anunciá-la, consulta a equipe, mas não tem qualquer intenção de modificar o que já decidira.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões, mas acaba por não levar em conta nada do que lhe foi dito e segue os próprios critérios.
* O que consulta a equipe antes de tomar as decisões e leva em conta as sugestões.
* O que orienta a equipe para que ela tome as próprias decisões.

O Homem Providencial poderá adotar qualquer uma das três primeiras alternativas, mas a primeira é a mais provável, porque uma das principais características do Homem Providencial é deixar claro, desde o primeiro discurso, que o interlocutor está diante do Homem Providencial, fato do qual é melhor não discordar. Em qualquer ofício ele é nocivo, mas, em redações, é especialmente destrutivo.

Quando se lida com produtos bem definidos como um par de sapatos ou uma lata de sardinhas em conserva, o Homem Providencial pode reprimir idéias que contribuiriam para a melhoria da qualidade ou o aumento do lucro, mas os sapatos continuarão sendo sapatos e as sardinhas continuarão sendo sardinhas. Quando a mercadoria é a informação, ele pode causar estragos bem maiores. A premissa de ouvir todos os lados de uma questão começa dentro de casa. Se os profissionais não discutem as pautas antes de realizá-las, certamente o leitor será no prejuízo. Mas é melhor nunca dizer isso ao Homem Providencial. Até porque ele já sabe tudo que é importante saber.


Publicado originalmente no site coletiva.net

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Delírios

“Está acontecendo uma coisa extraordinária. Nós criamos mais do que Bolívar quando bradou a criação da Grande Colômbia, criamos a grande nação sul-americana."

A frase acima é o mais recente delírio do presidente Lula. Nada surpreendente vindo de quem já se comparou a Jesus Cristo. Para quem não se recorda: “Se nem Jesus Cristo sabia que seria traído, como eu poderia saber?” Além da presunção, a gafe. Ao contrário de Lula, que nunca sabe de nada, Jesus sabia que seria traído, informa a Bíblia.

Lula já se comparou também a Tiradentes, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Como vive dizendo que “nunca na história desse país”, presume-se que as comparações sejam humildes concessões a tais personagens.

Quando se considera mais importante do que o Libertador da América – o problema será convencer disso o delirante Hugo Chávez, que se vê como a reencarnação de Simon Bolívar –, Lula aproveita para fazer um up grade no bordão, que agora deverá ser “como nunca na história deste continente”.

Ao dizer “nem Jesus Cristo”, a despeito do tropeço no beabá da história cristã, pelo menos o “nem” indica que ainda levará algum tempo até o presidente proferir a frase ideal: “Como nunca na história deste mundo”.
Lágrimas na chuva

Um leitor me perguntou qual a origem da frase no alto da página. Imaginei que todos conhecessem, mas, se um não sabe, outros podem desconhecer também. Na dúvida, segue o vídeo da célebre seqüência de Blade Runner.


sexta-feira, 13 de junho de 2008

Bom fim de semana

Amigas e amigos, obrigado pela companhia. Tenham todos um ótimo final de semana. Até segunda.

Fiquem com Frank Sinatra interpretando Night and Day, em 1943.

Livros? Ára!

No Jornal da Band de ontem foi divulgada uma pesquisa sobre os presentes mais vendidos no Dia dos Namorados. Os celulares, outra vez, foram os campeões, com mais da metade da preferência, enquanto os livros ocuparam a última posição, com 0,5%.
Pantanal ainda rende audiência

O SBT colocou Pantanal no ar a partir de segunda-feira e tem obtido índices de audiência na faixa dos 10 pontos, o que não é pouco para os padrões da emissora nos últimos tempos. Ainda mais que muita gente nem sabia. Raramente assisto ao SBT e desconheço se fizeram muitas chamadas, mas não creio. Pantanal começa depois das 22h, ou seja, quando acaba a novela das 21h da Globo, e isso ajuda, mas a verdade é que a inovadora obra de Benedito Ruy Barbosa mantém o fôlego. O autor pretende processar a TV de Sílvio Santos e jura que isso nada tem a ver com a Globo, que reivindica os direitos não para reexibir o original, mas para fazer uma nova versão. Tomara que não consiga. Em outra ocasião abordarei a questão das releituras.

No vídeo a seguir, a nova abertura feita pelo SBT.


quinta-feira, 12 de junho de 2008



ESPECIAL

Aproveito o Dia dos Namorados para resgatar um texto no qual conto a história de um jovem negro e pobre que sonhava em se tornar o novo grande pugilista da América. Antes e depois, vídeos de canções inesquecíveis.









Desencanto na cidade do amor fraternal
Philadelphia abriga parte significativa da história dos Estados Unidos. Capital da Pennsylvania, ergue-se sobre antigo território dos índios Delaware. Foi o rio batizado em homenagem à tribo que as tropas comandadas pelo general George Washington cruzaram para derrotar os britânicos em Trento, no Natal de 1776, feito decisivo para a consolidação da Independência, declarada em 4 de julho daquele ano. A certidão de nascimento dos Estados Unidos da América foi tornada pública no prédio hoje integrante no Parque Histórico Nacional da Independência, ocasião em que se fez ouvir o badalo do célebre Sino da Independência. A cidade foi a capital americana entre 1790 e 1800.

O Rio Delaware separa a Pennsylvania do estado de Delaware. Para cruzá-lo, utiliza-se uma ponte azul cujo nome homenageia um ícone da história mundial. Foi na Philadelphia que viveu Benjamin Franklin (nascido em Boston, em 1706). Franklin foi emissário diplomático de várias províncias junto ao parlamento do Reino Unido. Depois de ver fracassarem seus esforços de unir as colônias sem romper com a Coroa, ajudou a escrever a Declaração da Independência e a Constituição dos EUA. Mas Franklin foi muito além das novas fronteiras da América. Foi editor, dono de jornal, escreveu sobre terremotos, provou que os raios são descargas elétricas, inventou o pára-raios e os óculos bifocais, aperfeiçoou o sistema de aquecimento doméstico, entre outras proezas. Sua fisionomia, das mais conhecidas, estampa a cédula de US$ 100 dólares, a nota de dinheiro mais cobiçada do mundo.

Philadelphia, palavra de origem grega que significa “amor fraternal”, é a quinta cidade mais populosa dos Estados Unidos, com mais de 1,5 milhão de habitantes, de acordo com o censo realizado em 2000, sendo que a região metropolitana acolhe mais de seis milhões de almas. Foi entre elas, um entre seis milhões, que veio ao mundo Najai Turpin, em 19 de dezembro de 1981. Nascido e criado em bairro de extrema pobreza, aos 18 anos perdeu a mãe e passou a cuidar do irmão, da irmã e dos sobrinhos. Sonhava em lutar boxe profissional, mas vivia de subempregos, em obras de manutenção das ruas pelas quais havia circulado Benjamin Franklin e marchado triunfante o general Washington, ou limpando mariscos em um restaurante, tarefa à qual subtraía algumas horas todas as tardes para treinar boxe, e à qual retornava para num novo turno que só acabava à meia-noite.

Com um cartel amador de 13 lutas e 11 vitórias, oito das quais por nocaute, detentor apenas de um título no âmbito municipal, Najai “Nitro” Turpin foi um dos selecionados para participar do reallity-show The Contender, o Desafiante, criado pelo mesmo Mark Burnett que transformou Donald Trump em celebridade mundial com O Aprendiz. Apresentado por Sylvester Stallone, intérprete do clássico Rocky, um Lutador e por Sugar Ray Leonard, um dos pugilistas mais técnicos da história, The Contender, exibido no Brasil pelo canal de TV a cabo People + Arts, oferecia ao vencedor o prêmio de um milhão de dólares, e aos 16 participantes a possibilidade de se tornar conhecido e ver a carreira decolar. Às vésperas de completar 23 anos, Turpin viu no programa a chance de largar de vez as ferramentas e os mariscos, tornar-se profissional e dar uma vida decente à família, incluindo a filha Anyae, de dois anos, cuja custódia era alvo de uma disputa judicial com a ex-namorada Angela Chapple.

Turpin havia sido eliminado na fase classificatória do programa, mas não dera adeus ao prêmio. Poderia voltar no final, como um dos dois eleitos pelo público. Considerado o mais simpático da turma, sua escolha era tida como certa. Enquanto isso, não podia lutar, mas recebia US$ 1,5 mil por semana para se manter em forma, treinando no ginásio do centro turístico de Poconos. Ali, dentro do carro estacionado ao lado do ginásio, às quatro horas da madrugada de 14 de fevereiro, o Valentine Day, Dia dos Namorados no Hemisfério Norte, depois de passar a noite conversando com a ex-namorada Angela, Najai Turpin se matou com um tiro na cabeça.

Crédito da foto
NBC Television




quarta-feira, 11 de junho de 2008

TOCO Y ME VOY

A expressão "toco y me voy", utilizada em referência ao futebol argentino, descreve o lance no qual o jogador passa a bola a um companheiro e se desloca rapidamente, tornando-se uma opção para recebê-la mais adiante. Tal jogada implica alguns requisitos. Primeiro, a objetividade. O futebol brasileiro, tão afeito a dribles desnecessários, nem sempre permite um eficiente "toco y me voy". Segundo, para que a jogada funcione é preciso que quem recebe a bola tenha talento para dominá-la, raciocinar com rapidez, vislumbrar a melhor opção e entregá-la redondinha logo ali na frente. Claro, pode também, prerrogativa dos grandes craques, não devolver a bola e sair driblando meio time para fazer o gol.
Craque de primeiríssima linha, Augusto Nunes dispensa apresentações. Um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, é também um velho e querido amigo. Esta crônica, escrita há alguns anos, é um de seus mais belos textos.
Toco y me voy.



A VOZ DOS OLHARES

Augusto Nunes


Na primeira noite do ano, estou de novo no quarto que ainda é meu na casa de minha mãe. Lá estão os quatro avós, alojados em retratos nas paredes. Percorreram distintas trajetórias, mas todos se assemelham nos olhares. São sisudos, severos, solenes. Parecem quase tristes de tão graves. Faz pouco que nos juntamos para o convívio negado pelas trapaças da vida. Antônio, Honória e Emílio sequer me viram nascer. E eu nem tinha 12 anos quando Amabile me deixou órfão dos pais de meus pais.

Não têm sido tão freqüentes essas reuniões entre um neto e os avós que não pôde conhecer. Então nos tornamos passageiros de noturnas travessias que confirmam, nos muitos diálogos mudos, a eloqüência do silêncio. Nenhuma contradição: vozes de almas e olhares não são coisa para os tímpanos. Emitem ondas, não sons. E só o coração sabe ouvi-las.

Antônio Nunes da Silva, catarinense bonito, foi o primeiro a chegar. Era pouco mais velho que o neto. Como o tempo não existe para quem vive em retrato, o avô de 40 anos com 40 continua. Hoje o mais velho sou eu. Os olhos claros de Antônio são tão claramente verdes que é possível ver-se o verde no retrato em preto e branco. A expressão confirma o raro equilíbrio dos que preferem a paz sem jamais fugir à guerra, dos que mantêm a mão estendida mas adivinham a hora de fechá-la para o soco ou levá-la ao gatilho.

Honória Gonçalves veio em seguida, para o demorado reencontro. Não é bela. Tem só vinte e poucos anos (e não verá muitos mais, murmura a demasia do branco que lhe envolve as pupilas). Os sertanejos sabiam que gente assim morre moça, como cedo morreria a sertaneja paulista: com trinta anos de vida e mil de melancolia. A fisionomia exprime a coragem dos que aprendem a suportar quaisquer dores, mesmo a iminência do fim, com a altivez sem bravatas e a bravura sem rompantes das mulheres do sertão.

Cedo também morreria o plácido austríaco Emílio Menon. No retrato que o aprisiona, parece recém-saído de alguma cervejaria dos grotões da Baviera. O rosto gordo e rosado lembra cara de dono. O olhar afirma o contrário. É o olhar guloso de quem prepara o ataque, com a contrição do devoto, a procissões inteiras de copos. Do homem que sempre ergue, quando o crepúsculo chega, um brinde a todas as noites.

É o mais recente dos hóspedes. Chegou logo atrás de Amabile Zamarioli, que nunca foi só retrato. Morta, seguiu vivendo na memória de quem pôde, graças a ela, saber como é ter avó. As maçãs salientes realçam o desenho perfeito do rosto. Suave como o prenome, muito antes de Guevara aprendeu a endurecer sem renunciar à ternura, como os tantos órfãos da Itália que souberam resistir ao exílio decretado pela fome incontornável. Os que empreenderam a viagem indesejada e sem volta sem revogar o sorriso.

O verde azulado dos olhos dessa avó italianíssima convida a idéias eugenicamente adúlteras. Se ela tivesse trocado Emílio pelo outro avô, como seria o azul-verde dos olhos de algum menino fruto de Antônio e Amabile? Já tratamos desse assunto em nossas conversas na madrugada. E de tantos outros.

Gosto de ouvi-los contar como encontraram caminhos onde nem trilhas havia, e cruzar montanhas, matas e mares na dura perseguição a Eldorados camuflados nos confins do imaginário. Falamos do Brasil, da cidade, de assuntos de família. Tratamos de virtualmente tudo, ficamos bastante loquazes. Não foi assim na noite do último reencontro.

“Boa noite”, murmuro ao chegar. “Não será”, responde em coro a voz dos olhares. Todos me contemplam estranhamente calados. Então me dou conta da profunda mudança que impõe quietude. Como em tantos janeiros, estamos no mesmo quarto na casa da minha mãe. Mas desta vez a mãe já não há.


Publicado originalmente no Jornal do Brasil em 25 de janeiro de 2004.

terça-feira, 10 de junho de 2008


Nada sei

Eu não sei o que eu penso do tempo, que é, a um só tempo, velho aliado e inimigo mortal. A não ser, é claro, que ele é o senhor da razão. E se você ainda não está convencido disso, ah, não faz mal, ele espera.

Eu não sei se tudo vale a pena, apesar de isso ter sido dito pelo poeta em pessoa, mas sei que ficar parado não leva a lugar algum.
Quando não sei que caminho trilhar, tomo a segunda estrela à direita e dali sigo até o amanhecer.

Sei que vale a pena correr o risco, principalmente quando a meta parece inatingível.
No final das contas, a única coisa que importa é morrer tentando. Kamikaze bom é kamikaze morto.


Sei que quem fala demais acaba tendo de engolir suas palavras, mas ao menos se alimenta delas.

Eu não sei o que penso da vida, ou se penso “que vida”, que pode ser uma vida de cão, mas também pode ser um vidão. Mais do que o rumo, o importante é não perder a rima.

Eu sei o que penso da morte e, creia-me, é melhor ela não saber o que penso dela, embora possa me arrancar uma confissão a qualquer momento.
Mas nem ela não me faria confessar meus segredos, ora bolas, inconfessáveis.

O que eu sei mesmo é que confissão é pra bandido. Quem tem amor no coração não confessa, recita.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Ecobravatas

Carlos Minc é hilário. Fosse apenas um careca cabeludo temporão com coletes de mau gosto, comprados em algum brechó com nome do gênero “Ao Palhaço Elegante”, talvez representasse boa companhia para um chopes num pé-sujo de Copacabana. Investido dos poderes da República, torna-se uma ameaça. Meio Ambiente é coisa séria. A Amazônia não é território a ser conquistado numa rodada de War. Ou de chopes.

Marina Silva tinha todo o conteúdo do mundo, mas não se fazia ouvir. Minc apenas se faz ouvir. O tempo todo, e das piores maneiras possíveis. Verborrágico vocacional, faz a alegria dos editores das seções de “frases da semana” ao cunhar asneiras antológicas. “Não adianta chorar a seiva derramada”, derrama-se o ministro. “Preciso controlar a ecoansiedade”, descontrola-se Minc.

Como nunca na história desse País, a Amazônia tomba ao som das motosserras. O verdugo genuíno, no entanto, encontra-se a distância segura da Floresta. Nos gabinetes do Planalto engendra-se a verdadeira matança, não pela ação, mas pela omissão. Na melhor das hipóteses, o homicídio doloso se converte em culposo. O governo Lula é perito em encarnar a máxima shakespeareana: muito barulho por nada, mais do que uma estratégia, parece ser uma vocação. O ministro ladra, as motosserras avançam.

Travestido de homem providencial, para Lula o ministro Minc é o personagem certo no lugar certo. Enquanto, com uma mão, empunha a aspada acusatória contra os desmatadores, com a outra desembainha a caneta que assina decretos inócuos, pacotes pirotécnicos e letras tão mortas quanto as árvores seculares convertidas em lucro fácil para empresários, especuladores e espertalhões de variados matizes. A Amazônia nunca esteve tão à deriva.



Crédito da foto
Jefferson Rudy/MMA

O lado negro de Camelot

Barack Obama ganhou a indicação democrata por ser negro ou apesar de ser negro? A discussão é irrelevante a estas alturas. Numa sociedade historicamente segregadora como a americana, passar da Klu Klux Klan para Barack Obama representa bem mais do que flexionar novos vocábulos invulgares. Um negro disputar para valer – e não por partidos nanicos e patéticos – a presidência dos Estados Unidos não é pouca coisa. No mínimo, os americanos sinalizam uma disposição para rever seus conceitos. Em tempos não tão remotos, Obama seria convidado a usar a outra calçada ou a desocupar assentos destinados aos brancos, isso se desse sorte de escapar dos archotes insandecidos.

Em tempos politicamente corretos, um negro com nome árabe soa melhor a ouvidos sedentos de renovação, exauridos de esperança pelo conservadorismo da Era Bush, do que uma loira com pinta de durona e ascendência decididamente anglo-saxônica (pensando bem, “pinta” lembra o análogo masculino de triste memória para Hillary). Mas o essencial não é isso.

A predileção por Obama vai muito além da cor da pele. Há cinco décadas os americanos esperam pela ressurreição de John Fitzgerald Kennedy. Enquanto Bob Kennedy, John-John e membros menos graduados do clã morriam de forma trágica, a América se conformava com os anódinos Lindon Johnson e Gerald Ford, o vigarista Richard Nixon, o canastrão Ronald Reagan e os belicistas Bush Pai e Bush Filho.
Bill Clinton interrompeu esta série de inexpressivos e perigosos, foi um dos melhores presidentes americanos de todos os tempos, mas, inserido num sistema reacionário, acabou entrando para a história mais em função de um caso com uma estagiária do pelo belo governo, caso, diga-se, realçado muito mais pela imprensa e por promotores de segunda linha em busca de notoriedade do que pelo povo, que pouco se importou com o episódio.

Obama não é JFK, para o bem e para o mal. Não possui o indiscreto charme da burguesia kennediana, tampouco parece afeito à devassidão dos subsolos da Casa Branca naquele início dos anos 60, muito bem retratados em O Lado Negro de Camelot, de Seymour Hersh, um dos maiores jornalistas da história. Obama só é o lado negro na cor da pele, mas está longe de freqüentar a corte de Camelot. Para o bem e para o mal.


Crédito da foto
Comitê Barack Obama

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Fim de semana

Para desestressar um pouco, curtam o impagável vídeo em que Elton John interpreta Goodbye Yellow Brick Road acompanhado pela orquestra dos Muppets. Bom fim de semana. Nos encontramos na segunda-feira.


quinta-feira, 5 de junho de 2008

Dia do Meio Ambiente

No Dia Mundial do Meio Ambiente, com a palavra a canadense Severn Suzuki, que aos 13 anos de idade comoveu o mundo ao discursar na Rio 92. Hoje, aos 28 anos, Severn é formada em Ecologia e Biologia Evolutiva pela universidade de Yale (EUA) e viaja por todo o mundo dando palestras, participando de projetos e expedições. Foi, inclusive, conselheira de Kofi Annan quando ele era secretário-geral da ONU.