sexta-feira, 7 de julho de 2017

PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 26 de maio de 2017)


OS DELINQUENTES NÃO PODEM PREVALECER

Os brasileiros que prestam estão desiludidos, assustados, desanimados. A desilusão e o medo são naturais, não teria como ser de outra forma diante do apavorante noticiário de cada dia. Precisam, no entanto, revogar o desânimo para não permitir que delinquentes com ou sem causa, vagabundos contumazes, militantes a soldo de fontes pagadoras atoladas até o pescoço no pântano da corrupção, vítimas de lavagens cerebrais irreversíveis e bestas quadradas em geral tomem o país de assalto.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 23 de maio de 2017)


O PROCURADOR SE ACHA

Um ex-presidente e candidato a Messias é hoje a viva alma mais enrolada do país e está totalmente desmoralizado. A ex-presidenta inocenta entrou para a posteridade como protagonista de memes e clássicos do YouTube. O atual presidente encontra-se embretado. Um dos principais postulantes ao cargo nas últimas eleições, também. O presidente do Senado é alvo de dois inquéritos. O presidente da Câmara não possui cacife para falar grosso e é um desconhecido nacional. Os ministros do Supremo não exibem o desejável espírito de equipe, no qual as discordâncias são apenas de natureza técnica, e vivem trocando farpas no horário nobre.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 20 de maio de 2017)


VAI MELHORAR. MAS, ANTES, VAI PIORAR

A Lei de Murphy  “Tudo que pode dar errado, dará.”  acabou por originar incontáveis variações. Uma delas diz: “Vai melhorar. Mas, antes, ainda vai piorar”. A frase se encaixa perfeitamente na situação do Brasil. Haverá de sair de tudo isso uma nação mais ética, mais correta no modo de se fazer política e negócios, mais republicana. Por vias tortas, depuram-se as instituições que deveriam servir aos brasileiros, mas cujos integrantes não resistiram a cair na vida para subir na vida. Um paradoxo apenas gramatical, longe de apresentar qualquer contradição no país em que prevaleciam, no cotidiano dos poderosos, a esperteza lucrativa, a negociação malandra e o mais descarado roubo, ainda que camuflado por toda sorte de gambiarras jurídicas.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 18 de maio de 2017)


O BRASIL DECENTE NÃO LIVRA NINGUÉM

Os seguidores de seitas políticas, acostumados a simular revolta em função das “injustiças” cometidas contra o chefe – com a desfaçatez de um jogador malandro que mergulha na área para fingir ter sofrido pênalti –, e a cobrar tratamento idêntico a quem consideram estar do outro lado da contenda por eles inventada – ainda que Temer tenha sido escolhido e votado pelos petistas –, terão de criar novos argumentos. O Brasil decente jamais pregou justiça seletiva, tampouco alimenta bandidos de estimação.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 17 de maio de 2017)


O ADVOGADO TEM A CARA DO CLIENTE

Advogado de defesa do ex-presidente senhor Luiz Inácio, Cristiano Zanin roubou a cena durante o depoimento da viva alma mais honesta do país ao juiz que conduz os processos da Operação Lava Jato. Se pretendia aparecer mais do que Lula e Sérgio Moro, Zanin atingiu seu objetivo. Ocorre que, para o bem e para o mal, advogados não podem ofuscar os clientes, não importa do que eles sejam acusados. Quando isso acontece, o cliente deveria abrir o olho. Cada interrupção arrogante do verborrágico causídico contribuiu apenas para o acusado parecer ainda mais culpado do que já é.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 14 de maio de 2017)


DISCURSEIRO DESRESPEITOSO

A imagem ao lado registra uma fala do agente do FBI Donald Ressler, personagem interpretado pelo ator canadense Diego Klattenhoff na série Black List. Poderia ser de outras séries e de incontáveis filmes, pois usar a esposa (ou o amigo, ou o colega de trabalho, ou o vizinho e demais variações) como bode expiatório depois que a pessoa já não tem mais como se defender é tema recorrente da ficção, tanto quando da vida real. Nenhum brasileiro decente engoliu o despudor do ex-presidente Lula ao adotar o abjeto expediente.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 10 de maio de 2017)


VIVA ALMA INOCENTA

O primeiro encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e o juiz Sérgio Moro foi o que se esperava que fosse: um exercício de paciência do condutor da Lava Jato e um exercício da cara de pau do ex-presidente. Nada de novo, o enrolador vocacional apenas reafirmou que não sabia o que todo brasileiro que quer saber sempre soube que ele sabia. O palavrório de palanque proferido durante o interrogatório de cinco horas foi capaz de convencer somente forasteiros de longínquas paragens, visitantes alienígenas e nativos alienados. A viva alma mais honesta do Brasil em todos os tempos declarou-se inocenta, o que vale tanto quanto uma cédula de três reais.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 4 de maio de 2017)


O CANASTRÃO QUER SE LIVRAR DOS TOMATES

É natural que quem passou a vida interpretando se preocupe com o ângulo da câmera, sobretudo quando sabe que pode ser uma de suas últimas cenas fora das grades. Luiz Inácio Lula da Silva interpreta até hoje o operário humilde, embora não saiba o que é trabalho de verdade desde os anos 1970 e tenha passado longo período saboreando as delícias do ócio ideológico remunerado por fora. E tanto atuou que está quase convencido de ser o personagem que criou, assim como Zé Dirceu estava quase convencido de sua inocência quando foi cassado e preso em função do Mensalão.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 29 de abril de 2017)


EXÉRCITO DE LULA SÓ PROVOCA MAROLINHA

O Dia da Vadiagem promovido por sindicalistas inconformados com o próprio anacronismo, apaniguados de um sistema bandido desmascarado, idólatras de vivas almas moribundas e vagabundos em geral, destinado a servir de boia e palanque a quem há muito deveria ter conhecido o desconforto de um camburão, converteu-se em mais um emblemático tiro no pé. A greve geral, que não era nem greve, nem geral, pretendia-se um tsunami, com a arrogância típica dos exércitos brancaleones de paspalhões de opereta. Acabou por se transformar em uma suicida marolinha.
PUBLICADO EM VEJA.COM
(Meu texto na coluna de Augusto Nunes em 8 de abril de 2017)


INIMIGOS REAIS E IMAGINÁRIOS

Doutrinas estranhas ao corpo de uma sociedade tendem a vicejar somente na contenda. Como no gesto de uma criança que conversa com amigos imaginários para driblar a solidão em um mundo ao qual não sente pertencer de fato, a tentativa de construção de um sistema ideológico hegemônico implica a existência do ente radicalmente oposto. Não havendo um grupo inimigo genuíno, trata-se de criá-lo. O adversário invisível passa a ser depositário de tudo que for contrário aos preceitos dominantes, ainda que este domínio seja eventual, transitório e, na maior parte das vezes, forçado.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

PUBLICADO NO SITE OLIVRE.COM.BR
(26 de março de 2017)


SOB AS ARMAS DO FALIDO FELIZ

A tentativa de intimidação sofrida pelo repórter Bruno Abbud e pelo repórter fotográfico Ednilson Aguiar, de O LIVRE (foto), é, lamentavelmente, um episódio vivenciado com preocupante frequência por quem pratica jornalismo sério e independente. Homens que se julgam acima da lei, pelo poder político ou econômico, sempre que ameaçados costumam reagir com a arrogância e a truculência do fortão da aldeia. Análises mais profundas por certo apontariam causas freudianas, mas fiquemos na superfície.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(1º de fevereiro de 2017)


SONHOS QUE PODEMOS TER

Como na antiga canção dos Engenheiros do Hawaii, na voz do gremistaço Humberto Gessinger, “somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.” Quando assumiu a presidência do Grêmio, há dois anos, Romildo Bolzan Jr. fez o discurso da austeridade, dos pés no chão, de não se gastar mais do que se arrecada, colocar as contas em dia, montar o elenco possível e, mesmo assim, tentar conquistar títulos.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(9 de dezembro de 2016)


MERECEMOS COMEMORAR MUITO

Toda conquista merece muita celebração, mas, de boa, o penta da Copa do Brasil pede uma comemoração ainda maior, mais intensa, mais sentida. Nós, gremistas, temos de comemorar muito, acima de tudo porque merecemos, mas também porque este time merece, esta comissão técnica merece, este treinador merece, e o outro antes dele, e os dirigentes, pois somente com a união, a competência e o empenho permanente de um todo é que se chega ao sucesso, sobretudo em um esporte coletivo. O grupo de jogadores pode não ser perfeito, pode ter uma ou outra peça contestada, mas conseguiu se transformar numa família capaz de tirar de cada um o seu melhor, primeiro sob a batuta do grande ídolo gremista Roger Machado, depois sob o comando de nosso ídolo maior Renato Portaluppi, que ajustou detalhes fundamentais.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(19 de outubro de 2016)


PENSAMENTO MÁGICO ESTÁ VALENDO

É impossível se pensar em Grêmio x Palmeiras sem que venham à mente as históricas batalhas do inesquecível 1995, ano em que conquistamos o bi da Libertadores. A sequência de enfrentamentos em diferentes competições, a rivalidade atingindo o ápice nos 5 a 0 que aplicamos em Porto Alegre. Depois os 5 a 1 para eles em São Paulo, sob clima de muita tensão e medo, o gol solitário de Jardel carimbando a classificação. A briga iniciada por Dinho e Válber, e que depois se transformou em pancadaria generalizada no Olímpico, é mais lembrada do que os cinco gols. O detalhe fora do usual é o que chama a atenção.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(1º de junho de 2016)


JORNALISTAS TORCEM PARA O EU F. C.

Como postou outro dia o talentoso e gente fina Leonardo Oliveira, colunista de Zero Hora e editor de esportes do Diário Gaúcho, “futebol, para nós, jornalistas esportivos, é trabalho. Será que é tão complicado entender?” Infelizmente, Leo, é. Primeiro porque o torcedor pensa com o coração, e é esta paixão que torna o futebol tão encantador; segundo, porque o público nem sempre faz a devida distinção entre comentaristas pagos somente para dar opinião e jornalistas remunerados para cobrir os fatos.

PUBLICADO EM ZERO HORA
(12 de fevereiro de 2016)


O GRÊMIO E OS PRIVILÉGIOS DA PAIXÃO

Com o Grêmio prestes a estrear em mais uma Libertadores, as lembranças retornam, os jogos via radinho a pilha, TV com Bombrill na antena, depois equipamentos cada vez melhores, no Olímpico e na Arena. Fragmentos a embalar o sonho maior que, uma vez provado, em 1983, e reprisado em 1995, tornou-se obsessão: conquistar a América mais uma vez.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

REPORTAGEM DE CAPA

NÃO É PELOS 20 CENTAVOS
Atentado terrorista em Paris expôs uma realidade amarga: a liberdade de expressão está longe de ser unanimidade, mesmo no mundo ocidental

Tão logo se espalhou a notícia do ataque terrorista contra o jornal satírico Charlie Hebdo, milhões de pessoas em todo o mundo começaram a atualizar sua foto de perfil nas redes sociais com um banner de fundo preto e a expressão “je suis Charlie” em letras brancas, um PDF criado pela própria publicação e postado em seu site logo depois do massacre. O que parecia se tratar de um posicionamento indiscutível diante do horror acabou por gerar uma polêmica com a aparição de milhares dispostos a afirmar “eu não sou Charlie”.  Em comum, um inquietante “sou contra o terrorismo, mas...”. Trata-se de nova adaptação do clássico caso de culpar a vítima, que, em sua versão mais popular, atribui à mulher a responsabilidade por ter sido estuprada, afinal, quem mandou usar roupas curtas, justas ou transparentes? Da mesma forma se poderia apontar o dedo para o cidadão assaltado e dizer: “Quem mandou andar na rua à noite?”. As variáveis são infinitas. No caso, quem mandou aquelas chargistas abusados debocharem de um símbolo do islamismo?

Há várias leituras fundamentais a se fazer a partir da contenda virtual que se instalou em torno da frase. Para começo de conversa, como ocorre o tempo todo na internet, muita gente comenta sobre coisas que não conhece, ou, quando conhece, o faz de modo precipitado, na ânsia de não perder a onda. Seguramente, 99% das pessoas que adotaram o “je suis Charlie”, muito antes e além de apoiar integralmente o conteúdo do jornal, estavam dizendo que “sim, somos todos Charlie na medida em que qualquer ato de barbárie atinge a todos nós, cidadãos civilizados”. A exemplo do que foi registrado nas manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, “não é pelos 20 centavos” – alguns dizem que, no fundo era, pois Dilma Rousseff se reelegeu, mas esta é outra questão.

Muitos sequer faziam ideia de que o Charlie Hebdo existia, pois seu conteúdo era o que menos importava, e sim seu direito de publicá-lo. Na trincheira oposta, o desconhecimento sobre o que criticavam era ainda maior, o que igualmente pouco interessava. Há os que, por falta de alcance mesmo, não entenderam o significado de se adotar a expressão “je suis Charlie”. Preocupante é imaginar que outros tantos, quem sabe a maioria, possa ter entendido.

Em se tratando de liberdade de expressão, não pode haver “mas”, qualquer restrição é, por definição, cerceamento a esta liberdade. Tampouco o “mas” é aceitável como manifestação de uma prática tão odiosa quanto a perpetração de um ato bárbaro: a relativização de um ato bárbaro. É assustador constatar a existência de um número tão expressivo de pessoas que, guiadas por preceitos religiosos, falta de informação, preconceito, moralismo falso ou verdadeiro, seja pelo que for, são capazes de apoiar a chacina, por um grupo fanático munido de fuzis, de homens armados com canetas, quem sabe dispostos a disparar uma rajada mortal de nanquim, ou perfurar o inimigo a golpes de lapiseira.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

        Relativizar jamais

Você não gosta do “tipo” de humor praticado pelo pessoal do Charlie Hebdo e acha que, de alguma forma, isso justifica o atentado? Bem, então espero que você goste do “tipo” de pessoa que eu sou...

                Toda forma de relativização da barbárie tem de ser condenada. São tantos comentários sobre o massacre na França que nos obrigamos a ser seletivos. Um dos critérios que utilizo é o de parar de ler imediatamente quando o autor tasca um “mas” já na segunda frase. Que faça suas considerações ao longo do texto é justo e normal, mas não assim, direto na segunda frase, pois aí se chega à velha questão: quem mandou usar saias curtas?

                O método de relativização mais utilizado neste caso é o de lembrar o passado colonialista da França – e, secundariamente, sua aliança secular com os EUA, o “grande satã” imperialista. O país estaria pagando por seu passado de exploração e opressão. Nada mais justo, é o que parece quererem dizer estas pessoas. Como resumiu Gandhi, “olho por olho e o mundo acabará cego”, a civilização simplesmente deixará de existir, voltaremos ao estado primal.

                Relativizar é, como diz a palavra, tornar relativo, tirar o caráter absoluto de algo, como se fosse possível considerar discutível um atentado terrorista, seja de quem for, seja onde for, seja contra quem for. Terrorismo é a volta à barbárie, é a negação da civilização, é repulsivo, é nojento. Quem acha que “não é bem assim” não tem cura, não adianta tentar discutir.

                Uma segunda forma de relativização bastante usada é a que abre este texto, a que questiona a qualidade e o foco, o “tipo” de humor da publicação. O mundo seria mais simples – e mais civilizado – se as pessoas, em grande parte, entendessem que não são o centro do universo, que suas opiniões não são melhores do que as de ninguém, que suas crenças religiosas, seus hábitos alimentares, sua orientação sexual, enfim, que seu modo de vida não é melhor, nem pior – a menos que se trate, por exemplo, de um terrorista – do que o de ninguém, e por isso todos precisam exercitar a tolerância.

                Há alguns anos tornei-me vegetariano, muitos sabem, outros não, pois não fico fazendo pregação, apenas vivo como quero. Entretanto, volta e meia escuto algo do tipo “deixe de bobagem, o homem sempre foi carnívoro desde a pré-história”. Nem perco tempo explicando para a pré-histórica mente que a humanidade evoluiu um tantinho desde então, e que, entre outras coisas, desenvolveu a agricultura, o que lhe propiciou não ter mais de caçar mamutes para não morrer de fome. E, se a questão é manter a tradição, agir como o homem primitivo, por que não ir morar em uma caverna? Ou quem sabe bater com uma clava na cabeça de uma mulher e arrastá-la à força para seu leito?

                Citei este exemplo para ilustrar alguns pontos: primeiro, a dificuldade que as pessoas têm em respeitar as diferenças, por menores que sejam – afinal, acompanho os amigos em todo o restante do bufê, nas bebidas e nas sobremesas, só abro mão da carne; segundo, como a grande maioria considera a sua verdade como sendo a única. Isso leva à intolerância, que leva ao radicalismo, que leva à predisposição para a violência extrema, que leva à barbárie.

                Estou entre os milhões de pessoas em todo o mundo a adotar a frase “Je suis Charlie” como imagem do perfil nas redes sociais. Parece-me tão clara a mensagem, mas nem isso é. Já li postagens dizendo que, embora o terrorismo seja condenável, “não sou Charlie”. Acho que este povo não entendeu. Nem todos que adotaram a frase lêem, apreciam ou aprovam integralmente o material publicado pela Charlie Hebdo. Muitos, entre os quais me incluo, consideram que em várias ocasiões sim, o humor da revista é de mau gosto, e humor de mau gosto não tem graça, com o perdão pelo trocadilho. Mas este não é o ponto. Quem adotou o slogan quis dizer “apenas” – e sinto-me meio tolo ao escrever isso, pois me parece tão óbvio – que atos de barbárie atingem a todos nos, cidadãos civilizados, defensores, portanto, da vida, da paz, da tolerância, da liberdade, do amor, do convívio entre diferentes, da total liberdade de expressão, sim, total, pois liberdade é algo que não pode ser relativo, não pode ter “mas”. Somos todos vítimas da barbárie, somos todos Charlie Hebdo.

                Voltemos ao ponto da relativização da brutalidade como resposta ao passado colonialista francês. Estou enganado ou quem defende este argumento no fundo está querendo dizer – e só não o diz claramente para manter sua pretensa aura de correção política – que os povos que um dia foram dominados, espoliados ou vilipendiados de alguma forma têm o direito de se vingar do modo como bem entenderem, mesmo que seja na base de AK-47 x lapiseira? Ao menos é o que me parece. E afirmar isso não significa atribuir o massacre a um povo, a uma etnia, a uma religião? Então, como podem os mesmos que pensam assim apelarem, de modo tão pungente, para que não se generalize, pois são fatos isolados perpetrados por indivíduos, e não atos coletivos de um grupo étnico-religioso em especial?

                Bom, ainda que pequem pela incoerência das posições, ao menos na segunda parte eles têm razão. De fato, o radicalismo, a violência, o terror são atos de pessoas ou grupos isolados, nunca de todo um povo, ou de todos os seguidores de uma religião, embora seja inegável que o extremismo tem sido levado a cabo por quem se professa de determinada crença, mesmo que suas mentes criminosas distorçam totalmente os preceitos originais desta fé, conforme atesta a imensa maioria dos 1,5 bilhão de muçulmanos que vivem em paz, distantes do ódio e da violência. O que tem de haver, cada vez mais, é uma reação proporcional desta maioria contra o que praticam atos assim supostamente em nome dela. Felizmente, tal movimento começar a tomar corpo.

                Inegável é que terroristas são pessoas com sérios problemas mentais. Seres normais não fazem o que eles fazem, falar isso é chover no molhado. Trata-se de psicopatas, quanto a isso creio não haver discussão. Construir uma cultura de amor à vida é o desafio que as sociedades perseguem há séculos. É decididamente incerto se um dia o ser humano logrará êxito em tal empreitada. Por mais que a sociedade evolua, por mais que os bons se levantem contra os maus, por mais que se pregue a paz e a bondade, ainda assim uma questão primordial permanecerá: como desalojar o mal que se esconde no coração de tantos homens? Como evitar o surgimento de psicopatas?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

GRANDES NOMES
Ben Bradlee, o editor por excelência

A galeria dos grandes nomes do jornalismo costuma destinar os espaços mais nobres a homens que converteram reportagem em arte. O culto ao texto Frank Sinatra Está Resfriado, por exemplo, celebra, merecidamente, o genial Gay Talese, mas revela-se injusto ao relegar a uma quase obscuridade Harold Hayes, editor da Esquire que o escalou para a empreitada, bancou os altos custos, teve paciência para esperar e aceitar seus métodos e por fim publicou o perfil com todas as honras. O mesmo se dá em relação a Hiroshima, obra inaugural do new journalism, que elevou ao panteão dos mestres do ofício, com toda honra e justiça, o autor, John Hersey, mas não concedeu o reconhecimento devido ao editores Harold Ross e William Shawn, que dedicaram uma edição inteira da New Yorker àquele trabalho esplendoroso.

A cobertura do Caso Wategate consagrou mundialmente os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, história contada no livro Todos os Homens do Presidente, de autoria deles, e que deu origem ao filme homônimo (leia mais na reportagem de capa desta edição). Neste caso, felizmente, o editor não foi esquecido. Ainda que seu nome não soe tão popular para quem não é do ramo, Ben Bradlee obteve o devido reconhecimento.

A última homenagem ocorreu no ano passado, quando ele recebeu a medalha da liberdade das mãos do presidente Barack Obama, na Casa Branca, com direito a discursos emocionados de Bernstein e Woodward. Bradlee morreu em 21 de outubro último em Washington, aos 93 anos. Em nota oficial, Obama declarou: “Para Benjamin Bradlee, o jornalismo foi mais que uma profissão. Era um bem público e vital para a democracia. Bradlee transformou o Washington Post em um dos melhores jornais do país (...) e contou histórias que precisavam ser contadas”.

Nascido em Boston, Estado de Massachusetts, em 26 de agosto de 1921, Benjamin Crowninshield Bradlee ingressou no Washington Post, que viria a se tornar um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos – e do mundo – somente aos 44 anos, em 1965. Se fosse no Brasil, possivelmente seria tarde demais para começar uma nova trajetória e assumir papel de relevo na história. Aqui, jornalistas nesta idade se encaminham rapidamente para a condição de velhos que devem ser descartados para dar lugar às novas gerações, mas, nos EUA, onde talvez os executivos da mídia não sejam tão inteligentes quanto os daqui, é uma idade em que os profissionais estão apenas começando sua escalada rumo a postos de chefia nas redações. Assim, Bradlee, que começara como jornaleiro em sua cidade natal, permaneceu no Post por 26 anos, até os 70 de idade, na condição de editor executivo. Aposentou-se em 1991. Enquanto esteve lá, o Post conquistou 17 prêmios Pulitzer, o Oscar do jornalismo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AUDIÊNCIA DO BLOG

Apenas como curiosidade, quem visualizou meu blog neste mês até aqui - países de origem com maior número de visitantes. Fonte: Google.

1º) Estados Unidos
2º) Brasil
3º) Irlanda
4º) Alemanha
5º) Ucrânia
6º) Rússia
7º) Polônia
8º) França
9º) Dinamarca
10º) China

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O cemitério de crianças


Há uma fábula que é mais ou menos como vou contar. Preservei a ideia, mas criei meu próprio roteiro:

Certa vez, um peregrino cansado das muitas andanças chegou a um lugarejo que, à distância, pareceu-lhe aprazível, acolhedor. Certo de que encontraria ali repouso e alimento, já ia apressar o passo quando viu, próximo da estradinha de chão, um cemitério tão bem cuidado quanto lhe parecera a vila adiante. Mais do que isso, parecia mesmo bonito, se é possível ver beleza num lugar ligado à morte, pegou-se pensando o viajante. Algo naquele local o atraía, ele não resistiu e caminhou até lá.

                De perto a sensação de ordem e capricho era ainda mais forte. As lápides todas branquinhas, limpas e bem cuidadas, flores viçosas ao pé de cada uma delas, tudo muito perfeito e estranhamente belo. Foi então que estacou defronte uma delas, chocado diante de algo tão evidente, mas que ele levara vários minutos para perceber. As lápides tinham o nome e a idade de cada pessoa enterrada ali. Roberto, 7 anos. Paula, 5 anos. Camila, 6 anos. Elias, 9 anos. Pedro, 4 anos. Rosa, 8 anos. E assim por diante. O andarilho sentiu-se um pouco tonto, tendo de se escorar na lápide de Joana, 5 anos.

                O que teria acontecido? Uma praga, talvez, uma doença contagiosa que atacara especialmente crianças? Ou seria a verdade ainda mais chocante? Um assassino psicopata? Um grave acidente natural? Não, estas duas últimas hipóteses teriam de ser descartadas, pois, só agora percebia, havia centenas de túmulos, e todos de crianças. Seria uma prática local enterrar os inocentes em lugar diferente do destinado aos adultos? Um ideia terrível gelou-lhe os ossos: e se o povo dali matasse as crianças em alguma espécie de sacrifício macabro? Ele logo tratou de afastar essa ideia. Não, seria doentio demais e, afinal de contas, a cidade parecia tão acolhedora, e o próprio cemitério tão bem cuidado que isso não faria o menor sentido. A fome e o cansaço começavam a afetar suas ideias, pensou.

                O viajante saiu de seu devaneio ao perceber a aproximação de um homem já em idade avançada que acabara de depositar flores no túmulo de Vanessa, 6 anos. Poucos segundos de temor foram sucedidos por um instante de alívio ao perceber no semblante vincado daquele homem um sorriso que só poderia ser de bondade. Refeito do susto, respondeu ao aceno do homem, encheu-se de coragem e perguntou:

                – Por que só tem crianças neste cemitério? Alguma epidemia? Um desastre natural? Ou vocês enterram as crianças em local separado dos adultos? O que está acontecendo aqui?

                O homem não pareceu surpreso com sua perplexidade, como se esperasse por uma pergunta assim. Com voz calma e paciente, começou a falar:

                – Aqui, quando nascemos, ganhamos de nossos pais uma espécie de caderneta na qual, tão logo crescemos o bastante para termos consciência das coisas, passamos a anotar cada momento memorável de nossas vidas, e quanto tempo ele durou. O primeiro dia de escola, o primeiro beijo, a formatura, a vitória na gincana, a medalha de honra ao mérito, o primeiro emprego, o nascimento dos filhos, os encontros com os amigos, as conversas com os pais ao redor do fogo nas noites de inverno, uma noite de amor, anotamos tudo de que vale a pena nos lembrarmos. E assim fazemos por toda nossa vida. Pode ser algo grande, como a compra de uma casa ou a viagem dos sonhos, mas pode ser algo singelo e precioso, como um abraço bem sentido, ou a mera troca de olhares com uma pessoa muito especial. Fica tudo registrado na caderneta, o momento e quanto tempo durou. Quando morremos, esse tempo é somado e então é determinada nossa verdadeira idade, a soma dos momentos memoráveis, o tempo que realmente vivemos, e não apenas sobrevivemos neste mundo.

                O viajante não sabia o que dizer, baixara os olhos para a lápide de José, 4 anos, e começara a chorar. O homem perguntou-lhe então?

                – Quanto tempo você viveu?

                Ele virou-se para responder, mas já não havia ninguém ali.
ESCRIBAS E BOLEIROS
Jornalistas, escritores, enfim, quem não trabalha, só escreve, tem algo em comum com jogador de futebol, que também não trabalha, só joga. Quem ganha a vida jogando futebol se queixa da rotina dura de treinos e jogos mas, quando está de folga ou em férias, corre para bater uma bolinha com os amigos. Quem ganha a vida escrevendo se queixa da dura rotina de escrever feito doido para garantir o sustento mas, quando tem alguns minutos de folga faz o que para relaxar? Escreve.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

34 ANOS SEM TRABALHAR

Em 14 de novembro de 1980 eu comecei como revisor do jornal Zero Hora. Embora ainda não fosse na redação e ainda cursasse jornalismo na Famecos/PUC, considero a data o início de minha carreira. Obrigado a todos com quem tenho convivido nesta jornada. Não vou me estender no comentário, deixarei textos maiores e comemorações para 2015, quando fecha data redonda. Por enquanto, são apenas 34 anos durante os quais eu não trabalhei, só escrevi.
ALL YOU NEED IS LOVE

Desradicalize-se! Distensione-se. Permita-se.
Odeie menos! Ame mais!
A vida é curta, é uma só e passa rápido.
Todos queremos salvar o mundo, Ok, mas no fundo, no fundo mesmo, só queremos experimentar a força de um grande amor. Aquele único, sabe?
E que pareça piegas, pois sempre parecerá quando for dos outros.
E que pareça divino, pois sempre será divino quando nos tocar.
E abençoados os que o vivenciarem.
Discursamos demais, brigamos demais, quando, às vezes, tudo que queremos é aquele abraço, sabe? Aquele!
Os Beatles pareciam querer transgredir tudo, mas, mesmo assim, cantavam:
All You Need is Love!
Laralaiá!
Afinal, não há transgressão maior do que o amor.
Aquele, sabe?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014


CARTA DE GRAMADO

Em 2009, um grupo de voluntários de diversas áreas constituiu o Fórum Saúde Mulher, do qual orgulhosamente faço parte. Na ocasião, elaboramos um documento que se tornou conhecido como Carta de Gramado, com proposições objetivas e viáveis para melhorar o atendimento às pacientes com câncer de mama em questões como o acesso ao diagnóstico precoce e preciso por meio de mamografias de qualidade, o tratamento num prazo mínimo a partir do diagnóstico e o direito à reconstrução mamária no mesmo procedimento da retirada, entre outros aspectos.

Por iniciativa e com coordenação de José Luiz Pedrini, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Conceição, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia e, na ocasião, presidente do Congresso Brasileiro da especialidade, realizado na serra gaúcha, o documento foi lançado no âmbito do congresso e incluiu caminhada pelas ruas de Gramado, além do lançamento do livro Uma História da Mama, escrito e editado em sistema de co-criação por ele e por mim, e primeiro título de meu próprio selo editorial.

As recomendações da Carta de Gramado foram adotadas como políticas de saúde pública pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e pelo Ministério da Saúde.

Neste 31 de outubro, no fechamento do Outubro Rosa, foi realizado um encontro do Fórum na sede da Associação Médica do RS (AMRIGS) a fim de avaliar os avanços da Carta e propor novos desafios. Por todas as razões acima, sinto-mo feliz por fazer parte desta iniciativa, pela companhia dos parceiros, em especial das queridíssimas do Grupo da Mama do Hospital Conceição, e do Pedrini, mastologista da maior qualidade e um de meus melhores amigos.