(1º de fevereiro de 2017)
quinta-feira, 6 de julho de 2017
PUBLICADO EM ZERO HORA
(1º de fevereiro de 2017)
Como na antiga canção dos Engenheiros do Hawaii, na voz do gremistaço Humberto Gessinger, “somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.” Quando assumiu a presidência do Grêmio, há dois anos, Romildo Bolzan Jr. fez o discurso da austeridade, dos pés no chão, de não se gastar mais do que se arrecada, colocar as contas em dia, montar o elenco possível e, mesmo assim, tentar conquistar títulos.
(1º de fevereiro de 2017)
PUBLICADO EM ZERO HORA
(9 de dezembro de 2016)
Toda conquista merece muita celebração, mas, de boa, o penta da Copa do Brasil pede uma comemoração ainda maior, mais intensa, mais sentida. Nós, gremistas, temos de comemorar muito, acima de tudo porque merecemos, mas também porque este time merece, esta comissão técnica merece, este treinador merece, e o outro antes dele, e os dirigentes, pois somente com a união, a competência e o empenho permanente de um todo é que se chega ao sucesso, sobretudo em um esporte coletivo. O grupo de jogadores pode não ser perfeito, pode ter uma ou outra peça contestada, mas conseguiu se transformar numa família capaz de tirar de cada um o seu melhor, primeiro sob a batuta do grande ídolo gremista Roger Machado, depois sob o comando de nosso ídolo maior Renato Portaluppi, que ajustou detalhes fundamentais.
(9 de dezembro de 2016)
MERECEMOS COMEMORAR MUITO
Toda conquista merece muita celebração, mas, de boa, o penta da Copa do Brasil pede uma comemoração ainda maior, mais intensa, mais sentida. Nós, gremistas, temos de comemorar muito, acima de tudo porque merecemos, mas também porque este time merece, esta comissão técnica merece, este treinador merece, e o outro antes dele, e os dirigentes, pois somente com a união, a competência e o empenho permanente de um todo é que se chega ao sucesso, sobretudo em um esporte coletivo. O grupo de jogadores pode não ser perfeito, pode ter uma ou outra peça contestada, mas conseguiu se transformar numa família capaz de tirar de cada um o seu melhor, primeiro sob a batuta do grande ídolo gremista Roger Machado, depois sob o comando de nosso ídolo maior Renato Portaluppi, que ajustou detalhes fundamentais.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(19 de outubro de 2016)
É impossível se pensar em Grêmio x Palmeiras sem que venham à mente as históricas batalhas do inesquecível 1995, ano em que conquistamos o bi da Libertadores. A sequência de enfrentamentos em diferentes competições, a rivalidade atingindo o ápice nos 5 a 0 que aplicamos em Porto Alegre. Depois os 5 a 1 para eles em São Paulo, sob clima de muita tensão e medo, o gol solitário de Jardel carimbando a classificação. A briga iniciada por Dinho e Válber, e que depois se transformou em pancadaria generalizada no Olímpico, é mais lembrada do que os cinco gols. O detalhe fora do usual é o que chama a atenção.
(19 de outubro de 2016)
PENSAMENTO MÁGICO ESTÁ VALENDO
É impossível se pensar em Grêmio x Palmeiras sem que venham à mente as históricas batalhas do inesquecível 1995, ano em que conquistamos o bi da Libertadores. A sequência de enfrentamentos em diferentes competições, a rivalidade atingindo o ápice nos 5 a 0 que aplicamos em Porto Alegre. Depois os 5 a 1 para eles em São Paulo, sob clima de muita tensão e medo, o gol solitário de Jardel carimbando a classificação. A briga iniciada por Dinho e Válber, e que depois se transformou em pancadaria generalizada no Olímpico, é mais lembrada do que os cinco gols. O detalhe fora do usual é o que chama a atenção.
PUBLICADO EM ZERO HORA
(1º de junho de 2016)
(1º de junho de 2016)
JORNALISTAS TORCEM PARA O EU F. C.
Como postou outro dia o talentoso e gente fina Leonardo Oliveira, colunista de Zero Hora e editor de esportes do Diário Gaúcho, “futebol, para nós, jornalistas esportivos, é trabalho. Será que é tão complicado entender?” Infelizmente, Leo, é. Primeiro porque o torcedor pensa com o coração, e é esta paixão que torna o futebol tão encantador; segundo, porque o público nem sempre faz a devida distinção entre comentaristas pagos somente para dar opinião e jornalistas remunerados para cobrir os fatos.PUBLICADO EM ZERO HORA
(12 de fevereiro de 2016)
O GRÊMIO E OS PRIVILÉGIOS DA PAIXÃO
Com o Grêmio prestes a estrear em
mais uma Libertadores, as lembranças retornam, os jogos via radinho a pilha, TV
com Bombrill na antena, depois equipamentos cada vez melhores, no Olímpico e na
Arena. Fragmentos a embalar o sonho maior que, uma vez provado, em 1983, e reprisado
em 1995, tornou-se obsessão: conquistar a América mais uma vez.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
REPORTAGEM DE CAPA
NÃO É PELOS 20 CENTAVOS
Atentado
terrorista em Paris expôs uma realidade amarga: a liberdade de expressão está
longe de ser unanimidade, mesmo no mundo ocidental
Tão logo se espalhou a notícia do ataque
terrorista contra o jornal satírico Charlie Hebdo, milhões de pessoas em todo o
mundo começaram a atualizar sua foto de perfil nas redes sociais com um banner
de fundo preto e a expressão “je suis Charlie” em letras brancas, um PDF criado
pela própria publicação e postado em seu site logo depois do massacre. O que
parecia se tratar de um posicionamento indiscutível diante do horror acabou por
gerar uma polêmica com a aparição de milhares dispostos a afirmar “eu não sou
Charlie”. Em comum, um
inquietante “sou contra o terrorismo, mas...”. Trata-se de nova adaptação do
clássico caso de culpar a vítima, que, em sua versão mais popular, atribui à
mulher a responsabilidade por ter sido estuprada, afinal, quem mandou usar
roupas curtas, justas ou transparentes? Da mesma forma se poderia apontar o
dedo para o cidadão assaltado e dizer: “Quem mandou andar na rua à noite?”. As
variáveis são infinitas. No caso, quem mandou aquelas chargistas abusados
debocharem de um símbolo do islamismo?
Há várias leituras fundamentais a se
fazer a partir da contenda virtual que se instalou em torno da frase. Para
começo de conversa, como ocorre o tempo todo na internet, muita gente comenta
sobre coisas que não conhece, ou, quando conhece, o faz de modo precipitado, na
ânsia de não perder a onda. Seguramente, 99% das pessoas que adotaram o “je
suis Charlie”, muito antes e além de apoiar integralmente o conteúdo do jornal,
estavam dizendo que “sim, somos todos Charlie na medida em que qualquer ato de
barbárie atinge a todos nós, cidadãos civilizados”. A exemplo do que foi
registrado nas manifestações que sacudiram o Brasil em meados de 2013, “não é
pelos 20 centavos” – alguns dizem que, no fundo era, pois Dilma Rousseff se
reelegeu, mas esta é outra questão.
Muitos sequer faziam ideia de que o
Charlie Hebdo existia, pois seu conteúdo era o que menos importava, e sim seu
direito de publicá-lo. Na trincheira oposta, o desconhecimento sobre o que
criticavam era ainda maior, o que igualmente pouco interessava. Há os que, por
falta de alcance mesmo, não entenderam o significado de se adotar a expressão
“je suis Charlie”. Preocupante é imaginar que outros tantos, quem sabe a
maioria, possa ter entendido.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Você não gosta do “tipo” de humor
praticado pelo pessoal do Charlie Hebdo e acha que, de alguma forma, isso justifica
o atentado? Bem, então espero que você goste do “tipo” de pessoa que eu sou...
Toda
forma de relativização da barbárie tem de ser condenada. São tantos comentários
sobre o massacre na França que nos obrigamos a ser seletivos. Um dos critérios
que utilizo é o de parar de ler imediatamente quando o autor tasca um “mas” já
na segunda frase. Que faça suas considerações ao longo do texto é justo e
normal, mas não assim, direto na segunda frase, pois aí se chega à velha
questão: quem mandou usar saias curtas?
O
método de relativização mais utilizado neste caso é o de lembrar o passado
colonialista da França – e, secundariamente, sua aliança secular com os EUA, o “grande
satã” imperialista. O país estaria pagando por seu passado de exploração e
opressão. Nada mais justo, é o que parece quererem dizer estas pessoas. Como resumiu
Gandhi, “olho por olho e o mundo acabará cego”, a civilização simplesmente
deixará de existir, voltaremos ao estado primal.
Relativizar
é, como diz a palavra, tornar relativo, tirar o caráter absoluto de algo, como
se fosse possível considerar discutível um atentado terrorista, seja de quem
for, seja onde for, seja contra quem for. Terrorismo é a volta à barbárie, é a
negação da civilização, é repulsivo, é nojento. Quem acha que “não é bem assim”
não tem cura, não adianta tentar discutir.
Uma
segunda forma de relativização bastante usada é a que abre este texto, a que
questiona a qualidade e o foco, o “tipo” de humor da publicação. O mundo seria
mais simples – e mais civilizado – se as pessoas, em grande parte, entendessem
que não são o centro do universo, que suas opiniões não são melhores do que as
de ninguém, que suas crenças religiosas, seus hábitos alimentares, sua
orientação sexual, enfim, que seu modo de vida não é melhor, nem pior – a menos
que se trate, por exemplo, de um terrorista – do que o de ninguém, e por isso
todos precisam exercitar a tolerância.
Há alguns
anos tornei-me vegetariano, muitos sabem, outros não, pois não fico fazendo
pregação, apenas vivo como quero. Entretanto, volta e meia escuto algo do tipo “deixe
de bobagem, o homem sempre foi carnívoro desde a pré-história”. Nem perco tempo
explicando para a pré-histórica mente que a humanidade evoluiu um tantinho desde
então, e que, entre outras coisas, desenvolveu a agricultura, o que lhe propiciou
não ter mais de caçar mamutes para não morrer de fome. E, se a questão é manter
a tradição, agir como o homem primitivo, por que não ir morar em uma caverna?
Ou quem sabe bater com uma clava na cabeça de uma mulher e arrastá-la à força
para seu leito?
Citei
este exemplo para ilustrar alguns pontos: primeiro, a dificuldade que as
pessoas têm em respeitar as diferenças, por menores que sejam – afinal,
acompanho os amigos em todo o restante do bufê, nas bebidas e nas sobremesas,
só abro mão da carne; segundo, como a grande maioria considera a sua verdade
como sendo a única. Isso leva à intolerância, que leva ao radicalismo, que leva
à predisposição para a violência extrema, que leva à barbárie.
Estou
entre os milhões de pessoas em todo o mundo a adotar a frase “Je suis Charlie”
como imagem do perfil nas redes sociais. Parece-me tão clara a mensagem, mas
nem isso é. Já li postagens dizendo que, embora o terrorismo seja condenável, “não
sou Charlie”. Acho que este povo não entendeu. Nem todos que adotaram a frase
lêem, apreciam ou aprovam integralmente o material publicado pela Charlie Hebdo.
Muitos, entre os quais me incluo, consideram que em várias ocasiões sim, o
humor da revista é de mau gosto, e humor de mau gosto não tem graça, com o
perdão pelo trocadilho. Mas este não é o ponto. Quem adotou o slogan quis dizer
“apenas” – e sinto-me meio tolo ao escrever isso, pois me parece tão óbvio – que
atos de barbárie atingem a todos nos, cidadãos civilizados, defensores,
portanto, da vida, da paz, da tolerância, da liberdade, do amor, do convívio
entre diferentes, da total liberdade de expressão, sim, total, pois liberdade é
algo que não pode ser relativo, não pode ter “mas”. Somos todos vítimas da
barbárie, somos todos Charlie Hebdo.
Voltemos
ao ponto da relativização da brutalidade como resposta ao passado colonialista
francês. Estou enganado ou quem defende este argumento no fundo está querendo
dizer – e só não o diz claramente para manter sua pretensa aura de correção política
– que os povos que um dia foram dominados, espoliados ou vilipendiados de
alguma forma têm o direito de se vingar do modo como bem entenderem, mesmo que
seja na base de AK-47 x lapiseira? Ao menos é o que me parece. E afirmar isso não
significa atribuir o massacre a um povo, a uma etnia, a uma religião? Então,
como podem os mesmos que pensam assim apelarem, de modo tão pungente, para que
não se generalize, pois são fatos isolados perpetrados por indivíduos, e não
atos coletivos de um grupo étnico-religioso em especial?
Bom, ainda
que pequem pela incoerência das posições, ao menos na segunda parte eles têm
razão. De fato, o radicalismo, a violência, o terror são atos de pessoas ou
grupos isolados, nunca de todo um povo, ou de todos os seguidores de uma
religião, embora seja inegável que o extremismo tem sido levado a cabo por quem
se professa de determinada crença, mesmo que suas mentes criminosas distorçam
totalmente os preceitos originais desta fé, conforme atesta a imensa maioria dos
1,5 bilhão de muçulmanos que vivem em paz, distantes do ódio e da violência. O
que tem de haver, cada vez mais, é uma reação proporcional desta maioria contra
o que praticam atos assim supostamente em nome dela. Felizmente, tal movimento
começar a tomar corpo.
Inegável
é que terroristas são pessoas com sérios problemas mentais. Seres normais não
fazem o que eles fazem, falar isso é chover no molhado. Trata-se de psicopatas,
quanto a isso creio não haver discussão. Construir uma cultura de amor à vida é
o desafio que as sociedades perseguem há séculos. É decididamente incerto se um
dia o ser humano logrará êxito em tal empreitada. Por mais que a sociedade
evolua, por mais que os bons se levantem contra os maus, por mais que se pregue
a paz e a bondade, ainda assim uma questão primordial permanecerá: como
desalojar o mal que se esconde no coração de tantos homens? Como evitar o
surgimento de psicopatas?
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
GRANDES NOMES
Ben Bradlee, o editor por excelência
Ben Bradlee, o editor por excelência
A galeria dos grandes nomes do jornalismo costuma destinar os espaços mais nobres a homens que converteram reportagem em arte. O culto ao texto Frank Sinatra Está Resfriado, por exemplo, celebra, merecidamente, o genial Gay Talese, mas revela-se injusto ao relegar a uma quase obscuridade Harold Hayes, editor da Esquire que o escalou para a empreitada, bancou os altos custos, teve paciência para esperar e aceitar seus métodos e por fim publicou o perfil com todas as honras. O mesmo se dá em relação a Hiroshima, obra inaugural do new journalism, que elevou ao panteão dos mestres do ofício, com toda honra e justiça, o autor, John Hersey, mas não concedeu o reconhecimento devido ao editores Harold Ross e William Shawn, que dedicaram uma edição inteira da New Yorker àquele trabalho esplendoroso.A cobertura do Caso Wategate consagrou mundialmente os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, história contada no livro Todos os Homens do Presidente, de autoria deles, e que deu origem ao filme homônimo (leia mais na reportagem de capa desta edição). Neste caso, felizmente, o editor não foi esquecido. Ainda que seu nome não soe tão popular para quem não é do ramo, Ben Bradlee obteve o devido reconhecimento.
A última homenagem ocorreu no ano passado, quando ele recebeu a medalha da liberdade das mãos do presidente Barack Obama, na Casa Branca, com direito a discursos emocionados de Bernstein e Woodward. Bradlee morreu em 21 de outubro último em Washington, aos 93 anos. Em nota oficial, Obama declarou: “Para Benjamin Bradlee, o jornalismo foi mais que uma profissão. Era um bem público e vital para a democracia. Bradlee transformou o Washington Post em um dos melhores jornais do país (...) e contou histórias que precisavam ser contadas”.
Nascido em Boston, Estado de Massachusetts, em 26 de agosto de 1921, Benjamin Crowninshield Bradlee ingressou no Washington Post, que viria a se tornar um dos jornais mais importantes dos Estados Unidos – e do mundo – somente aos 44 anos, em 1965. Se fosse no Brasil, possivelmente seria tarde demais para começar uma nova trajetória e assumir papel de relevo na história. Aqui, jornalistas nesta idade se encaminham rapidamente para a condição de velhos que devem ser descartados para dar lugar às novas gerações, mas, nos EUA, onde talvez os executivos da mídia não sejam tão inteligentes quanto os daqui, é uma idade em que os profissionais estão apenas começando sua escalada rumo a postos de chefia nas redações. Assim, Bradlee, que começara como jornaleiro em sua cidade natal, permaneceu no Post por 26 anos, até os 70 de idade, na condição de editor executivo. Aposentou-se em 1991. Enquanto esteve lá, o Post conquistou 17 prêmios Pulitzer, o Oscar do jornalismo.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O cemitério de crianças
Há uma fábula que é mais ou menos como vou contar.
Preservei a ideia, mas criei meu próprio roteiro:
Certa vez, um peregrino cansado das muitas andanças
chegou a um lugarejo que, à distância, pareceu-lhe aprazível, acolhedor. Certo
de que encontraria ali repouso e alimento, já ia apressar o passo quando viu, próximo
da estradinha de chão, um cemitério tão bem cuidado quanto lhe parecera a vila
adiante. Mais do que isso, parecia mesmo bonito, se é possível ver beleza num
lugar ligado à morte, pegou-se pensando o viajante. Algo naquele local o atraía,
ele não resistiu e caminhou até lá.
De perto a sensação
de ordem e capricho era ainda mais forte. As lápides todas branquinhas, limpas
e bem cuidadas, flores viçosas ao pé de cada uma delas, tudo muito perfeito e
estranhamente belo. Foi então que estacou defronte uma delas, chocado diante
de algo tão evidente, mas que ele levara vários minutos para perceber. As lápides
tinham o nome e a idade de cada pessoa enterrada ali. Roberto, 7 anos. Paula, 5
anos. Camila, 6 anos. Elias, 9 anos. Pedro, 4 anos. Rosa, 8 anos. E assim por
diante. O andarilho sentiu-se um pouco tonto, tendo de se escorar na lápide de
Joana, 5 anos.
O que teria
acontecido? Uma praga, talvez, uma doença contagiosa que atacara
especialmente crianças? Ou seria a verdade ainda mais chocante? Um assassino
psicopata? Um grave acidente natural? Não, estas duas últimas hipóteses teriam
de ser descartadas, pois, só agora percebia, havia centenas de túmulos, e
todos de crianças. Seria uma prática local enterrar os inocentes em lugar
diferente do destinado aos adultos? Um ideia terrível gelou-lhe os ossos: e se o povo dali matasse as crianças em alguma espécie de
sacrifício macabro? Ele logo tratou de afastar essa ideia. Não, seria
doentio demais e, afinal de contas, a cidade parecia tão acolhedora, e o
próprio cemitério tão bem cuidado que isso não faria o menor sentido. A fome e
o cansaço começavam a afetar suas ideias, pensou.
O viajante saiu de seu
devaneio ao perceber a aproximação de um homem já em idade avançada que acabara
de depositar flores no túmulo de Vanessa, 6 anos. Poucos segundos de temor foram
sucedidos por um instante de alívio ao perceber no semblante vincado daquele
homem um sorriso que só poderia ser de bondade. Refeito do susto, respondeu ao
aceno do homem, encheu-se de coragem e perguntou:
– Por que só tem
crianças neste cemitério? Alguma epidemia? Um desastre natural? Ou vocês
enterram as crianças em local separado dos adultos? O que está acontecendo
aqui?
O homem não pareceu
surpreso com sua perplexidade, como se esperasse por uma pergunta assim. Com
voz calma e paciente, começou a falar:
– Aqui, quando
nascemos, ganhamos de nossos pais uma espécie de caderneta na qual, tão logo
crescemos o bastante para termos consciência das coisas, passamos a anotar cada
momento memorável de nossas vidas, e quanto tempo ele durou. O primeiro dia de
escola, o primeiro beijo, a formatura, a vitória na gincana, a medalha de honra
ao mérito, o primeiro emprego, o nascimento dos filhos, os encontros com os
amigos, as conversas com os pais ao redor do fogo nas noites de inverno, uma
noite de amor, anotamos tudo de que vale a pena nos lembrarmos. E assim
fazemos por toda nossa vida. Pode ser algo grande, como a compra de uma casa
ou a viagem dos sonhos, mas pode ser algo singelo e precioso, como um abraço
bem sentido, ou a mera troca de olhares com uma pessoa muito especial. Fica
tudo registrado na caderneta, o momento e quanto tempo durou. Quando morremos,
esse tempo é somado e então é determinada nossa verdadeira idade, a soma dos
momentos memoráveis, o tempo que realmente vivemos, e não apenas sobrevivemos
neste mundo.
O viajante não sabia
o que dizer, baixara os olhos para a lápide de José, 4 anos, e começara a
chorar. O homem perguntou-lhe então?
– Quanto tempo você
viveu?
Ele virou-se para
responder, mas já não havia ninguém ali.
ESCRIBAS E BOLEIROS
Jornalistas, escritores, enfim, quem não trabalha, só escreve, tem algo em comum com jogador de futebol, que também não trabalha, só joga. Quem ganha a vida jogando futebol se queixa da rotina dura de treinos e jogos mas, quando está de folga ou em férias, corre para bater uma bolinha com os amigos. Quem ganha a vida escrevendo se queixa da dura rotina de escrever feito doido para garantir o sustento mas, quando tem alguns minutos de folga faz o que para relaxar? Escreve.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
34 ANOS SEM TRABALHAR
Em 14 de novembro de 1980 eu comecei como revisor do jornal Zero Hora. Embora ainda não fosse na redação e ainda cursasse jornalismo na Famecos/PUC, considero a data o início de minha carreira. Obrigado a todos com quem tenho convivido nesta jornada. Não vou me estender no comentário, deixarei textos maiores e comemorações para 2015, quando fecha data redonda. Por enquanto, são apenas 34 anos durante os quais eu não trabalhei, só escrevi.
ALL YOU NEED IS LOVE
Desradicalize-se! Distensione-se. Permita-se.
Odeie menos! Ame mais!
A vida é curta, é uma só e passa rápido.
Todos queremos salvar o mundo, Ok, mas no fundo, no fundo mesmo, só queremos experimentar a força de um grande amor. Aquele único, sabe?
E que pareça piegas, pois sempre parecerá quando for dos outros.
E que pareça divino, pois sempre será divino quando nos tocar.
E abençoados os que o vivenciarem.
Discursamos demais, brigamos demais, quando, às vezes, tudo que queremos é aquele abraço, sabe? Aquele!
Os Beatles pareciam querer transgredir tudo, mas, mesmo assim, cantavam:
All You Need is Love!
Laralaiá!
Afinal, não há transgressão maior do que o amor.
Aquele, sabe?
Odeie menos! Ame mais!
A vida é curta, é uma só e passa rápido.
Todos queremos salvar o mundo, Ok, mas no fundo, no fundo mesmo, só queremos experimentar a força de um grande amor. Aquele único, sabe?
E que pareça piegas, pois sempre parecerá quando for dos outros.
E que pareça divino, pois sempre será divino quando nos tocar.
E abençoados os que o vivenciarem.
Discursamos demais, brigamos demais, quando, às vezes, tudo que queremos é aquele abraço, sabe? Aquele!
Os Beatles pareciam querer transgredir tudo, mas, mesmo assim, cantavam:
All You Need is Love!
Laralaiá!
Afinal, não há transgressão maior do que o amor.
Aquele, sabe?
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
CARTA DE GRAMADO
Em 2009, um grupo de voluntários de diversas áreas constituiu o Fórum Saúde Mulher, do qual orgulhosamente faço parte. Na ocasião, elaboramos um documento que se tornou conhecido como Carta de Gramado, com proposições objetivas e viáveis para melhorar o atendimento às pacientes com câncer de mama em questões como o acesso ao diagnóstico precoce e preciso por meio de mamografias de qualidade, o tratamento num prazo mínimo a partir do diagnóstico e o direito à reconstrução mamária no mesmo procedimento da retirada, entre outros aspectos.
Por iniciativa e com coordenação de José Luiz Pedrini, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Conceição, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia e, na ocasião, presidente do Congresso Brasileiro da especialidade, realizado na serra gaúcha, o documento foi lançado no âmbito do congresso e incluiu caminhada pelas ruas de Gramado, além do lançamento do livro Uma História da Mama, escrito e editado em sistema de co-criação por ele e por mim, e primeiro título de meu próprio selo editorial.
As recomendações da Carta de Gramado foram adotadas como políticas de saúde pública pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e pelo Ministério da Saúde.
Neste 31 de outubro, no fechamento do Outubro Rosa, foi realizado um encontro do Fórum na sede da Associação Médica do RS (AMRIGS) a fim de avaliar os avanços da Carta e propor novos desafios. Por todas as razões acima, sinto-mo feliz por fazer parte desta iniciativa, pela companhia dos parceiros, em especial das queridíssimas do Grupo da Mama do Hospital Conceição, e do Pedrini, mastologista da maior qualidade e um de meus melhores amigos.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
GRANDES
NOMES
Washington Olivetto: este a gente nunca
esquece
A
primeira reação de encantamento se deu não à frente de uma TV, mas ainda na
sala de edição da agência de propaganda W/GGK, junto à moviola, e não
partiu de um espectador, mas do próprio criador. Ao encerrar a pós-produção de
um comercial para a Valisère, em meados de 1987, o publicitário Washington
Olivetto virou-se para o diretor Júlio Xavier da Silveira e profetizou: “Olha,
Julinho, esse talvez seja um dos melhores filmes que a publicidade brasileira
já conseguiu fazer”.
A segunda reação de encantamento se deu na sala da
vice-presidência de Operações da Rede Globo. Ao terminar de assistir ao
comercial da Valisère, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, concordou
em aceitar, pela primeira vez, uma peça de 90 segundos – em vez dos 30 ou 60
segundos convencionais – no intervalo do Jornal Nacional, que, também pela primeira vez, exibiria um
único comercial durante um de seus intervalos. Diante do pedido inusitado da
agência, o departamento comercial vira por bem não tomar sozinho tal decisão e
a levara ao homem mais poderoso da companhia, depois do próprio Roberto
Marinho.
Nascido em 29 de setembro de 1951 – Dia de São Miguel Arcanjo, o “anjo anunciador”, celebrado mundialmente como Dia do Anunciante – , o paulistano Washington Olivetto começou a carreira como estagiário da Harding Gimenez Propaganda (HGP), aos 18 anos de idade. A vaga foi obtida graças a um lance ousado: Olivetto estava a caminho da faculdade – que não chegou a concluir – quando o pneu de seu Karmann-Ghia furou bem em frente à sede da HGP. Ele não titubeou, entrou na agência e pediu emprego com uma frase que revelava tremenda autoconfiança: “Estou aqui por causa do pneu furado e isso é uma grande oportunidade para você, porque o pneu não fura duas vezes na mesma rua”.
Depois de passar pela Lince e pela
Casabranca, tendo ganhado seu primeiro Leão de Bronze do Festival de Cannes aos
20 anos, chegou à DPZ, onde permaneceria por 13 anos. Ali, fez dupla de criação
com o lendário Francesc Petit, parceria que rendeu, entre outros trabalhos, a
criação do personagem que celebrizou o ator Carlos Moreno como
garoto-propaganda da Bombril. Em 1986, aos 35 anos, saiu da DPZ para montar seu
próprio negócio, a W/GGK, que três anos mais tarde viraria W/Brasil e,
atualmente, é WMcCann.
Portanto, apenas um ano depois de se
aventurar a conduzir a agência própria, Olivetto emplacou o comercial da
Valisère, que conquistou naquela temporada o Leão de Ouro do Festival de
Cannes, o Clio de Nova York, o Festival Ibero-Americano de Publicidade e foi
considerado pela Tokyo Television Network o melhor comercial do mundo. No
Brasil também levou todas as premiações possíveis, sendo que no ano seguinte
ganhou o Profissionais do Ano e foi veiculado outra vez pela Globo, agora de
graça (o vídeo está disponível no YouTube). Possivelmente, se fosse produzido
hoje, em tempos chatesimamente corretos, o comercial fosse vetado por conter
cenas de relativa sensualidade envolvendo uma menina de 11 anos, e Olivetto
acusado de pedofilia. Assim teríamos sido privados desta obra-prima da
publicidade.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
GRANDES NOMES
Tom Wolfe, radicalmente chique e afiado
Tom Wolfe, radicalmente chique e afiado
Embora esteja longe de
ser a maior virtude de quem se dedica à literatura, ao jornalismo, à propaganda
ou às artes – ou mesmo à política –, um grande talento também se define pela
capacidade de cunhar ou consagrar expressões que ingressam definitivamente no
imaginário e no vocabulário cotidiano de milhões de pessoas. O escritor
americano Tom Wolfe, um dos ícones do new journalism, ou jornalismo literário, como alguns preferem, celebrizou ao menos duas
expressões: “fogueira das vaidades” e “radical chique”. De fato, o termo
“fogueira das vaidades” não é criação de Wolfe, tem origens que remontam ao
Carnaval de 1497 em Florença, na Itália, quando os fanáticos seguidores do
padre Girolamo Savonarola (retratado em A Regra de Quatro, de Ian Caldwell), queimaram milhares de
objetos como livros, obras de arte, mesas de jogos, espelhos, pelas de
vestuário e artigos de toucador, todos supostamente objetos de vaidade e,
portanto, pecaminosos. Até livros de Bocaccio e Ovídio e quadros de Boticelli
teriam ardido nas purificantes chamas.
Mas foi Tom Wolfe quem
resgatou o termo e ajustou como metáfora de uma sociedade de consumo permeada
de disputas de ego e de extremo apreço pelas aparências. A partir de seu
romance homônimo, publicado em 1987, e levado às telas três anos depois por
Brian de Palma com Tom Hanks e Bruce Willis – o que não livrou o diretor de pesadas
críticas na fogueira das vaidades de Hollywood –, a expressão ganhou o mundo e
vem sendo proferida milhares de vezes por dia até hoje.
Já “radical chique” foi
criado mesmo por Wolfe em ensaio publicado em 1970 para ironizar a pretensão, a
afetação, a hipocrisia e o modismo de celebridades e integrantes das altas
rodas que assumiam posturas pretensamente radicais. Atualmente, no Brasil,
usa-se também uma expressão similar, a “esquerda caviar”.
Thomas Kennerly Wolfe nasceu em 2 de março de 1931 em uma
família abastada de Richmond, no Estado americano da Virginia. Seu pai, também
chamado Thomas, embora fosse Ph.D em agronomia, professor universitário e
fazendeiro, atuou também como jornalista e escritor. A mãe, Helen, além de
incentivá-lo a ler desde cedo, matriculou-o em aulas de balé e sapateado. Desde
cedo, portanto, seu destino estava traçado. Começou a escrever ainda criança.
Foi editor de esportes do jornal da faculdade, quando fazia graduação na
Washington and Lee – recusara a prestigiada Princeton –, onde também ajudou a
fundar uma revista literária e jogava beisebol, tendo chegado a fazer testes como
arremessador no New York Giants, mas foi considerado lento e dispensado. Depois
de cumprir doutorado em Estudos Americanos na Universidade de Yale, poderia ter
seguido carreira acadêmica, mas, felizmente para os leitores, optou pelo
jornalismo. Começou no Springfield Union,
passou pelo Washington Post e depois
foi para o New York Herald Tribune.
O ponto de inflexão na carreira de Wolfe ocorreu em 1963.
Estando os jornais de Nova York em greve, ele aproveitou para sugerir à Esquire uma pauta sobre a moda dos
carros customizados então em voga na Califórnia. Byron Dobell, editor da
revista, propôs que ele enviasse suas anotações para que trabalhassem juntos na
produção de um artigo. Wolfe escreveu uma carta para Dobell falando tudo que
queria dizer a respeito, sem se preocupar em fazer um texto jornalístico. O
editor simplesmente cortou a saudação “Caro sr. Byron” e publicou o texto na
íntegra em 1964.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Respeitemo-nos!
Só não é chocante o desrespeito a grassar nas ruas, botecos
e timelines nesta campanha eleitoral porque o tempo nos ensina a não esperar
muito das pessoas. Como diz aquela frase magistral, cuja autoria desconheço,
mas que ouvi pela primeira vez da amiga Françoise Techio, o ser humano é o pior
tipo de gente. Mas eu não quero falar de política aqui, não é o caso, tampouco
a paciência permite no momento. Quero falar de coisas, digamos, comezinhas.
Quem me acompanha com alguma atenção nas redes sociais
– sei lá por que alguém o faria – sabe o quanto, a despeito de ser rude
ocasionalmente – às vezes é conveniente manter a fama de mau –, jamais posei de
árbitro da moral alheia, mediador de gostos ou opiniões e, muito menos, julguei
alguém por suas opções ou orientações. Sempre fui assim na vida, e redes
sociais são que nem bebida alcoólica, somente dão vazão ao que no fundo sempre
se quis dizer ou fazer, são supostas justificativas para palavras e atitudes
que olho no olho, e sóbrios, jamais assumiríamos. Orgulho-me de poder afirmar
que nunca fiz ou falei algo que tivesse de desdizer no dia seguinte usando o
manjadíssimo pretexto do “eu havia bebido”. Não por não beber, mas por saber
administrar. Sim, eu havia bebido, mas fi-lo porque qui-lo, como diria o
tresloucado Jânio Quadros.
Custa-me, portanto, aceitar qualquer forma de
bullying, declarado ou disfarçado de outra coisa socialmente mais aceitável.
Por exemplo: há cerca de um ano e meio, talvez menos, tornei-me vegetariano, opção
motivada por variadas razões. Apenas mudei meus hábitos alimentares, não tentei
doutrinar ninguém, muito menos passei a dar discursos desagradáveis diante de
apreciadores de picanha malpassada. Tenho opiniões firmes a respeito disso,
como costumo ter a respeito de tudo, apenas não as saio declarando aos berros.
Justo seria esperar que, ao menos, deixassem-me em paz com minha opção, certo?
Errado. Há quem não possa perder uma mísera oportunidade. Seja pela necessidade
patológica de tentar ser engraçado sempre – o que nem o psicopata Coringa, do
Batman, consegue –, seja por arrogância mesmo.
Dizem que três coisas não se devem discutir: futebol,
política e religião. ” (Leia a continuação clicando no link abaixo).
O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA
Esta palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie foi realizada em 2009 em Oxford, no Reino Unido (publiquei aqui no blog em 2010), mas sempre vale a pena rever e refletir sobre os riscos de se relativizar - por ingenuidade ou cinismo - a história, as culturas e as gentes ao se enxergar o mundo a partir de uma única visão, de relatos de um único campo, por definição, parciais, por óbvio, humanamente contaminados, estereotipados e imprecisos. Serve para tudo, em qualquer tempo ou lugar.
Esta palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie foi realizada em 2009 em Oxford, no Reino Unido (publiquei aqui no blog em 2010), mas sempre vale a pena rever e refletir sobre os riscos de se relativizar - por ingenuidade ou cinismo - a história, as culturas e as gentes ao se enxergar o mundo a partir de uma única visão, de relatos de um único campo, por definição, parciais, por óbvio, humanamente contaminados, estereotipados e imprecisos. Serve para tudo, em qualquer tempo ou lugar.
NEURÓTICOS AO MAR
Eu trocara de carro havia cerca de um ano quando o emprestei para um colega de trabalho resolver algum problema rápido. Ele retornou em menos de meia hora, devolveu-me as chaves e os documentos e disse: "Você sabia que a buzina não está funcionando?" Eu o cumprimentei por descobrir tão rapidamente algo que eu não percebera em tanto tempo. Sempre lembro disso quando os motoristas começam a descarregar suas frustrações e neuroses na buzina, por certo esperançosos de que isso abra o mar de carros à sua frente tal qual Moisés diante do Mar Vermelho.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
David Ogilvy, o Rei da Madison
Em
memorando datado de 7 de setembro de 1982, David Ogilvy listou para seus
colaboradores dez regras básicas da boa escrita:
David Ogilvy, o Rei da Madison
Em
memorando datado de 7 de setembro de 1982, David Ogilvy listou para seus
colaboradores dez regras básicas da boa escrita:
“Quanto
melhor você escrever, mais subirá na Ogilvy & Mather. Pessoas que pensam
bem, escrevem bem. Pessoas confusas escrevem memorandos, cartas e discursos
confusos.
Escrever
bem não é um dom natural. Tem de se aprender a escrever bem. Aqui estão 10
pistas:
1.
Leia o livro sobre escrita de Roman e Raphaelson. Leia três vezes. (a versão
mais recente é mais fácil de encontrar e mais barata).
2.
Escreva do jeito que você fala. Naturalmente.
3.
Use palavras curtas, frases curtas e parágrafos curtos.
4.
Nunca use jargões como reconceitualizar ou desmassificar. São características
de um burro pretensioso.
5.
Nunca escreva mais do que duas páginas sobre qualquer assunto.
6.
Verifique suas citações.
7.
Nunca envie uma carta ou memorando no dia em que os escrever. Leia-os em voz
alta na manhã seguinte – e edite-os.
8.
Se é algo importante, peça a um colega para melhorá-lo.
9.
Antes de enviar sua carta ou memorando, certifique-se de que está bem claro o
que você quer que o destinatário faça.
10.
Se você quer ação, não escreva. Vá e diga diretamente à pessoa o que você quer.
David.”
David
MacKenzie Ogilvy percorria rotineiramente as ruas de Nova York rumo à Madison
Avenue com o justo orgulho dos homens que ajudam a definir sua época. O porte
altivo, as vestes de impecável elegância, o indefectível cachimbo e o semblante
revelador das raízes britânicas compunham um personagem no qual cabia sob
medida o apelido de Rei da Madison, morada das maiores agências de publicidade
do mundo. Ainda não sabia que entraria para a história como “o pai da
propaganda”, mas o que já conquistara não era pouca coisa, e isso ele sabia muito
bem.
Reza a lenda que certa vez, ao caminhar
pela Madison, deparou-se com um pedinte de cujo pescoço pendia uma placa com a
sintética afirmação: “Eu sou cego”. Ao lado do desafortunado cidadão jazia um
copo destinado a acolher eventuais esmolas, o qual estava vazio. Ogilvy retirou
a placa do pescoço do surpreso mendicante, acrescentou algo à inscrição e a
recolocou no lugar. Mesmo sem entender o que se passava, o cego logo começou a
ouvir o incessante tilintar das moedas. Quando passou de volta por ali, ao
final de expediente, Ogilvy abriu um largo sorriso ao observar que o copo agora
se encontrava cheio de donativos, por certo fruto do apelo que ele agregara ao
cartaz: “É primavera e eu sou cego.”
O gesto viria a ser emulado por gerações
de publicitários decididos a doar instantes de sua criatividade e capacidade de
comunicação para pequenas grandes causas cotidianas. Ainda hoje, e agora com
direito a postagens no YouTube e nas redes sociais, a prática persiste. Ditar
comportamentos, estabelecer parâmetros, inspirar atitudes são prerrogativas de
poucos, sobretudo em um universo tão competitivo quanto o das grandes agências.
É legítimo dizer que depois dele o modo de se fazer propaganda nunca mais foi o
mesmo.
Nascido em West
Horsley, um vilarejo semi-rural localizado no distrito de Guildford, no coração
da Inglaterra, e que ainda hoje contabiliza menos de três mil almas, David veio
ao mundo em 23 de junho de 1911, por insondável coincidência nos mesmos dia e
mês em que haviam nascido seu pai e seu avô. Depois de estudar em Edimburgo, na
Escócia, e na inglesa Oxford, sem ter concluído um curso superior, conseguiu
seu primeiro emprego em Paris, como cozinheiro do Hotel Majestic. De volta à
Inglaterra, tornou-se vendedor de fogões da Aga Cookers. Além de alcançar um
desempenho extraordinário na função, mostrou seu lado inquieto e criativo ao
redigir, em 1935, um guia de vendas que a revista Fortune classificou como “possivelmente o melhor manual de vendas
já escrito.” (Leia a continuação clicando no link abaixo).
sábado, 27 de setembro de 2014
GRANDES NOMES
Norman Mailer, o best-seller provocador
Primeiro, leiam o início de Os Nus e os Mortos:
“Lá dentro o ar está impregnado de vapor. Mesmo agora alguém está utilizando o único chuveiro de água doce, o qual vem sendo disputado desde o embarque das tropas. O soldado passa pelos jogos de dados nos chuveiros de água salgada, que ninguém usa, e acocora-se nas tábuas úmidas e rachadas da latrina. Não trouxe cigarros e fila de um sujeito sentado ali perto. Enquanto fuma, observa o piso negro molhado, coberto de guimbas, e ouve a água correr na caixa da privada.”
Norman Kingsley Mailer nasceu em Long
Branch, Nova Jersey, em 31 de Janeiro de 1923, e morreu em Nova York em 10 de
novembro de 2007, aos 84 anos. Filho de imigrantes judeus de classe média, aos
16 anos ingressou na faculdade de engenharia aeronáutica em Harvard, curso ao
qual daria seguimento na Sorbonne, em Paris. A despeito de cursar um ofício
técnico em duas das maiores universidades do mundo, antes de se graduar
combateu na Segunda Guerra em fronts nas Filipinas e no Japão. A acurada
percepção do que ocorria à sua volta, a sensibilidade para perceber seus tons e
meio-tons e o talento inato para a arte de contar histórias o levaram a
escrever Os Nus e os Mortos, cuja
aclamação, aliada à confessada paixão, fez o mundo perder um engenheiro, quem
sabe brilhante, e ganhar um nome de primeiríssima linha não apenas no
jornalismo e na literatura, mas na cultura pop americana de modo mais
abrangente.
Norman Mailer, o best-seller provocador
Primeiro, leiam o início de Os Nus e os Mortos:
“Ninguém podia dormir. Quando amanhecesse, as embarcações de assalto
seriam
lançadas ao mar, e uma primeira vaga de soldados transporia a
rebentação e atacaria a praia de Anopopei. No navio, no comboio
inteiro, predominava a certeza de que dentro de
poucas horas alguns deles estariam mortos.
“Um soldado estendido ao comprido no beliche, os olhos fechados, continua
inteiramente desperto. Em torno de si, como o sussurro da rebentação, escuta os
murmúrios dos homens em seus cochilos intermitentes. – Não farei, não farei –
grita alguém no meio de um sonho. O soldado abre os olhos. Esquadrinha
lentamente o porão e seu olhar se perde no emaranhado das marcas, dos corpos
nus e do equipamento bamboleante. Conclui que precisa ir à latrina. Praguejando,
contorce-se todo até conseguir sentar-se, as pernas penduradas para fora
do beliche, e apóia as costas arqueadas no cano de ferro da maça de cima.
Suspira, apanha os sapatos que amarrou a um pilar e calça-os vagarosamente. Seu
beliche é o quarto numa fila de cinco. Desce inseguro na semi-obscuridade,
receando pisar algum dos companheiros que ocupam as maças de baixo. No soalho,
envereda por um labirinto de sacos e mochilas, tropeça uma vez num fuzil e
avança para a porta do tabique. Atravessa outro alojamento, cujo corredor
também está atravancado, e afinal chega à latrina.
“Lá dentro o ar está impregnado de vapor. Mesmo agora alguém está utilizando o único chuveiro de água doce, o qual vem sendo disputado desde o embarque das tropas. O soldado passa pelos jogos de dados nos chuveiros de água salgada, que ninguém usa, e acocora-se nas tábuas úmidas e rachadas da latrina. Não trouxe cigarros e fila de um sujeito sentado ali perto. Enquanto fuma, observa o piso negro molhado, coberto de guimbas, e ouve a água correr na caixa da privada.”
Com apenas 25 anos de idade, Norman
Mailer publicou, em 1948, Os Nus e os
Mortos (The Naked and the Dead),
um portentoso relato jornalístico tecido a partir de suas experiências na
Segunda Guerra Mundial. A obra tornou-se estrondoso sucesso de público e
crítica, deu início a uma trajetória de sucesso e começou a inscrevê-lo na
galeria dos grandes do new journalism,
ao lado de nomes como Truman Capote, Gay Talese, John Hersey e Tom Wolfe.
Norman Kingsley Mailer nasceu em Long
Branch, Nova Jersey, em 31 de Janeiro de 1923, e morreu em Nova York em 10 de
novembro de 2007, aos 84 anos. Filho de imigrantes judeus de classe média, aos
16 anos ingressou na faculdade de engenharia aeronáutica em Harvard, curso ao
qual daria seguimento na Sorbonne, em Paris. A despeito de cursar um ofício
técnico em duas das maiores universidades do mundo, antes de se graduar
combateu na Segunda Guerra em fronts nas Filipinas e no Japão. A acurada
percepção do que ocorria à sua volta, a sensibilidade para perceber seus tons e
meio-tons e o talento inato para a arte de contar histórias o levaram a
escrever Os Nus e os Mortos, cuja
aclamação, aliada à confessada paixão, fez o mundo perder um engenheiro, quem
sabe brilhante, e ganhar um nome de primeiríssima linha não apenas no
jornalismo e na literatura, mas na cultura pop americana de modo mais
abrangente.
Forjada a partir de uma obra
inaugural extraordinária, equiparada a grandes títulos na literatura de seu
país, a carreira de Mailer como escritor tinha tudo para deslanchar sem passar
por aqueles estágios intermediários de incertezas e fracassos aos quais mesmo
os grandes estão sujeitos. Entretanto, o reconhecimento de seu talento precoce
não lhe garantiu a escalada direto ao topo. Ainda que a fama lhe tenha aberto
muitas portas, inclusive a de roteirista em Hollywood, nos tempos seguintes
acumulou rejeições das editoras e, mesmo o que conseguia publicar, acabava
naufragando.
A lenda em torno de seu nome, no
entanto, continuaria a ser talhada, não apenas no cinema. Embora Hollywood
jamais pudesse ser desprezada – ontem e sempre –, trava-se de uma indústria de
peso no entretenimento global e, de certa forma, e em boa parte de seu escopo,
de viés quase oficialista, quase chapa-branca no cenário da cultura americana,
sobretudo sob o jugo do Macarthismo, naqueles paranóicos anos do auge da Guerra
Fria. De temperamento inquieto e dotado de severa mordacidade, Mailer tornou-se
um polemista respeitado, e temido, por meio de artigos na publicação alternativa
The Village Voice, que ajudou a
fundar, e nos quais tecia críticas tão corrosivas quanto verdadeiras ao establishment da América. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Francesc Petit, o P da DPZ
A Espanha foi palco de um golpe de Estado, em 1923,
liderado pelo general Miguel Primo de Rivera e com as bênçãos do rei Afonso
III. A crise mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York,
ocorrida em 1929, fragilizou os detentores do poder e o rei retirou o apoio ao
ditador. Dois anos mais tarde, com a vitória de socialistas, nacionalistas e
republicanos nas principais cidades, Afonso III foi para o exílio. Os
conservadores voltaram ao poder em 1933 e, em outubro no ano seguinte, eclodiu
uma revolta nas regiões da Catalunha e das Astúrias, em seguida debelada pelo
governo. Em 1935, derrotados nas urnas, os conservadores, apoiados pelo
Exército e pela Igreja, planejaram novo golpe. Começou então a Guerra Civil
Espanhola, que em três anos deixou saldo de 350 mil mortos. O conflito acabou
em 1939 com a vitória dos militares e a instalação de uma ditadura fascista comandada
pelo general Francisco Franco. Com a oposição sufocada, Franco ficou no poder
até sua morte, em 1975, quando o rei Juan Carlos I – que recentemente abdicou
em favor do filho, Felipe VI – tornou-se chefe de Estado. Um parlamento eleito
democraticamente aprovou a nova Constituição e a Espanha passou a ser governada
de fato por um primeiro-ministro. O atual é o conservador Mariano Rajoy.
Francesc Petit, o P da DPZ
A Espanha foi palco de um golpe de Estado, em 1923,
liderado pelo general Miguel Primo de Rivera e com as bênçãos do rei Afonso
III. A crise mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York,
ocorrida em 1929, fragilizou os detentores do poder e o rei retirou o apoio ao
ditador. Dois anos mais tarde, com a vitória de socialistas, nacionalistas e
republicanos nas principais cidades, Afonso III foi para o exílio. Os
conservadores voltaram ao poder em 1933 e, em outubro no ano seguinte, eclodiu
uma revolta nas regiões da Catalunha e das Astúrias, em seguida debelada pelo
governo. Em 1935, derrotados nas urnas, os conservadores, apoiados pelo
Exército e pela Igreja, planejaram novo golpe. Começou então a Guerra Civil
Espanhola, que em três anos deixou saldo de 350 mil mortos. O conflito acabou
em 1939 com a vitória dos militares e a instalação de uma ditadura fascista comandada
pelo general Francisco Franco. Com a oposição sufocada, Franco ficou no poder
até sua morte, em 1975, quando o rei Juan Carlos I – que recentemente abdicou
em favor do filho, Felipe VI – tornou-se chefe de Estado. Um parlamento eleito
democraticamente aprovou a nova Constituição e a Espanha passou a ser governada
de fato por um primeiro-ministro. O atual é o conservador Mariano Rajoy.
Francesc Petit Reig nasceu em
Barcelona, na Catalunha, em 1934, ano da rebelião, e cresceu no contexto da
Guerra Civil Espanhola, que arrasou o país, e, na sequência, da Segunda Guerra
Mundial. Desde cedo começou a aprender o ofício do pai e, aos 10 anos, já o
ajudava em sua pequena serralheria. Eram tempos duros, de miséria quase
absoluta, em que faltavam itens básicos, até mesmo água, para a maioria da
população, e de violentíssima repressão. O pai de Francesc em duas ocasiões
esteve a ponto de ser fuzilado, tendo sido arrastado de casa no meio da noite
na frente da impotente família, enquanto os soldados quebravam tudo dentro da
residência. Ele mesmo, ainda adolescente, voltava para casa com um pão dentro
da mochila quando foi ameaçado de prisão porque acharam que o pão era produto
de roubo ou contrabando.
Passado o conflito
na Europa, em 1946, aos 12 anos, o menino começou a correr de bicicleta, uma
das paixões que o acompanhariam por toda a vida. Acordava às 4h para treinar e
chegou a ser bicampeão catalão e campeão espanhol. Também naquela época passou a
estudar artes. No final da década, a família decidiu procurar novos ares em
busca de oportunidades. Como a mãe do garoto era natural de Honduras, aquele
foi o país escolhido. As passagens já estavam compradas quando um amigo médico,
que viajara ao Brasil para participar de um congresso, jantou na casa deles e
falou muitas coisas boas a respeito de São Paulo. Empolgado com as palavras do
amigo, o pai de Francesc foi à agência de viagens e trocou as passagens: o
destino da família seria o Brasil, onde desembarcaram em 1952. Os pais jamais
haveriam de se adaptar totalmente à nova terra, mas, para o menino, que já
partiu da Espanha tendo se iniciado no ramo da propaganda, foi mais fácil e
definiu seu futuro. Francesc Petit estudara pintura na Escola de Belas-Artes de
Barcelona, entre 1945 a 1951, e no Studio de Joaquim Girbau de arte e
propaganda. Em 1947, trabalhou na Gráfica Secx & Barral como retocador de
fotolito. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
Reflexões de uma madrugada fria
Cândido, uma das obras mais conhecidas de Voltaire, publicada em 1759, tem um personagem chamado Pangloss, para o qual o mundo era perfeito, pois tudo de mal que ocorresse seria apenas parte do caminho rumo a um bem maior. Neste clássico conto filosófico, Voltaire utilizou Pangloss como instrumento de crítica a certo tipo de otimista que vive em um universo fantasioso e se recusa a enxergar a realidade. Mesmo sofrendo com doenças, miséria, sacrifícios de toda sorte, agressão física e emocional, prisão, exílio, até mesmo suplícios, o personagem não deixava de acreditar que tudo se encaminhava do melhor modo possível. Uma espécie de Pollyana em versão radical.
Faça o download gratuito do conto em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf
Cândido, uma das obras mais conhecidas de Voltaire, publicada em 1759, tem um personagem chamado Pangloss, para o qual o mundo era perfeito, pois tudo de mal que ocorresse seria apenas parte do caminho rumo a um bem maior. Neste clássico conto filosófico, Voltaire utilizou Pangloss como instrumento de crítica a certo tipo de otimista que vive em um universo fantasioso e se recusa a enxergar a realidade. Mesmo sofrendo com doenças, miséria, sacrifícios de toda sorte, agressão física e emocional, prisão, exílio, até mesmo suplícios, o personagem não deixava de acreditar que tudo se encaminhava do melhor modo possível. Uma espécie de Pollyana em versão radical.
Faça o download gratuito do conto em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Bill Bernbach, o criador do "pense pequeno"
Vamos voltar um pouco no tempo. Estamos na
Madison Ave., morada das grandes agências de propaganda, em Manhattan, Nova
York, Estados Unidos. Corre o ano de 1959, portanto, uma década e meia depois
da Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria chegando ao ápice. A DDB, sigla
que reúne os nomes de seus fundadores, Doyle, Dane e Bernbach, encontra-se
diante de um desafio e tanto: bolar a campanha de lançamento de um novo carro.
Dito assim, parece até barbada, afinal, estamos no país do automóvel. Então,
vamos complicar este jogo: o veículo é estrangeiro. Pior do que isso, vem da
Alemanha, terra de Adolf Hitler. Aliás, foi criado em 1938 a pedido do próprio
Führer. Mas, como a Segunda Guerra já ficou para trás, a destruição e as mortes
em larga escala ocorreram na Europa e os EUA venceram o conflito, talvez isso
não seja um problema tão grave assim. Vamos complicar mais um pouco: o carro é
feio, de formas ovaladas, pouco potente e, crime imperdoável na terra dos
carrões, é pequeno. Bem, talvez bastasse o apelo do baixo consumo de
combustível, da economia de dólares e dos recursos naturais do planeta. Em
1959? Agora que já entendemos o contexto e as complexidades, será mais fácil
compreender em sua magnitude as qualidades do homem ao qual este texto é dedicado.
Bill Bernbach, o criador do "pense pequeno"
Vamos voltar um pouco no tempo. Estamos na
Madison Ave., morada das grandes agências de propaganda, em Manhattan, Nova
York, Estados Unidos. Corre o ano de 1959, portanto, uma década e meia depois
da Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria chegando ao ápice. A DDB, sigla
que reúne os nomes de seus fundadores, Doyle, Dane e Bernbach, encontra-se
diante de um desafio e tanto: bolar a campanha de lançamento de um novo carro.
Dito assim, parece até barbada, afinal, estamos no país do automóvel. Então,
vamos complicar este jogo: o veículo é estrangeiro. Pior do que isso, vem da
Alemanha, terra de Adolf Hitler. Aliás, foi criado em 1938 a pedido do próprio
Führer. Mas, como a Segunda Guerra já ficou para trás, a destruição e as mortes
em larga escala ocorreram na Europa e os EUA venceram o conflito, talvez isso
não seja um problema tão grave assim. Vamos complicar mais um pouco: o carro é
feio, de formas ovaladas, pouco potente e, crime imperdoável na terra dos
carrões, é pequeno. Bem, talvez bastasse o apelo do baixo consumo de
combustível, da economia de dólares e dos recursos naturais do planeta. Em
1959? Agora que já entendemos o contexto e as complexidades, será mais fácil
compreender em sua magnitude as qualidades do homem ao qual este texto é dedicado.
No final dos ’50, a intensa disputa
geopolítica com a União Soviética e o orgulho por ter acabado com o terror do
Terceiro Reich reforçavam nos americanos a atitude de pensar grande. O tamanho
e a potência dos carros não eram frutos do acaso, antes refletiam sua época.
Diante do desafio de lançar o pequeno estrangeiro feioso, pensar a propaganda de
modo convencional não funcionaria, era preciso quebrar paradigmas. Foi aí que
entrou o toque de gênio de Bill Bernbach. Na contramão do pensamento dominante,
e arriscando o prestígio da agência, ousou como só os grandes ousam: “Pense
pequeno” foi o mote da campanha que apresentou aos americanos o Beetle
(Besouro), que no Brasil se eternizaria como Fusca. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
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