terça-feira, 21 de outubro de 2014

O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

Esta palestra da escritora nigeriana Chimamanda Adichie foi realizada em 2009 em Oxford, no Reino Unido (publiquei aqui no blog em 2010), mas sempre vale a pena rever e refletir sobre os riscos de se relativizar - por ingenuidade ou cinismo - a história, as culturas e as gentes ao se enxergar o mundo a partir de uma única visão, de relatos de um único campo, por definição, parciais, por óbvio, humanamente contaminados, estereotipados e imprecisos. Serve para tudo, em qualquer tempo ou lugar.


NEURÓTICOS AO MAR

Eu trocara de carro havia cerca de um ano quando o emprestei para um colega de trabalho resolver algum problema rápido. Ele retornou em menos de meia hora, devolveu-me as chaves e os documentos e disse: "Você sabia que a buzina não está funcionando?" Eu o cumprimentei por descobrir tão rapidamente algo que eu não percebera em tanto tempo. Sempre lembro disso quando os motoristas começam a descarregar suas frustrações e neuroses na buzina, por certo esperançosos de que isso abra o mar de carros à sua frente tal qual Moisés diante do Mar Vermelho.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
David Ogilvy, o Rei da Madison

Em memorando datado de 7 de setembro de 1982, David Ogilvy listou para seus colaboradores dez regras básicas da boa escrita:
 “Quanto melhor você escrever, mais subirá na Ogilvy & Mather. Pessoas que pensam bem, escrevem bem. Pessoas confusas escrevem memorandos, cartas e discursos confusos.
Escrever bem não é um dom natural. Tem de se aprender a escrever bem. Aqui estão 10 pistas:
1. Leia o livro sobre escrita de Roman e Raphaelson. Leia três vezes. (a versão mais recente é mais fácil de encontrar e mais barata).
2. Escreva do jeito que você fala. Naturalmente.
3. Use palavras curtas, frases curtas e parágrafos curtos.
4. Nunca use jargões como reconceitualizar ou desmassificar. São características de um burro pretensioso.
5. Nunca escreva mais do que duas páginas sobre qualquer assunto.
6. Verifique suas citações.
7. Nunca envie uma carta ou memorando no dia em que os escrever. Leia-os em voz alta na manhã seguinte – e edite-os.
8. Se é algo importante, peça a um colega para melhorá-lo.
9. Antes de enviar sua carta ou memorando, certifique-se de que está bem claro o que você quer que o destinatário faça.
10. Se você quer ação, não escreva. Vá e diga diretamente à pessoa o que você quer.
            David.”


David MacKenzie Ogilvy percorria rotineiramente as ruas de Nova York rumo à Madison Avenue com o justo orgulho dos homens que ajudam a definir sua época. O porte altivo, as vestes de impecável elegância, o indefectível cachimbo e o semblante revelador das raízes britânicas compunham um personagem no qual cabia sob medida o apelido de Rei da Madison, morada das maiores agências de publicidade do mundo. Ainda não sabia que entraria para a história como “o pai da propaganda”, mas o que já conquistara não era pouca coisa, e isso ele sabia muito bem.

Reza a lenda que certa vez, ao caminhar pela Madison, deparou-se com um pedinte de cujo pescoço pendia uma placa com a sintética afirmação: “Eu sou cego”. Ao lado do desafortunado cidadão jazia um copo destinado a acolher eventuais esmolas, o qual estava vazio. Ogilvy retirou a placa do pescoço do surpreso mendicante, acrescentou algo à inscrição e a recolocou no lugar. Mesmo sem entender o que se passava, o cego logo começou a ouvir o incessante tilintar das moedas. Quando passou de volta por ali, ao final de expediente, Ogilvy abriu um largo sorriso ao observar que o copo agora se encontrava cheio de donativos, por certo fruto do apelo que ele agregara ao cartaz: “É primavera e eu sou cego.”

O gesto viria a ser emulado por gerações de publicitários decididos a doar instantes de sua criatividade e capacidade de comunicação para pequenas grandes causas cotidianas. Ainda hoje, e agora com direito a postagens no YouTube e nas redes sociais, a prática persiste. Ditar comportamentos, estabelecer parâmetros, inspirar atitudes são prerrogativas de poucos, sobretudo em um universo tão competitivo quanto o das grandes agências. É legítimo dizer que depois dele o modo de se fazer propaganda nunca mais foi o mesmo.


Nascido em West Horsley, um vilarejo semi-rural localizado no distrito de Guildford, no coração da Inglaterra, e que ainda hoje contabiliza menos de três mil almas, David veio ao mundo em 23 de junho de 1911, por insondável coincidência nos mesmos dia e mês em que haviam nascido seu pai e seu avô. Depois de estudar em Edimburgo, na Escócia, e na inglesa Oxford, sem ter concluído um curso superior, conseguiu seu primeiro emprego em Paris, como cozinheiro do Hotel Majestic. De volta à Inglaterra, tornou-se vendedor de fogões da Aga Cookers. Além de alcançar um desempenho extraordinário na função, mostrou seu lado inquieto e criativo ao redigir, em 1935, um guia de vendas que a revista Fortune classificou como “possivelmente o melhor manual de vendas já escrito.(Leia a continuação clicando no link abaixo).

sábado, 27 de setembro de 2014

GRANDES NOMES
Norman Mailer, o best-seller provocador

Primeiro, leiam o início de Os Nus e os Mortos:


 “Ninguém podia dormir. Quando amanhecesse, as embarcações de assalto seriam lançadas ao mar, e uma primeira vaga de soldados transporia a rebentação e atacaria a praia de Anopopei. No navio, no comboio inteiro, predominava a certeza de que dentro de poucas horas alguns deles estariam mortos.

“Um soldado estendido ao comprido no beliche, os olhos fechados, continua inteiramente desperto. Em torno de si, como o sussurro da rebentação, escuta os murmúrios dos homens em seus cochilos intermitentes. – Não farei, não farei – grita alguém no meio de um sonho. O soldado abre os olhos. Esquadrinha lentamente o porão e seu olhar se perde no emaranhado das marcas, dos corpos nus e do equipamento bamboleante. Conclui que precisa ir à latrina. Praguejando, contorce-se todo até conseguir sentar-se, as pernas penduradas para fora do beliche, e apóia as costas arqueadas no cano de ferro da maça de cima. Suspira, apanha os sapatos que amarrou a um pilar e calça-os vagarosamente. Seu beliche é o quarto numa fila de cinco. Desce inseguro na semi-obscuridade, receando pisar algum dos companheiros que ocupam as maças de baixo. No soalho, envereda por um labirinto de sacos e mochilas, tropeça uma vez num fuzil e avança para a porta do tabique. Atravessa outro alojamento, cujo corredor também está atravancado, e afinal chega à latrina.

“Lá dentro o ar está impregnado de vapor. Mesmo agora alguém está utilizando o único chuveiro de água doce, o qual vem sendo disputado desde o embarque das tropas. O soldado passa pelos jogos de dados nos chuveiros de água salgada, que ninguém usa, e acocora-se nas tábuas úmidas e rachadas da latrina. Não trouxe cigarros e fila de um sujeito sentado ali perto. Enquanto fuma, observa o piso negro molhado, coberto de guimbas, e ouve a água correr na caixa da privada.”

Com apenas 25 anos de idade, Norman Mailer publicou, em 1948, Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead), um portentoso relato jornalístico tecido a partir de suas experiências na Segunda Guerra Mundial. A obra tornou-se estrondoso sucesso de público e crítica, deu início a uma trajetória de sucesso e começou a inscrevê-lo na galeria dos grandes do new journalism, ao lado de nomes como Truman Capote, Gay Talese, John Hersey e Tom Wolfe.

Norman Kingsley Mailer nasceu em Long Branch, Nova Jersey, em 31 de Janeiro de 1923, e morreu em Nova York em 10 de novembro de 2007, aos 84 anos. Filho de imigrantes judeus de classe média, aos 16 anos ingressou na faculdade de engenharia aeronáutica em Harvard, curso ao qual daria seguimento na Sorbonne, em Paris. A despeito de cursar um ofício técnico em duas das maiores universidades do mundo, antes de se graduar combateu na Segunda Guerra em fronts nas Filipinas e no Japão. A acurada percepção do que ocorria à sua volta, a sensibilidade para perceber seus tons e meio-tons e o talento inato para a arte de contar histórias o levaram a escrever Os Nus e os Mortos, cuja aclamação, aliada à confessada paixão, fez o mundo perder um engenheiro, quem sabe brilhante, e ganhar um nome de primeiríssima linha não apenas no jornalismo e na literatura, mas na cultura pop americana de modo mais abrangente.

Forjada a partir de uma obra inaugural extraordinária, equiparada a grandes títulos na literatura de seu país, a carreira de Mailer como escritor tinha tudo para deslanchar sem passar por aqueles estágios intermediários de incertezas e fracassos aos quais mesmo os grandes estão sujeitos. Entretanto, o reconhecimento de seu talento precoce não lhe garantiu a escalada direto ao topo. Ainda que a fama lhe tenha aberto muitas portas, inclusive a de roteirista em Hollywood, nos tempos seguintes acumulou rejeições das editoras e, mesmo o que conseguia publicar, acabava naufragando.

A lenda em torno de seu nome, no entanto, continuaria a ser talhada, não apenas no cinema. Embora Hollywood jamais pudesse ser desprezada – ontem e sempre –, trava-se de uma indústria de peso no entretenimento global e, de certa forma, e em boa parte de seu escopo, de viés quase oficialista, quase chapa-branca no cenário da cultura americana, sobretudo sob o jugo do Macarthismo, naqueles paranóicos anos do auge da Guerra Fria. De temperamento inquieto e dotado de severa mordacidade, Mailer tornou-se um polemista respeitado, e temido, por meio de artigos na publicação alternativa The Village Voice, que ajudou a fundar, e nos quais tecia críticas tão corrosivas quanto verdadeiras ao establishment da América. (Leia a continuação clicando no link abaixo).

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Francesc Petit, o P da DPZ


A Espanha foi palco de um golpe de Estado, em 1923, liderado pelo general Miguel Primo de Rivera e com as bênçãos do rei Afonso III. A crise mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929, fragilizou os detentores do poder e o rei retirou o apoio ao ditador. Dois anos mais tarde, com a vitória de socialistas, nacionalistas e republicanos nas principais cidades, Afonso III foi para o exílio. Os conservadores voltaram ao poder em 1933 e, em outubro no ano seguinte, eclodiu uma revolta nas regiões da Catalunha e das Astúrias, em seguida debelada pelo governo. Em 1935, derrotados nas urnas, os conservadores, apoiados pelo Exército e pela Igreja, planejaram novo golpe. Começou então a Guerra Civil Espanhola, que em três anos deixou saldo de 350 mil mortos. O conflito acabou em 1939 com a vitória dos militares e a instalação de uma ditadura fascista comandada pelo general Francisco Franco. Com a oposição sufocada, Franco ficou no poder até sua morte, em 1975, quando o rei Juan Carlos I – que recentemente abdicou em favor do filho, Felipe VI – tornou-se chefe de Estado. Um parlamento eleito democraticamente aprovou a nova Constituição e a Espanha passou a ser governada de fato por um primeiro-ministro. O atual é o conservador Mariano Rajoy.

Francesc Petit Reig nasceu em Barcelona, na Catalunha, em 1934, ano da rebelião, e cresceu no contexto da Guerra Civil Espanhola, que arrasou o país, e, na sequência, da Segunda Guerra Mundial. Desde cedo começou a aprender o ofício do pai e, aos 10 anos, já o ajudava em sua pequena serralheria. Eram tempos duros, de miséria quase absoluta, em que faltavam itens básicos, até mesmo água, para a maioria da população, e de violentíssima repressão. O pai de Francesc em duas ocasiões esteve a ponto de ser fuzilado, tendo sido arrastado de casa no meio da noite na frente da impotente família, enquanto os soldados quebravam tudo dentro da residência. Ele mesmo, ainda adolescente, voltava para casa com um pão dentro da mochila quando foi ameaçado de prisão porque acharam que o pão era produto de roubo ou contrabando.

Passado o conflito na Europa, em 1946, aos 12 anos, o menino começou a correr de bicicleta, uma das paixões que o acompanhariam por toda a vida. Acordava às 4h para treinar e chegou a ser bicampeão catalão e campeão espanhol. Também naquela época passou a estudar artes. No final da década, a família decidiu procurar novos ares em busca de oportunidades. Como a mãe do garoto era natural de Honduras, aquele foi o país escolhido. As passagens já estavam compradas quando um amigo médico, que viajara ao Brasil para participar de um congresso, jantou na casa deles e falou muitas coisas boas a respeito de São Paulo. Empolgado com as palavras do amigo, o pai de Francesc foi à agência de viagens e trocou as passagens: o destino da família seria o Brasil, onde desembarcaram em 1952. Os pais jamais haveriam de se adaptar totalmente à nova terra, mas, para o menino, que já partiu da Espanha tendo se iniciado no ramo da propaganda, foi mais fácil e definiu seu futuro. Francesc Petit estudara pintura na Escola de Belas-Artes de Barcelona, entre 1945 a 1951, e no Studio de Joaquim Girbau de arte e propaganda. Em 1947, trabalhou na Gráfica Secx & Barral como retocador de fotolito. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
Reflexões de uma madrugada fria

Cândido, uma das obras mais conhecidas de Voltaire, publicada em 1759, tem um personagem chamado Pangloss, para o qual o mundo era perfeito, pois tudo de mal que ocorresse seria apenas parte do caminho rumo a um bem maior. Neste clássico conto filosófico, Voltaire utilizou Pangloss como instrumento de crítica a certo tipo de otimista que vive em um universo fantasioso e se recusa a enxergar a realidade. Mesmo sofrendo com doenças, miséria, sacrifícios de toda sorte, agressão física e emocional, prisão, exílio, até mesmo suplícios, o personagem não deixava de acreditar que tudo se encaminhava do melhor modo possível. Uma espécie de Pollyana em versão radical.

Faça o download gratuito do conto em:


http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Bill Bernbach, o criador do "pense pequeno"


Vamos voltar um pouco no tempo. Estamos na Madison Ave., morada das grandes agências de propaganda, em Manhattan, Nova York, Estados Unidos. Corre o ano de 1959, portanto, uma década e meia depois da Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria chegando ao ápice. A DDB, sigla que reúne os nomes de seus fundadores, Doyle, Dane e Bernbach, encontra-se diante de um desafio e tanto: bolar a campanha de lançamento de um novo carro. Dito assim, parece até barbada, afinal, estamos no país do automóvel. Então, vamos complicar este jogo: o veículo é estrangeiro. Pior do que isso, vem da Alemanha, terra de Adolf Hitler. Aliás, foi criado em 1938 a pedido do próprio Führer. Mas, como a Segunda Guerra já ficou para trás, a destruição e as mortes em larga escala ocorreram na Europa e os EUA venceram o conflito, talvez isso não seja um problema tão grave assim. Vamos complicar mais um pouco: o carro é feio, de formas ovaladas, pouco potente e, crime imperdoável na terra dos carrões, é pequeno. Bem, talvez bastasse o apelo do baixo consumo de combustível, da economia de dólares e dos recursos naturais do planeta. Em 1959? Agora que já entendemos o contexto e as complexidades, será mais fácil compreender em sua magnitude as qualidades do homem ao qual este texto é dedicado.

No final dos ’50, a intensa disputa geopolítica com a União Soviética e o orgulho por ter acabado com o terror do Terceiro Reich reforçavam nos americanos a atitude de pensar grande. O tamanho e a potência dos carros não eram frutos do acaso, antes refletiam sua época. Diante do desafio de lançar o pequeno estrangeiro feioso, pensar a propaganda de modo convencional não funcionaria, era preciso quebrar paradigmas. Foi aí que entrou o toque de gênio de Bill Bernbach. Na contramão do pensamento dominante, e arriscando o prestígio da agência, ousou como só os grandes ousam: “Pense pequeno” foi o mote da campanha que apresentou aos americanos o Beetle (Besouro), que no Brasil se eternizaria como Fusca.  (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quinta-feira, 10 de julho de 2014

GRANDES NOMES
Gay Talese, o ícone

Primeiro, leiam o início de Frank Sinatra Está Resfriado:


Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk­rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa ideia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário.
“Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; ele estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado Sinatra – um Homem e sua Música, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a consideram banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.
“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a voz dele –, mina as bases de sua confiança e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Gay Talese, segurando um cálice de borgonha californiano numa mão e um garfo com um pedaço do volumoso bife na outra, estava sentado à iluminada mesa absorto em um calhamaço de papel, e Harold Hayes, editor da Esquire, em Nova York, esperava ouvir alguma palavra dele. Mas ele ainda não tinha algo a dizer; passara boa parte da manhã calado, lendo matérias sobre Frank Sinatra; só que agora, naquele luxuoso hotel em Beverly Hills, parecia ainda mais concentrado, ocasionalmente fitando, através da fumaça e da luz tênue, a caprichada decoração do Beverly Wilshire, sem imaginar que o hotel, instalado num prédio histórico no Wilshire Boulevard, pertinho da Rodeo Drive, viria a ser eternizado pelo filme Pretty Woman, e que Julia Roberts desfilaria seu imenso sorriso pelos halls e corredores que ele acabara de trilhar naquele Inverno de 1965.
Talese estava fazendo um trabalho que lhe agradava e não via a hora de ficar frente a frente com The Voice, o que deveria ocorrer naquela tarde, e voltar para casa com a missão cumprida; mas, então, o telefone tocou, o escritório do cantor cancelando a entrevista, Sinatra andava aborrecido com as manchetes ligando-o à máfia e, além, do mais, estava resfriado. Caso ele se sentisse melhor, e caso também o jornalista se comprometesse a submeter seu texto ao escritório antes de publicá-lo, bem, caso tudo isso, talvez fosse possível remarcar a entrevista para dali a uns dias. Calmamente, sem mergulhar em um estado genuíno de angústia, tampouco fúria, Talese explicou de forma polida que não podia contrariar o direito de seu editor de ser o primeiro a julgar seu trabalho, desejou melhoras e perguntou se poderia ligar dentro de alguns dias, no que recebeu concordância, mas nada de promessas.
Talese sem uma entrevista confirmada não era Picasso sem tinta ou Ferrari sem combustível. Porque isso não o despojava de uma joia que não dá para pôr no seguro – o talento para contar histórias –, não minava as bases de sua confiança nem afetava seu estado psicológico. Quem sabe fosse até melhor. Enquanto aguardava, começou a entrevistar dezenas de pessoas, entre músicos, produtores musicais, executivos de estúdios e de gravadoras, ex e atuais integrantes do staff do cantor, empregados de seus variados empreendimentos – iam de imobiliária a fábrica de componentes de mísseis –, sem usar gravador para não inibir os interlocutores, pois um “repórter é um sedutor que conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela”, sequer anotando, na maior parte do tempo, apenas registrando fragmentos de conversa enquanto a pessoa ia ao banheiro ou coisa assim, ou registrando os diálogos somente depois, no hotel. (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

GRANDES NOMES
John Hersey, o patriarca do new journalism


Primeiro, leiam o início de Hiroshima:


“No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wühelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro oeste da cidade, para descarregar um carinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foi morta pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade – um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso.”

Um ano depois da hecatombe nuclear, a prestigiada revista The New Yorker enviou um repórter a Hiroshima. Embora ainda jovem, John Richard Hersey era um veterano correspondente de guerra. Nascido em Tienstin, na China, em 17 de julho de 1914, na alvorada da Primeira Guerra Mundial, filho dos missionários americanos Roscoe e Grace Baird Hersey, mudou-se com a família para os Estados Unidos aos dez anos de idade. Frequentou a Universidade de Yale e fez pós-graduação em Cambridge. Em 1937, aos 23, arranjou emprego na Time. Na Segunda Guerra Mundial esteve no front na Europa e na Ásia – cobriu a célebre batalha de Guadalcanal –, de onde mandava reportagens para a Time, a Life e a New Yorker. Naquele Verão (no Hemisfério Norte) de 1945, quando completava 32 anos, Hersey foi escalado para realizar um trabalho que revolucionaria não apenas sua vida e a da publicação, mas a história do jornalismo.

Hersey reconstituiu o instante da tragédia e seus desdobramentos nos tempos seguintes a partir dos depoimentos de seis sobreviventes. Ao examinar os originais, Harold Ross, o fundador da revista, e William Shawn, o editor, viram-se diante de um material esplendoroso. Hersey não apenas retratara com maestria o holocausto nuclear de Hiroshima e contara o drama daquela gente com incrível requinte de detalhes. Ele fora muito além.


Ao contrário dos rebuscados textos jornalísticos de então, na maioria permeados de adjetivação, floreios e rococós, o artigo de Hersey primava pela objetividade e pela prosa escorreita, na qual os substantivos reinavam absolutos sobre escassos adjetivos, e com pouca interferência do autor. Ele não tentou forçar a barra para tornar a narrativa dramática, e sim deixou os personagens contarem a história. Isso mais do que bastava para emocionar. Os editores não tiveram dúvidas de que estavam diante de um trabalho jornalístico portentoso e inovador, não só na linguagem, mas também na forma. Hersey aliara a objetividade jornalística aos conceitos da narrativa literária como ninguém jamais o fizera. (Leia a continuação clicando no link abaixo).



MANHATTAN

ELLA FITZGERALD


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre mordidas e outros atos no futebol


Uma mordida, quando dada por um humano adulto é, sem dúvida, um ato irracional, merecedor de punição, não há discussão quanto a isso. As reações a tal ato, contudo, também estão sendo um tanto irracionais. Se você estiver andando na rua, passeando num shopping, participando de alguma atividade social e, de repente, levar uma mordida, ok, é caso de chamar não só a polícia, mas o hospício, quem sabe a carrocinha. No entanto, seria igualmente grave e estranho se, em vez disso, você levasse um pontapé na canela, uma cusparada no olho, uma cotovelada no nariz, um soco no estômago, um safanão nas costas, uma “tesoura” nas pernas, e tudo isso é comum no futebol. E, por vezes, com uma violência capaz de tirar o adversário da disputa, impedi-lo de exercer seu ofício por meses devido a uma lesão grave ou, em situações mais extremas, incapacitá-lo para sempre.

Sim, pode até ser novidade para quem não assiste a futebol durante quatro anos e vira torcedor apaixonado e especialista em época de Copa, mas tudo isso é corriqueiro no futebol. Deveria ser? Não, não deveria, mas é, inclusive na Copa. Mesmo quem mal sabe o formato da bola tem o direito de comentar a Copa, mas poderia ir mais devagar em suas conclusões e emitir opiniões um pouco menos contundentes sobre tudo que cerca aquilo que afinal de contas, surpresa!, é um torneio de futebol!

Aplicar a Suárez pena sumária de nove partidas de suspensão, eliminá-lo desta Copa, provavelmente da próxima Copa América e o afastar do futebol por quatro meses, não é uma “medida exemplar” como comemoram de forma efusiva os que, encerrada a Copa, esquecerão que o futebol existe. Trata-se de um exagero, de um abuso da FIFA. Ansiosa por agradar ao público, já revoltado com seus desmandos, lucros exorbitantes e suspeitas de corrupção por todo lado - e, ainda por cima, insuflado por imagens manipuladas para tornar o fato mais chocante, de brincadeira ou não -, a entidade fez de Luisito o bode expiatório. Em linguagem de futebol, a FIFA jogou para a torcida.

Quem é mesmo do ramo sabe que estão – a FIFA e os torcedores bissextos – fazendo estardalhaço demais em torno de algo que sim, é incomum, condenável, doentio, patético e etc, mas que está longe de ser excepcional no futebol. Quebrar o nariz do adversário com uma cotovelada é menos grave? Entrar com tudo na canela alheia sabendo que pode quebrá-la e tirar do colega de profissão seu instrumento de trabalho é menos grave? Cusparada na cara é menos grave? Soco, a mais explícita das agressões, é menos grave? Pontapé no peito é menos grave? (na foto, o holandês Nigel de Jong agride o espanhol Xabi Alonso, que precisou de atendimento médico, na Copa de 2010). Tratamento psicológico para todos?

Talvez, além do papel dos especialistas ocasionais e do abuso de poder que sempre caracterizou a FIFA, que agora precisava fazer jogo de cena, a explicação para tamanha indignação seja de cunho psicológico. De fato, chutar, socar, empurrar, cuspir, tudo isso é mais aceito socialmente do que morder, pois morder remete o homem a seu estado mais primal. O medo irracional do humano de se sentir menos civilizado, mais próximo de seu “eu” primitivo, leva-o a reagir de forma desproporcional. As fantasias em torno do vampirismo talvez contribuam de alguma forma para mexer com os mecanismos da mente nestas horas. Psicólogos podem analisar isso com mais propriedade.

A maioria da população mundial alimenta-se de animais, portanto, não apenas morde carne, mas a mastiga e engole. Ah, mas não é humana! Sim, claro, é só um aspecto a mais a se considerar. Se bem que, às vezes, morde-se carne humana também, levemente, e por uma boa causa, mas aí o papo fica profundo demais. Seja como for, o barulho em torno do assunto é demasiado, as indignações são, na maioria, teatrais e, a punição, excessiva. Hipócritas se locupletam, socialites de arenas fazem um brinde e o Uruguai perde suas eventuais chances nesta Copa. Abuso padrão FIFA.

domingo, 22 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014


GRANDES NOMES
Truman Capote, a 
prima-dona genial

Primeiro, leiam o início de A Sangue Frio.

“A aldeia de Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa área isolada que os demais habitantes do estado chamam ‘lá para diante’. Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intenso e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste. A pronúncia local tem um sotaque da planície, um nasalado próprio dos rancheiros, e os homens, na sua maioria, vestem calças justas de fronteiriços, chapéus de feltro de aba larga, botas de tacão alto com biqueiras aguçadas. A terra é plana e os horizontes são incrivelmente vastos; os cavalos, as manadas de gado e o branco aglomerado dos silos a erguerem-se graciosamente no céu como outros tantos templos gregos se avistam muito antes de o viajante chegar perto deles.
            “Também a aldeia de Holcomb se divisa a grande distância. Não que ela tenha muito que ver. É constituída apenas por um simples e despretensioso agrupamento de edifícios, cortado ao meio pela linha do caminho-de-ferro de Santa Fé, uma terreola limitada ao sul pelo curso negro do rio Arkansas (que se diz como se escreve), a norte pela autoestrada n. 50, e a leste e a oeste por terras planas e campos de trigo. Depois das chuvas ou quando se derrete a neve, as suas ruas de terra batida, sem nome, sem árvores a ensombrá-las, mal pavimentadas, transformam-se em nojentos
canais de lama. (...)”
           
            O trecho inicial de A Sangue Frio, publicado em 1965, representa uma amostra emblemática do new journalism, ou jornalismo literário, do qual o autor, Truman Capote, é um dos maiores ícones. Embora não se trate da obra inaugural do gênero – apesar das controvérsias –, honraria atribuída a Hiroshima, de John Hersey, lançado em 1946, A Sangue Frio logrou obter um êxito mais amplo e permanente talvez porque, ao contrário da obra-prima de Hersey, tenha se centrado em poucos e contundentes personagens e versado sobre assassinato, tema mais presente no imaginário póstumo do que as sequelas das vítimas da bomba atômica.
            Um fazendeiro, sua esposa e os dois filhos adolescentes foram mortos em 15 de novembro de 1959 a tiros de espingarda, tendo sido antes amarrados e amordaçados. Depois de ler uma nota sobre o Caso Clutter no New York Times, Capote aportou em Holcomb, lugarejo de escassas 270 almas, um mês após o crime. Descreveu com saborosos – ou horrorosos – detalhes o caso, o lugar, os hábitos dos moradores, entrevistou familiares e amigos das vítimas, seguiu de perto cada passo da investigação policial. Meses depois, Richard Hickock e Perry Smith foram presos. Condenados à morte, seriam enforcados em 14 de abril de 1965.
            Capote acompanhou o processo até o fim, tendo feito longas entrevistas com os acusados na prisão e até mesmo assistido à execução. Envolveu-se de alma e corpo, literalmente, ao ter um caso com Perry Smith. Em 25 de setembro de 1965, a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos da história do escrita por Capote, com sucesso estrondoso que levou ao lançamento da obra em livro, em 1966. Quase quatro décadas depois, A Sangue Frio chegou ao cinema em 2005, com foco na elaboração do livro e Capote sendo magistralmente interpretado por Philip Seymour Hoffman. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
           

quinta-feira, 8 de maio de 2014

What?

Entro em uma cafeteria de shopping, pequena, mas aparentemente digna. Peço um Irish Coffee. A mocinha:
- Como, senhor?
- Um Irish Coffe.
- Não sei o que é...
- Mas tem ali no cardápio na parede. Aquele primeiro da segunda coluna, ó.

Chega outra mocinha.
- O que houve?
- Ele quer um negócio aí que eu não entendi.
- Pois não, senhor.
- Eu quero um Irish Coffe.


A segunda mocinha sabia do se tratava. Enquanto aguardava, eu podia vê-la preparando o dito. Preocupei-me quando percebi que o whisky era Natu Nobillis. Assustei-me de verdade ao vê-la consultando a receita em um caderno... Eu deveria ter pedido o dinheiro de volta e caído fora. Mas queria tanto tomar um café que resolvi encarar. Bem, consegui chegar até a metade, pelo menos.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sorria, você está sendo monitorado
Você é muito mais observado nas redes sociais do que imagina.

Somente paranoicos incorrigíveis ou ególatras incuráveis imaginam que o Zuckerberg, a CIA, o Obama ou os russos não têm mais o que fazer do que ficar espionando ilustres desconhecidos na internet. A espionagem, quando ocorre, tem como alvo altas esferas de poder, círculos financeiros poderosos ou organizações detentoras de segredos estratégicos. Quem vive emitindo alertas e se dizendo preocupado com isso deve se imaginar bem mais importante do que realmente é. Salvo casos excepcionais, em que alguém é vítima de um hacker, quase sempre a serviço de algum desafeto, ou, pior, de um afeto, ou tem sua senha invadida por falta de cuidado, somente os spams e os vírus devem preocupar.
Mas, se a espionagem não é uma ameaça iminente, fato é que neste exato momento você pode estar sendo monitorado nas redes sociais por vários de seus amigos virtuais.  Eles pertencem a variadas categorias, das mais ingênuas às verdadeiramente maldosas e de potencial perigo. Invariavelmente, os marcam como “melhores amigos” a fim de acompanhar todos os seus movimentos na rede. Os tipos mais comuns de “monitoradores” são:

O PRETENDENTE
Ele (ou ela, todos os exemplos valem para os dois gêneros) a (o) monitora para saber se você está com alguém ou se encontra disponível, se alguém está se insinuando, quais seus gostos pessoais, aonde vai, o que faz, com quem e, claro, para curtir e comentar tudo que você publica.

O ADMIRADOR
Ele não é necessariamente um pretendente, mas alguém que lhe admira, gosta de suas ideias, curte seus posts de forma genuína. Mas é bom ficar alerta. Excesso de admiração se transforma facilmente em outra coisa.

O DO CONTRA
Neste caso, ele o monitora para implicar com tudo. Sempre tem uma opinião
diferente da sua e tenta desqualificá-lo. Ele podia estar roubando, ele podia estar matando, mas está ali, implicando com você.

            O USURPADOR
            Trata-se de uma variante do admirador. Como o acha muito inteligente, ou culto, ou belo, ou popular, tenta sempre pegar carona em seus posts. É fácil reconhecê-lo: seus comentários geralmente são maiores do que o post original.

            O CHEFE
            Ele o monitora para ver se está divulgando as coisas que a empresa (ou o partido) o obriga a compartilhar, se você faz alguma crítica indevida ou deixa de fazer uma de interesse da casa, além, é claro de verificar se você não está perdendo tempo no FB em vez de trabalhar. Se você for freelancer, tanto faz, ele o monitorará da mesma forma. “Navegando no FB e me devendo trabalho!”, como se postar uma frase ou uma foto levasse o mesmo tempo que se gasta para escrever um extenso relatório ou produzir uma grande reportagem.

            O CÔNJUGE
            Sobre este não é necessário comentar. Seja qual for o nível do relacionamento, ele está alerta, creia.


            Agora volte lá para o FB e pense em quantos destes, neste exato momento, estão de olho em você.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Por gentileza, leia este post! Obrigado!

O mundo precisa de mais delicadeza. Você me daria a honra de ler um pequeno artigo de minha autoria sobre o assunto? Muito grato pela atenção.

Vivemos tempos insanos, violentos, rudes, talvez além do que nosso emocional possa suportar, ainda que a resiliência cresça junto com a crueza. O medo está nas ruas, e delas não podemos escapar, precisamos seguir vivendo. O perigo pode surgir no próximo cruzamento, no próximo sinal, nesta calçada ou lá na esquina. Chegamos ao ponto de suspirar: “bons tempos em que ladrões apenas roubavam”. Crimes de morte sempre existiram, mas o atual nível de banalização da vida é por demais assustador.

Ladrões roubavam, depois ladrões roubavam e matavam se a vítima reagisse, em seguida matavam se a pobre alma indefesa se mexesse mais bruscamente ou espirrasse, fazendo detonar o mecanismo interno de ódio e medo do agressor, manifestado pelo dedo no gatilho, a mão na faca. Agora o assassinato virou a primeira opção. Pela facilidade, pelo ressentimento, pelo prazer hediondo, pela impunidade.

Sobreviver tornou-se um desafio e tanto. E quem dera fosse só esse o perigo. Ele está também nas ruas, avenidas e estradas, onde pessoas aparentemente normais se convertem em potenciais psicopatas pelo efeito obscuro provocado por um volante e um acelerador. Onde motoristas não respeitam motociclistas que não respeitam ciclistas que não respeitam pedestres que não respeitam ninguém.

Nas filas de bancos e repartições públicas, nas briga por vagas de estacionamento, para entrar primeiro no elevador, os carrinhos largados a esmo nos corredores dos supermercados, em toda parte a ocupação do espaço tornou-se uma guerra, cada um a garantir seus poucos metros ou centímetros de cidadela, assim, por nada, só para se sentir por instantes pseudodono de um pseudoterritório, não importa o quanto prejudique o próximo, ou, talvez, importa sim, e quanto maior o prejuízo, maior o regozijo.

O momento de relaxar é cada vez mais raro. Estar cercado de amigos, em bares e restaurantes, não nos livra do risco de um arrastão, de uma bala perdida, de um tiro dado por dar. Mesmo em casa, a sensação de medo não desaparece. Os noticiários nos alertam, mas eles não têm culpa, refletem o que acontece nas ruas. E não adianta desligar a TV e vir para o computador. As redes sociais, por mais que selecionemos os amigos do modo mais criterioso, nunca estarão livres de invasores, amigos de amigos, miríades de potenciais agressores.

Mas, pior do isso, é ver os amigos, os tais selecionados tão criteriosamente, muitas vezes se comportando de um modo a não os reconhecermos. Pessoas boas, íntegras, generosas – ou que assim se supunha –, transformam-se diante da exposição fácil, como num Big Brother virtual, agredindo para ganhar espaço e curtidas destinadas a alimentar a frágil autoestima. Outros mantêm a boa postura, mas, diante de tudo que acontece no mundo real e agora também no virtual, revelam pouquíssima paciência.

Estamos ficando cada vez mais intolerantes. Estamos deixando que o cotidiano ameaçador nos torne mais e mais rudes. Vamos utilizar o “mais” de outros jeitos. O mundo precisa de mais gentileza. Precisa manifestar sem pudor e o tempo todo o imbatível trio “com licença, por favor, obrigado”. Precisamos abrir portas, oferecer flores, falar de natureza, animais e livros. Precisamos amar e respeitar mais as pessoas. Mas talvez, antes, precisemos de algo mais difícil: amar e respeitar mais a nós mesmos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Qual o seu clube?
Uma rede social não é como a casa da gente, e sim como um clube ao qual as pessoas vão para conhecer outras pessoas, revê-las ou conhecê-las melhor, contar as novidades, mostrar suas fotos, trocar receitas, falar de seus bichinhos de estimação, de dietas, de esportes, de religião, de política e de todo tipo de assunto. Também vão para fazer negócios, receber e dar oportunidades.

Como em qualquer clube "presencial", a educação e o respeito se fazem necessários ao bom convívio. Pode-se escolher mesas, rodinhas de conversas ou salas temáticas nas quais se reúnem pessoas com pontos de vista e interesses comuns.
Quem quiser falar em particular, a fim de não incomodar os demais com questões privadas ou expor sua intimidade, tem a chance de convidar discretamente alguém a acompanhá-lo a uma sala reservada ao lado do salão principal, ao bar, ao jardim ou às instalações íntimas no segundo andar, ou seja, ao chat.
A vantagem deste cube é que não precisamos conviver com alguém de quem não se gosta, ou com gente mal educada, grossa, desrespeitosa, tóxica. Tampouco precisamos circular entre pessoas que nunca nos dão atenção, que estão ali apenas para serem vistas e elogiadas, jamais criticadas, e que costumam ser a maioria em qualquer clube, virtual ou real.
Não precisamos conviver com tais pessoas porque este clube, embora coletivo por definição, é customizado. Só vemos quem queremos, só somos vistos por quem queremos.
Podemos encará-lo como salão de festas, palco de debates, ponto de encontro de voluntariado, sala de reuniões, vitrina, passarela, entre tantas outras funções. Trata-se de um espaço multiuso. Seja qual for o utilidade que se dê a ele, as regras básicas de convivência seguem valendo.
Em qualquer dos casos, é tudo bem simples: podemos convidar só quem queremos, expulsar os penetras, mandar embora os convidados que se revelem inconvenientes e depois voltarmos a flanar tranquilos pelos salões.
Não precisamos restringir os convites somente a quem poderia frequentar nossa casa, neste clube é possível sermos menos seletivos, mas nem tanto. Que sejam pessoas que convidaríamos para uma mesa de bar ou, no mínimo, para um evento.
É claro, como em qualquer reunião social, muitos estão ali por interesses menos nobres do que a mera amizade. Interesses deles ou nossos, geralmente de ambos, de natureza profissional, política, afetiva, sexual, tem de tudo. Neste caso, em nome destes interesses, "todos são bem-vindos" e o jeito é sermos pacientes e segurarmos a onda.
Mas aí o clube, que era um lugar gostoso de frequentar, torna-se apenas um local público qualquer, sem garantia de conforto, aconchego e sequer segurança.
Então, a customização de um espaço público, o pulo do gato das redes sociais, deixa de existir, e voltamos a nos sentir perdidos e amedrontados em meio à multidão.
Somos os donos do clube, podemos definir seu perfil, quem entra, quem é barrado, a música a ser tocada, a comida e a bebida a serem servidas, a decoração, tudo depende das relações sociais virtuais que desejamos estabelecer.
Só não esperemos que os convidados chatos, os que falam demais, os agressivos, os que beberam além da conta e já estão passando cantada em nossa vovozinha de 98 anos se toquem espontaneamente de sua inconveniência e se retirem, isso não ocorrerá, do contrário, não seriam inconvenientes. Mas não nos esqueçamos, o clube é nosso.
Fico imaginando o que diria sobre isso Groucho Marx, autor da célebre frase: "Eu não entraria para nenhum clube que me aceitasse como sócio."

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Guardiães do sonho

Em 1999, às vésperas dos 500 anos do Brasil, a revista Época produziu uma série de reportagens sobre os imigrantes. Coube a mim contar a história dos italianos e dos alemães que vieram para a região Sul. Publico a seguir o texto principal sobre os italianos, que saiu em duas edições (trabalho no qual tive a parceria da fotógrafa Luludi). Deixo de fora alguns "boxes" sobre economia, cultura e etc. Como se trata de texto histórico, segue atual. Não conferi agora o destino dos personagens aqui abordados, reproduzo como publicado em 1999.


Centenas de italianos de Mântua (Mantova) foram compelidos a revogar desconfianças ancestrais no final de 1881. Aqueles homens e mulheres haviam resolvido deixar a cidade natal para reconstruir a vida na América – e tinham de acreditar que do outro lado do oceano estava a Terra Prometida. Cansados dos caprichos do clima, exauridos pela escassa fertilidade de um solo castigado por guerras e rebeliões, agredidos pelos impostos absurdos cobrados por senhores de terras que jamais lhes pertenceriam, os integrantes do grupo já tinham vendido os poucos bens que possuíam para empreender a viagem sem retorno. Só lhes restava crer na existência do eldorado americano.

Seduzidos pela abundância de terras, pelos rios de mel, pelo vinho jorrando sem parar e pelos salames que davam em árvores, segundo rezavam as lendas, estavam determinados a encontrar o paraíso na Terra, situado do outro lado do oceano. Entre esses homens de olhar melancólico e rosto precocemente vincado, atirados aos braços do inevitável exílio, estava André Bacchi. Aos 32 anos, acompanhado da mulher, Maria Mazzocchi Bacchi, 30, e dos filhos Carlo, 4, e Antônio, 1 ano recém-feito, André não se deixaria intimidar pelos perigos da travessia.

As viagens da Europa aos confins da América, naquela época, podiam durar umas poucas semanas ou vários meses. O mar bravio e as intensas tempestades capazes de fazer enjoar experimentados marinheiros colocavam muitos a nocaute. A escolta permanente de baleias, espantadas a tiros de canhão, contribuía para ampliar o nível de apreensão a bordo. Quando a embarcação era chicoteada por fortes ventos pela proa, podia ser arrastada de volta por dezenas de quilômetros, e o caminho, que já era longo, parecia intransponível.