sexta-feira, 29 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Francesc Petit, o P da DPZ


A Espanha foi palco de um golpe de Estado, em 1923, liderado pelo general Miguel Primo de Rivera e com as bênçãos do rei Afonso III. A crise mundial provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929, fragilizou os detentores do poder e o rei retirou o apoio ao ditador. Dois anos mais tarde, com a vitória de socialistas, nacionalistas e republicanos nas principais cidades, Afonso III foi para o exílio. Os conservadores voltaram ao poder em 1933 e, em outubro no ano seguinte, eclodiu uma revolta nas regiões da Catalunha e das Astúrias, em seguida debelada pelo governo. Em 1935, derrotados nas urnas, os conservadores, apoiados pelo Exército e pela Igreja, planejaram novo golpe. Começou então a Guerra Civil Espanhola, que em três anos deixou saldo de 350 mil mortos. O conflito acabou em 1939 com a vitória dos militares e a instalação de uma ditadura fascista comandada pelo general Francisco Franco. Com a oposição sufocada, Franco ficou no poder até sua morte, em 1975, quando o rei Juan Carlos I – que recentemente abdicou em favor do filho, Felipe VI – tornou-se chefe de Estado. Um parlamento eleito democraticamente aprovou a nova Constituição e a Espanha passou a ser governada de fato por um primeiro-ministro. O atual é o conservador Mariano Rajoy.

Francesc Petit Reig nasceu em Barcelona, na Catalunha, em 1934, ano da rebelião, e cresceu no contexto da Guerra Civil Espanhola, que arrasou o país, e, na sequência, da Segunda Guerra Mundial. Desde cedo começou a aprender o ofício do pai e, aos 10 anos, já o ajudava em sua pequena serralheria. Eram tempos duros, de miséria quase absoluta, em que faltavam itens básicos, até mesmo água, para a maioria da população, e de violentíssima repressão. O pai de Francesc em duas ocasiões esteve a ponto de ser fuzilado, tendo sido arrastado de casa no meio da noite na frente da impotente família, enquanto os soldados quebravam tudo dentro da residência. Ele mesmo, ainda adolescente, voltava para casa com um pão dentro da mochila quando foi ameaçado de prisão porque acharam que o pão era produto de roubo ou contrabando.

Passado o conflito na Europa, em 1946, aos 12 anos, o menino começou a correr de bicicleta, uma das paixões que o acompanhariam por toda a vida. Acordava às 4h para treinar e chegou a ser bicampeão catalão e campeão espanhol. Também naquela época passou a estudar artes. No final da década, a família decidiu procurar novos ares em busca de oportunidades. Como a mãe do garoto era natural de Honduras, aquele foi o país escolhido. As passagens já estavam compradas quando um amigo médico, que viajara ao Brasil para participar de um congresso, jantou na casa deles e falou muitas coisas boas a respeito de São Paulo. Empolgado com as palavras do amigo, o pai de Francesc foi à agência de viagens e trocou as passagens: o destino da família seria o Brasil, onde desembarcaram em 1952. Os pais jamais haveriam de se adaptar totalmente à nova terra, mas, para o menino, que já partiu da Espanha tendo se iniciado no ramo da propaganda, foi mais fácil e definiu seu futuro. Francesc Petit estudara pintura na Escola de Belas-Artes de Barcelona, entre 1945 a 1951, e no Studio de Joaquim Girbau de arte e propaganda. Em 1947, trabalhou na Gráfica Secx & Barral como retocador de fotolito. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
Reflexões de uma madrugada fria

Cândido, uma das obras mais conhecidas de Voltaire, publicada em 1759, tem um personagem chamado Pangloss, para o qual o mundo era perfeito, pois tudo de mal que ocorresse seria apenas parte do caminho rumo a um bem maior. Neste clássico conto filosófico, Voltaire utilizou Pangloss como instrumento de crítica a certo tipo de otimista que vive em um universo fantasioso e se recusa a enxergar a realidade. Mesmo sofrendo com doenças, miséria, sacrifícios de toda sorte, agressão física e emocional, prisão, exílio, até mesmo suplícios, o personagem não deixava de acreditar que tudo se encaminhava do melhor modo possível. Uma espécie de Pollyana em versão radical.

Faça o download gratuito do conto em:


http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000009.pdf

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

GRANDES NOMES DA PROPAGANDA
Bill Bernbach, o criador do "pense pequeno"


Vamos voltar um pouco no tempo. Estamos na Madison Ave., morada das grandes agências de propaganda, em Manhattan, Nova York, Estados Unidos. Corre o ano de 1959, portanto, uma década e meia depois da Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria chegando ao ápice. A DDB, sigla que reúne os nomes de seus fundadores, Doyle, Dane e Bernbach, encontra-se diante de um desafio e tanto: bolar a campanha de lançamento de um novo carro. Dito assim, parece até barbada, afinal, estamos no país do automóvel. Então, vamos complicar este jogo: o veículo é estrangeiro. Pior do que isso, vem da Alemanha, terra de Adolf Hitler. Aliás, foi criado em 1938 a pedido do próprio Führer. Mas, como a Segunda Guerra já ficou para trás, a destruição e as mortes em larga escala ocorreram na Europa e os EUA venceram o conflito, talvez isso não seja um problema tão grave assim. Vamos complicar mais um pouco: o carro é feio, de formas ovaladas, pouco potente e, crime imperdoável na terra dos carrões, é pequeno. Bem, talvez bastasse o apelo do baixo consumo de combustível, da economia de dólares e dos recursos naturais do planeta. Em 1959? Agora que já entendemos o contexto e as complexidades, será mais fácil compreender em sua magnitude as qualidades do homem ao qual este texto é dedicado.

No final dos ’50, a intensa disputa geopolítica com a União Soviética e o orgulho por ter acabado com o terror do Terceiro Reich reforçavam nos americanos a atitude de pensar grande. O tamanho e a potência dos carros não eram frutos do acaso, antes refletiam sua época. Diante do desafio de lançar o pequeno estrangeiro feioso, pensar a propaganda de modo convencional não funcionaria, era preciso quebrar paradigmas. Foi aí que entrou o toque de gênio de Bill Bernbach. Na contramão do pensamento dominante, e arriscando o prestígio da agência, ousou como só os grandes ousam: “Pense pequeno” foi o mote da campanha que apresentou aos americanos o Beetle (Besouro), que no Brasil se eternizaria como Fusca.  (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quinta-feira, 10 de julho de 2014

GRANDES NOMES
Gay Talese, o ícone

Primeiro, leiam o início de Frank Sinatra Está Resfriado:


Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk­rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa ideia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário.
“Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; ele estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado Sinatra – um Homem e sua Música, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a consideram banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.
“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro – a voz dele –, mina as bases de sua confiança e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Gay Talese, segurando um cálice de borgonha californiano numa mão e um garfo com um pedaço do volumoso bife na outra, estava sentado à iluminada mesa absorto em um calhamaço de papel, e Harold Hayes, editor da Esquire, em Nova York, esperava ouvir alguma palavra dele. Mas ele ainda não tinha algo a dizer; passara boa parte da manhã calado, lendo matérias sobre Frank Sinatra; só que agora, naquele luxuoso hotel em Beverly Hills, parecia ainda mais concentrado, ocasionalmente fitando, através da fumaça e da luz tênue, a caprichada decoração do Beverly Wilshire, sem imaginar que o hotel, instalado num prédio histórico no Wilshire Boulevard, pertinho da Rodeo Drive, viria a ser eternizado pelo filme Pretty Woman, e que Julia Roberts desfilaria seu imenso sorriso pelos halls e corredores que ele acabara de trilhar naquele Inverno de 1965.
Talese estava fazendo um trabalho que lhe agradava e não via a hora de ficar frente a frente com The Voice, o que deveria ocorrer naquela tarde, e voltar para casa com a missão cumprida; mas, então, o telefone tocou, o escritório do cantor cancelando a entrevista, Sinatra andava aborrecido com as manchetes ligando-o à máfia e, além, do mais, estava resfriado. Caso ele se sentisse melhor, e caso também o jornalista se comprometesse a submeter seu texto ao escritório antes de publicá-lo, bem, caso tudo isso, talvez fosse possível remarcar a entrevista para dali a uns dias. Calmamente, sem mergulhar em um estado genuíno de angústia, tampouco fúria, Talese explicou de forma polida que não podia contrariar o direito de seu editor de ser o primeiro a julgar seu trabalho, desejou melhoras e perguntou se poderia ligar dentro de alguns dias, no que recebeu concordância, mas nada de promessas.
Talese sem uma entrevista confirmada não era Picasso sem tinta ou Ferrari sem combustível. Porque isso não o despojava de uma joia que não dá para pôr no seguro – o talento para contar histórias –, não minava as bases de sua confiança nem afetava seu estado psicológico. Quem sabe fosse até melhor. Enquanto aguardava, começou a entrevistar dezenas de pessoas, entre músicos, produtores musicais, executivos de estúdios e de gravadoras, ex e atuais integrantes do staff do cantor, empregados de seus variados empreendimentos – iam de imobiliária a fábrica de componentes de mísseis –, sem usar gravador para não inibir os interlocutores, pois um “repórter é um sedutor que conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela”, sequer anotando, na maior parte do tempo, apenas registrando fragmentos de conversa enquanto a pessoa ia ao banheiro ou coisa assim, ou registrando os diálogos somente depois, no hotel. (Leia a continuação clicando no link abaixo).

quarta-feira, 2 de julho de 2014

GRANDES NOMES
John Hersey, o patriarca do new journalism


Primeiro, leiam o início de Hiroshima:


“No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wühelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro oeste da cidade, para descarregar um carinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foi morta pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade – um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso.”

Um ano depois da hecatombe nuclear, a prestigiada revista The New Yorker enviou um repórter a Hiroshima. Embora ainda jovem, John Richard Hersey era um veterano correspondente de guerra. Nascido em Tienstin, na China, em 17 de julho de 1914, na alvorada da Primeira Guerra Mundial, filho dos missionários americanos Roscoe e Grace Baird Hersey, mudou-se com a família para os Estados Unidos aos dez anos de idade. Frequentou a Universidade de Yale e fez pós-graduação em Cambridge. Em 1937, aos 23, arranjou emprego na Time. Na Segunda Guerra Mundial esteve no front na Europa e na Ásia – cobriu a célebre batalha de Guadalcanal –, de onde mandava reportagens para a Time, a Life e a New Yorker. Naquele Verão (no Hemisfério Norte) de 1945, quando completava 32 anos, Hersey foi escalado para realizar um trabalho que revolucionaria não apenas sua vida e a da publicação, mas a história do jornalismo.

Hersey reconstituiu o instante da tragédia e seus desdobramentos nos tempos seguintes a partir dos depoimentos de seis sobreviventes. Ao examinar os originais, Harold Ross, o fundador da revista, e William Shawn, o editor, viram-se diante de um material esplendoroso. Hersey não apenas retratara com maestria o holocausto nuclear de Hiroshima e contara o drama daquela gente com incrível requinte de detalhes. Ele fora muito além.


Ao contrário dos rebuscados textos jornalísticos de então, na maioria permeados de adjetivação, floreios e rococós, o artigo de Hersey primava pela objetividade e pela prosa escorreita, na qual os substantivos reinavam absolutos sobre escassos adjetivos, e com pouca interferência do autor. Ele não tentou forçar a barra para tornar a narrativa dramática, e sim deixou os personagens contarem a história. Isso mais do que bastava para emocionar. Os editores não tiveram dúvidas de que estavam diante de um trabalho jornalístico portentoso e inovador, não só na linguagem, mas também na forma. Hersey aliara a objetividade jornalística aos conceitos da narrativa literária como ninguém jamais o fizera. (Leia a continuação clicando no link abaixo).



MANHATTAN

ELLA FITZGERALD


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre mordidas e outros atos no futebol


Uma mordida, quando dada por um humano adulto é, sem dúvida, um ato irracional, merecedor de punição, não há discussão quanto a isso. As reações a tal ato, contudo, também estão sendo um tanto irracionais. Se você estiver andando na rua, passeando num shopping, participando de alguma atividade social e, de repente, levar uma mordida, ok, é caso de chamar não só a polícia, mas o hospício, quem sabe a carrocinha. No entanto, seria igualmente grave e estranho se, em vez disso, você levasse um pontapé na canela, uma cusparada no olho, uma cotovelada no nariz, um soco no estômago, um safanão nas costas, uma “tesoura” nas pernas, e tudo isso é comum no futebol. E, por vezes, com uma violência capaz de tirar o adversário da disputa, impedi-lo de exercer seu ofício por meses devido a uma lesão grave ou, em situações mais extremas, incapacitá-lo para sempre.

Sim, pode até ser novidade para quem não assiste a futebol durante quatro anos e vira torcedor apaixonado e especialista em época de Copa, mas tudo isso é corriqueiro no futebol. Deveria ser? Não, não deveria, mas é, inclusive na Copa. Mesmo quem mal sabe o formato da bola tem o direito de comentar a Copa, mas poderia ir mais devagar em suas conclusões e emitir opiniões um pouco menos contundentes sobre tudo que cerca aquilo que afinal de contas, surpresa!, é um torneio de futebol!

Aplicar a Suárez pena sumária de nove partidas de suspensão, eliminá-lo desta Copa, provavelmente da próxima Copa América e o afastar do futebol por quatro meses, não é uma “medida exemplar” como comemoram de forma efusiva os que, encerrada a Copa, esquecerão que o futebol existe. Trata-se de um exagero, de um abuso da FIFA. Ansiosa por agradar ao público, já revoltado com seus desmandos, lucros exorbitantes e suspeitas de corrupção por todo lado - e, ainda por cima, insuflado por imagens manipuladas para tornar o fato mais chocante, de brincadeira ou não -, a entidade fez de Luisito o bode expiatório. Em linguagem de futebol, a FIFA jogou para a torcida.

Quem é mesmo do ramo sabe que estão – a FIFA e os torcedores bissextos – fazendo estardalhaço demais em torno de algo que sim, é incomum, condenável, doentio, patético e etc, mas que está longe de ser excepcional no futebol. Quebrar o nariz do adversário com uma cotovelada é menos grave? Entrar com tudo na canela alheia sabendo que pode quebrá-la e tirar do colega de profissão seu instrumento de trabalho é menos grave? Cusparada na cara é menos grave? Soco, a mais explícita das agressões, é menos grave? Pontapé no peito é menos grave? (na foto, o holandês Nigel de Jong agride o espanhol Xabi Alonso, que precisou de atendimento médico, na Copa de 2010). Tratamento psicológico para todos?

Talvez, além do papel dos especialistas ocasionais e do abuso de poder que sempre caracterizou a FIFA, que agora precisava fazer jogo de cena, a explicação para tamanha indignação seja de cunho psicológico. De fato, chutar, socar, empurrar, cuspir, tudo isso é mais aceito socialmente do que morder, pois morder remete o homem a seu estado mais primal. O medo irracional do humano de se sentir menos civilizado, mais próximo de seu “eu” primitivo, leva-o a reagir de forma desproporcional. As fantasias em torno do vampirismo talvez contribuam de alguma forma para mexer com os mecanismos da mente nestas horas. Psicólogos podem analisar isso com mais propriedade.

A maioria da população mundial alimenta-se de animais, portanto, não apenas morde carne, mas a mastiga e engole. Ah, mas não é humana! Sim, claro, é só um aspecto a mais a se considerar. Se bem que, às vezes, morde-se carne humana também, levemente, e por uma boa causa, mas aí o papo fica profundo demais. Seja como for, o barulho em torno do assunto é demasiado, as indignações são, na maioria, teatrais e, a punição, excessiva. Hipócritas se locupletam, socialites de arenas fazem um brinde e o Uruguai perde suas eventuais chances nesta Copa. Abuso padrão FIFA.

domingo, 22 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014


GRANDES NOMES
Truman Capote, a 
prima-dona genial

Primeiro, leiam o início de A Sangue Frio.

“A aldeia de Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa área isolada que os demais habitantes do estado chamam ‘lá para diante’. Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intenso e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste. A pronúncia local tem um sotaque da planície, um nasalado próprio dos rancheiros, e os homens, na sua maioria, vestem calças justas de fronteiriços, chapéus de feltro de aba larga, botas de tacão alto com biqueiras aguçadas. A terra é plana e os horizontes são incrivelmente vastos; os cavalos, as manadas de gado e o branco aglomerado dos silos a erguerem-se graciosamente no céu como outros tantos templos gregos se avistam muito antes de o viajante chegar perto deles.
            “Também a aldeia de Holcomb se divisa a grande distância. Não que ela tenha muito que ver. É constituída apenas por um simples e despretensioso agrupamento de edifícios, cortado ao meio pela linha do caminho-de-ferro de Santa Fé, uma terreola limitada ao sul pelo curso negro do rio Arkansas (que se diz como se escreve), a norte pela autoestrada n. 50, e a leste e a oeste por terras planas e campos de trigo. Depois das chuvas ou quando se derrete a neve, as suas ruas de terra batida, sem nome, sem árvores a ensombrá-las, mal pavimentadas, transformam-se em nojentos
canais de lama. (...)”
           
            O trecho inicial de A Sangue Frio, publicado em 1965, representa uma amostra emblemática do new journalism, ou jornalismo literário, do qual o autor, Truman Capote, é um dos maiores ícones. Embora não se trate da obra inaugural do gênero – apesar das controvérsias –, honraria atribuída a Hiroshima, de John Hersey, lançado em 1946, A Sangue Frio logrou obter um êxito mais amplo e permanente talvez porque, ao contrário da obra-prima de Hersey, tenha se centrado em poucos e contundentes personagens e versado sobre assassinato, tema mais presente no imaginário póstumo do que as sequelas das vítimas da bomba atômica.
            Um fazendeiro, sua esposa e os dois filhos adolescentes foram mortos em 15 de novembro de 1959 a tiros de espingarda, tendo sido antes amarrados e amordaçados. Depois de ler uma nota sobre o Caso Clutter no New York Times, Capote aportou em Holcomb, lugarejo de escassas 270 almas, um mês após o crime. Descreveu com saborosos – ou horrorosos – detalhes o caso, o lugar, os hábitos dos moradores, entrevistou familiares e amigos das vítimas, seguiu de perto cada passo da investigação policial. Meses depois, Richard Hickock e Perry Smith foram presos. Condenados à morte, seriam enforcados em 14 de abril de 1965.
            Capote acompanhou o processo até o fim, tendo feito longas entrevistas com os acusados na prisão e até mesmo assistido à execução. Envolveu-se de alma e corpo, literalmente, ao ter um caso com Perry Smith. Em 25 de setembro de 1965, a revista The New Yorker publicou o último dos quatro capítulos da história do escrita por Capote, com sucesso estrondoso que levou ao lançamento da obra em livro, em 1966. Quase quatro décadas depois, A Sangue Frio chegou ao cinema em 2005, com foco na elaboração do livro e Capote sendo magistralmente interpretado por Philip Seymour Hoffman. (Leia a continuação clicando no link abaixo).
           

quinta-feira, 8 de maio de 2014

What?

Entro em uma cafeteria de shopping, pequena, mas aparentemente digna. Peço um Irish Coffee. A mocinha:
- Como, senhor?
- Um Irish Coffe.
- Não sei o que é...
- Mas tem ali no cardápio na parede. Aquele primeiro da segunda coluna, ó.

Chega outra mocinha.
- O que houve?
- Ele quer um negócio aí que eu não entendi.
- Pois não, senhor.
- Eu quero um Irish Coffe.


A segunda mocinha sabia do se tratava. Enquanto aguardava, eu podia vê-la preparando o dito. Preocupei-me quando percebi que o whisky era Natu Nobillis. Assustei-me de verdade ao vê-la consultando a receita em um caderno... Eu deveria ter pedido o dinheiro de volta e caído fora. Mas queria tanto tomar um café que resolvi encarar. Bem, consegui chegar até a metade, pelo menos.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sorria, você está sendo monitorado
Você é muito mais observado nas redes sociais do que imagina.

Somente paranoicos incorrigíveis ou ególatras incuráveis imaginam que o Zuckerberg, a CIA, o Obama ou os russos não têm mais o que fazer do que ficar espionando ilustres desconhecidos na internet. A espionagem, quando ocorre, tem como alvo altas esferas de poder, círculos financeiros poderosos ou organizações detentoras de segredos estratégicos. Quem vive emitindo alertas e se dizendo preocupado com isso deve se imaginar bem mais importante do que realmente é. Salvo casos excepcionais, em que alguém é vítima de um hacker, quase sempre a serviço de algum desafeto, ou, pior, de um afeto, ou tem sua senha invadida por falta de cuidado, somente os spams e os vírus devem preocupar.
Mas, se a espionagem não é uma ameaça iminente, fato é que neste exato momento você pode estar sendo monitorado nas redes sociais por vários de seus amigos virtuais.  Eles pertencem a variadas categorias, das mais ingênuas às verdadeiramente maldosas e de potencial perigo. Invariavelmente, os marcam como “melhores amigos” a fim de acompanhar todos os seus movimentos na rede. Os tipos mais comuns de “monitoradores” são:

O PRETENDENTE
Ele (ou ela, todos os exemplos valem para os dois gêneros) a (o) monitora para saber se você está com alguém ou se encontra disponível, se alguém está se insinuando, quais seus gostos pessoais, aonde vai, o que faz, com quem e, claro, para curtir e comentar tudo que você publica.

O ADMIRADOR
Ele não é necessariamente um pretendente, mas alguém que lhe admira, gosta de suas ideias, curte seus posts de forma genuína. Mas é bom ficar alerta. Excesso de admiração se transforma facilmente em outra coisa.

O DO CONTRA
Neste caso, ele o monitora para implicar com tudo. Sempre tem uma opinião
diferente da sua e tenta desqualificá-lo. Ele podia estar roubando, ele podia estar matando, mas está ali, implicando com você.

            O USURPADOR
            Trata-se de uma variante do admirador. Como o acha muito inteligente, ou culto, ou belo, ou popular, tenta sempre pegar carona em seus posts. É fácil reconhecê-lo: seus comentários geralmente são maiores do que o post original.

            O CHEFE
            Ele o monitora para ver se está divulgando as coisas que a empresa (ou o partido) o obriga a compartilhar, se você faz alguma crítica indevida ou deixa de fazer uma de interesse da casa, além, é claro de verificar se você não está perdendo tempo no FB em vez de trabalhar. Se você for freelancer, tanto faz, ele o monitorará da mesma forma. “Navegando no FB e me devendo trabalho!”, como se postar uma frase ou uma foto levasse o mesmo tempo que se gasta para escrever um extenso relatório ou produzir uma grande reportagem.

            O CÔNJUGE
            Sobre este não é necessário comentar. Seja qual for o nível do relacionamento, ele está alerta, creia.


            Agora volte lá para o FB e pense em quantos destes, neste exato momento, estão de olho em você.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Por gentileza, leia este post! Obrigado!

O mundo precisa de mais delicadeza. Você me daria a honra de ler um pequeno artigo de minha autoria sobre o assunto? Muito grato pela atenção.

Vivemos tempos insanos, violentos, rudes, talvez além do que nosso emocional possa suportar, ainda que a resiliência cresça junto com a crueza. O medo está nas ruas, e delas não podemos escapar, precisamos seguir vivendo. O perigo pode surgir no próximo cruzamento, no próximo sinal, nesta calçada ou lá na esquina. Chegamos ao ponto de suspirar: “bons tempos em que ladrões apenas roubavam”. Crimes de morte sempre existiram, mas o atual nível de banalização da vida é por demais assustador.

Ladrões roubavam, depois ladrões roubavam e matavam se a vítima reagisse, em seguida matavam se a pobre alma indefesa se mexesse mais bruscamente ou espirrasse, fazendo detonar o mecanismo interno de ódio e medo do agressor, manifestado pelo dedo no gatilho, a mão na faca. Agora o assassinato virou a primeira opção. Pela facilidade, pelo ressentimento, pelo prazer hediondo, pela impunidade.

Sobreviver tornou-se um desafio e tanto. E quem dera fosse só esse o perigo. Ele está também nas ruas, avenidas e estradas, onde pessoas aparentemente normais se convertem em potenciais psicopatas pelo efeito obscuro provocado por um volante e um acelerador. Onde motoristas não respeitam motociclistas que não respeitam ciclistas que não respeitam pedestres que não respeitam ninguém.

Nas filas de bancos e repartições públicas, nas briga por vagas de estacionamento, para entrar primeiro no elevador, os carrinhos largados a esmo nos corredores dos supermercados, em toda parte a ocupação do espaço tornou-se uma guerra, cada um a garantir seus poucos metros ou centímetros de cidadela, assim, por nada, só para se sentir por instantes pseudodono de um pseudoterritório, não importa o quanto prejudique o próximo, ou, talvez, importa sim, e quanto maior o prejuízo, maior o regozijo.

O momento de relaxar é cada vez mais raro. Estar cercado de amigos, em bares e restaurantes, não nos livra do risco de um arrastão, de uma bala perdida, de um tiro dado por dar. Mesmo em casa, a sensação de medo não desaparece. Os noticiários nos alertam, mas eles não têm culpa, refletem o que acontece nas ruas. E não adianta desligar a TV e vir para o computador. As redes sociais, por mais que selecionemos os amigos do modo mais criterioso, nunca estarão livres de invasores, amigos de amigos, miríades de potenciais agressores.

Mas, pior do isso, é ver os amigos, os tais selecionados tão criteriosamente, muitas vezes se comportando de um modo a não os reconhecermos. Pessoas boas, íntegras, generosas – ou que assim se supunha –, transformam-se diante da exposição fácil, como num Big Brother virtual, agredindo para ganhar espaço e curtidas destinadas a alimentar a frágil autoestima. Outros mantêm a boa postura, mas, diante de tudo que acontece no mundo real e agora também no virtual, revelam pouquíssima paciência.

Estamos ficando cada vez mais intolerantes. Estamos deixando que o cotidiano ameaçador nos torne mais e mais rudes. Vamos utilizar o “mais” de outros jeitos. O mundo precisa de mais gentileza. Precisa manifestar sem pudor e o tempo todo o imbatível trio “com licença, por favor, obrigado”. Precisamos abrir portas, oferecer flores, falar de natureza, animais e livros. Precisamos amar e respeitar mais as pessoas. Mas talvez, antes, precisemos de algo mais difícil: amar e respeitar mais a nós mesmos.

terça-feira, 11 de março de 2014

Qual o seu clube?
Uma rede social não é como a casa da gente, e sim como um clube ao qual as pessoas vão para conhecer outras pessoas, revê-las ou conhecê-las melhor, contar as novidades, mostrar suas fotos, trocar receitas, falar de seus bichinhos de estimação, de dietas, de esportes, de religião, de política e de todo tipo de assunto. Também vão para fazer negócios, receber e dar oportunidades.

Como em qualquer clube "presencial", a educação e o respeito se fazem necessários ao bom convívio. Pode-se escolher mesas, rodinhas de conversas ou salas temáticas nas quais se reúnem pessoas com pontos de vista e interesses comuns.
Quem quiser falar em particular, a fim de não incomodar os demais com questões privadas ou expor sua intimidade, tem a chance de convidar discretamente alguém a acompanhá-lo a uma sala reservada ao lado do salão principal, ao bar, ao jardim ou às instalações íntimas no segundo andar, ou seja, ao chat.
A vantagem deste cube é que não precisamos conviver com alguém de quem não se gosta, ou com gente mal educada, grossa, desrespeitosa, tóxica. Tampouco precisamos circular entre pessoas que nunca nos dão atenção, que estão ali apenas para serem vistas e elogiadas, jamais criticadas, e que costumam ser a maioria em qualquer clube, virtual ou real.
Não precisamos conviver com tais pessoas porque este clube, embora coletivo por definição, é customizado. Só vemos quem queremos, só somos vistos por quem queremos.
Podemos encará-lo como salão de festas, palco de debates, ponto de encontro de voluntariado, sala de reuniões, vitrina, passarela, entre tantas outras funções. Trata-se de um espaço multiuso. Seja qual for o utilidade que se dê a ele, as regras básicas de convivência seguem valendo.
Em qualquer dos casos, é tudo bem simples: podemos convidar só quem queremos, expulsar os penetras, mandar embora os convidados que se revelem inconvenientes e depois voltarmos a flanar tranquilos pelos salões.
Não precisamos restringir os convites somente a quem poderia frequentar nossa casa, neste clube é possível sermos menos seletivos, mas nem tanto. Que sejam pessoas que convidaríamos para uma mesa de bar ou, no mínimo, para um evento.
É claro, como em qualquer reunião social, muitos estão ali por interesses menos nobres do que a mera amizade. Interesses deles ou nossos, geralmente de ambos, de natureza profissional, política, afetiva, sexual, tem de tudo. Neste caso, em nome destes interesses, "todos são bem-vindos" e o jeito é sermos pacientes e segurarmos a onda.
Mas aí o clube, que era um lugar gostoso de frequentar, torna-se apenas um local público qualquer, sem garantia de conforto, aconchego e sequer segurança.
Então, a customização de um espaço público, o pulo do gato das redes sociais, deixa de existir, e voltamos a nos sentir perdidos e amedrontados em meio à multidão.
Somos os donos do clube, podemos definir seu perfil, quem entra, quem é barrado, a música a ser tocada, a comida e a bebida a serem servidas, a decoração, tudo depende das relações sociais virtuais que desejamos estabelecer.
Só não esperemos que os convidados chatos, os que falam demais, os agressivos, os que beberam além da conta e já estão passando cantada em nossa vovozinha de 98 anos se toquem espontaneamente de sua inconveniência e se retirem, isso não ocorrerá, do contrário, não seriam inconvenientes. Mas não nos esqueçamos, o clube é nosso.
Fico imaginando o que diria sobre isso Groucho Marx, autor da célebre frase: "Eu não entraria para nenhum clube que me aceitasse como sócio."

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Guardiães do sonho

Em 1999, às vésperas dos 500 anos do Brasil, a revista Época produziu uma série de reportagens sobre os imigrantes. Coube a mim contar a história dos italianos e dos alemães que vieram para a região Sul. Publico a seguir o texto principal sobre os italianos, que saiu em duas edições (trabalho no qual tive a parceria da fotógrafa Luludi). Deixo de fora alguns "boxes" sobre economia, cultura e etc. Como se trata de texto histórico, segue atual. Não conferi agora o destino dos personagens aqui abordados, reproduzo como publicado em 1999.


Centenas de italianos de Mântua (Mantova) foram compelidos a revogar desconfianças ancestrais no final de 1881. Aqueles homens e mulheres haviam resolvido deixar a cidade natal para reconstruir a vida na América – e tinham de acreditar que do outro lado do oceano estava a Terra Prometida. Cansados dos caprichos do clima, exauridos pela escassa fertilidade de um solo castigado por guerras e rebeliões, agredidos pelos impostos absurdos cobrados por senhores de terras que jamais lhes pertenceriam, os integrantes do grupo já tinham vendido os poucos bens que possuíam para empreender a viagem sem retorno. Só lhes restava crer na existência do eldorado americano.

Seduzidos pela abundância de terras, pelos rios de mel, pelo vinho jorrando sem parar e pelos salames que davam em árvores, segundo rezavam as lendas, estavam determinados a encontrar o paraíso na Terra, situado do outro lado do oceano. Entre esses homens de olhar melancólico e rosto precocemente vincado, atirados aos braços do inevitável exílio, estava André Bacchi. Aos 32 anos, acompanhado da mulher, Maria Mazzocchi Bacchi, 30, e dos filhos Carlo, 4, e Antônio, 1 ano recém-feito, André não se deixaria intimidar pelos perigos da travessia.

As viagens da Europa aos confins da América, naquela época, podiam durar umas poucas semanas ou vários meses. O mar bravio e as intensas tempestades capazes de fazer enjoar experimentados marinheiros colocavam muitos a nocaute. A escolta permanente de baleias, espantadas a tiros de canhão, contribuía para ampliar o nível de apreensão a bordo. Quando a embarcação era chicoteada por fortes ventos pela proa, podia ser arrastada de volta por dezenas de quilômetros, e o caminho, que já era longo, parecia intransponível.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Relíquias em preto e branco

Meu pai gostava tanto de fotografar quanto de ser fotografado, numa época em que câmeras eram caras, muitas vezes precárias, e fotografar exigia certo esforço, sem contar a burocracia e os custos de revelação e cópias. Graças a este gosto, e aos cuidados de minha mãe na preservação do arquivo, tenho hoje a possibilidade de digitalizar (em alguns casos, com grande perda de qualidade, até por minhas condições amadoras) verdadeiras relíquias.

Além disso havia o capricho dele em anotar atrás das fotos o local, a situação, a data e o que mais considerasse relevante, em letra inteligível e bonita. Minha mãe sempre brincava que, ao contrário do que costumava acontecer, a letra bonita da casa era a do menino, e não a da menina.

Publiquei no FB algumas destas jóias, cujas legendas são, na maioria, as que ele mesmo anotou, por isso estão entre aspas.

Outro detalhe curioso. Meu pai deveria se chamar Eliziário Bueno, mas, ao fazer ele próprio seus primeiros documentos "de adulto", optou por utilizar o Rocha, sobrenome da mãe, e tirou o Bueno do pai. Segundo ele me explicou, não se tratava de qualquer problema em relação ao pai, ele simplesmente não gostava de Bueno, preferia Rocha, foi uma decisão puramente estética.

Percebe-se pelas anotações nas fotos que na juventude ele utilizava a forma reduzida Elizio. Depois passou a ser o Eliziario (eu uso com acento, ele usava sem) e finalmente adotou em definitivo Rocha como forma preferencial de tratamento. Por isso, por ele ser o Rocha, eu ao natural usei sempre o primeiro nome, até para não confundir, embora eu não seja Júnior, pois tenho o Goulart de minha mãe.

A foto que ilustra este texto (no escritório da 
Otaic S.A. São Paulo, em novembro de 1952é a minha preferida deste "lote", pela composição do quadro e pela luz. Para olhar o álbum inteiro, faça-me uma visita no FB. O ícone na coluna à direita leva direto para minha página.

Reparto com vocês algumas curiosidades familiares nesta época de lembranças e balanços.

Um grande 2014 para todos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Lorem, uma leitora especial

Lorem Krsna tem 21 anos, nasceu em Icaraí, Ceará, em 5 de novembro de 1992, migrou para Juazeiro do Norte para cursar a faculdade de odontologia e, desde setembro deste ano, encontra-se na Austrália, onde permanecerá como bolsista pelo período de um ano e meio. Gosta de música e de livros, de escrever (loremkrsna.blogspot.com.br) e de trabalhar com pesquisas. Adora cães e, principalmente, gatos, ama bolo de cenoura com calda de chocolate e é fanática por chá e café.
Quando tinha 13 anos, Lorem leu minha ficção infanto-juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos, lançada em 2002. Tempos depois, aos 18, publicou um comentário em seu blog. Neste momento, em que ela passa por sensações únicas, de experiências e ricas descobertas em Brisbane, no outro lado mundo, ao mesmo tempo em que administra a dor de uma grande perda ocorrida às vésperas do Natal, resolvi fazer um agradecimento público e lhe prestar esta homenagem.
Lorem e eu nunca nos vimos no mundo real, mas eu a convidei para me ajudar a escrever um eventual segundo episódio de Elyakan que, caso eu venha a produzir um dia, terá sido por insistência desta leitora muito especial. Eis o texto dela:
“Há alguns anos li um livro que encontrei por acaso em uma bienal em Fortaleza. Digo por acaso porque foi mesmo. Caiu em cima do meu pé...

Mas, enfim, era um livro intitulado Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos, e isso chamou-me a atenção até mais do que a maneira com que ele veio até mim. Acabei comprando e não me arrependi. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

As 10 coisas que eu decididamente farei mais em 2014
10. Manter distância de pessoas tóxicas.

9. Ficar próximo de pessoas iluminadas.
8. Cantar.
7. Andar de bicicleta.
6. Escrever o que me dá prazer.
5. Conviver com a natureza.
4. Viajar.
3. Cuidar de mim.
2. Curtir minhas filhas.
1. Sorrir.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A noite de Natal

Em 2003, quando minhas filhas mais novas estavam com 5 e 3 anos, certa vez, tendo esgotado meu repertório de histórias de ninar, resolvi escrever um conto infantil de Natal exclusivo para elas. Agora o encontrei ao organizar arquivos antigos. Quem sabe possa ser útil a algum pai com repertório esgotado.


Na noite de Natal Papai Noel sempre aparece, isso todo mundo sabe. O que ninguém sabia até agora é que houve uma vez em que ele quase não apareceu. Ou será que não foi bem assim?

As crianças estavam prontas, haviam colocado roupa nova e esperavam com ansiedade pela chegada do velhinho de barba branca que traz presentes e gosta de dizer hou-hou-hou-hou. Ninguém sabe por que ele diz isso, mas não importa. Enquanto mamãe preparava a comida, suas duas filhinhas, Lísia e Milla, olhavam pela janela a todo instante. Elas mal podiam esperar. Logo Papai Noel chegaria carregado de presentes. Elas suavam bastante. Fazia calor, mas o motivo principal do suor era o nervosismo pela espera.
Hora após hora elas grudaram seus rostinhos delicados na vidraça, observaram o pisca-piscar dos arranjos de luz e o alvoroço das pessoas, muitas chegando às casas vizinhas para a ceia, muitas deixando as casas vizinhas para cear em outro lugar, o som estridente das buzinas e o estouro dos fogos de artifício a desenhar formas coloridas no céu. Tudo muito lindo, mas onde estava Papai Noel? Para entendermos direito esta história é necessário voltarmos no tempo. Na casa das meninas, era aquele mesmo dia. Em certo lugar, cuja passagem de tempo era diferente, uns dez dias antes.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As 10 coisas que eu decididamente não farei neste Natal

10. Ficar 10 horas na BR-101 na ida para o "feriadão".
9. Ficar 10 horas na BR-101 na volta do "feriadão".
8. Emocionar-me com o comercial do Zaffari.
7. Ir ao shopping no dia 24, minutos antes de fechar.
6. Comer como se o mundo fosse acabar.
5. Cantarolar "jingle bell, acabou o papel...".
4. Perguntar a amigos que ganham kit da empresa se "já pegou o peru?"
3. Assistir ao show do Roberto Carlos na Globo.
2. Bancar o meigo com qualquer chato em nome do "espírito de Natal".
1. Ouvir a Simone cantar Então é Natal.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Enter


Vivemos a era da super, ou über, ao estilo das tops, exposição. Lambanças ao vento. Nada é privado demais para se restringir a petit comité, no paroxismo, sequer a quatro paredes. Só privadas permanecem privadas. Still. O que se sofre e o que se goza é para manter em segredo, diria Paulo Francis esbravejando com as paredes da cripta.
                Turista é um sujeito que viaja milhares de quilômetros para tirar fotos ao lado de uma estátua, falava-se com o exagero das tiradas pseudocômicas. Deixou de ser cômico. Deixou de ser pseudo. Alguns poucos minutos esquecendo-se da rotina, curtindo o passeio e aproveitando as delícias do lugar, apesar dos gerúndios, mas muitas horas fazendo pose para o celular. Sinta o clima gostoso, a paisagem exuberante, o cheiro das coisas e pessoas, o ar ancestral... Ah, depois, primeiro deixa eu registrar para postar no face.
                E que venham as críticas dos chatiados assassinos do idioma, o face é seu, você posta o que quiser. Todo mundo é ousadinho e valentão virtual, barraqueiros se locupletam. Não é preciso olhar nos olhos, barbada. O toque refinado acabou, o gesto delicado, a palavra não dita, mas deixada no ar, evaporaram-se. O meio exige tudo explícito, perdeu-se a sutileza, tão indispensável à arte da sedução quando à da comunicação. O que é exposto demais não se permite ser sutil, o que é consumo rápido, um instrumento que é a mais genuína expressão do capitalismo global sendo utilizado às fartas para criticar o mais genuíno capitalismo global.
O cutucão virtual é o fiu-fiu pós-moderno, para usar a palavra predileta dos acólitos da chatérrima escola neo (ainda neo? Eternamente neo?) filosófica francesa que já foi fin de siècle, mas está demorando a desencarnar. Promessas fáceis que se desvanecerão como seu melhor jeans, ecoa a velha canção. Por que pedir a lua e as estrelas? Você não leva nosso relacionamento a sério. Claro que levo. Ah é? Então coloca aí que está em um relacionamento sério comigo. Não se acrescenta, adiciona-se, sinônimos apenas no sentido literal. Não se encara o tenso encontro de despedida, exclui-se. Não se rompe frente ao semblante tristonho e decepcionado, bloqueia-se. Para que um encontro final difícil? Pressione uma tecla e o recado estará dado.
                Não mais anotações nas margens de livros e revistas, em guardanapos, versos de embalagens e no que se tivesse à mão nas horas das reflexões não programadas, bêbadas ou sóbrias, de todo modo embriagadas, despejadas como orações pagãs, miríades de vocábulos empolgados e carinhosos, ou vitupérios ressentidos e chorosos, em cantinhos de papel, destinados a serem vistos apenas por biógrafos, caso o autor fizesse por merecer, dificilmente enviados ao maldito amado desgraçado querido destinatário.
Bico de pena à luz de velas, carta, papel de carta (até perfumado!), lápis, borracha, caneta, rascunho, borrão, passar a limpo, copiar, envelopar, selar, levar aos Correios, arrepender-se na última hora, rasgar ou interceptar o carteiro na entrega, começar de novo, e aí máquina de escrever, rascunho, fita enroscada, passar a limpo e o resto todo, máquina com corretivo, só escrever e o resto todo, computador, pensamentos editados, o que pode ser bom, mas pode ser ruim, e o correio eletrônico e as redes sociais, sem o resto todo, e é tarde demais para se arrepender, enter clicado e flecha lançada são coisas que não voltam. ENTER.