MÍDIA
Bocelli nada viu em 35 de abril
Quando o politicamente correto ainda não eliminara certas anedotas, ouvia-se muito a seguinte frase: “Você viu o novo disco (nem havia CD ainda) do Steve Wonder?” Se o incauto respondesse “não”, vinha o complemento: “Nem ele”, e o piadista caía na risada. O gracejo já era velho quando surgiu o CD. Ainda assim, muitos continuaram a aplicá-lo. Difícil imaginar quem nunca ouviu tal bobagem. Na terça-feira 21 de abril, no entanto, uma repórter do Jornal Nacional, cujo nome não registrei, começou o texto da cobertura do show de Andréa Bocelli em São Paulo com a seguinte frase: “Deficiente visual, Andréa Bocelli não viu as 25 mil pessoas que...”
Na edição de 25 de abril, o repórter Pedro Bassan, direto de Portugal, abriu assim a matéria sobre os 35 anos da Revolução dos Cravos: “35 de abril. Uma data...”
terça-feira, 28 de abril de 2009
MÍDIA

A coluna de Augusto Nunes na Veja.com está no ar desde a semana passada, com atualizações diárias.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
.

A coluna de Augusto Nunes na Veja.com está no ar desde a semana passada, com atualizações diárias.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
M Í D I A
Nas trincheiras da notícia
O GP da Malásia de Fórmula-1 é um teste de audiência no Brasil: só assiste quem gosta muito de ver carrinhos andando velozes por quase duas horas, afinal, 6h da manhã é tarde demais para uns, cedo demais para outros. Na dúvida, emendei. A corrida começou num ritmo capaz de espantar o sono, e a chuvarada que caiu em seguida parecia prometer grandes emoções. Que nada, a prova acabou com os carros parados, depois de uma espera de 50 minutos até ela ser encerrada por falta de condições da pista, por falta de luminosidade e por falta de bom senso dos dirigentes que – para torná-la mais agradável aos europeus – a colocaram num horário de chuvas notórias e anoitecer iminente.
Tão logo os carros foram alinhados no grid à espera da nova largada que não viria, enquanto os pilotos eram cobertos com guarda-chuvas, suas sapatilhas com galochas e os carros protegidos por lonas, Galvão Bueno pediu ao repórter Carlos Gil para que contasse o que acontecia na pista e nos boxes, o que pensavam os brasileiros, enfim, algo que não se estivesse vendo pela TV. Gil informou então que ele, a exemplo da maioria dos jornalistas, havia se abrigado numa área VIP de um dos patrocinadores do GP tão logo irrompera o aguaceiro. Galvão emendou: “Gil, sugiro que você vá até lá e nos conte o que está acontecendo”. O sugiro, antes de gentileza, foi por certo um merecido deboche. O friorento repórter não se constrangeu: “Pô, mui amigo, hein?”. Ou seja: o sujeito é pago para cobrir um dos mais importantes eventos esportivos do mundo para a maior rede de TV do País, que o manda até a Malásia e, quando uma enxurrada interrompe a prova sua primeira atitude é se abrigar, ficando bem longe da chuva. E da notícia.
.
Nas trincheiras da notícia
O GP da Malásia de Fórmula-1 é um teste de audiência no Brasil: só assiste quem gosta muito de ver carrinhos andando velozes por quase duas horas, afinal, 6h da manhã é tarde demais para uns, cedo demais para outros. Na dúvida, emendei. A corrida começou num ritmo capaz de espantar o sono, e a chuvarada que caiu em seguida parecia prometer grandes emoções. Que nada, a prova acabou com os carros parados, depois de uma espera de 50 minutos até ela ser encerrada por falta de condições da pista, por falta de luminosidade e por falta de bom senso dos dirigentes que – para torná-la mais agradável aos europeus – a colocaram num horário de chuvas notórias e anoitecer iminente.
Tão logo os carros foram alinhados no grid à espera da nova largada que não viria, enquanto os pilotos eram cobertos com guarda-chuvas, suas sapatilhas com galochas e os carros protegidos por lonas, Galvão Bueno pediu ao repórter Carlos Gil para que contasse o que acontecia na pista e nos boxes, o que pensavam os brasileiros, enfim, algo que não se estivesse vendo pela TV. Gil informou então que ele, a exemplo da maioria dos jornalistas, havia se abrigado numa área VIP de um dos patrocinadores do GP tão logo irrompera o aguaceiro. Galvão emendou: “Gil, sugiro que você vá até lá e nos conte o que está acontecendo”. O sugiro, antes de gentileza, foi por certo um merecido deboche. O friorento repórter não se constrangeu: “Pô, mui amigo, hein?”. Ou seja: o sujeito é pago para cobrir um dos mais importantes eventos esportivos do mundo para a maior rede de TV do País, que o manda até a Malásia e, quando uma enxurrada interrompe a prova sua primeira atitude é se abrigar, ficando bem longe da chuva. E da notícia.
.
M Í D I A
Um dia a casa cai


A Veja da semana passada trouxe como matéria de capa o caso Daslu, com a chamada “A Queda da Casa do Luxo”. A associação foi imediata, afinal, “A Queda da Casa de Usher” é um dos mais famosos contos de Edgar Alan Poe. Esse foi meu primeiro pensamento. O segundo foi: quantos leitores ligaram o nome à pessoa? Não me considero possuidor de uma formação especialmente sólida, mas a simples condição de jornalista já implica certas obrigações, como níveis de leitura, de cultura geral e de atenção aos detalhes superiores à média. Comentei o título da Veja, sem citar Poe, com alguns jornalistas de, digamos, pouca milhagem, e nenhum deles fez a referência. Alguns sequer conheciam o conto. Felizmente, todos conheciam Poe, embora eu desconfie que poucos o tenham lido. O nível de cultura, tanto da alta quanto da baixa, cultura geral mesmo, anda cada vez menor, mesmo entre profissionais que ganham a vida com as palavras. O editor da Veja teve uma sacada, deve ter se sentido contente com isso, mas o segundo pensamento dele deve ter sido semelhante ao meu.
Leia A Queda da Casa de Usher na íntegra:
Um dia a casa cai


A Veja da semana passada trouxe como matéria de capa o caso Daslu, com a chamada “A Queda da Casa do Luxo”. A associação foi imediata, afinal, “A Queda da Casa de Usher” é um dos mais famosos contos de Edgar Alan Poe. Esse foi meu primeiro pensamento. O segundo foi: quantos leitores ligaram o nome à pessoa? Não me considero possuidor de uma formação especialmente sólida, mas a simples condição de jornalista já implica certas obrigações, como níveis de leitura, de cultura geral e de atenção aos detalhes superiores à média. Comentei o título da Veja, sem citar Poe, com alguns jornalistas de, digamos, pouca milhagem, e nenhum deles fez a referência. Alguns sequer conheciam o conto. Felizmente, todos conheciam Poe, embora eu desconfie que poucos o tenham lido. O nível de cultura, tanto da alta quanto da baixa, cultura geral mesmo, anda cada vez menor, mesmo entre profissionais que ganham a vida com as palavras. O editor da Veja teve uma sacada, deve ter se sentido contente com isso, mas o segundo pensamento dele deve ter sido semelhante ao meu.
Leia A Queda da Casa de Usher na íntegra:
L I T E R A T U R A
Império à deriva

Raramente releio algo. A idéia de morrer sem ler tudo de bom que já foi escrito – temor comum a todos os apaixonados por livros –, e a certeza de que assim será, induzem-nos a deixar para trás textos já saboreados, ainda que prazeres incomparáveis nos façam sempre querer retornar a velhas páginas. Por razões de pesquisa – o livro é muito bom, mas está longe de integrar a estante VIP de minha biblioteca –, acabo de reler Império à Deriva, que lera havia apenas uns dois anos. O australiano Patrick Wilcken conta a saga da transferência da corte portuguesa para os trópicos, fugindo da dominação napoleônica na Europa, e os anos passados no Brasil até novas urgências a fazerem percorrer o caminho de volta. O livro, publicado pela Objetiva, traça um retrato deliciosamente cru do choque cultural inicial e de como a aristocracia de além-mar e a incipiente burguesia nacional souberam se adaptar e tirar vantagens mútuas da situação, num pacto de convivência que ajuda a entender a formação da moderna sociedade brasileira.
.
Império à deriva

Raramente releio algo. A idéia de morrer sem ler tudo de bom que já foi escrito – temor comum a todos os apaixonados por livros –, e a certeza de que assim será, induzem-nos a deixar para trás textos já saboreados, ainda que prazeres incomparáveis nos façam sempre querer retornar a velhas páginas. Por razões de pesquisa – o livro é muito bom, mas está longe de integrar a estante VIP de minha biblioteca –, acabo de reler Império à Deriva, que lera havia apenas uns dois anos. O australiano Patrick Wilcken conta a saga da transferência da corte portuguesa para os trópicos, fugindo da dominação napoleônica na Europa, e os anos passados no Brasil até novas urgências a fazerem percorrer o caminho de volta. O livro, publicado pela Objetiva, traça um retrato deliciosamente cru do choque cultural inicial e de como a aristocracia de além-mar e a incipiente burguesia nacional souberam se adaptar e tirar vantagens mútuas da situação, num pacto de convivência que ajuda a entender a formação da moderna sociedade brasileira.
.
J O R N A L I S M O
A inocência esquartejada
O texto a seguir saiu na edição de outubro da revista Brasileiros. Já faz tempo, mas a qualidade e o impacto que provoca justificam sempre sua reprodução. A reportagem foi realizada a quatro mãos por Augusto Nunes e sua filha Branca Nunes (em foto de João Bittar publicada na revista).
"Acho que você precisa saber disso", ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão. Estranhou o tom aflito. Duas da madrugada, viu no relógio do criado-mudo. Associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda. Um policial não interrompe o sono de outro, sobretudo na madrugada de um sábado, para tratar de miudezas. Nem se perturba por pouco. Alguma coisa grave devia ter acontecido. Acontecera: "Uns garis encontraram pedaços de dois corpos no caminhão do lixo". Não dormiria direito no fim de semana, conformou-se, já mudando de roupa e ansioso por cruzar no limite da velocidade os 17,5 quilômetros que separam a casa onde mora em Santo André da delegacia de Ribeirão Pires. As frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas. "Os sacos foram recolhidos no fim da noite, numa rua da Vila Aurora."(Itamar lembrou que aqueles meninos moravam lá.) "Parecem pedaços de crianças." (São aqueles meninos, soprou-lhe o instinto aguçado no convívio com a face escura.)
Continua em
http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/15/textos/313/
.
A inocência esquartejada

O texto a seguir saiu na edição de outubro da revista Brasileiros. Já faz tempo, mas a qualidade e o impacto que provoca justificam sempre sua reprodução. A reportagem foi realizada a quatro mãos por Augusto Nunes e sua filha Branca Nunes (em foto de João Bittar publicada na revista).
"Acho que você precisa saber disso", ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão. Estranhou o tom aflito. Duas da madrugada, viu no relógio do criado-mudo. Associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda. Um policial não interrompe o sono de outro, sobretudo na madrugada de um sábado, para tratar de miudezas. Nem se perturba por pouco. Alguma coisa grave devia ter acontecido. Acontecera: "Uns garis encontraram pedaços de dois corpos no caminhão do lixo". Não dormiria direito no fim de semana, conformou-se, já mudando de roupa e ansioso por cruzar no limite da velocidade os 17,5 quilômetros que separam a casa onde mora em Santo André da delegacia de Ribeirão Pires. As frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas. "Os sacos foram recolhidos no fim da noite, numa rua da Vila Aurora."(Itamar lembrou que aqueles meninos moravam lá.) "Parecem pedaços de crianças." (São aqueles meninos, soprou-lhe o instinto aguçado no convívio com a face escura.)
Continua em
http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/15/textos/313/
.
V I D A
Qualidade no atendimento à mulher
O câncer de mama é um problema de saúde pública no Brasil. Somente em 2009 serão registrados no País 50 mil novos casos. Trata-se da maior causa de morte de mulheres jovens (15 a 44 anos). Hoje 60% dos casos somente são diagnosticados quando a doença já se encontra em estágio avançado. De 14 a 17 de outubro, em Gramado (RS), ocorrerá o XV Congresso Brasileiro de Mastologia. No âmbito do Congresso será realizado no dia 16 de outubro o I Fórum Saúde Mulher, cujo ponto culminante será a elaboração Carta de Gramado, um documento que visa a comprometer todos os segmentos ligados à saúde, bem como governos, ONGs, voluntários e a sociedade civil como um todo, no sentido de que os recursos hoje existentes em diagnóstico e tratamento cheguem de fato às pacientes, melhorando a qualidade do atendimento. Ambos os eventos têm a presidência do mastologista José Luiz Pedrini.
Para saber mais ou se engajar nesta luta:
Qualidade no atendimento à mulher
O câncer de mama é um problema de saúde pública no Brasil. Somente em 2009 serão registrados no País 50 mil novos casos. Trata-se da maior causa de morte de mulheres jovens (15 a 44 anos). Hoje 60% dos casos somente são diagnosticados quando a doença já se encontra em estágio avançado. De 14 a 17 de outubro, em Gramado (RS), ocorrerá o XV Congresso Brasileiro de Mastologia. No âmbito do Congresso será realizado no dia 16 de outubro o I Fórum Saúde Mulher, cujo ponto culminante será a elaboração Carta de Gramado, um documento que visa a comprometer todos os segmentos ligados à saúde, bem como governos, ONGs, voluntários e a sociedade civil como um todo, no sentido de que os recursos hoje existentes em diagnóstico e tratamento cheguem de fato às pacientes, melhorando a qualidade do atendimento. Ambos os eventos têm a presidência do mastologista José Luiz Pedrini.
Para saber mais ou se engajar nesta luta:
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Cândido Norberto(1925-2009)
Cândido Norberto morreu ontem à noite em Porto Alegre, aos 83 anos. Um dos maiores nomes da comunicação gaúcha em todos os tempos e político cassado pela ditadura, Cândido foi um grande amigo e incentivador. Minha relação com ele era de segunda geração, conforme texto que publiquei em 2004 no site coletiva.net e reproduzo abaixo.
Cândidas recordações de uma garotinha
Sentada em uma cadeira de balanço no pátio da casa localizada na rua Felicíssimo de Azevedo, em Porto Alegre, Terezinha, nome comprido para uma menina de quatro anos, tentava se recuperar de uma pneumonia tomando bastante sol, conforme recomendara o médico. Ela e mãe, Maria Emíl
ia, tinham motivos de sobra para se preocupar e rezar dia e noite para que aquela doença maldita fosse embora de vez. Poucos anos antes, a irmã mais nova havia sucumbido à moléstia e não completara dois anos de vida. Terezinha, já então chamada intimamente de Santa devido ao comportamento impecável, não sabia exatamente o que pensava sobre o apelido, mas era menor e mais fácil de pronunciar do que o longo Terezinha Edis.Nos incontáveis dias passados ao sol naquele pátio lajeado tinha a lhe fazer companhia apenas um elefantinho de pelúcia marrom, além de duas vizinhas mais velhas, velhas mesmo, pensava, pois já deviam ter uns dezoito anos. Lourdes, a favorita, e a irmã, de quem não gravou o nome, debruçavam-se sobre o muro alto e conversavam com ela durante o que pareciam longas horas. Corria o ano de 1943. O mundo estava em guerra e o Brasil vivia sob a ditadura Vargas, coisas das quais só viria a tomar conhecimento muito tempo depois. Naquele ano chegava a Porto Alegre, vindo de Bagé, e contando apenas dezessete anos, Cândido Norberto Silva Santos, que em breve se tornaria ídolo da Era do Rádio.
Terezinha recuperou-se plenamente e levava uma vida normal. Anos depois, olhava vitrinas com a mãe e a avó quando
se deparou com uma promoção tentadora: na compra de uma bela bolsinha de verniz roxa, que era a última moda, ganharia de brinde uma foto autografada de Francisco Carlos, cantor carioca projetado para o sucesso em 1949, que participou de diversos filmes e encantou platéias em vários gêneros musicais. A mãe não tinha dinheiro, mas a avó, Tolentina, a quem chamava de Tutua, percebeu o brilho no olhar da neta e bancou a compra.A foto de Francisco Carlos, embora estimada, acabaria valendo para ela muito menos do que outra, que ganharia durante a visita a um programa com pequeno auditório na Rádio Difusora. Além de poder sortear as cartas de ouvintes que receberiam prêmios, saiu do estúdio com a foto autografada do maior ídolo, Cândido Norberto, que rapidamente e ainda muito jovem, tornara-se locutor, animador, rádio-ator e coordenador de elenco, entre tantas outras funções que haveria de desempenhar com competência no rádio nas décadas seguintes.
Desta vez não fora preciso comprar uma bolsinha de verniz, mas a mãe teve de providenciar tesoura, cola e um caderno para que a filha colasse as pencas de fotos de Cândido retiradas de jornais, revistas, panfletos e tudo que fosse possível conseguir. O acervo aumentava enquanto ela freqüentava assiduamente o programa. Do bairro Higienópolis, onde morava – agora haviam trocado a Felicíssimo de Azevedo pela Marcelo Gama – seguiam, ela e mãe, de bonde até o centro, onde desciam na Praça XV e tomavam caldo de cana gelado, ou uma Grapette acompanhada de um sanduíche antes de seguirem para a rádio.
Certa vez foram a pé até o Cine Orpheu, que depois se tornaria Astor, e hoje é loja para gordos, na esquina da Benjamin Constant com a Cristóvão Colombo. Seria um programa de rádio com auditório ao vivo ou um debate do político iniciante? Fosse o que fosse, a menina invariavelmente de trancinhas e laço de fita foi chamada por ele ao microfone para compor a mesa na qual só havia homens engravatados. Uma honra inesquecível que se repetiria em pequenas doses.
Quando Cândido com certeza já era político, a garota e a mãe percorriam a pé a Rua da Praia e subiam a Ladeira. Muitas vezes o encontravam no caminho, ele parava o carro e oferecia carona e depois um cafezinho no bar da Assembléia. A garota nem gostava de café, mas bebia como se fosse sua bebida predileta, empavonada por estar ao lado do ídolo.Os anos avançaram e muitas horas foram passadas ao lado do rádio à espera dos acordes de Moonlight Serenade, tocada pela orquestra de Glenn Miller, indicativo de que estava entrando no ar Pensando em Voz Alta, o mais clássico programa radiofônico de Cândido. A menina, sem qualquer interferência do mito, chegou a participar de uma radionovela. Depois cantou no programa do Vovô Guerra, no Clube do Guri, de Ari Rêgo, e no Programa Maurício Sobrinho, no Cine Castelo, na mesma geração de Elis Regina. Parou lá pelos 16, quando ficou noiva, voltou depois, quando já tinha um filho pequeno, e chegou a concorrer ao título de Rainha do Rádio.
Em 1980, 37 anos depois daquelas tardes ao sol no pátio lajeado, a garota entrou na sala da presidência da TVE-RS, então ocupada por Cândido. Passadas tantas décadas, entregou ao ídolo o caderno repleto de recortes amarelecidos. Fazia-se acompanhar do filho, então com 20 anos, estudante de jornalismo e que logo iniciaria sua carreira no jornal Zero Hora com o apoio e o carinho do ídolo da mãe. Carinho que, a exemplo do que ocorrera com a menina, se entenderia ao filho pelas décadas seguintes. Neste 18 de outubro de 2004 ele completa 79 anos. Cândido é um dos únicos homens que me acostumei a cumprimentar com beijos.
Créditos das fotos:
Divulgação PUC (1)
Arquivo Pessoal (2 e 3)
Divulgação AL-RS (4)
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
REPLAY
.jpeg)

.jpeg)

A reportagem de capa da revista Veja, em 24 de dezembro, tratava do genocídio em Darfur; na celebração do nascimento de Cristo, a dramática foto de uma refugiada com o filho no colo em uma alegoria cruel, mas real, da Virgem Maria. Em 7 de janeiro, Veja estampou na capa foto do enterro de uma das centenas de vítimas dos ataques de Israel à Faixa de Gaza.
Mais de dois anos atrás escrevi sobre Darfur e sobre o drama dos conflitos de Israel com o Hezbollah, no Líbano. Troque-se Hezbollah por Hamas, e Líbano por Faixa de Gaza, e ambos os textos seguem lamentavelmente atuais.
O genocídio esquecido
Darfur não freqüenta os noticiários com a assiduidade necessária. O chamado “público em geral” nem sabe o que é Darfur que, no entanto, tem sido palco de um genocídio que já dura mais de três anos. Localizado no Oeste do Sudão, a região tem sido alvo de bombardeios aéreos constantes, complementados por ataques terrestres destinados a deixar o mínimo possível de sobreviventes. O número de mortos, de acordo com a ONU, passa dos 200 mil. Estimativas menos otimistas indicam que se aproxima do meio milhão.
As Nações Unidas e os EUA admitem que se trata de limpeza étnica, mas não têm despendido tempo e energias para conter a matança promovida pelo regime fundamentalista de Cartum. Preferem deixar a missão a cargo da União Africana, que designou entre 3 e 7 mil soldados para a tarefa, um efetivo irrisório para a situação.
A pretexto de combate à guerrilha, a Força Aérea sudanesa e a Janjaweed, a milícia oficial, não dão trégua na chacina. Mais de dois milhões de zurgas, termo pejorativo usado pelos opressores, tiveram de deixar suas casas, sendo que 500 mil deles se refugiaram no vizinho Chade, um dos países mais miseráveis do mundo. Muitos morrerão de fome. Os que ficaram em Darfur morrem à média de 20 mil por mês, assassinados ou de fome.
Nesse ritmo, o genocídio talvez acabará nos próximos anos por falta de vítimas. Darfur tem uma área semelhante à da França e uma população entre 5 e 6 milhões. Os Estados Unidos têm feito vistas grossas, a exemplo de outras potências ocidentais, como a Inglaterra e a França, por causa do abundante petróleo do Sudão. Uma razão suplementar para o silêncio americano seria a suposta colaboração do regime de Cartum na busca por Osama Bin Laden e outros membros graduados da Al Qaeda.
A ONU aprovou em setembro uma resolução segundo a qual 17 mil soldados de sua força de paz substituiriam os da União Africana. O governo sudanês rejeitou a idéia. Para o presidente Omar al-Bashir, trata-se de "uma conspiração para confiscar a soberania do país”. O impasse continua. O massacre também.
Publicado originalmente em 24 de outubro de 2006 no site coletiva.net
O silêncio dos deuses

O olhar mira o infinito, em busca da impossível explicação. A voz interior conversa com o vazio que acaba de lhe preencher. Quem sabe Deus, ou Alá, ou divindades de quaisquer nomes possam escutar. Mas não. Os deuses estão calados agora, envergonhados de sua própria criação, impotentes, acuados. Ninguém responde. Ao silêncio dos deuses se soma a imensidão surda ao redor. Nenhum ruído. Seria possível ouvir a queda de um alfinete, caso a audição, como todos os outros sentidos, não estivesse fechada para a realidade. Um isolamento que o deixa a salvo do barulho das bombas, do cheiro de morte, da visão horripilante posta em seus braços, do fustigar dos escombros sob os pés. Pés que avançam céleres, embora seja tarde demais e o tempo, conceito sempre abstrato, agora não passe de uma palavra sem sentido, como tantas outras, como todas as outras. Junções aleatórias de letras, sempre dispostas a trair seu significado. Amor, solidariedade, dor, perda, ódio, intransigência, violência, pedras, água, petróleo, alimento, dinheiro, vida. Palavras que se enredam já desprovidas de significados, perdidas em meio à mistura de fumaça, poeira e restos. Restos do que foi uma habitação, restos do que foi uma vida. A vida jaz ali, a poucos centímetros do olhar, mas este olhar já não faz questão de ver. Quem sabe se não olhando, o pequeno cadáver desaparece como por mágica. Quem sabe uma prece resolvesse, se ele pudesse falar. Se eles pudessem ouvir. Porque no espaço sem som, cor, odor ou substância que ele ora habita, as palavras não se propagam. Apenas pairam no ar, como os vestígios de um artefato mortal disparado por homens que agora celebram, enquanto outros homens se aprontam para disparar outro artefato em sentido contrário, já prontos para nova celebração. Um espaço de tempo infinito nas terras da dor infinita. O que são segundos de sofrimento diante de milênios de agonia. Mas agora a agonia é concreta. Está ali, estendida nos braços. Pior, nem agonia existe. Apenas o fim, a perda, o vazio, o grande e inescapável nada. Não há para onde olhar, não há quem possa escutar. Há apenas o avanço de pernas vacilantes sobre pedaços de concreto e pedaços de corpos. Não há como fugir. Não há para onde fugir. Não dá para evitar, tampouco reparar. Resta apenas vagar no limbo do choque antes que novas ondas de choque venham furar a camada de inconsciência. Pouco importa se ele é o pai da criança, um vizinho solidário ou um terrorista. Pouco importa de que lado veio a bomba, ou quais as razões históricas do conflito. Agora, enquanto o olhar busca a transcendência, importa apenas o pequeno corpo estendido nos braços. Importa apenas a espera desesperada por uma resposta.
Publicado originalmente no site coletiva.net
.
Mais de dois anos atrás escrevi sobre Darfur e sobre o drama dos conflitos de Israel com o Hezbollah, no Líbano. Troque-se Hezbollah por Hamas, e Líbano por Faixa de Gaza, e ambos os textos seguem lamentavelmente atuais.
O genocídio esquecido
Darfur não freqüenta os noticiários com a assiduidade necessária. O chamado “público em geral” nem sabe o que é Darfur que, no entanto, tem sido palco de um genocídio que já dura mais de três anos. Localizado no Oeste do Sudão, a região tem sido alvo de bombardeios aéreos constantes, complementados por ataques terrestres destinados a deixar o mínimo possível de sobreviventes. O número de mortos, de acordo com a ONU, passa dos 200 mil. Estimativas menos otimistas indicam que se aproxima do meio milhão.
As Nações Unidas e os EUA admitem que se trata de limpeza étnica, mas não têm despendido tempo e energias para conter a matança promovida pelo regime fundamentalista de Cartum. Preferem deixar a missão a cargo da União Africana, que designou entre 3 e 7 mil soldados para a tarefa, um efetivo irrisório para a situação.
A pretexto de combate à guerrilha, a Força Aérea sudanesa e a Janjaweed, a milícia oficial, não dão trégua na chacina. Mais de dois milhões de zurgas, termo pejorativo usado pelos opressores, tiveram de deixar suas casas, sendo que 500 mil deles se refugiaram no vizinho Chade, um dos países mais miseráveis do mundo. Muitos morrerão de fome. Os que ficaram em Darfur morrem à média de 20 mil por mês, assassinados ou de fome.
Nesse ritmo, o genocídio talvez acabará nos próximos anos por falta de vítimas. Darfur tem uma área semelhante à da França e uma população entre 5 e 6 milhões. Os Estados Unidos têm feito vistas grossas, a exemplo de outras potências ocidentais, como a Inglaterra e a França, por causa do abundante petróleo do Sudão. Uma razão suplementar para o silêncio americano seria a suposta colaboração do regime de Cartum na busca por Osama Bin Laden e outros membros graduados da Al Qaeda.
A ONU aprovou em setembro uma resolução segundo a qual 17 mil soldados de sua força de paz substituiriam os da União Africana. O governo sudanês rejeitou a idéia. Para o presidente Omar al-Bashir, trata-se de "uma conspiração para confiscar a soberania do país”. O impasse continua. O massacre também.
Publicado originalmente em 24 de outubro de 2006 no site coletiva.net
O silêncio dos deuses

O olhar mira o infinito, em busca da impossível explicação. A voz interior conversa com o vazio que acaba de lhe preencher. Quem sabe Deus, ou Alá, ou divindades de quaisquer nomes possam escutar. Mas não. Os deuses estão calados agora, envergonhados de sua própria criação, impotentes, acuados. Ninguém responde. Ao silêncio dos deuses se soma a imensidão surda ao redor. Nenhum ruído. Seria possível ouvir a queda de um alfinete, caso a audição, como todos os outros sentidos, não estivesse fechada para a realidade. Um isolamento que o deixa a salvo do barulho das bombas, do cheiro de morte, da visão horripilante posta em seus braços, do fustigar dos escombros sob os pés. Pés que avançam céleres, embora seja tarde demais e o tempo, conceito sempre abstrato, agora não passe de uma palavra sem sentido, como tantas outras, como todas as outras. Junções aleatórias de letras, sempre dispostas a trair seu significado. Amor, solidariedade, dor, perda, ódio, intransigência, violência, pedras, água, petróleo, alimento, dinheiro, vida. Palavras que se enredam já desprovidas de significados, perdidas em meio à mistura de fumaça, poeira e restos. Restos do que foi uma habitação, restos do que foi uma vida. A vida jaz ali, a poucos centímetros do olhar, mas este olhar já não faz questão de ver. Quem sabe se não olhando, o pequeno cadáver desaparece como por mágica. Quem sabe uma prece resolvesse, se ele pudesse falar. Se eles pudessem ouvir. Porque no espaço sem som, cor, odor ou substância que ele ora habita, as palavras não se propagam. Apenas pairam no ar, como os vestígios de um artefato mortal disparado por homens que agora celebram, enquanto outros homens se aprontam para disparar outro artefato em sentido contrário, já prontos para nova celebração. Um espaço de tempo infinito nas terras da dor infinita. O que são segundos de sofrimento diante de milênios de agonia. Mas agora a agonia é concreta. Está ali, estendida nos braços. Pior, nem agonia existe. Apenas o fim, a perda, o vazio, o grande e inescapável nada. Não há para onde olhar, não há quem possa escutar. Há apenas o avanço de pernas vacilantes sobre pedaços de concreto e pedaços de corpos. Não há como fugir. Não há para onde fugir. Não dá para evitar, tampouco reparar. Resta apenas vagar no limbo do choque antes que novas ondas de choque venham furar a camada de inconsciência. Pouco importa se ele é o pai da criança, um vizinho solidário ou um terrorista. Pouco importa de que lado veio a bomba, ou quais as razões históricas do conflito. Agora, enquanto o olhar busca a transcendência, importa apenas o pequeno corpo estendido nos braços. Importa apenas a espera desesperada por uma resposta.
Publicado originalmente no site coletiva.net
.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
BALANÇO 2008
Diário de um ano ruim
O título deste post, subtraído ao mais recente romance de J. M. Coetzee, não pretende renegar as conquistas de 2008, mas lembrar de que não é o bastante, de que 2009 terá de ser muito melhor, como cada novo ano, ao menos enquanto não se desiste de sonhar. A seguir, uma espécie de prestação de contas para que os amigos tenham uma idéia do que andei fazendo. Agradeço a todos que passaram por aqui, peço perdão pelo eventual abandono do Blog – creiam-me, foi por absoluta falta de tempo – e espero contar com vocês ao longo dos próximos 12 meses.

De janeiro a março (e a partir de julho de 2007), morei em Florianópolis, onde coordenei o projeto Roteiros do Brasil, da editora Letras Brasileiras, de Werner Zotz e Jakzam Kaiser, sob encomenda do Ministério do Turismo. O conteúdo produzido ao longo daqueles meses resultou no site www.roteirosdobrasil.tur.br/
e em 27 revistas, uma para cada Estado brasileiro. A montagem ao lado é da Fotomundo, do Markito e do Plínio Bordin, fotógrafos que integraram a equipe.
Abril e maio foram dedicados a ajudar
Eduardo Bueno, o famoso
Peninha, na pesquisa e nos
textos do livro Produto Nacional,
uma história da indústria Brasileira,
para a Confederação Nacional
da Indústria (CNI). Na foto,
Peninha faz a clássica
pose do “mostra o livro aí”
em foto de divulgação de
Miguel Ângelo, da CNI.
Em julho, produzi e editei a
primeira edição do jornal
Carta de Gramado, do
Congresso Brasileiro de
Mastologia/Gramado 2009,
presidido pelo mastologista
José Luiz Pedrini.
Diário de um ano ruim
O título deste post, subtraído ao mais recente romance de J. M. Coetzee, não pretende renegar as conquistas de 2008, mas lembrar de que não é o bastante, de que 2009 terá de ser muito melhor, como cada novo ano, ao menos enquanto não se desiste de sonhar. A seguir, uma espécie de prestação de contas para que os amigos tenham uma idéia do que andei fazendo. Agradeço a todos que passaram por aqui, peço perdão pelo eventual abandono do Blog – creiam-me, foi por absoluta falta de tempo – e espero contar com vocês ao longo dos próximos 12 meses.
De janeiro a março (e a partir de julho de 2007), morei em Florianópolis, onde coordenei o projeto Roteiros do Brasil, da editora Letras Brasileiras, de Werner Zotz e Jakzam Kaiser, sob encomenda do Ministério do Turismo. O conteúdo produzido ao longo daqueles meses resultou no site www.roteirosdobrasil.tur.br/
e em 27 revistas, uma para cada Estado brasileiro. A montagem ao lado é da Fotomundo, do Markito e do Plínio Bordin, fotógrafos que integraram a equipe.
Abril e maio foram dedicados a ajudarEduardo Bueno, o famoso
Peninha, na pesquisa e nos
textos do livro Produto Nacional,
uma história da indústria Brasileira,
para a Confederação Nacional
da Indústria (CNI). Na foto,
Peninha faz a clássica
pose do “mostra o livro aí”
em foto de divulgação de
Miguel Ângelo, da CNI.
textos de Falange Gaúcha,
livro produzido a partir
de uma série de reportagens
premiadas de Renato Dornelles,
do Diário Gaúcho,
para a RBS Publicações,
dirigida por Pedro Haase Filho.
Em julho, produzi e editei aprimeira edição do jornal
Carta de Gramado, do
Congresso Brasileiro de
Mastologia/Gramado 2009,
presidido pelo mastologista
José Luiz Pedrini.
produzi reportagens e textos
para duas publicações da
Editora Expressão, uma própria,
o Anuário Ecológico,
e outra terceirizada,
ambas editadas por
Vladimir Brandão.
Vladimir Brandão.
esporádicos, como uma resenha
do mais recente livro de
Paul Auster para a
revista Aplauso, encomendada
pelo editor Flávio Ilha.
A partir de julho, ajudei a escritora e jornalista Regina Echeverria na finalização da biografia (de autoria dela) do ex-presidente José Sarney.
Em 2008, mais uma vez, tive o privilégio de trabalhar com o que gosto, junto a grandes profissionais e grandes empresas. Este foi o diário de um ano ruim. Os planos para 2009 são ainda mais ambiciosos. Como tem de ser sempre, ao menos enquanto não se desiste de sonhar.
Um grande ano a todos.
Em 2008, mais uma vez, tive o privilégio de trabalhar com o que gosto, junto a grandes profissionais e grandes empresas. Este foi o diário de um ano ruim. Os planos para 2009 são ainda mais ambiciosos. Como tem de ser sempre, ao menos enquanto não se desiste de sonhar.
Um grande ano a todos.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
TOCO Y ME VOY
Recebi um e-mail de um amigo no qual ele incluiu um link para uma interpretação de Rachmaninoff. No diálogo que se seguiu ele acabou fazendo uma longa exposição que julguei interessante publicar aqui, para que todos possam apreciar esta verdadeira aula de música.
O amante perfeito
Cláudio Barcellos de Paula Couto
Falando de Rachmaninoff – mas vale para qualquer obra de arte –, vem-me à memória a lição de um velho e grande personagem da música pianística – Wladimir Horowitz – a propósito dos gêneros da música, popular ou erudita, não importa:
"Olho e analiso uma partitura muito em respeito ao compositor, pois, ao compor, ele está nos passando uma parte da história da vida dele e a emoção imortal. Isso é o que importa. Detenho-me nos contrastes em preto e branco – pois sabemos que os sons musicais são representados na pauta por símbolos escuros. Se os contrastes são muito evidentes e disseminados, significa que foram usadas muitas notas; se não, são poucas notas e complementos. Não raro, as partituras mais claras exigem muito mais do intérprete do que as muito povoadas, porque de modo geral são mais comprometidas com a simplicidade e a singeleza. Portanto, é preciso passar todo o conteúdo em poucas palavras (notas musicais). Então, cada nota tem uma expressão e uma significação enorme no conjunto”.
Ele se referia à Reverie das Cenas Infantis de R. Schumann.
Se muitas “fusas e semifusas” são escritas, ou os acordes são numerosos, temos uma partitura com uma rica sonoridade e, se em “allegro ou “allegro vivace”, andamentos os mais acelerados, então a composição é intrinsicamente mais complexa e de difícil execução mecânica.
Compositores como F. Liszt, F. Chopin e S. Rachmaninoff produziram muitas partituras do tipo estudo. São, quase sempre, composições didáticas (para o desenvolvimento e abrangência da boa técnica) ou o aprimoramento e a exposição das potencialidades virtuosísticas... fundamento do talento do concertista.
Explicitamos a intenção do uso da palavra “mecânica” para induzir à percepção de uma música que tem, em segundo plano, a profundidade e a densidade da emoção transmitida e sentida (interação). Em contraponto, composições classificadas como “elegie, noturno, sonata, valsa e berceuse” são, comumente, escritas mais objetivamente e em andamento mais para moderado, grave ou lento assai” pois a emotividade fica mais explícita, mais exposta e mais à flor da pele.
Não existe um, "determinismo" nisso, mas podemos dizer que é uma regra comum.
***
Rachmaninoff compôs os seus quatro concertos para piano e orquestra com uma enorme riqueza sonora pelos muitos acordes que usou.
No entanto, se você estiver interpretando uma peça com poucas notas e quiser passar emoção e intensidade – o que é o grande diferencial de um artista – estará diante de uma tarefa e tanto. Com poucas notas e complementos é preciso, muitas vezes, transformar o limão em limonada, passando o aroma de uma rosa com uma simples flor do campo. Mal comparando, é preciso ser um namorado e não apenas um “ficante”.
Neste caso, para ser um amante perfeito você terá que exaltar a intensidade e o colorido sonoro por meio, principalmente, de dois recursos: os pedais e o "legato". Em relação aos pedais tem de saber usar a técnica, porque do contrário irá sobrepor demais os sons e ficará tudo confuso. Já o "legato" é um recurso essencial para manter um som e passar ao próximo sem deixar vazios. Isso é proibido. Os sons ficam amalgamados.
***
Escutemos, agora com ouvidos sensíveis e prevenidos, as riquezas e nuances das duas peças: o Estudo e a Elegie. Tanto a Yollanda (na Elegie) como a Aleksandra, no Etude-Tableaux, quase sempre mantêm as mãos junto ao teclado e os braços e mãos absolutamente flexíveis e soltos. Isso permite a elas um fantástico grau de liberdade nos movimentos necessários dos braços, das mãos e dos dedos, algo absolutamente necessários para a execução do "legato". Em Yollanda, nota-se a movimentação das pernas, em especial a perna esquerda, que controla o pedal da sonoridade do piano. Como elas sabem, e muito bem, manejar estes recursos, o resultado é o que chamamos de um som "cantabile" ou cantante.
O fraseado torna-se nítido no simples ato de escutar ou, didaticamente, nas respirações que marcam o início e o fim de cada frase. Como um texto é definido pelas frases que o compõem, assim também ocorre com uma partitura. Claro, nada disso é simples, o estudo diário é essencial, e no começo costuma se estender por umas oito horas. No caso de músicos experimentados há um certo grau de liberdade, pois eles já têm a medida exata das suas necessidades. Nas vésperas do concerto, aquele polimento final, semelhante à revisão criteriosa que os jornalistas fazem antes da publicação de um texto.
***
Um Estudo é uma peça, em geral, de muita dificuldade técnica e de fôlego. Já uma melodia mais profunda e intensa como a Elegie exigirá bem menos do intérprete em execuções de alta virtuosidade, porém, ao passo que aquelas são muito bem tocadas pelos virtuoses, as outras são mais do domínio dos verdadeiros artistas. Porque uma coisa é ser só um pianista e outra é ser pianista artista. O ideal é ser pianista virtuose e artista, o que é bastante raro. É como aquela sensação que a maioria sente ao assistir a uma incrível façanha de um trapezista. Ele executa movimentos mirabolantes e consegue arrancar aplausos vibrantes da platéia, que fica altamente impressionada, mas longe da genuína emoção. Trata-se de uma reação em nível superficial.
Já a arte exige do observador ou ouvinte uma percepção das coisas transcendentes e inefáveis, e isso não se aprende nos bancos da escola, é um dom inato. O melhor mestre jamais terá o poder de transformar um aluno comum em um artista. Mas, pela educação e pelo refino da sensibilidade, consegue-se entender, compreender e viver a arte que nos é mostrada pelos artistas. Os que criam e os que interpretam.
Recebi um e-mail de um amigo no qual ele incluiu um link para uma interpretação de Rachmaninoff. No diálogo que se seguiu ele acabou fazendo uma longa exposição que julguei interessante publicar aqui, para que todos possam apreciar esta verdadeira aula de música.
O amante perfeito
Cláudio Barcellos de Paula Couto
Falando de Rachmaninoff – mas vale para qualquer obra de arte –, vem-me à memória a lição de um velho e grande personagem da música pianística – Wladimir Horowitz – a propósito dos gêneros da música, popular ou erudita, não importa:
"Olho e analiso uma partitura muito em respeito ao compositor, pois, ao compor, ele está nos passando uma parte da história da vida dele e a emoção imortal. Isso é o que importa. Detenho-me nos contrastes em preto e branco – pois sabemos que os sons musicais são representados na pauta por símbolos escuros. Se os contrastes são muito evidentes e disseminados, significa que foram usadas muitas notas; se não, são poucas notas e complementos. Não raro, as partituras mais claras exigem muito mais do intérprete do que as muito povoadas, porque de modo geral são mais comprometidas com a simplicidade e a singeleza. Portanto, é preciso passar todo o conteúdo em poucas palavras (notas musicais). Então, cada nota tem uma expressão e uma significação enorme no conjunto”.
Ele se referia à Reverie das Cenas Infantis de R. Schumann.
Se muitas “fusas e semifusas” são escritas, ou os acordes são numerosos, temos uma partitura com uma rica sonoridade e, se em “allegro ou “allegro vivace”, andamentos os mais acelerados, então a composição é intrinsicamente mais complexa e de difícil execução mecânica.
Compositores como F. Liszt, F. Chopin e S. Rachmaninoff produziram muitas partituras do tipo estudo. São, quase sempre, composições didáticas (para o desenvolvimento e abrangência da boa técnica) ou o aprimoramento e a exposição das potencialidades virtuosísticas... fundamento do talento do concertista.
Explicitamos a intenção do uso da palavra “mecânica” para induzir à percepção de uma música que tem, em segundo plano, a profundidade e a densidade da emoção transmitida e sentida (interação). Em contraponto, composições classificadas como “elegie, noturno, sonata, valsa e berceuse” são, comumente, escritas mais objetivamente e em andamento mais para moderado, grave ou lento assai” pois a emotividade fica mais explícita, mais exposta e mais à flor da pele.
Não existe um, "determinismo" nisso, mas podemos dizer que é uma regra comum.
***
Rachmaninoff compôs os seus quatro concertos para piano e orquestra com uma enorme riqueza sonora pelos muitos acordes que usou.
No entanto, se você estiver interpretando uma peça com poucas notas e quiser passar emoção e intensidade – o que é o grande diferencial de um artista – estará diante de uma tarefa e tanto. Com poucas notas e complementos é preciso, muitas vezes, transformar o limão em limonada, passando o aroma de uma rosa com uma simples flor do campo. Mal comparando, é preciso ser um namorado e não apenas um “ficante”.
Neste caso, para ser um amante perfeito você terá que exaltar a intensidade e o colorido sonoro por meio, principalmente, de dois recursos: os pedais e o "legato". Em relação aos pedais tem de saber usar a técnica, porque do contrário irá sobrepor demais os sons e ficará tudo confuso. Já o "legato" é um recurso essencial para manter um som e passar ao próximo sem deixar vazios. Isso é proibido. Os sons ficam amalgamados.
***
Escutemos, agora com ouvidos sensíveis e prevenidos, as riquezas e nuances das duas peças: o Estudo e a Elegie. Tanto a Yollanda (na Elegie) como a Aleksandra, no Etude-Tableaux, quase sempre mantêm as mãos junto ao teclado e os braços e mãos absolutamente flexíveis e soltos. Isso permite a elas um fantástico grau de liberdade nos movimentos necessários dos braços, das mãos e dos dedos, algo absolutamente necessários para a execução do "legato". Em Yollanda, nota-se a movimentação das pernas, em especial a perna esquerda, que controla o pedal da sonoridade do piano. Como elas sabem, e muito bem, manejar estes recursos, o resultado é o que chamamos de um som "cantabile" ou cantante.
O fraseado torna-se nítido no simples ato de escutar ou, didaticamente, nas respirações que marcam o início e o fim de cada frase. Como um texto é definido pelas frases que o compõem, assim também ocorre com uma partitura. Claro, nada disso é simples, o estudo diário é essencial, e no começo costuma se estender por umas oito horas. No caso de músicos experimentados há um certo grau de liberdade, pois eles já têm a medida exata das suas necessidades. Nas vésperas do concerto, aquele polimento final, semelhante à revisão criteriosa que os jornalistas fazem antes da publicação de um texto.
***
Um Estudo é uma peça, em geral, de muita dificuldade técnica e de fôlego. Já uma melodia mais profunda e intensa como a Elegie exigirá bem menos do intérprete em execuções de alta virtuosidade, porém, ao passo que aquelas são muito bem tocadas pelos virtuoses, as outras são mais do domínio dos verdadeiros artistas. Porque uma coisa é ser só um pianista e outra é ser pianista artista. O ideal é ser pianista virtuose e artista, o que é bastante raro. É como aquela sensação que a maioria sente ao assistir a uma incrível façanha de um trapezista. Ele executa movimentos mirabolantes e consegue arrancar aplausos vibrantes da platéia, que fica altamente impressionada, mas longe da genuína emoção. Trata-se de uma reação em nível superficial.
Já a arte exige do observador ou ouvinte uma percepção das coisas transcendentes e inefáveis, e isso não se aprende nos bancos da escola, é um dom inato. O melhor mestre jamais terá o poder de transformar um aluno comum em um artista. Mas, pela educação e pelo refino da sensibilidade, consegue-se entender, compreender e viver a arte que nos é mostrada pelos artistas. Os que criam e os que interpretam.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
LIVROS (1)

A RBS Publicações lança amanhã, terça-feira 28, a partir da 19h, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS), a obra Imagens Gaúchas, composta de três volumes – em edição bilíngüe – com 242 imagens captadas por 37 repórteres fotográficos dos jornais do Grupo RBS.
O lançamento ocorrerá durante a abertura de uma exposição com algumas das fotos do livro. A coletânea tem organização e edição de Pedro Haase Filho e Ricardo Chaves, design gráfico de Auracebio Pereira e textos de Moisés Mendes.
.

A RBS Publicações lança amanhã, terça-feira 28, a partir da 19h, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS), a obra Imagens Gaúchas, composta de três volumes – em edição bilíngüe – com 242 imagens captadas por 37 repórteres fotográficos dos jornais do Grupo RBS.
O lançamento ocorrerá durante a abertura de uma exposição com algumas das fotos do livro. A coletânea tem organização e edição de Pedro Haase Filho e Ricardo Chaves, design gráfico de Auracebio Pereira e textos de Moisés Mendes.
.
LIVROS (2)


José Luiz Prévidi é um jornalista com passagem pelos principais veículos e assessorias de Porto Alegre.
Há cinco anos, Prévidi, que é também uma figuraça (como a foto comprova), decidiu partir para o jornalismo de Internet, com grande sucesso.
Ele acaba de lançar seu segundo livro, 15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda mais Feliz.
Conheça melhor o jornalismo bem humorado do autor em
www.previdi.com.br
ou leia sobre o livro (e compre) no hot site
www.aindamaisfeliz.com
.

José Luiz Prévidi é um jornalista com passagem pelos principais veículos e assessorias de Porto Alegre.
Há cinco anos, Prévidi, que é também uma figuraça (como a foto comprova), decidiu partir para o jornalismo de Internet, com grande sucesso.
Ele acaba de lançar seu segundo livro, 15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda mais Feliz.
Conheça melhor o jornalismo bem humorado do autor em
www.previdi.com.br
ou leia sobre o livro (e compre) no hot site
www.aindamaisfeliz.com
.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
LITERATURA
Auster dá um passo no escuro
A prosa simples e escorreita de Paul Auster lançou-o ao panteão dos grandes autores contemporâneos em língua inglesa, ao lado de nomes como Don DeLillo, John Updike, Phillip Roth, Ian MacEwan e J. M. Coetzee. Nascido em 1947 na cidade de Newark, em New Jersey, Auster conta histórias com a naturalidade dos escritores vocacionais, e seu estoque de sortilégios lingüísticos costuma ser tão básico – e eficaz – quanto o de um avô entretendo os netos.
Obras como A Invenção da Solidão, A Trilogia de Nova York ou Leviatã são credenciais indiscutíveis de um tremendo escritor. Em seu mais recente romance, Homem no Escuro (Cia. Das Letras), Auster dá, literalmente, um passo no escuro, ao retomar fórmulas desgastadas – ainda que possam funcionar lindamente –, com as quais ele próprio já enfrentou dificuldades em lidar em ocasiões anteriores. O resultado é um livro sem foco, destinado mais a expor as idéias de vida e as opiniões políticas do autor do que a contar uma bela história.
O narrador, Augusto Brill, é um homem passado dos setenta anos, viúvo recente, inválido também recente devido a um acidente de carro, que vai morar com a filha, abandonada pelo marido, e com a neta, cujo ex-namorado morreu em circunstâncias trágicas. Para lidar com seus próprios fantasmas e os fantasmas das que o rodeiam, Brill tenta driblar a insônia inventando histórias fantásticas.
Mais uma vez, o personagem tem um ofício semelhante ao do autor. Brill é um resenhista respeitado, ganhador do Pullitzer, a filha está escrevendo um livro e a neta quer ser cineasta. Tudo em casa. Numa casa sombria, repleta de lembranças insuportáveis.
O livro se divide entre a história desta família pouco afortunada e um universo paralelo no qual o 11 de Setembro nunca aconteceu, mas a fraudulenta eleição americana de 2000, que elegeu George W. Bush pela primeira vez, levou a uma nova Guerra Civil. Em vez de matar em terra alheia, os americanos resolvem matarem-se uns aos outros. Vale como crítica social, embora prejudicada pelo maniqueísmo. O personagem central desta subtrama tem de matar o criador, no caso, Brill. Trata-se de Pirandello sem a humanidade alcançada pelo dramaturgo italiano.
Uma das passagens mais brilhantes do livro ocorre quando o autor fala sobre a presença de objetos inanimados a expressar as emoções dos personagens em filmes clássicos como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica. Mas logo retoma seu muro das lamentações particular, depois de a história paralela se encerrar sem dizer a que veio.
O velho e bom Auster da metalinguagem, do subtexto, das histórias dentro de histórias, da obsessão por Kafka, Proust e Beckett, desta vez se perdeu em seu próprio labirinto. Mesmo trabalhos menos expressivos de Auster, no entanto, exibem algum vigor formal, uma prosa deliciosa e momentos pungentes. O problema é que ele já nos deu muito mais. E, depois que se experimenta o melhor...
.
Auster dá um passo no escuro
A prosa simples e escorreita de Paul Auster lançou-o ao panteão dos grandes autores contemporâneos em língua inglesa, ao lado de nomes como Don DeLillo, John Updike, Phillip Roth, Ian MacEwan e J. M. Coetzee. Nascido em 1947 na cidade de Newark, em New Jersey, Auster conta histórias com a naturalidade dos escritores vocacionais, e seu estoque de sortilégios lingüísticos costuma ser tão básico – e eficaz – quanto o de um avô entretendo os netos.
Obras como A Invenção da Solidão, A Trilogia de Nova York ou Leviatã são credenciais indiscutíveis de um tremendo escritor. Em seu mais recente romance, Homem no Escuro (Cia. Das Letras), Auster dá, literalmente, um passo no escuro, ao retomar fórmulas desgastadas – ainda que possam funcionar lindamente –, com as quais ele próprio já enfrentou dificuldades em lidar em ocasiões anteriores. O resultado é um livro sem foco, destinado mais a expor as idéias de vida e as opiniões políticas do autor do que a contar uma bela história.
O narrador, Augusto Brill, é um homem passado dos setenta anos, viúvo recente, inválido também recente devido a um acidente de carro, que vai morar com a filha, abandonada pelo marido, e com a neta, cujo ex-namorado morreu em circunstâncias trágicas. Para lidar com seus próprios fantasmas e os fantasmas das que o rodeiam, Brill tenta driblar a insônia inventando histórias fantásticas.
Mais uma vez, o personagem tem um ofício semelhante ao do autor. Brill é um resenhista respeitado, ganhador do Pullitzer, a filha está escrevendo um livro e a neta quer ser cineasta. Tudo em casa. Numa casa sombria, repleta de lembranças insuportáveis.
O livro se divide entre a história desta família pouco afortunada e um universo paralelo no qual o 11 de Setembro nunca aconteceu, mas a fraudulenta eleição americana de 2000, que elegeu George W. Bush pela primeira vez, levou a uma nova Guerra Civil. Em vez de matar em terra alheia, os americanos resolvem matarem-se uns aos outros. Vale como crítica social, embora prejudicada pelo maniqueísmo. O personagem central desta subtrama tem de matar o criador, no caso, Brill. Trata-se de Pirandello sem a humanidade alcançada pelo dramaturgo italiano.
Uma das passagens mais brilhantes do livro ocorre quando o autor fala sobre a presença de objetos inanimados a expressar as emoções dos personagens em filmes clássicos como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica. Mas logo retoma seu muro das lamentações particular, depois de a história paralela se encerrar sem dizer a que veio.
O velho e bom Auster da metalinguagem, do subtexto, das histórias dentro de histórias, da obsessão por Kafka, Proust e Beckett, desta vez se perdeu em seu próprio labirinto. Mesmo trabalhos menos expressivos de Auster, no entanto, exibem algum vigor formal, uma prosa deliciosa e momentos pungentes. O problema é que ele já nos deu muito mais. E, depois que se experimenta o melhor...
.
TOCO Y ME VOY
Os vincos no rosto e as rugas na alma
Augusto Nunes
Um é novo, outro é velho, decreta a primeira linha de uma reportagemque confronta os perfis dos candidatos Eduardo Paes, 38 anos, eFernando Gabeira, 67. Se a frase estivesse incorporada ao editorial queformaliza a escolha feita por um jornal, nada a objetar. Se incluída em algumtexto assinado por colunistas ou colaboradores, formalmente liberados paraemitir opiniões, tudo bem. Se abre uma reportagem destinada a tratar as coisascomo as coisas são, a isenção é assassinada no início do filme – e oscapítulos restantes são condenados à morte por parcialidade. Não há esperança desalvação para matérias jornalísticas que, amparadas em duas certidões denascimento, decretam em seis palavras quem é o novo e quem é o velho.
Se a diferença de idade é o quesito mais relevante no desfile decomparações, a sensatez e a ética recomendam enunciados que rimem comneutralidade. Por exemplo: um tem 29 anos menos que outro. Ou, então, um tem29 anos mais que o outro. Ou, ainda, um é mais novo que o outro. A escolha deuma quarta opção fez de Paes a encarnação da novidade, da inovação, damudança – e comunicou aos cariocas que o candidato do PV é apenas velho.
Quase 34 anos distante de Oscar Niemeyer, dez atrás de FernandoHenrique Cardoso, quatro à frente de Lula, apenas um à frente deJosé Serra, Gabeira só se encaixaria nessa simplificação se fosseportador de senilidade precoce (e aguda). Como o candidato sessentãochegou ao ponto final da reportagem com boa saúde, deduz-se que odecreto se apoiou exclusivamente no calendário gregoriano.
Juventude é uma expressão associada a entusiasmo, energia,dinamismo, vitalidade. No Brasil, pode ser o outro nome do perigo. Os maisvelhos sabem disso desde o começo da década de 60. Os ainda novos ficaramsabendo na década de 90. Jânio Quadros tinha 44 anos ao tornar-se presidenteem 1961. Renunciou depois de sete meses, sem explicar por quê. O vice JoãoGoulart tinha 43 quando herdou a vaga. Perdeu-a 36 meses mais tarde, depostopelo golpe militar de 1964.
Como a era dos generais revogou a eleição direta, o últimopresidente escolhido nas urnas seria também o mais jovem da históriarepublicana até 1989. Foi superado por Fernando Collor, eleito com 40 anos. Orecordista em idade se tornaria também o único a escapar do impeachment peloatalho da renúncia. Os presidentes quarentões não deixaram saudade.
No começo da campanha, Eduardo Paes parecia moço demais para cuidardo Rio. A poucos dias da decisão, está claro que o corpo de menor de40 tem uma cabeça perturbadoramente envelhecida por excesso de pressa ecarência de princípios. Gabeira foi desde sempre um contemporâneo do mundo aoredor. Paes é a versão remoçada dos políticos do século passado. Um seorienta por idéias. Outro é conduzido por interesses, circunstâncias econveniências. Embarca no trem que lhe parece mais veloz, abandona o vagão quandoa velocidade diminui. Começou no PV, fez uma demorada escala no cordão dosagregados de Cesar Maia, elegeu-se deputado federal pelo PFL, filiou-se aoPSDB, caprichou no papel de inquisidor enquanto durou a CPI dos Correios,foi promovido a secretário nacional do partido, candidatou-se a governadorpara garantir a tribuna indispensável para desancar o padrinho Cesar Maia e oadversário Sérgio Cabral, rendeu-se ao PMDB de olho em alguma vaga nosecretariado estadual. Para quem viveu tão pouco, não é pouca coisa.
Decidido a alojar-se no gabinete do prefeito, topa qualquernegócio, faz tudo o que for preciso. Insulta o tutor Cesar Maia,rasteja diante de Lula, presta vassalagem à primeira-dama, ordenaagressões a cabos eleitorais adversários, mobiliza entidadesfantasmas em passeatas instruídas para gritar que Gabeira odeiasuburbanos, renega os companheiros de combate na CPI, acariciamensaleiros juramentados, absolve de todos os pecados a bandidagemdos partidos que o apóiam. Cesar Maia? Só esse não pode. Babu, overeador de estimação dos moradores dos presídios, esse pode.Delúbio Soares? Pode.
Os vincos no rosto de Fernando Gabeira reafirmam a idade que tem.As rugas na alma de Eduardo Paes informam que a idade mental é muito maiorque a oficial.
Um é antigo. Outro é moderno.
Publicado originalmente no Jornal do Brasil e republicado aqui com a anuência do autor.
.
Os vincos no rosto e as rugas na alma
Augusto Nunes
Um é novo, outro é velho, decreta a primeira linha de uma reportagemque confronta os perfis dos candidatos Eduardo Paes, 38 anos, eFernando Gabeira, 67. Se a frase estivesse incorporada ao editorial queformaliza a escolha feita por um jornal, nada a objetar. Se incluída em algumtexto assinado por colunistas ou colaboradores, formalmente liberados paraemitir opiniões, tudo bem. Se abre uma reportagem destinada a tratar as coisascomo as coisas são, a isenção é assassinada no início do filme – e oscapítulos restantes são condenados à morte por parcialidade. Não há esperança desalvação para matérias jornalísticas que, amparadas em duas certidões denascimento, decretam em seis palavras quem é o novo e quem é o velho.
Se a diferença de idade é o quesito mais relevante no desfile decomparações, a sensatez e a ética recomendam enunciados que rimem comneutralidade. Por exemplo: um tem 29 anos menos que outro. Ou, então, um tem29 anos mais que o outro. Ou, ainda, um é mais novo que o outro. A escolha deuma quarta opção fez de Paes a encarnação da novidade, da inovação, damudança – e comunicou aos cariocas que o candidato do PV é apenas velho.
Quase 34 anos distante de Oscar Niemeyer, dez atrás de FernandoHenrique Cardoso, quatro à frente de Lula, apenas um à frente deJosé Serra, Gabeira só se encaixaria nessa simplificação se fosseportador de senilidade precoce (e aguda). Como o candidato sessentãochegou ao ponto final da reportagem com boa saúde, deduz-se que odecreto se apoiou exclusivamente no calendário gregoriano.
Juventude é uma expressão associada a entusiasmo, energia,dinamismo, vitalidade. No Brasil, pode ser o outro nome do perigo. Os maisvelhos sabem disso desde o começo da década de 60. Os ainda novos ficaramsabendo na década de 90. Jânio Quadros tinha 44 anos ao tornar-se presidenteem 1961. Renunciou depois de sete meses, sem explicar por quê. O vice JoãoGoulart tinha 43 quando herdou a vaga. Perdeu-a 36 meses mais tarde, depostopelo golpe militar de 1964.
Como a era dos generais revogou a eleição direta, o últimopresidente escolhido nas urnas seria também o mais jovem da históriarepublicana até 1989. Foi superado por Fernando Collor, eleito com 40 anos. Orecordista em idade se tornaria também o único a escapar do impeachment peloatalho da renúncia. Os presidentes quarentões não deixaram saudade.
No começo da campanha, Eduardo Paes parecia moço demais para cuidardo Rio. A poucos dias da decisão, está claro que o corpo de menor de40 tem uma cabeça perturbadoramente envelhecida por excesso de pressa ecarência de princípios. Gabeira foi desde sempre um contemporâneo do mundo aoredor. Paes é a versão remoçada dos políticos do século passado. Um seorienta por idéias. Outro é conduzido por interesses, circunstâncias econveniências. Embarca no trem que lhe parece mais veloz, abandona o vagão quandoa velocidade diminui. Começou no PV, fez uma demorada escala no cordão dosagregados de Cesar Maia, elegeu-se deputado federal pelo PFL, filiou-se aoPSDB, caprichou no papel de inquisidor enquanto durou a CPI dos Correios,foi promovido a secretário nacional do partido, candidatou-se a governadorpara garantir a tribuna indispensável para desancar o padrinho Cesar Maia e oadversário Sérgio Cabral, rendeu-se ao PMDB de olho em alguma vaga nosecretariado estadual. Para quem viveu tão pouco, não é pouca coisa.
Decidido a alojar-se no gabinete do prefeito, topa qualquernegócio, faz tudo o que for preciso. Insulta o tutor Cesar Maia,rasteja diante de Lula, presta vassalagem à primeira-dama, ordenaagressões a cabos eleitorais adversários, mobiliza entidadesfantasmas em passeatas instruídas para gritar que Gabeira odeiasuburbanos, renega os companheiros de combate na CPI, acariciamensaleiros juramentados, absolve de todos os pecados a bandidagemdos partidos que o apóiam. Cesar Maia? Só esse não pode. Babu, overeador de estimação dos moradores dos presídios, esse pode.Delúbio Soares? Pode.
Os vincos no rosto de Fernando Gabeira reafirmam a idade que tem.As rugas na alma de Eduardo Paes informam que a idade mental é muito maiorque a oficial.
Um é antigo. Outro é moderno.
Publicado originalmente no Jornal do Brasil e republicado aqui com a anuência do autor.
.
PLANETA TERRA
Retirei o banner do wecansolveit.org ali da direita porque, apesar de admirar a causa comandada por Al Gore, eu esperava uma atuação mais global. Nos últimos meses, no entanto, a ONG tem se dirigido exclusivamente ao povo americano. Por mais respeitável que seja sua bandeira, não tenho como empunhá-la no momento e, por menos representativo que seja este espaço, pretendo usá-lo apenas para promover causas às quais eu me sinta de fato engajado. Agradeço a todos pela compreensão.
.
Retirei o banner do wecansolveit.org ali da direita porque, apesar de admirar a causa comandada por Al Gore, eu esperava uma atuação mais global. Nos últimos meses, no entanto, a ONG tem se dirigido exclusivamente ao povo americano. Por mais respeitável que seja sua bandeira, não tenho como empunhá-la no momento e, por menos representativo que seja este espaço, pretendo usá-lo apenas para promover causas às quais eu me sinta de fato engajado. Agradeço a todos pela compreensão.
.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
PLANETA TERRA (2)
O banner do Instituto Carijós Pró-Conservação da Natureza, por sua vez, passa a ocupar o topo da coluna. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do IC basta clicar ali. Neste espaço, em vez de falar sobre ele, coloco algumas fotos auto-explicativas. É isto o que tentamos salvar todos os que o apoiamos. As fotos são de Anselmo Malagoli, que foi um dos fundadores do Instituto, há mais de 9 anos.



O banner do Instituto Carijós Pró-Conservação da Natureza, por sua vez, passa a ocupar o topo da coluna. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do IC basta clicar ali. Neste espaço, em vez de falar sobre ele, coloco algumas fotos auto-explicativas. É isto o que tentamos salvar todos os que o apoiamos. As fotos são de Anselmo Malagoli, que foi um dos fundadores do Instituto, há mais de 9 anos.



Assinar:
Postagens (Atom)





