O DIA EM QUE A TERRA PAROU
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
REPLAY
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A reportagem de capa da revista Veja, em 24 de dezembro, tratava do genocídio em Darfur; na celebração do nascimento de Cristo, a dramática foto de uma refugiada com o filho no colo em uma alegoria cruel, mas real, da Virgem Maria. Em 7 de janeiro, Veja estampou na capa foto do enterro de uma das centenas de vítimas dos ataques de Israel à Faixa de Gaza.
Mais de dois anos atrás escrevi sobre Darfur e sobre o drama dos conflitos de Israel com o Hezbollah, no Líbano. Troque-se Hezbollah por Hamas, e Líbano por Faixa de Gaza, e ambos os textos seguem lamentavelmente atuais.
O genocídio esquecido
Darfur não freqüenta os noticiários com a assiduidade necessária. O chamado “público em geral” nem sabe o que é Darfur que, no entanto, tem sido palco de um genocídio que já dura mais de três anos. Localizado no Oeste do Sudão, a região tem sido alvo de bombardeios aéreos constantes, complementados por ataques terrestres destinados a deixar o mínimo possível de sobreviventes. O número de mortos, de acordo com a ONU, passa dos 200 mil. Estimativas menos otimistas indicam que se aproxima do meio milhão.
As Nações Unidas e os EUA admitem que se trata de limpeza étnica, mas não têm despendido tempo e energias para conter a matança promovida pelo regime fundamentalista de Cartum. Preferem deixar a missão a cargo da União Africana, que designou entre 3 e 7 mil soldados para a tarefa, um efetivo irrisório para a situação.
A pretexto de combate à guerrilha, a Força Aérea sudanesa e a Janjaweed, a milícia oficial, não dão trégua na chacina. Mais de dois milhões de zurgas, termo pejorativo usado pelos opressores, tiveram de deixar suas casas, sendo que 500 mil deles se refugiaram no vizinho Chade, um dos países mais miseráveis do mundo. Muitos morrerão de fome. Os que ficaram em Darfur morrem à média de 20 mil por mês, assassinados ou de fome.
Nesse ritmo, o genocídio talvez acabará nos próximos anos por falta de vítimas. Darfur tem uma área semelhante à da França e uma população entre 5 e 6 milhões. Os Estados Unidos têm feito vistas grossas, a exemplo de outras potências ocidentais, como a Inglaterra e a França, por causa do abundante petróleo do Sudão. Uma razão suplementar para o silêncio americano seria a suposta colaboração do regime de Cartum na busca por Osama Bin Laden e outros membros graduados da Al Qaeda.
A ONU aprovou em setembro uma resolução segundo a qual 17 mil soldados de sua força de paz substituiriam os da União Africana. O governo sudanês rejeitou a idéia. Para o presidente Omar al-Bashir, trata-se de "uma conspiração para confiscar a soberania do país”. O impasse continua. O massacre também.
Publicado originalmente em 24 de outubro de 2006 no site coletiva.net
O silêncio dos deuses

O olhar mira o infinito, em busca da impossível explicação. A voz interior conversa com o vazio que acaba de lhe preencher. Quem sabe Deus, ou Alá, ou divindades de quaisquer nomes possam escutar. Mas não. Os deuses estão calados agora, envergonhados de sua própria criação, impotentes, acuados. Ninguém responde. Ao silêncio dos deuses se soma a imensidão surda ao redor. Nenhum ruído. Seria possível ouvir a queda de um alfinete, caso a audição, como todos os outros sentidos, não estivesse fechada para a realidade. Um isolamento que o deixa a salvo do barulho das bombas, do cheiro de morte, da visão horripilante posta em seus braços, do fustigar dos escombros sob os pés. Pés que avançam céleres, embora seja tarde demais e o tempo, conceito sempre abstrato, agora não passe de uma palavra sem sentido, como tantas outras, como todas as outras. Junções aleatórias de letras, sempre dispostas a trair seu significado. Amor, solidariedade, dor, perda, ódio, intransigência, violência, pedras, água, petróleo, alimento, dinheiro, vida. Palavras que se enredam já desprovidas de significados, perdidas em meio à mistura de fumaça, poeira e restos. Restos do que foi uma habitação, restos do que foi uma vida. A vida jaz ali, a poucos centímetros do olhar, mas este olhar já não faz questão de ver. Quem sabe se não olhando, o pequeno cadáver desaparece como por mágica. Quem sabe uma prece resolvesse, se ele pudesse falar. Se eles pudessem ouvir. Porque no espaço sem som, cor, odor ou substância que ele ora habita, as palavras não se propagam. Apenas pairam no ar, como os vestígios de um artefato mortal disparado por homens que agora celebram, enquanto outros homens se aprontam para disparar outro artefato em sentido contrário, já prontos para nova celebração. Um espaço de tempo infinito nas terras da dor infinita. O que são segundos de sofrimento diante de milênios de agonia. Mas agora a agonia é concreta. Está ali, estendida nos braços. Pior, nem agonia existe. Apenas o fim, a perda, o vazio, o grande e inescapável nada. Não há para onde olhar, não há quem possa escutar. Há apenas o avanço de pernas vacilantes sobre pedaços de concreto e pedaços de corpos. Não há como fugir. Não há para onde fugir. Não dá para evitar, tampouco reparar. Resta apenas vagar no limbo do choque antes que novas ondas de choque venham furar a camada de inconsciência. Pouco importa se ele é o pai da criança, um vizinho solidário ou um terrorista. Pouco importa de que lado veio a bomba, ou quais as razões históricas do conflito. Agora, enquanto o olhar busca a transcendência, importa apenas o pequeno corpo estendido nos braços. Importa apenas a espera desesperada por uma resposta.
Publicado originalmente no site coletiva.net
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Mais de dois anos atrás escrevi sobre Darfur e sobre o drama dos conflitos de Israel com o Hezbollah, no Líbano. Troque-se Hezbollah por Hamas, e Líbano por Faixa de Gaza, e ambos os textos seguem lamentavelmente atuais.
O genocídio esquecido
Darfur não freqüenta os noticiários com a assiduidade necessária. O chamado “público em geral” nem sabe o que é Darfur que, no entanto, tem sido palco de um genocídio que já dura mais de três anos. Localizado no Oeste do Sudão, a região tem sido alvo de bombardeios aéreos constantes, complementados por ataques terrestres destinados a deixar o mínimo possível de sobreviventes. O número de mortos, de acordo com a ONU, passa dos 200 mil. Estimativas menos otimistas indicam que se aproxima do meio milhão.
As Nações Unidas e os EUA admitem que se trata de limpeza étnica, mas não têm despendido tempo e energias para conter a matança promovida pelo regime fundamentalista de Cartum. Preferem deixar a missão a cargo da União Africana, que designou entre 3 e 7 mil soldados para a tarefa, um efetivo irrisório para a situação.
A pretexto de combate à guerrilha, a Força Aérea sudanesa e a Janjaweed, a milícia oficial, não dão trégua na chacina. Mais de dois milhões de zurgas, termo pejorativo usado pelos opressores, tiveram de deixar suas casas, sendo que 500 mil deles se refugiaram no vizinho Chade, um dos países mais miseráveis do mundo. Muitos morrerão de fome. Os que ficaram em Darfur morrem à média de 20 mil por mês, assassinados ou de fome.
Nesse ritmo, o genocídio talvez acabará nos próximos anos por falta de vítimas. Darfur tem uma área semelhante à da França e uma população entre 5 e 6 milhões. Os Estados Unidos têm feito vistas grossas, a exemplo de outras potências ocidentais, como a Inglaterra e a França, por causa do abundante petróleo do Sudão. Uma razão suplementar para o silêncio americano seria a suposta colaboração do regime de Cartum na busca por Osama Bin Laden e outros membros graduados da Al Qaeda.
A ONU aprovou em setembro uma resolução segundo a qual 17 mil soldados de sua força de paz substituiriam os da União Africana. O governo sudanês rejeitou a idéia. Para o presidente Omar al-Bashir, trata-se de "uma conspiração para confiscar a soberania do país”. O impasse continua. O massacre também.
Publicado originalmente em 24 de outubro de 2006 no site coletiva.net
O silêncio dos deuses

O olhar mira o infinito, em busca da impossível explicação. A voz interior conversa com o vazio que acaba de lhe preencher. Quem sabe Deus, ou Alá, ou divindades de quaisquer nomes possam escutar. Mas não. Os deuses estão calados agora, envergonhados de sua própria criação, impotentes, acuados. Ninguém responde. Ao silêncio dos deuses se soma a imensidão surda ao redor. Nenhum ruído. Seria possível ouvir a queda de um alfinete, caso a audição, como todos os outros sentidos, não estivesse fechada para a realidade. Um isolamento que o deixa a salvo do barulho das bombas, do cheiro de morte, da visão horripilante posta em seus braços, do fustigar dos escombros sob os pés. Pés que avançam céleres, embora seja tarde demais e o tempo, conceito sempre abstrato, agora não passe de uma palavra sem sentido, como tantas outras, como todas as outras. Junções aleatórias de letras, sempre dispostas a trair seu significado. Amor, solidariedade, dor, perda, ódio, intransigência, violência, pedras, água, petróleo, alimento, dinheiro, vida. Palavras que se enredam já desprovidas de significados, perdidas em meio à mistura de fumaça, poeira e restos. Restos do que foi uma habitação, restos do que foi uma vida. A vida jaz ali, a poucos centímetros do olhar, mas este olhar já não faz questão de ver. Quem sabe se não olhando, o pequeno cadáver desaparece como por mágica. Quem sabe uma prece resolvesse, se ele pudesse falar. Se eles pudessem ouvir. Porque no espaço sem som, cor, odor ou substância que ele ora habita, as palavras não se propagam. Apenas pairam no ar, como os vestígios de um artefato mortal disparado por homens que agora celebram, enquanto outros homens se aprontam para disparar outro artefato em sentido contrário, já prontos para nova celebração. Um espaço de tempo infinito nas terras da dor infinita. O que são segundos de sofrimento diante de milênios de agonia. Mas agora a agonia é concreta. Está ali, estendida nos braços. Pior, nem agonia existe. Apenas o fim, a perda, o vazio, o grande e inescapável nada. Não há para onde olhar, não há quem possa escutar. Há apenas o avanço de pernas vacilantes sobre pedaços de concreto e pedaços de corpos. Não há como fugir. Não há para onde fugir. Não dá para evitar, tampouco reparar. Resta apenas vagar no limbo do choque antes que novas ondas de choque venham furar a camada de inconsciência. Pouco importa se ele é o pai da criança, um vizinho solidário ou um terrorista. Pouco importa de que lado veio a bomba, ou quais as razões históricas do conflito. Agora, enquanto o olhar busca a transcendência, importa apenas o pequeno corpo estendido nos braços. Importa apenas a espera desesperada por uma resposta.
Publicado originalmente no site coletiva.net
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
sábado, 3 de janeiro de 2009
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
BALANÇO 2008
Diário de um ano ruim
O título deste post, subtraído ao mais recente romance de J. M. Coetzee, não pretende renegar as conquistas de 2008, mas lembrar de que não é o bastante, de que 2009 terá de ser muito melhor, como cada novo ano, ao menos enquanto não se desiste de sonhar. A seguir, uma espécie de prestação de contas para que os amigos tenham uma idéia do que andei fazendo. Agradeço a todos que passaram por aqui, peço perdão pelo eventual abandono do Blog – creiam-me, foi por absoluta falta de tempo – e espero contar com vocês ao longo dos próximos 12 meses.

De janeiro a março (e a partir de julho de 2007), morei em Florianópolis, onde coordenei o projeto Roteiros do Brasil, da editora Letras Brasileiras, de Werner Zotz e Jakzam Kaiser, sob encomenda do Ministério do Turismo. O conteúdo produzido ao longo daqueles meses resultou no site www.roteirosdobrasil.tur.br/
e em 27 revistas, uma para cada Estado brasileiro. A montagem ao lado é da Fotomundo, do Markito e do Plínio Bordin, fotógrafos que integraram a equipe.
Abril e maio foram dedicados a ajudar
Eduardo Bueno, o famoso
Peninha, na pesquisa e nos
textos do livro Produto Nacional,
uma história da indústria Brasileira,
para a Confederação Nacional
da Indústria (CNI). Na foto,
Peninha faz a clássica
pose do “mostra o livro aí”
em foto de divulgação de
Miguel Ângelo, da CNI.
Em julho, produzi e editei a
primeira edição do jornal
Carta de Gramado, do
Congresso Brasileiro de
Mastologia/Gramado 2009,
presidido pelo mastologista
José Luiz Pedrini.
Diário de um ano ruim
O título deste post, subtraído ao mais recente romance de J. M. Coetzee, não pretende renegar as conquistas de 2008, mas lembrar de que não é o bastante, de que 2009 terá de ser muito melhor, como cada novo ano, ao menos enquanto não se desiste de sonhar. A seguir, uma espécie de prestação de contas para que os amigos tenham uma idéia do que andei fazendo. Agradeço a todos que passaram por aqui, peço perdão pelo eventual abandono do Blog – creiam-me, foi por absoluta falta de tempo – e espero contar com vocês ao longo dos próximos 12 meses.
De janeiro a março (e a partir de julho de 2007), morei em Florianópolis, onde coordenei o projeto Roteiros do Brasil, da editora Letras Brasileiras, de Werner Zotz e Jakzam Kaiser, sob encomenda do Ministério do Turismo. O conteúdo produzido ao longo daqueles meses resultou no site www.roteirosdobrasil.tur.br/
e em 27 revistas, uma para cada Estado brasileiro. A montagem ao lado é da Fotomundo, do Markito e do Plínio Bordin, fotógrafos que integraram a equipe.
Abril e maio foram dedicados a ajudarEduardo Bueno, o famoso
Peninha, na pesquisa e nos
textos do livro Produto Nacional,
uma história da indústria Brasileira,
para a Confederação Nacional
da Indústria (CNI). Na foto,
Peninha faz a clássica
pose do “mostra o livro aí”
em foto de divulgação de
Miguel Ângelo, da CNI.
textos de Falange Gaúcha,
livro produzido a partir
de uma série de reportagens
premiadas de Renato Dornelles,
do Diário Gaúcho,
para a RBS Publicações,
dirigida por Pedro Haase Filho.
Em julho, produzi e editei aprimeira edição do jornal
Carta de Gramado, do
Congresso Brasileiro de
Mastologia/Gramado 2009,
presidido pelo mastologista
José Luiz Pedrini.
produzi reportagens e textos
para duas publicações da
Editora Expressão, uma própria,
o Anuário Ecológico,
e outra terceirizada,
ambas editadas por
Vladimir Brandão.
Vladimir Brandão.
esporádicos, como uma resenha
do mais recente livro de
Paul Auster para a
revista Aplauso, encomendada
pelo editor Flávio Ilha.
A partir de julho, ajudei a escritora e jornalista Regina Echeverria na finalização da biografia (de autoria dela) do ex-presidente José Sarney.
Em 2008, mais uma vez, tive o privilégio de trabalhar com o que gosto, junto a grandes profissionais e grandes empresas. Este foi o diário de um ano ruim. Os planos para 2009 são ainda mais ambiciosos. Como tem de ser sempre, ao menos enquanto não se desiste de sonhar.
Um grande ano a todos.
Em 2008, mais uma vez, tive o privilégio de trabalhar com o que gosto, junto a grandes profissionais e grandes empresas. Este foi o diário de um ano ruim. Os planos para 2009 são ainda mais ambiciosos. Como tem de ser sempre, ao menos enquanto não se desiste de sonhar.
Um grande ano a todos.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
TOCO Y ME VOY
Recebi um e-mail de um amigo no qual ele incluiu um link para uma interpretação de Rachmaninoff. No diálogo que se seguiu ele acabou fazendo uma longa exposição que julguei interessante publicar aqui, para que todos possam apreciar esta verdadeira aula de música.
O amante perfeito
Cláudio Barcellos de Paula Couto
Falando de Rachmaninoff – mas vale para qualquer obra de arte –, vem-me à memória a lição de um velho e grande personagem da música pianística – Wladimir Horowitz – a propósito dos gêneros da música, popular ou erudita, não importa:
"Olho e analiso uma partitura muito em respeito ao compositor, pois, ao compor, ele está nos passando uma parte da história da vida dele e a emoção imortal. Isso é o que importa. Detenho-me nos contrastes em preto e branco – pois sabemos que os sons musicais são representados na pauta por símbolos escuros. Se os contrastes são muito evidentes e disseminados, significa que foram usadas muitas notas; se não, são poucas notas e complementos. Não raro, as partituras mais claras exigem muito mais do intérprete do que as muito povoadas, porque de modo geral são mais comprometidas com a simplicidade e a singeleza. Portanto, é preciso passar todo o conteúdo em poucas palavras (notas musicais). Então, cada nota tem uma expressão e uma significação enorme no conjunto”.
Ele se referia à Reverie das Cenas Infantis de R. Schumann.
Se muitas “fusas e semifusas” são escritas, ou os acordes são numerosos, temos uma partitura com uma rica sonoridade e, se em “allegro ou “allegro vivace”, andamentos os mais acelerados, então a composição é intrinsicamente mais complexa e de difícil execução mecânica.
Compositores como F. Liszt, F. Chopin e S. Rachmaninoff produziram muitas partituras do tipo estudo. São, quase sempre, composições didáticas (para o desenvolvimento e abrangência da boa técnica) ou o aprimoramento e a exposição das potencialidades virtuosísticas... fundamento do talento do concertista.
Explicitamos a intenção do uso da palavra “mecânica” para induzir à percepção de uma música que tem, em segundo plano, a profundidade e a densidade da emoção transmitida e sentida (interação). Em contraponto, composições classificadas como “elegie, noturno, sonata, valsa e berceuse” são, comumente, escritas mais objetivamente e em andamento mais para moderado, grave ou lento assai” pois a emotividade fica mais explícita, mais exposta e mais à flor da pele.
Não existe um, "determinismo" nisso, mas podemos dizer que é uma regra comum.
***
Rachmaninoff compôs os seus quatro concertos para piano e orquestra com uma enorme riqueza sonora pelos muitos acordes que usou.
No entanto, se você estiver interpretando uma peça com poucas notas e quiser passar emoção e intensidade – o que é o grande diferencial de um artista – estará diante de uma tarefa e tanto. Com poucas notas e complementos é preciso, muitas vezes, transformar o limão em limonada, passando o aroma de uma rosa com uma simples flor do campo. Mal comparando, é preciso ser um namorado e não apenas um “ficante”.
Neste caso, para ser um amante perfeito você terá que exaltar a intensidade e o colorido sonoro por meio, principalmente, de dois recursos: os pedais e o "legato". Em relação aos pedais tem de saber usar a técnica, porque do contrário irá sobrepor demais os sons e ficará tudo confuso. Já o "legato" é um recurso essencial para manter um som e passar ao próximo sem deixar vazios. Isso é proibido. Os sons ficam amalgamados.
***
Escutemos, agora com ouvidos sensíveis e prevenidos, as riquezas e nuances das duas peças: o Estudo e a Elegie. Tanto a Yollanda (na Elegie) como a Aleksandra, no Etude-Tableaux, quase sempre mantêm as mãos junto ao teclado e os braços e mãos absolutamente flexíveis e soltos. Isso permite a elas um fantástico grau de liberdade nos movimentos necessários dos braços, das mãos e dos dedos, algo absolutamente necessários para a execução do "legato". Em Yollanda, nota-se a movimentação das pernas, em especial a perna esquerda, que controla o pedal da sonoridade do piano. Como elas sabem, e muito bem, manejar estes recursos, o resultado é o que chamamos de um som "cantabile" ou cantante.
O fraseado torna-se nítido no simples ato de escutar ou, didaticamente, nas respirações que marcam o início e o fim de cada frase. Como um texto é definido pelas frases que o compõem, assim também ocorre com uma partitura. Claro, nada disso é simples, o estudo diário é essencial, e no começo costuma se estender por umas oito horas. No caso de músicos experimentados há um certo grau de liberdade, pois eles já têm a medida exata das suas necessidades. Nas vésperas do concerto, aquele polimento final, semelhante à revisão criteriosa que os jornalistas fazem antes da publicação de um texto.
***
Um Estudo é uma peça, em geral, de muita dificuldade técnica e de fôlego. Já uma melodia mais profunda e intensa como a Elegie exigirá bem menos do intérprete em execuções de alta virtuosidade, porém, ao passo que aquelas são muito bem tocadas pelos virtuoses, as outras são mais do domínio dos verdadeiros artistas. Porque uma coisa é ser só um pianista e outra é ser pianista artista. O ideal é ser pianista virtuose e artista, o que é bastante raro. É como aquela sensação que a maioria sente ao assistir a uma incrível façanha de um trapezista. Ele executa movimentos mirabolantes e consegue arrancar aplausos vibrantes da platéia, que fica altamente impressionada, mas longe da genuína emoção. Trata-se de uma reação em nível superficial.
Já a arte exige do observador ou ouvinte uma percepção das coisas transcendentes e inefáveis, e isso não se aprende nos bancos da escola, é um dom inato. O melhor mestre jamais terá o poder de transformar um aluno comum em um artista. Mas, pela educação e pelo refino da sensibilidade, consegue-se entender, compreender e viver a arte que nos é mostrada pelos artistas. Os que criam e os que interpretam.
Recebi um e-mail de um amigo no qual ele incluiu um link para uma interpretação de Rachmaninoff. No diálogo que se seguiu ele acabou fazendo uma longa exposição que julguei interessante publicar aqui, para que todos possam apreciar esta verdadeira aula de música.
O amante perfeito
Cláudio Barcellos de Paula Couto
Falando de Rachmaninoff – mas vale para qualquer obra de arte –, vem-me à memória a lição de um velho e grande personagem da música pianística – Wladimir Horowitz – a propósito dos gêneros da música, popular ou erudita, não importa:
"Olho e analiso uma partitura muito em respeito ao compositor, pois, ao compor, ele está nos passando uma parte da história da vida dele e a emoção imortal. Isso é o que importa. Detenho-me nos contrastes em preto e branco – pois sabemos que os sons musicais são representados na pauta por símbolos escuros. Se os contrastes são muito evidentes e disseminados, significa que foram usadas muitas notas; se não, são poucas notas e complementos. Não raro, as partituras mais claras exigem muito mais do intérprete do que as muito povoadas, porque de modo geral são mais comprometidas com a simplicidade e a singeleza. Portanto, é preciso passar todo o conteúdo em poucas palavras (notas musicais). Então, cada nota tem uma expressão e uma significação enorme no conjunto”.
Ele se referia à Reverie das Cenas Infantis de R. Schumann.
Se muitas “fusas e semifusas” são escritas, ou os acordes são numerosos, temos uma partitura com uma rica sonoridade e, se em “allegro ou “allegro vivace”, andamentos os mais acelerados, então a composição é intrinsicamente mais complexa e de difícil execução mecânica.
Compositores como F. Liszt, F. Chopin e S. Rachmaninoff produziram muitas partituras do tipo estudo. São, quase sempre, composições didáticas (para o desenvolvimento e abrangência da boa técnica) ou o aprimoramento e a exposição das potencialidades virtuosísticas... fundamento do talento do concertista.
Explicitamos a intenção do uso da palavra “mecânica” para induzir à percepção de uma música que tem, em segundo plano, a profundidade e a densidade da emoção transmitida e sentida (interação). Em contraponto, composições classificadas como “elegie, noturno, sonata, valsa e berceuse” são, comumente, escritas mais objetivamente e em andamento mais para moderado, grave ou lento assai” pois a emotividade fica mais explícita, mais exposta e mais à flor da pele.
Não existe um, "determinismo" nisso, mas podemos dizer que é uma regra comum.
***
Rachmaninoff compôs os seus quatro concertos para piano e orquestra com uma enorme riqueza sonora pelos muitos acordes que usou.
No entanto, se você estiver interpretando uma peça com poucas notas e quiser passar emoção e intensidade – o que é o grande diferencial de um artista – estará diante de uma tarefa e tanto. Com poucas notas e complementos é preciso, muitas vezes, transformar o limão em limonada, passando o aroma de uma rosa com uma simples flor do campo. Mal comparando, é preciso ser um namorado e não apenas um “ficante”.
Neste caso, para ser um amante perfeito você terá que exaltar a intensidade e o colorido sonoro por meio, principalmente, de dois recursos: os pedais e o "legato". Em relação aos pedais tem de saber usar a técnica, porque do contrário irá sobrepor demais os sons e ficará tudo confuso. Já o "legato" é um recurso essencial para manter um som e passar ao próximo sem deixar vazios. Isso é proibido. Os sons ficam amalgamados.
***
Escutemos, agora com ouvidos sensíveis e prevenidos, as riquezas e nuances das duas peças: o Estudo e a Elegie. Tanto a Yollanda (na Elegie) como a Aleksandra, no Etude-Tableaux, quase sempre mantêm as mãos junto ao teclado e os braços e mãos absolutamente flexíveis e soltos. Isso permite a elas um fantástico grau de liberdade nos movimentos necessários dos braços, das mãos e dos dedos, algo absolutamente necessários para a execução do "legato". Em Yollanda, nota-se a movimentação das pernas, em especial a perna esquerda, que controla o pedal da sonoridade do piano. Como elas sabem, e muito bem, manejar estes recursos, o resultado é o que chamamos de um som "cantabile" ou cantante.
O fraseado torna-se nítido no simples ato de escutar ou, didaticamente, nas respirações que marcam o início e o fim de cada frase. Como um texto é definido pelas frases que o compõem, assim também ocorre com uma partitura. Claro, nada disso é simples, o estudo diário é essencial, e no começo costuma se estender por umas oito horas. No caso de músicos experimentados há um certo grau de liberdade, pois eles já têm a medida exata das suas necessidades. Nas vésperas do concerto, aquele polimento final, semelhante à revisão criteriosa que os jornalistas fazem antes da publicação de um texto.
***
Um Estudo é uma peça, em geral, de muita dificuldade técnica e de fôlego. Já uma melodia mais profunda e intensa como a Elegie exigirá bem menos do intérprete em execuções de alta virtuosidade, porém, ao passo que aquelas são muito bem tocadas pelos virtuoses, as outras são mais do domínio dos verdadeiros artistas. Porque uma coisa é ser só um pianista e outra é ser pianista artista. O ideal é ser pianista virtuose e artista, o que é bastante raro. É como aquela sensação que a maioria sente ao assistir a uma incrível façanha de um trapezista. Ele executa movimentos mirabolantes e consegue arrancar aplausos vibrantes da platéia, que fica altamente impressionada, mas longe da genuína emoção. Trata-se de uma reação em nível superficial.
Já a arte exige do observador ou ouvinte uma percepção das coisas transcendentes e inefáveis, e isso não se aprende nos bancos da escola, é um dom inato. O melhor mestre jamais terá o poder de transformar um aluno comum em um artista. Mas, pela educação e pelo refino da sensibilidade, consegue-se entender, compreender e viver a arte que nos é mostrada pelos artistas. Os que criam e os que interpretam.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
LIVROS (1)

A RBS Publicações lança amanhã, terça-feira 28, a partir da 19h, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS), a obra Imagens Gaúchas, composta de três volumes – em edição bilíngüe – com 242 imagens captadas por 37 repórteres fotográficos dos jornais do Grupo RBS.
O lançamento ocorrerá durante a abertura de uma exposição com algumas das fotos do livro. A coletânea tem organização e edição de Pedro Haase Filho e Ricardo Chaves, design gráfico de Auracebio Pereira e textos de Moisés Mendes.
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A RBS Publicações lança amanhã, terça-feira 28, a partir da 19h, no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS), a obra Imagens Gaúchas, composta de três volumes – em edição bilíngüe – com 242 imagens captadas por 37 repórteres fotográficos dos jornais do Grupo RBS.
O lançamento ocorrerá durante a abertura de uma exposição com algumas das fotos do livro. A coletânea tem organização e edição de Pedro Haase Filho e Ricardo Chaves, design gráfico de Auracebio Pereira e textos de Moisés Mendes.
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LIVROS (2)


José Luiz Prévidi é um jornalista com passagem pelos principais veículos e assessorias de Porto Alegre.
Há cinco anos, Prévidi, que é também uma figuraça (como a foto comprova), decidiu partir para o jornalismo de Internet, com grande sucesso.
Ele acaba de lançar seu segundo livro, 15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda mais Feliz.
Conheça melhor o jornalismo bem humorado do autor em
www.previdi.com.br
ou leia sobre o livro (e compre) no hot site
www.aindamaisfeliz.com
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José Luiz Prévidi é um jornalista com passagem pelos principais veículos e assessorias de Porto Alegre.
Há cinco anos, Prévidi, que é também uma figuraça (como a foto comprova), decidiu partir para o jornalismo de Internet, com grande sucesso.
Ele acaba de lançar seu segundo livro, 15 Maneiras Diferentes de Ser Ainda mais Feliz.
Conheça melhor o jornalismo bem humorado do autor em
www.previdi.com.br
ou leia sobre o livro (e compre) no hot site
www.aindamaisfeliz.com
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terça-feira, 21 de outubro de 2008
LITERATURA
Auster dá um passo no escuro
A prosa simples e escorreita de Paul Auster lançou-o ao panteão dos grandes autores contemporâneos em língua inglesa, ao lado de nomes como Don DeLillo, John Updike, Phillip Roth, Ian MacEwan e J. M. Coetzee. Nascido em 1947 na cidade de Newark, em New Jersey, Auster conta histórias com a naturalidade dos escritores vocacionais, e seu estoque de sortilégios lingüísticos costuma ser tão básico – e eficaz – quanto o de um avô entretendo os netos.
Obras como A Invenção da Solidão, A Trilogia de Nova York ou Leviatã são credenciais indiscutíveis de um tremendo escritor. Em seu mais recente romance, Homem no Escuro (Cia. Das Letras), Auster dá, literalmente, um passo no escuro, ao retomar fórmulas desgastadas – ainda que possam funcionar lindamente –, com as quais ele próprio já enfrentou dificuldades em lidar em ocasiões anteriores. O resultado é um livro sem foco, destinado mais a expor as idéias de vida e as opiniões políticas do autor do que a contar uma bela história.
O narrador, Augusto Brill, é um homem passado dos setenta anos, viúvo recente, inválido também recente devido a um acidente de carro, que vai morar com a filha, abandonada pelo marido, e com a neta, cujo ex-namorado morreu em circunstâncias trágicas. Para lidar com seus próprios fantasmas e os fantasmas das que o rodeiam, Brill tenta driblar a insônia inventando histórias fantásticas.
Mais uma vez, o personagem tem um ofício semelhante ao do autor. Brill é um resenhista respeitado, ganhador do Pullitzer, a filha está escrevendo um livro e a neta quer ser cineasta. Tudo em casa. Numa casa sombria, repleta de lembranças insuportáveis.
O livro se divide entre a história desta família pouco afortunada e um universo paralelo no qual o 11 de Setembro nunca aconteceu, mas a fraudulenta eleição americana de 2000, que elegeu George W. Bush pela primeira vez, levou a uma nova Guerra Civil. Em vez de matar em terra alheia, os americanos resolvem matarem-se uns aos outros. Vale como crítica social, embora prejudicada pelo maniqueísmo. O personagem central desta subtrama tem de matar o criador, no caso, Brill. Trata-se de Pirandello sem a humanidade alcançada pelo dramaturgo italiano.
Uma das passagens mais brilhantes do livro ocorre quando o autor fala sobre a presença de objetos inanimados a expressar as emoções dos personagens em filmes clássicos como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica. Mas logo retoma seu muro das lamentações particular, depois de a história paralela se encerrar sem dizer a que veio.
O velho e bom Auster da metalinguagem, do subtexto, das histórias dentro de histórias, da obsessão por Kafka, Proust e Beckett, desta vez se perdeu em seu próprio labirinto. Mesmo trabalhos menos expressivos de Auster, no entanto, exibem algum vigor formal, uma prosa deliciosa e momentos pungentes. O problema é que ele já nos deu muito mais. E, depois que se experimenta o melhor...
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Auster dá um passo no escuro
A prosa simples e escorreita de Paul Auster lançou-o ao panteão dos grandes autores contemporâneos em língua inglesa, ao lado de nomes como Don DeLillo, John Updike, Phillip Roth, Ian MacEwan e J. M. Coetzee. Nascido em 1947 na cidade de Newark, em New Jersey, Auster conta histórias com a naturalidade dos escritores vocacionais, e seu estoque de sortilégios lingüísticos costuma ser tão básico – e eficaz – quanto o de um avô entretendo os netos.
Obras como A Invenção da Solidão, A Trilogia de Nova York ou Leviatã são credenciais indiscutíveis de um tremendo escritor. Em seu mais recente romance, Homem no Escuro (Cia. Das Letras), Auster dá, literalmente, um passo no escuro, ao retomar fórmulas desgastadas – ainda que possam funcionar lindamente –, com as quais ele próprio já enfrentou dificuldades em lidar em ocasiões anteriores. O resultado é um livro sem foco, destinado mais a expor as idéias de vida e as opiniões políticas do autor do que a contar uma bela história.
O narrador, Augusto Brill, é um homem passado dos setenta anos, viúvo recente, inválido também recente devido a um acidente de carro, que vai morar com a filha, abandonada pelo marido, e com a neta, cujo ex-namorado morreu em circunstâncias trágicas. Para lidar com seus próprios fantasmas e os fantasmas das que o rodeiam, Brill tenta driblar a insônia inventando histórias fantásticas.
Mais uma vez, o personagem tem um ofício semelhante ao do autor. Brill é um resenhista respeitado, ganhador do Pullitzer, a filha está escrevendo um livro e a neta quer ser cineasta. Tudo em casa. Numa casa sombria, repleta de lembranças insuportáveis.
O livro se divide entre a história desta família pouco afortunada e um universo paralelo no qual o 11 de Setembro nunca aconteceu, mas a fraudulenta eleição americana de 2000, que elegeu George W. Bush pela primeira vez, levou a uma nova Guerra Civil. Em vez de matar em terra alheia, os americanos resolvem matarem-se uns aos outros. Vale como crítica social, embora prejudicada pelo maniqueísmo. O personagem central desta subtrama tem de matar o criador, no caso, Brill. Trata-se de Pirandello sem a humanidade alcançada pelo dramaturgo italiano.
Uma das passagens mais brilhantes do livro ocorre quando o autor fala sobre a presença de objetos inanimados a expressar as emoções dos personagens em filmes clássicos como Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica. Mas logo retoma seu muro das lamentações particular, depois de a história paralela se encerrar sem dizer a que veio.
O velho e bom Auster da metalinguagem, do subtexto, das histórias dentro de histórias, da obsessão por Kafka, Proust e Beckett, desta vez se perdeu em seu próprio labirinto. Mesmo trabalhos menos expressivos de Auster, no entanto, exibem algum vigor formal, uma prosa deliciosa e momentos pungentes. O problema é que ele já nos deu muito mais. E, depois que se experimenta o melhor...
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TOCO Y ME VOY
Os vincos no rosto e as rugas na alma
Augusto Nunes
Um é novo, outro é velho, decreta a primeira linha de uma reportagemque confronta os perfis dos candidatos Eduardo Paes, 38 anos, eFernando Gabeira, 67. Se a frase estivesse incorporada ao editorial queformaliza a escolha feita por um jornal, nada a objetar. Se incluída em algumtexto assinado por colunistas ou colaboradores, formalmente liberados paraemitir opiniões, tudo bem. Se abre uma reportagem destinada a tratar as coisascomo as coisas são, a isenção é assassinada no início do filme – e oscapítulos restantes são condenados à morte por parcialidade. Não há esperança desalvação para matérias jornalísticas que, amparadas em duas certidões denascimento, decretam em seis palavras quem é o novo e quem é o velho.
Se a diferença de idade é o quesito mais relevante no desfile decomparações, a sensatez e a ética recomendam enunciados que rimem comneutralidade. Por exemplo: um tem 29 anos menos que outro. Ou, então, um tem29 anos mais que o outro. Ou, ainda, um é mais novo que o outro. A escolha deuma quarta opção fez de Paes a encarnação da novidade, da inovação, damudança – e comunicou aos cariocas que o candidato do PV é apenas velho.
Quase 34 anos distante de Oscar Niemeyer, dez atrás de FernandoHenrique Cardoso, quatro à frente de Lula, apenas um à frente deJosé Serra, Gabeira só se encaixaria nessa simplificação se fosseportador de senilidade precoce (e aguda). Como o candidato sessentãochegou ao ponto final da reportagem com boa saúde, deduz-se que odecreto se apoiou exclusivamente no calendário gregoriano.
Juventude é uma expressão associada a entusiasmo, energia,dinamismo, vitalidade. No Brasil, pode ser o outro nome do perigo. Os maisvelhos sabem disso desde o começo da década de 60. Os ainda novos ficaramsabendo na década de 90. Jânio Quadros tinha 44 anos ao tornar-se presidenteem 1961. Renunciou depois de sete meses, sem explicar por quê. O vice JoãoGoulart tinha 43 quando herdou a vaga. Perdeu-a 36 meses mais tarde, depostopelo golpe militar de 1964.
Como a era dos generais revogou a eleição direta, o últimopresidente escolhido nas urnas seria também o mais jovem da históriarepublicana até 1989. Foi superado por Fernando Collor, eleito com 40 anos. Orecordista em idade se tornaria também o único a escapar do impeachment peloatalho da renúncia. Os presidentes quarentões não deixaram saudade.
No começo da campanha, Eduardo Paes parecia moço demais para cuidardo Rio. A poucos dias da decisão, está claro que o corpo de menor de40 tem uma cabeça perturbadoramente envelhecida por excesso de pressa ecarência de princípios. Gabeira foi desde sempre um contemporâneo do mundo aoredor. Paes é a versão remoçada dos políticos do século passado. Um seorienta por idéias. Outro é conduzido por interesses, circunstâncias econveniências. Embarca no trem que lhe parece mais veloz, abandona o vagão quandoa velocidade diminui. Começou no PV, fez uma demorada escala no cordão dosagregados de Cesar Maia, elegeu-se deputado federal pelo PFL, filiou-se aoPSDB, caprichou no papel de inquisidor enquanto durou a CPI dos Correios,foi promovido a secretário nacional do partido, candidatou-se a governadorpara garantir a tribuna indispensável para desancar o padrinho Cesar Maia e oadversário Sérgio Cabral, rendeu-se ao PMDB de olho em alguma vaga nosecretariado estadual. Para quem viveu tão pouco, não é pouca coisa.
Decidido a alojar-se no gabinete do prefeito, topa qualquernegócio, faz tudo o que for preciso. Insulta o tutor Cesar Maia,rasteja diante de Lula, presta vassalagem à primeira-dama, ordenaagressões a cabos eleitorais adversários, mobiliza entidadesfantasmas em passeatas instruídas para gritar que Gabeira odeiasuburbanos, renega os companheiros de combate na CPI, acariciamensaleiros juramentados, absolve de todos os pecados a bandidagemdos partidos que o apóiam. Cesar Maia? Só esse não pode. Babu, overeador de estimação dos moradores dos presídios, esse pode.Delúbio Soares? Pode.
Os vincos no rosto de Fernando Gabeira reafirmam a idade que tem.As rugas na alma de Eduardo Paes informam que a idade mental é muito maiorque a oficial.
Um é antigo. Outro é moderno.
Publicado originalmente no Jornal do Brasil e republicado aqui com a anuência do autor.
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Os vincos no rosto e as rugas na alma
Augusto Nunes
Um é novo, outro é velho, decreta a primeira linha de uma reportagemque confronta os perfis dos candidatos Eduardo Paes, 38 anos, eFernando Gabeira, 67. Se a frase estivesse incorporada ao editorial queformaliza a escolha feita por um jornal, nada a objetar. Se incluída em algumtexto assinado por colunistas ou colaboradores, formalmente liberados paraemitir opiniões, tudo bem. Se abre uma reportagem destinada a tratar as coisascomo as coisas são, a isenção é assassinada no início do filme – e oscapítulos restantes são condenados à morte por parcialidade. Não há esperança desalvação para matérias jornalísticas que, amparadas em duas certidões denascimento, decretam em seis palavras quem é o novo e quem é o velho.
Se a diferença de idade é o quesito mais relevante no desfile decomparações, a sensatez e a ética recomendam enunciados que rimem comneutralidade. Por exemplo: um tem 29 anos menos que outro. Ou, então, um tem29 anos mais que o outro. Ou, ainda, um é mais novo que o outro. A escolha deuma quarta opção fez de Paes a encarnação da novidade, da inovação, damudança – e comunicou aos cariocas que o candidato do PV é apenas velho.
Quase 34 anos distante de Oscar Niemeyer, dez atrás de FernandoHenrique Cardoso, quatro à frente de Lula, apenas um à frente deJosé Serra, Gabeira só se encaixaria nessa simplificação se fosseportador de senilidade precoce (e aguda). Como o candidato sessentãochegou ao ponto final da reportagem com boa saúde, deduz-se que odecreto se apoiou exclusivamente no calendário gregoriano.
Juventude é uma expressão associada a entusiasmo, energia,dinamismo, vitalidade. No Brasil, pode ser o outro nome do perigo. Os maisvelhos sabem disso desde o começo da década de 60. Os ainda novos ficaramsabendo na década de 90. Jânio Quadros tinha 44 anos ao tornar-se presidenteem 1961. Renunciou depois de sete meses, sem explicar por quê. O vice JoãoGoulart tinha 43 quando herdou a vaga. Perdeu-a 36 meses mais tarde, depostopelo golpe militar de 1964.
Como a era dos generais revogou a eleição direta, o últimopresidente escolhido nas urnas seria também o mais jovem da históriarepublicana até 1989. Foi superado por Fernando Collor, eleito com 40 anos. Orecordista em idade se tornaria também o único a escapar do impeachment peloatalho da renúncia. Os presidentes quarentões não deixaram saudade.
No começo da campanha, Eduardo Paes parecia moço demais para cuidardo Rio. A poucos dias da decisão, está claro que o corpo de menor de40 tem uma cabeça perturbadoramente envelhecida por excesso de pressa ecarência de princípios. Gabeira foi desde sempre um contemporâneo do mundo aoredor. Paes é a versão remoçada dos políticos do século passado. Um seorienta por idéias. Outro é conduzido por interesses, circunstâncias econveniências. Embarca no trem que lhe parece mais veloz, abandona o vagão quandoa velocidade diminui. Começou no PV, fez uma demorada escala no cordão dosagregados de Cesar Maia, elegeu-se deputado federal pelo PFL, filiou-se aoPSDB, caprichou no papel de inquisidor enquanto durou a CPI dos Correios,foi promovido a secretário nacional do partido, candidatou-se a governadorpara garantir a tribuna indispensável para desancar o padrinho Cesar Maia e oadversário Sérgio Cabral, rendeu-se ao PMDB de olho em alguma vaga nosecretariado estadual. Para quem viveu tão pouco, não é pouca coisa.
Decidido a alojar-se no gabinete do prefeito, topa qualquernegócio, faz tudo o que for preciso. Insulta o tutor Cesar Maia,rasteja diante de Lula, presta vassalagem à primeira-dama, ordenaagressões a cabos eleitorais adversários, mobiliza entidadesfantasmas em passeatas instruídas para gritar que Gabeira odeiasuburbanos, renega os companheiros de combate na CPI, acariciamensaleiros juramentados, absolve de todos os pecados a bandidagemdos partidos que o apóiam. Cesar Maia? Só esse não pode. Babu, overeador de estimação dos moradores dos presídios, esse pode.Delúbio Soares? Pode.
Os vincos no rosto de Fernando Gabeira reafirmam a idade que tem.As rugas na alma de Eduardo Paes informam que a idade mental é muito maiorque a oficial.
Um é antigo. Outro é moderno.
Publicado originalmente no Jornal do Brasil e republicado aqui com a anuência do autor.
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PLANETA TERRA
Retirei o banner do wecansolveit.org ali da direita porque, apesar de admirar a causa comandada por Al Gore, eu esperava uma atuação mais global. Nos últimos meses, no entanto, a ONG tem se dirigido exclusivamente ao povo americano. Por mais respeitável que seja sua bandeira, não tenho como empunhá-la no momento e, por menos representativo que seja este espaço, pretendo usá-lo apenas para promover causas às quais eu me sinta de fato engajado. Agradeço a todos pela compreensão.
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Retirei o banner do wecansolveit.org ali da direita porque, apesar de admirar a causa comandada por Al Gore, eu esperava uma atuação mais global. Nos últimos meses, no entanto, a ONG tem se dirigido exclusivamente ao povo americano. Por mais respeitável que seja sua bandeira, não tenho como empunhá-la no momento e, por menos representativo que seja este espaço, pretendo usá-lo apenas para promover causas às quais eu me sinta de fato engajado. Agradeço a todos pela compreensão.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008
PLANETA TERRA (2)
O banner do Instituto Carijós Pró-Conservação da Natureza, por sua vez, passa a ocupar o topo da coluna. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do IC basta clicar ali. Neste espaço, em vez de falar sobre ele, coloco algumas fotos auto-explicativas. É isto o que tentamos salvar todos os que o apoiamos. As fotos são de Anselmo Malagoli, que foi um dos fundadores do Instituto, há mais de 9 anos.



O banner do Instituto Carijós Pró-Conservação da Natureza, por sua vez, passa a ocupar o topo da coluna. Quem quiser conhecer melhor o trabalho do IC basta clicar ali. Neste espaço, em vez de falar sobre ele, coloco algumas fotos auto-explicativas. É isto o que tentamos salvar todos os que o apoiamos. As fotos são de Anselmo Malagoli, que foi um dos fundadores do Instituto, há mais de 9 anos.



terça-feira, 23 de setembro de 2008
Palpiteiros irresponsáveis
Debochar da quebra de instituições como o Lheman Brothers ou o Merril Lynch é algo a que o metalúrgico Lula pode se dar o luxo, mas o chefe de Estado Lula deveria estudar melhor as falas. Zoar com o risco de derrocada do sistema financeiro internacional é tão inadequado quanto comemorar a derrubada das Torres Gêmeas por considerá-la uma justa vingança dos povos oprimidos contra o grande satã e acreditar, ingenuamente, que a barbárie atingira somente os Estados Unidos.
De fato, bancos de investimentos como o Lheman e o Lynch se especializaram em – entre uma e outra operação nem sempre cristalina – dar palpites sobre o cofre alheio. Ancorados na suposta solidez da maior economia do mundo, julgaram-se à vontade para determinar, por exemplo, se e quando nações emergentes como o Brasil deveriam merecer a confiança da comunidade internacional. Oráculos das finanças globais, descuidaram do próprio caixa, como um prestigiado gerente de banco que não consegue administrar as contas pessoais.
A queda das bolsas de valores em todo o mundo ainda carrega reflexos dos atos perpetrados pelo bando de Osama Bin Laden naquele 11 de setembro. A solidez econômica americana começou a ruir junto com as torres. Com a fuga dos investidores estrangeiros e a natural retração do mercado – em tempos de medo o consumo é substituído pela poupança – o governo de George W. Bush viu a economia estagnar. Para evitar que a recessão se ampliasse, injetou dinheiro grosso no mercado, concedendo uma espécie de bolsa-consumo a praticamente todos os cidadãos economicamente ativos, ao mesmo tempo em que afrouxava as regras do crédito imobiliário.
Animados pelo ingresso de novos consumidores neste mercado milionário, os bancos venderam imóveis para quem não tinha capacidade de pagar. Pensaram no curto prazo, no aquecimento imediato dos negócios, confiando nas próprias tradições. Além disso, promoveram a securitização da dívida, que, em bom português, significa transformar créditos imobiliários em títulos e repassá-los para o mercado, inclusive internacional. Quando os recém-chegados ao clube da casa própria não conseguiram mais honrar as hipotecas, iniciou-se o efeito-dominó.
Os Lhemans e Lynchs da vida foram irresponsáveis e naufragaram na própria soberba, nisso o presidente Lula tem razão. Talvez Bush, além de fazer vistas grossas enquanto a situação se agravava, tenha mesmo demorado a entrar em ação – o que não é nenhuma novidade, no caso dele – e quem sabe até, em outras circunstâncias, se pudesse dizer bem feito para eles. Mas, numa economia globalizada, ao se assistir com certo prazer à agonia alheia pode se estar desdenhando do próprio risco de morte. No mundo de hoje doenças financeiras são sempre epidêmicas.
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Debochar da quebra de instituições como o Lheman Brothers ou o Merril Lynch é algo a que o metalúrgico Lula pode se dar o luxo, mas o chefe de Estado Lula deveria estudar melhor as falas. Zoar com o risco de derrocada do sistema financeiro internacional é tão inadequado quanto comemorar a derrubada das Torres Gêmeas por considerá-la uma justa vingança dos povos oprimidos contra o grande satã e acreditar, ingenuamente, que a barbárie atingira somente os Estados Unidos.
De fato, bancos de investimentos como o Lheman e o Lynch se especializaram em – entre uma e outra operação nem sempre cristalina – dar palpites sobre o cofre alheio. Ancorados na suposta solidez da maior economia do mundo, julgaram-se à vontade para determinar, por exemplo, se e quando nações emergentes como o Brasil deveriam merecer a confiança da comunidade internacional. Oráculos das finanças globais, descuidaram do próprio caixa, como um prestigiado gerente de banco que não consegue administrar as contas pessoais.
A queda das bolsas de valores em todo o mundo ainda carrega reflexos dos atos perpetrados pelo bando de Osama Bin Laden naquele 11 de setembro. A solidez econômica americana começou a ruir junto com as torres. Com a fuga dos investidores estrangeiros e a natural retração do mercado – em tempos de medo o consumo é substituído pela poupança – o governo de George W. Bush viu a economia estagnar. Para evitar que a recessão se ampliasse, injetou dinheiro grosso no mercado, concedendo uma espécie de bolsa-consumo a praticamente todos os cidadãos economicamente ativos, ao mesmo tempo em que afrouxava as regras do crédito imobiliário.
Animados pelo ingresso de novos consumidores neste mercado milionário, os bancos venderam imóveis para quem não tinha capacidade de pagar. Pensaram no curto prazo, no aquecimento imediato dos negócios, confiando nas próprias tradições. Além disso, promoveram a securitização da dívida, que, em bom português, significa transformar créditos imobiliários em títulos e repassá-los para o mercado, inclusive internacional. Quando os recém-chegados ao clube da casa própria não conseguiram mais honrar as hipotecas, iniciou-se o efeito-dominó.
Os Lhemans e Lynchs da vida foram irresponsáveis e naufragaram na própria soberba, nisso o presidente Lula tem razão. Talvez Bush, além de fazer vistas grossas enquanto a situação se agravava, tenha mesmo demorado a entrar em ação – o que não é nenhuma novidade, no caso dele – e quem sabe até, em outras circunstâncias, se pudesse dizer bem feito para eles. Mas, numa economia globalizada, ao se assistir com certo prazer à agonia alheia pode se estar desdenhando do próprio risco de morte. No mundo de hoje doenças financeiras são sempre epidêmicas.
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TOCO Y ME VOY
Quebre o sigilo primeiro, ministro
Augusto Nunes
Em outubro de 2003, o país foi confrontado com a anatomia de um crime que, praticado 15 anos antes pelo deputado constituinte Nelson Jobim, assumiu dimensões bem mais perturbadoras ao ser revelada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim. Com a naturalidade de quem está explicando por que prefere chimarrão a café, o parlamentar gaúcho confessou ter infiltrado na Constituição de 1988, cujo texto definitivo lhe competia redigir, dois artigos que não haviam sido votados, nem mesmo discutidos pelo plenário.
Se o país tivesse juízo, a reação indignada obrigaria Jobim a devolver a toga, identificar os textos contrabandeados (para que fossem prontamente expurgados), pedir perdão ao povo em geral e a seu eleitorado em particular, voltar aos pampas e ali esperar a mão da Justiça. Como pôde ter sido ministro da Justiça quem faz uma coisa dessas? – berrariam milhões de suecos. Como pode alguém assim ser vice-presidente do tribunal que decide o que é ou não constitucional? – urrariam incontáveis finlandeses. Mas o Brasil não faz sentido. E fez de conta que o cinqüentão Jobim continuava tão brincalhão quanto o estudante de Direito que furtou o sino da faculdade.
Uma nação com hímen complacente não grita nem mesmo quando a Constituição é estuprada, confirmaram os franzinos balidos do rebanho. Três dias depois da revelação desconcertante, o réu confesso voltou espontaneamente ao tema para explicar que não agira sozinho. As infiltrações ilegais, esclareceu, haviam sido encomendadas pelo deputado Ulysses Guimarães, o presidente da Assembléia Nacional Constituinte morto no começo dos anos 90.
Ulysses não viveu para comentar a versão que o reduziu a mandante do crime de falsificação de documento público. E Jobim seguiu subindo na vida. Meses depois, instalou-se na presidência do STF. Cuidou com muito zelo do escândalo do mensalão, que inspirou a criação de uma Pastoral Parlamentar concebida para socorrer bandidos amigos com liminares e habeas corpus. Virou amigo de Lula e hoje é ministro da Defesa.
Jobim jamais coube em si mesmo. Não caberia num ministério só. Ao longo de um ano, acumulou sucessivamente as funções de general da selva na Amazônia, almirante e timoneiro de submarino nuclear na França e na Rússia, brigadeiro vitorioso no combate ao apagão aéreo e bombeiro especialista em incêndios ensaiados por militares de pijama. Fora o resto.
É muita coisa, ficaram admirados até os napoleões de hospício. Nem tanto, decidiu o espaçoso gaúcho. Na semana passada, assumiu sem pedir licença o posto de controlador-geral da imprensa brasileira. Fazia tempo que o ministro ultrapolivalente andava aborrecido com a divulgação de informações que colocam em risco a segurança nacional e a boa imagem do governo. Mas descobriu só agora que esses vazamentos antipatrióticos são produzidos pela ação conjunta de jornalistas, promotores públicos, juízes de Direito, sherloques da Polícia Federal e arapongas da Abin.
A solução é acabar com o sigilo da fonte, prescreveu Jobim. (O ministro da Justiça, Tarso Genro, gostou da idéia e resolveu patrocinar um projeto que enquadra os inimigos da nação). A notícia é ruim para a pátria? Cobre-se de quem pecou a origem do pecado. Talvez por falta de espaço da agenda, o ministro da Defesa ainda não se manifestou sobre o segredo do confessionário nem sobre o sigilo profissional – tantas vezes invocado pelo criminalista Jobim para ocultar o que ouvia da clientela bandida. Por enquanto, só o sigilo da fonte está na mira do homem que guardava segredos por 15 anos.
Jobim pareceria mais convincente se, primeiro, quebrasse o próprio sigilo. E revelasse, além dos nomes dos colegas que participaram do roubo do sino, quais são os artigos com os quais estuprou a Constituição.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
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Quebre o sigilo primeiro, ministro
Augusto Nunes
Em outubro de 2003, o país foi confrontado com a anatomia de um crime que, praticado 15 anos antes pelo deputado constituinte Nelson Jobim, assumiu dimensões bem mais perturbadoras ao ser revelada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim. Com a naturalidade de quem está explicando por que prefere chimarrão a café, o parlamentar gaúcho confessou ter infiltrado na Constituição de 1988, cujo texto definitivo lhe competia redigir, dois artigos que não haviam sido votados, nem mesmo discutidos pelo plenário.
Se o país tivesse juízo, a reação indignada obrigaria Jobim a devolver a toga, identificar os textos contrabandeados (para que fossem prontamente expurgados), pedir perdão ao povo em geral e a seu eleitorado em particular, voltar aos pampas e ali esperar a mão da Justiça. Como pôde ter sido ministro da Justiça quem faz uma coisa dessas? – berrariam milhões de suecos. Como pode alguém assim ser vice-presidente do tribunal que decide o que é ou não constitucional? – urrariam incontáveis finlandeses. Mas o Brasil não faz sentido. E fez de conta que o cinqüentão Jobim continuava tão brincalhão quanto o estudante de Direito que furtou o sino da faculdade.
Uma nação com hímen complacente não grita nem mesmo quando a Constituição é estuprada, confirmaram os franzinos balidos do rebanho. Três dias depois da revelação desconcertante, o réu confesso voltou espontaneamente ao tema para explicar que não agira sozinho. As infiltrações ilegais, esclareceu, haviam sido encomendadas pelo deputado Ulysses Guimarães, o presidente da Assembléia Nacional Constituinte morto no começo dos anos 90.
Ulysses não viveu para comentar a versão que o reduziu a mandante do crime de falsificação de documento público. E Jobim seguiu subindo na vida. Meses depois, instalou-se na presidência do STF. Cuidou com muito zelo do escândalo do mensalão, que inspirou a criação de uma Pastoral Parlamentar concebida para socorrer bandidos amigos com liminares e habeas corpus. Virou amigo de Lula e hoje é ministro da Defesa.
Jobim jamais coube em si mesmo. Não caberia num ministério só. Ao longo de um ano, acumulou sucessivamente as funções de general da selva na Amazônia, almirante e timoneiro de submarino nuclear na França e na Rússia, brigadeiro vitorioso no combate ao apagão aéreo e bombeiro especialista em incêndios ensaiados por militares de pijama. Fora o resto.
É muita coisa, ficaram admirados até os napoleões de hospício. Nem tanto, decidiu o espaçoso gaúcho. Na semana passada, assumiu sem pedir licença o posto de controlador-geral da imprensa brasileira. Fazia tempo que o ministro ultrapolivalente andava aborrecido com a divulgação de informações que colocam em risco a segurança nacional e a boa imagem do governo. Mas descobriu só agora que esses vazamentos antipatrióticos são produzidos pela ação conjunta de jornalistas, promotores públicos, juízes de Direito, sherloques da Polícia Federal e arapongas da Abin.
A solução é acabar com o sigilo da fonte, prescreveu Jobim. (O ministro da Justiça, Tarso Genro, gostou da idéia e resolveu patrocinar um projeto que enquadra os inimigos da nação). A notícia é ruim para a pátria? Cobre-se de quem pecou a origem do pecado. Talvez por falta de espaço da agenda, o ministro da Defesa ainda não se manifestou sobre o segredo do confessionário nem sobre o sigilo profissional – tantas vezes invocado pelo criminalista Jobim para ocultar o que ouvia da clientela bandida. Por enquanto, só o sigilo da fonte está na mira do homem que guardava segredos por 15 anos.
Jobim pareceria mais convincente se, primeiro, quebrasse o próprio sigilo. E revelasse, além dos nomes dos colegas que participaram do roubo do sino, quais são os artigos com os quais estuprou a Constituição.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
TOCO Y ME VOY
O STF decreta a falência do sistema judicial
Augusto Nunes
Em 1º de julho de 2004, armado de metralhadoras, fuzis, pistolas, revólveres e granadas, o bando de meliantes criteriosamente selecionados pelo Primeiro Comando da Capital e pelo Comando Vermelho preparava-se para tomar de assalto uma cadeia na Grande São Paulo, e libertar os 1.279 presidiários, quando a polícia cercou seu esconderijo. A captura dos 12 bandidos abortou a primeira ofensiva conjunta das duas maiores organizações criminosas do país – e impediu que os chefões aliados celebrassem a desmoralização do sistema penitenciário paulista.
Na quinta-feira passada, armado de um pedido de habeas corpus, o bando de advogados alugados pelo PCC e pelo CV conseguiu do STF o sinal verde para devolver às ruas nove integrantes da tropa de elite engaiolada em 2004. Como em mais de quatro anos não foi encerrada sequer a fase de instrução do processo, reservada à coleta de provas e depoimentos, o Supremo Tribunal Federal autorizou a libertação da turma. Graças à decretação da prisão preventiva dos quadrilheiros, até então presos provisoriamente, uma juíza de primeira instância evitou que as feras escapassem da jaula. Mas a decisão do Supremo bastara para que os líderes da bandidagem festejassem a falência do sistema penitenciário nacional e do sistema judicial brasileiro.
"Que beleza!", ironizou um delegado. "O STF talvez não saiba que são bandidos perigosíssimos". O pior é que sabe, informa o parecer do ministro Carlos Ayres Britto, relator do caso, que atribuiu à altíssima voltagem dos processados o inverossímil imobilismo do processo. "O motivo de tanto atraso não foi nenhuma ação protelatória dos defensores dos réus", ressalvou Britto. Dezenas de audiências, justificou em juridiquês castiço, "foram canceladas e remarcadas por falta de efetivo estatal para apresentação de presos ao juízo criminal, tendo em vista a alta periculosidade dos agentes".
Tradução para língua de gente: por falta de escoltas de bom tamanho, bandidos deixaram de ser deslocados da cela para o fórum. Como os réus são de meter medo em serial killer americano, os magistrados invariavelmente pediam à Secretaria de Segurança Pública que providenciasse a mobilização de 20 dos 100 mil soldados da PM para acompanhá-los até o tribunal. Como a chefia da PM nunca atendia às solicitações, as audiências eram canceladas. E assim se passaram 48 meses.
"Há 20 anos, quando fui secretário de Segurança Pública, não se sabia sequer quem era responsável pela escolta", confessa o criminalista Antônio Mariz de Oliveira. "Está provado que nada mudou. E ainda não foi criada uma guarda penitenciária". Desde a década de 80, portanto, um sistema judicial em frangalhos vem sendo espancado impunemente por governantes omissos, militares ineptos e juízes pusilânimes. Por descumprirem a lei, não foram julgados os delinqüentes que o STF agora libertou em nome da lei.
Onde a gente comum enxerga nove bombas ambulantes, as togas viram cidadãos que, como quaisquer outros, são merecedores de atenções constitucionais. Certo, concordou até o Ministério Público Federal. Certíssimo, aplaudiram os juristas renomados e os bacharéis de porta de cadeia. "O STF só cumpriu seu dever", concede a advogada Paula Rodrigues Branco. Funcionária do PCC, Paula continua irada com os quatro anos de cadeia curtidos "pelos rapazes". É assim que ela se refere a clientes que carregam nas costas prontuários de dar inveja a um Fernandinho Beira-Mar.
É de doutoras paulas que andam precisando outros 130 mil presos preventivamente há muito mais tempo que os 81 dias estabelecidos pela legislação. Aguardam julgamento, como os nove rapazes da doutora. Mas não são filiados ao PCC ou ao CV, e por isso não têm recursos financeiros para contratar bacharéis. Por falta de advogados, não têm recursos judiciais a apresentar a instâncias superiores. Por falta de recursos, não têm direito a sonhar com um habeas corpus.
Talvez não saibam direito o que é isso. Nem o que faz exatamente o STF.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
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O STF decreta a falência do sistema judicial
Augusto Nunes
Em 1º de julho de 2004, armado de metralhadoras, fuzis, pistolas, revólveres e granadas, o bando de meliantes criteriosamente selecionados pelo Primeiro Comando da Capital e pelo Comando Vermelho preparava-se para tomar de assalto uma cadeia na Grande São Paulo, e libertar os 1.279 presidiários, quando a polícia cercou seu esconderijo. A captura dos 12 bandidos abortou a primeira ofensiva conjunta das duas maiores organizações criminosas do país – e impediu que os chefões aliados celebrassem a desmoralização do sistema penitenciário paulista.
Na quinta-feira passada, armado de um pedido de habeas corpus, o bando de advogados alugados pelo PCC e pelo CV conseguiu do STF o sinal verde para devolver às ruas nove integrantes da tropa de elite engaiolada em 2004. Como em mais de quatro anos não foi encerrada sequer a fase de instrução do processo, reservada à coleta de provas e depoimentos, o Supremo Tribunal Federal autorizou a libertação da turma. Graças à decretação da prisão preventiva dos quadrilheiros, até então presos provisoriamente, uma juíza de primeira instância evitou que as feras escapassem da jaula. Mas a decisão do Supremo bastara para que os líderes da bandidagem festejassem a falência do sistema penitenciário nacional e do sistema judicial brasileiro.
"Que beleza!", ironizou um delegado. "O STF talvez não saiba que são bandidos perigosíssimos". O pior é que sabe, informa o parecer do ministro Carlos Ayres Britto, relator do caso, que atribuiu à altíssima voltagem dos processados o inverossímil imobilismo do processo. "O motivo de tanto atraso não foi nenhuma ação protelatória dos defensores dos réus", ressalvou Britto. Dezenas de audiências, justificou em juridiquês castiço, "foram canceladas e remarcadas por falta de efetivo estatal para apresentação de presos ao juízo criminal, tendo em vista a alta periculosidade dos agentes".
Tradução para língua de gente: por falta de escoltas de bom tamanho, bandidos deixaram de ser deslocados da cela para o fórum. Como os réus são de meter medo em serial killer americano, os magistrados invariavelmente pediam à Secretaria de Segurança Pública que providenciasse a mobilização de 20 dos 100 mil soldados da PM para acompanhá-los até o tribunal. Como a chefia da PM nunca atendia às solicitações, as audiências eram canceladas. E assim se passaram 48 meses.
"Há 20 anos, quando fui secretário de Segurança Pública, não se sabia sequer quem era responsável pela escolta", confessa o criminalista Antônio Mariz de Oliveira. "Está provado que nada mudou. E ainda não foi criada uma guarda penitenciária". Desde a década de 80, portanto, um sistema judicial em frangalhos vem sendo espancado impunemente por governantes omissos, militares ineptos e juízes pusilânimes. Por descumprirem a lei, não foram julgados os delinqüentes que o STF agora libertou em nome da lei.
Onde a gente comum enxerga nove bombas ambulantes, as togas viram cidadãos que, como quaisquer outros, são merecedores de atenções constitucionais. Certo, concordou até o Ministério Público Federal. Certíssimo, aplaudiram os juristas renomados e os bacharéis de porta de cadeia. "O STF só cumpriu seu dever", concede a advogada Paula Rodrigues Branco. Funcionária do PCC, Paula continua irada com os quatro anos de cadeia curtidos "pelos rapazes". É assim que ela se refere a clientes que carregam nas costas prontuários de dar inveja a um Fernandinho Beira-Mar.
É de doutoras paulas que andam precisando outros 130 mil presos preventivamente há muito mais tempo que os 81 dias estabelecidos pela legislação. Aguardam julgamento, como os nove rapazes da doutora. Mas não são filiados ao PCC ou ao CV, e por isso não têm recursos financeiros para contratar bacharéis. Por falta de advogados, não têm recursos judiciais a apresentar a instâncias superiores. Por falta de recursos, não têm direito a sonhar com um habeas corpus.
Talvez não saibam direito o que é isso. Nem o que faz exatamente o STF.
Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
MARAVILHAS DO MUNDO ANIMAL
Lua-de-mel virtual
“ Caseeeeeei!!!!
É isso aí!!!
Casemo!!!! (erro proposital, blz? ehehehehe)
Foi a noite mais incrível da minha vida! A festa estava perfeita. Para qualquer lado que olhava, só tinha gente legal!!!
(...) Fui, porque estou morrendo de sono (são 6 e pouco da manhã!)”
Lucas Lima, músico, que interrompeu a noite de núpcias com a cantora Sandy para colocar esta edificante nota em seu blog.
Crédito da foto: Divulgação Lucas Lima
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Lua-de-mel virtual

“ Caseeeeeei!!!!
É isso aí!!!
Casemo!!!! (erro proposital, blz? ehehehehe)
Foi a noite mais incrível da minha vida! A festa estava perfeita. Para qualquer lado que olhava, só tinha gente legal!!!
(...) Fui, porque estou morrendo de sono (são 6 e pouco da manhã!)”
Lucas Lima, músico, que interrompeu a noite de núpcias com a cantora Sandy para colocar esta edificante nota em seu blog.
Crédito da foto: Divulgação Lucas Lima
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COFFEE BREAK
A Lua e Eu
Cassiano fez um punhado de músicas de sucesso, sendo a principal delas Coleção (“Sei que você gosta de brincar de amores...”), da qual, infelizmente, não há videoclipe. Outra das mais famosas é A Lua e Eu, que reproduzo abaixo, em clipe exibido no Fantástico em 1975. Essa canção foi tema da novela O Grito, da Rede Globo.
Embora mais ausente do que deveria do imaginário popular, Cassiano é considerado uma espécie de pai da soul music brasileira, sendo cultuado por artistas do calibre de Ed Motta, por exemplo. Entre suas grandes composições figura Primavera, consagrada na voz de Tim Maia.
A Lua e Eu é de autoria do próprio Cassiano em parceria com Paulo Zdanowski, que postou este recado no YouTube:
"Gostaria de agradecer aqui a todos que visitaram esta música e que marcaram suas vidas com ela. Quando escrevi sua letra, estava no calçadão do Leme com Cassiano e naquela hora conversávamos sobre uma pessoa que eu namorava e a Lua estava realmente muito linda, foi aí que nasceu A Lua e Eu. Era 1973. Demorou 3 anos pra ser gravada e eternizada por este grande músico que é o Cassiano, meu professor, meu amigo. Deixo aqui meu eterno abraço, Paulo Zdanowski."
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A Lua e Eu
Cassiano fez um punhado de músicas de sucesso, sendo a principal delas Coleção (“Sei que você gosta de brincar de amores...”), da qual, infelizmente, não há videoclipe. Outra das mais famosas é A Lua e Eu, que reproduzo abaixo, em clipe exibido no Fantástico em 1975. Essa canção foi tema da novela O Grito, da Rede Globo.
Embora mais ausente do que deveria do imaginário popular, Cassiano é considerado uma espécie de pai da soul music brasileira, sendo cultuado por artistas do calibre de Ed Motta, por exemplo. Entre suas grandes composições figura Primavera, consagrada na voz de Tim Maia.
A Lua e Eu é de autoria do próprio Cassiano em parceria com Paulo Zdanowski, que postou este recado no YouTube:
"Gostaria de agradecer aqui a todos que visitaram esta música e que marcaram suas vidas com ela. Quando escrevi sua letra, estava no calçadão do Leme com Cassiano e naquela hora conversávamos sobre uma pessoa que eu namorava e a Lua estava realmente muito linda, foi aí que nasceu A Lua e Eu. Era 1973. Demorou 3 anos pra ser gravada e eternizada por este grande músico que é o Cassiano, meu professor, meu amigo. Deixo aqui meu eterno abraço, Paulo Zdanowski."
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GENTE
Paixão e obra de Beto Silveira

O Beto é que se pode chamar de figura ímpar sem medo de exagerar. Conheci-o em meados dos anos 80. Ele trabalhava havia muitos anos na Rede Globo como responsável pela preparação dos novos atores. Quando veio a Porto Alegre para ministrar um curso de atuação em televisão, fui encarregado de entrevistá-lo para a Revista da TV do jornal Zero Hora. Ele concordou em conversar comigo apenas se eu fizesse o curso. Tentei declinar, saía tarde do jornal e etc, mas ele insistiu, disse que havia o curso noturno e que deixaria minhas gravações para o final da noite. Então, tive de encarar.
Dotado de talento extraordinário e carisma invulgar, Beto acabou me ensinando muita coisa. Lá pela metade do curso ele me concedeu a entrevista regada a muito chope num bar chamado A Moenda, no bairro Menino Deus em Porto Alegre, que não sei se ainda existe. Apesar das dificuldades de horários e do cansaço (na época eu trabalhava em dois empregos), acabei me saindo bem. Ao final do curso, o Beto escolheu, entre dezenas de alunos dos três turnos, duas pessoas a quem considerou especialmente talentosas e entregou uma ficha de cadastro para o elenco da Globo. Eu fui um dos escolhidos. Não sei se teria dado em algo, mas me arrependo de minha covardia em não tentar. Julgava-me compromissado demais com uma série de coisas, e isso com vinte e poucos anos, enfim.
A amizade dura até hoje. Já passei férias na casa dele, quando ele morava no Rio, já freqüentamos bastante a casa um do outro quando eu morava em São Paulo, onde ele mantém um curso de preparação de atores de grande sucesso.
Em 1997, quando eu estava em Brasília, ele me mandou os originais de um livro para que eu desse uns palpites. O tempo passou, o livro saiu primeiro em Portugal e agora, finalmente, Assim no Palco Como na Vida acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Totalidade. Trata-se de uma aula magistral de interpretação, com pitadas de Stanislavski e Eugênio Kusnet, de quem o Beto foi aprendiz, mas, acima de tudo, é uma aula de vida, de visceralidade, de tesão por estar neste planeta cercado de gente por todos os lados.
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Paixão e obra de Beto Silveira

O Beto é que se pode chamar de figura ímpar sem medo de exagerar. Conheci-o em meados dos anos 80. Ele trabalhava havia muitos anos na Rede Globo como responsável pela preparação dos novos atores. Quando veio a Porto Alegre para ministrar um curso de atuação em televisão, fui encarregado de entrevistá-lo para a Revista da TV do jornal Zero Hora. Ele concordou em conversar comigo apenas se eu fizesse o curso. Tentei declinar, saía tarde do jornal e etc, mas ele insistiu, disse que havia o curso noturno e que deixaria minhas gravações para o final da noite. Então, tive de encarar.
Dotado de talento extraordinário e carisma invulgar, Beto acabou me ensinando muita coisa. Lá pela metade do curso ele me concedeu a entrevista regada a muito chope num bar chamado A Moenda, no bairro Menino Deus em Porto Alegre, que não sei se ainda existe. Apesar das dificuldades de horários e do cansaço (na época eu trabalhava em dois empregos), acabei me saindo bem. Ao final do curso, o Beto escolheu, entre dezenas de alunos dos três turnos, duas pessoas a quem considerou especialmente talentosas e entregou uma ficha de cadastro para o elenco da Globo. Eu fui um dos escolhidos. Não sei se teria dado em algo, mas me arrependo de minha covardia em não tentar. Julgava-me compromissado demais com uma série de coisas, e isso com vinte e poucos anos, enfim.
A amizade dura até hoje. Já passei férias na casa dele, quando ele morava no Rio, já freqüentamos bastante a casa um do outro quando eu morava em São Paulo, onde ele mantém um curso de preparação de atores de grande sucesso.
Em 1997, quando eu estava em Brasília, ele me mandou os originais de um livro para que eu desse uns palpites. O tempo passou, o livro saiu primeiro em Portugal e agora, finalmente, Assim no Palco Como na Vida acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Totalidade. Trata-se de uma aula magistral de interpretação, com pitadas de Stanislavski e Eugênio Kusnet, de quem o Beto foi aprendiz, mas, acima de tudo, é uma aula de vida, de visceralidade, de tesão por estar neste planeta cercado de gente por todos os lados.
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