sexta-feira, 29 de agosto de 2008

BOM FIM DE SEMANA

Ingrid

Em tributo a Ingrid Bergman, the best, que nasceu e morreu num 29 de agosto, repito aqui o vídeo de Casablanca.


BOM FIM DE SEMANA (2)

Michael Jackson, 50 anos

Eu pretendia escrever um longo texto sobre Michael Jackson, cuja obra é muitas vezes subestimada em função do preconceito, e que completa hoje 50 anos. Faltou-me tempo, se der ainda escreverei nos próximos dias. Por enquanto, fiquem com Man in the Mirror.


terça-feira, 26 de agosto de 2008

BRASIL


O texto a seguir já foi publicado no site coletiva.net. Decidi republicá-lo aqui por duas razões. A primeira é o escândalo do reitor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ulysses Fagundes Neto, que se demitiu ontem em função das acusações de uso do cartão corporativo em causa própria. Entre os gastos indevidos figura a compra de um aparelho de barbear e de uma escova de cabelos por R$ 300 em Miami.

A segunda razão é contribuir para que o recente escândalo dos cartões corporativos não seja esquecido. Alguém foi punido? Algo mudou? A farra continua? O assunto é repetitivo? Paciência, a roubalheira também.




Porque a farra é agora


Mesmo os corruptos têm de se modernizar. Por que carregar dinheiro na cueca se é muito mais fácil, moderno e impune sacar o cartão corporativo? Bandidos sempre sacaram: armas brancas, prosaicas pistolas ou modernos fuzis de uso militar. Por que a bandidagem que chafurda nos pântanos do Planalto teria pudores em sacar o cartão? Cartão corporativo: não circule no lodo sem ele.

O episódio Valdomiro “Só Quero Um Por Cento” Diniz, aquele que assessorava o Zé Dirceu que era o braço direito do Lula que não sabia de nada, escancarou uma verdade que todo homem decente aprende no berço: não existe meio corrupto. Do mimo para o servidor público apressar um alvará a prodigiosos assaltos aos cofres públicos, corrupção é corrupção. O meio corrupto é tão ficcional quanto a ligeiramente grávida.

O que os eventos perpetrados no lamaçal da República evidenciam é tão somente a pequenez dos contraventores. Se vão prevaricar, que o façam com alguma “catiguria”, como ensinou a Bebel da deliciosa Camila Pitanga. Tungar o bolso do cidadão para comprar rosquinhas é um tanto demais.

Depois dos larápios federais com algum espírito de grandeza – ao menos andavam de Land Rover – chegou a vez da chinelagem. Trata-se de uma espécie de bolsa-família dos corruptos. Já não se estende um discreto envelope por baixo da mesa, passa-se o cartão. Certas coisas na vida de um corrupto chinelão não têm preço. Para todas as outras existe o cartão corporativo.

Como nunca antes na história desse País, a malversação do erário tornou-se política de Estado. Governos infestados de corruptos não são novidade nos flexíveis trópicos. O que espanta é a desfaçatez. Simulações, fachadas e álibis converteram-se em peças de museu. É tudo à luz do dia mesmo. Como diz a velha frase sobre amores clandestinos em hora imprópria, antes à tarde do que nunca. Porque a farra é agora.



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Livro (1)


Produto Nacional – Uma História da Indústria no Brasil, lançado neste mês em Brasília, celebra os 70 anos da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O livro foi escrito por Eduardo Bueno (na foto com a obra), que dispensa apresentações, com a minha colaboração nos textos.

O lançamento teve a presença do vice-presidente da República, José Alencar, de mais de dez ministros de Estado, do ex-ministro Jarbas Passarinho, da atriz Fernanda Montenegro e dos empresários Roberto Irineu Marinho (Rede Globo), Jorge Gerdau Johannpeter (Grupo Gerdau), Roberto Civita (Editora Abril), Otavio Frias Filho (Folha de S. Paulo) e Norberto Odebrecht (Organização Odebrecht), entre outras personalidades.


Crédito da foto
Miguel Ângelo/Divulgação CNI



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Livro (2)


O livro Falange Gaúcha – O Presídio Central e a História do Crime Organizado no RS, da RBS Publicações, será lançado no dia 4 de setembro, a partir das 19h30min, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre.

O autor é Renato Dornelles, de quem fui colega no jornal Zero Hora. Repórter especializado em coberturas policiais e crítico carnavalesco, Renatinho, além de competente, é um grande sujeito.

Tive o prazer de reencontrá-lo agora porque atuei como editor de texto de Falange Gaúcha.

A obra é uma adaptação de uma série de reportagens publicadas no Diário Gaúcho, agraciada com o Prêmio ARI, o mais importante do Estado.


Crédito das fotos: Divulgação


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COFFEE BREAK


Curtam a abertura de A Turma do Balão Mágico, de 1984. E depois continuem no Blog, porque a seguir Augusto Nunes fala sobre os heróis olímpicos brasileiros, apesar do Brasil.



TOCO Y ME VOY


HERÓIS NACIONAIS, APESAR DO BRASIL


Augusto Nunes


"É a maior delegação brasileira de todos os tempos", orgulhou-se pouco depois da chegada a Pequim o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman. "Isso prova que o Rio está pronto para sediar a Olimpíada de 2016". O que tinha uma coisa a ver com a outra?, perguntou a cara de espanto dos jornalistas. "Temos 277 atletas", sorriu Nuzman. "A Espanha, 16 anos depois dos jogos de Barcelona, tem 290. É quase a mesma coisa". Pena que o tamanho de delegação não se inclua entre os critérios que orientam a escolha da cidade-sede.

Pena, sobretudo, que não seja um esporte olímpico. Se fosse, o Brasil logo teria fortíssimas chances de superar em número de medalhas de ouro a Espanha (seis em Pequim) e, em seguida, qualquer potência olímpica. Porque o país tropical estaria para a modalidade como os Estados Unidos para o basquete, como a Jamaica para os 100 metros rasos. Fizemos bonito na China: além dos 277 competidores festejados por Nuzman, desembarcaram 192 não-atletas, o que faz a conta subir para 469 cabeças.

A lista inclui João Havelange, 92 anos, o mais idoso (e talvez o mais conhecido) cartola do planeta. O COB não informou se nela entraram também o presidente Lula, (que ficou por lá dois ou três dias) e o ministro Orlando Silva (que só se animou a voltar ao local de trabalho depois da festa de encerramento). Nenhum dos dois sabe como se escreve taekwondo (o Brasil buscou um bronze na modalidade), nem se as provas são disputadas num gramado ou num trampolim. Mas ambos endossaram com a voz firme de especialista o estranho raciocínio desenvolvido por Nuzman. O Rio merece a Olimpíada de 2016.

E o Brasil só precisa disso para entrar de vez no clube das potências pluriesportivas. Falta pouco, repetem cartolas e governantes desde 1920, quando o país estreou nos Jogos Olímpicos da era moderna e a equipe de tiro trouxe de Antuérpia uma medalha de ouro e uma de bronze. Falta tudo, discorda a interminável procissão de fiascos que os patriotas, os cretinos e os muito espertos fingem não enxergar.

Em 88 anos, incluídas as que premiaram os desempenhos soberbos de Maurren Maggi, de César Cielo e da seleção feminina de vôlei, o país conquistou 20 medalhas de ouro. Seis a mais que as obtidas pelo nadador Michael Phelps em duas Olimpíadas. O novo imperador das piscinas é um vencedor também por ter nascido nos EUA. Maurren, Cielo e as heroínas das quadras triunfaram apesar do país onde nasceram. Eles fazem parte do 1,1% da população economicamente ativa que pratica ou praticou algum esporte.

Um americano que nunca tenha corrido numa pista, saltado numa quadra, mergulhado numa piscina ou feito coisa parecida corre o risco de ser apontado nas ruas como um extravagante vocacional. Quase todos são ou foram, de alguma forma, esportistas. Lá, os campeões nascem no curso primário, crescem no colegial, aprendem na adolescência que vale a pena representar a escola em qualquer competição, aperfeiçoam-se nas equipes da universidade que lhes ofereceram bolsas e, quase sempre, enriquecem como atletas profissionais.

No País do Futebol, um jovem que passa a tarde inteira numa piscina em Santa Bárbara D´Oeste, como fazia César Cielo, ou uma garota bonita que gasta o tempo voando baixo numa pista de terra em São Carlos, caso de Maurren, parecem tão lógicos como um napoleão de hospício. A rainha do salto em distância deve a medalha a ela mesma. O nadador mais veloz do mundo não teria chorado ao som do Hino Nacional se não tivesse tido o patrocínio do pai e passado muitos meses em piscinas americanas, orientado pelo técnico australiano que só chegou a Pequim porque Cielo venceu também a ciumeira da cartolagem.

"Meu Deus, o que fiz de errado?", perguntava a grande Marta, olhando para o céu, depois da derrota na final do futebol feminino. Nada, deveriam ter berrado em coro todos os santos. Não se pode culpar a melhor jogadora do mundo por ter nascido aqui. Marta só teve a má sorte de chegar ao mundo pela mesma rota de Bárbara, a goleira da seleção, que entrou em campo pouco depois de saber que, com a dissolução do time brasileiro onde sobrevivia, perdera o emprego. Bárbara saiu do estádio com uma medalha de prata. Continua à procura de trabalho.


Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.


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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O que você fez de errado, Marta?

O olhar erguido para o céu, o semblante crispado pelo cansaço e pela revolta, e a indagação suprema: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?” Nada, Marta. Não é assim que funciona no futebol. Tampouco na vida. Tanto aí, neste espaço verde que flutua entre o sacro e o demoníaco, quanto aqui fora, no imenso vazio de justiça e paz.

Você, Marta, ao contrário de tantos integrantes do time olímpico brasileiro, em especial aqueles rapazes que são seus colegas de modalidade, ao menos tem o direito de perguntar. Eles não precisam, seja porque já sabem, seja porque vão dormir com a serenidade dos inconscientes.

Sabe, Marta, esporte é assim mesmo, ainda mais esporte coletivo, que depende de tanta gente acertar ao mesmo tempo e, quando isso acontece, nem sempre se traduz em vitória. A vida é assim, Marta.

Milhões de pessoas se perguntam todos os dias, ao acordar para mais uma jornada exaustiva de trabalho, de transporte coletivo abarrotado, de remuneração miserável, enquanto tantos enriquecem roubando, alguns roubando dinheiro público, produzido com o suor desta jornada exaustiva: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”

São outros tantos, que sempre praticaram o bem, a solidariedade, a generosidade, e que acabam por se tornar vítimas da violência de nossos tempos, a se perguntar diante de tanta crueldade: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”

O cidadão que nada fez de errado, e ainda assim sofre com atos prepotentes ou equivocados da Justiça, ao observá-la tão branda com criminosos notórios de ternos bem cortados, ou concedendo penas leves à bandidagem pesada, este por certo se pergunta: “Meu Deus, o que eu fiz de errado?”

Não vivemos numa meritocracia. Honestidade, esforço, dedicação, suor, competência, talento, lealdade, nada disso é sinônimo de recompensa.

No futebol é diferente, é verdade. Não adianta jogar melhor, não basta ter mais técnica ou se esforçar ao extremo. Você fez tudo isso, mas desta vez, você e suas colegas não conseguiram fazer o gol, e isso se sobrepõe a todo o resto. Pensando friamente, venceu quem marcou gol, que é o objetivo do futebol, e isso não pode ser classificado como injustiça.

Claro, Marta, você já está cansada de ser vice, duas vezes no Mundial, duas nas Olimpíadas, duas na Europa. É, deve cansar mesmo. Além do mais, o que para nós é apenas um jogo, para você é imensamente mais do que isso. Mas você foi eleita duas vezes a melhor do mundo e é ídolo de milhões.

De todo modo, seu desabafo repete o desabafo de muita gente, todos os dias. Sua identificação com o povo, que já era enorme, certamente aumentou.

O ouro seria uma maravilha, até para ficar marcado como o primeiro desta modalidade em que os rapazes não conseguem triunfar. Não seria o máximo, no machista país do futebol, o primeiro ouro ser das mulheres?

Mas você tentou, fez de tudo, a gente viu. A medalha é de prata, você é de ouro.

Beijos no coração, Marta.
Durma bem.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

TOCO Y ME VOY

O CLASSE MÉDIA QUE SOBE
PELO ELEVADOR DE SERVIÇO


Augusto Nunes


O paulistano João Rogério da Silva Alves, 36 anos, 15 dos quais casado com Maria Cavalcanti, é motorista de táxi há 13. Mora com a mulher e duas filhas (14 e 9 anos) no bairro de Cachoeira, um amontoado de construções tristonhas que parecem mais velhas do que são – e sempre à espera do acabamento, dos atavios e dos móveis que não virão. O serviço de água funciona razoavelmente, a rua é asfaltada, mas a rede de saneamento básico ainda não chegou lá. A exemplo dos vizinhos, os Alves se livram dos detritos e dejetos do dia no leito de um córrego que depois os despeja no Rio Tietê.

A casa, alugada por R$ 300 mensais, tem dois cômodos de 12 m². O reservado à cozinha acabou acumulando as funções de sala de visitas, sala de jantar e copa. O outro é o quarto, dividido ao meio por um lençol ali pendurado para sugerir a inexistente privacidade. Nesse espaço estão a cama do casal e a das filhas, separadas por centímetros, além da TV comprada em janeiro de 2006 por R$ 800, fatiados em 12 prestações. "De lá para cá não tive dinheiro para mais nada", diz Alves. Nem para o carro próprio, que o dispensaria da porcentagem cobrada pelo patrão.

Há 13 anos a serviço do dono de uma frota de táxis, acorda sempre às 5h, busca o veículo na garagem da empresa e estaciona antes das 6h no ponto localizado na esquina entre a Alameda Peixoto Gomide e a Rua Oscar Freire, no coração dos Jardins. Nas 16 horas seguintes, estará ou à espera de algum passageiro, ou circulando pelos labirintos da metrópole, ou testando a paciência em ruas congestionadas.

Dorme perto de meia-noite. Folga aos domingos se juntou o suficiente durante a semana. Não tira férias há mais de 10 anos. "Com o que ganho, não dá para ter luxos, mas não devo nada a ninguém", diz. "Vivo uma vida de pobre". Ganha por mês cerca de R$ 1.800, que se somam aos R$ 400 que a mulher consegue como diarista. A renda familiar ultrapassa amplamente a fronteira, redefinida em 6 de agosto pela Fundação Getúlio Vargas, que separa a pobreza da classe média. "Você chegou aos R$ 1.064", deveria prevenir alguma placa. Por falta de aviso, Alves só soube na quinta-feira que subira na vida sem mudar de vida. Continuava pobre, mas na classe média.

"Como é que posso ser da classe média se não tenho como fazer o que faz a classe média?", intriga-se. Pergunto-lhe o que acha que faz a turma da divisão a que foi promovido. A classe média vai ao cinema ou ao teatro uma vez por semana, exemplifica. "E sai para comer num restaurante melhorzinho". Alves não vai ao cinema há 15 anos e nunca foi ao teatro. "Vontade eu tenho, o que não tenho é dinheiro", desculpa-se. Mas de vez em quando vai com a família a uma churrascaria, ressalva. Foi pela última vez faz três anos.

Ele por acaso notou que a pobreza está diminuindo, e em alta velocidade, como garante a pesquisa? "Só se os pobres dos bairros que esses caras pesquisaram mudaram todos para o meu", acha graça. Aponta um punhado de deficientes físicos e mulheres em andrajos com crianças de colo e emenda: "É assim em qualquer esquina". No fim da corrida, ele avisa que resolveu conferir a promoção: "Se entrei na classe média, vou usar o elevador social", sorri. "Até hoje só pude usar o elevador de serviço".


O indigente e a ararinha azul


Os alquimistas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas não fariam feio se disputassem com os curandeiros da Fundação Getúlio Vargas a final do campeonato brasileiro de levantamento de pobre. Só anda faltando à direção do time mais esperteza marqueteira. Foi um erro, por exemplo, divulgar o levantamento do IPEA, também circunscrito às seis maiores metrópoles do País, junto com estudo da FGV intitulado A nova classe média. Ao transplantar um pedaço da pobreza para o organismo debilitado da classe média, a FGV mandou um petardo no ângulo que acabou ofuscando os dribles e passes de trivela dos craques do IPEA.

Um dos lances mais vistosos resultou na expulsão de milhões de brasileiros do campo da pobreza, restrito a famílias com renda mensal abaixo de R$ 207. De 2003 a 2008, segundo o IPEA, o índice baixou de 35% para 21,1%. Eram 14.352.753 no primeiro dia da Era Lula. Cinco anos depois, 4 milhões saíram do atoleiro. Os efeitos da pesquisa foram ainda mais agudos entre os miseráveis, rebatizados como "indigentes": os que sobrevivem com menos de R$ 103,75 caíram de 13,7% para 6,6%. Indigente agora virou uma espécie em extinção. Em 2010, será mais fácil enxergar uma ararinha azul que um genuíno miserabilis brasilis.


Publicado originalmente na Gazeta Mercantil.
Crédito da foto: Divulgação SEMAR/PI

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Recado de gênio

Eduardo Bueno, o célebre Peninha, amigo, compadre e parceiro de longa data, enviou-me o seguinte e-mail a propósito da crônica postada hoje:

"Só esqueceste de creditar o GENIAL criador das três supracitadas seções, sessões, secções..."

Está feito o genial registro.
BOM FIM DE SEMANA

Fiquem com o maravilhoso mundo de Louis Armstrong.


FUNDO DO BAÚ

No início dos anos 90, o jornal Zero Hora publicava em sua revista dominical três seções com textos bem humorados: “Um Lugar”, “Espécies em Extinção” e “História Universal da Infâmia”. Escrevi vários deles, entre os quais o “Um Lugar” que reproduzo a seguir.


A Casa da Mãe Joana

A Casa da Mãe Joana – que me perdoem os filhos de Joanas – é uma zona. A qualquer hora do dia ou da noite registra um constante e insondável trânsito de indivíduos, a maioria dos quais nem a dona da Casa, a Joana em pessoa, seria capaz de identificar. Como uma genuína área conflagrada, exibe muito barulho, sujeira e um toque de surrealismo. Nela, misturam-se espécimes das mais exóticas tribos. Trata-se de um dos poucos lugares do mundo em que é impossível se sentir solitário.

Encontrar um objeto perdido na Casa, nem pensar. Ele tanto poderá estar dentro da tuba do tio-avô Eraldo (filho, dizem, da primeira Joana de que se tem notícia) quanto no baú de mágico daquele sujeito que afirma pertencer à família, tem o melhor quarto da Casa e ocupa a cabeceira às refeições, mas que ninguém sabe de onde veio. As refeições, por sinal, provocam cenas dantescas. Melhor esquecê-las. Não seria elegante falarmos aqui de temas como canibalismo.

A Casa da Mãe Joana é um terreno no qual confraternizam pervertidos, corruptos, vigaristas, aproveitadores em geral e mesmo algumas estirpes politicamente corretas. A Mãe Joana tudo permite, nada vê. Seus domínios há muito se expandiram. Tomaram conta do bairro, da cidade, da região e, finalmente, do País. Um dia a gandaia se generalizou. O Brasil transformou-se numa imensa Casa, e lá estava Mãe Joana, pronta para tomar conta do pedaço.

Ao longo dos anos, ocasionalmente apareceu alguém disposto a botar ordem na Casa. Perda de tempo. Em seguida, como toda mãe que se preza, ela desautorizava qualquer repreensão e passava a mão na cabeça dos filhos errantes. A Mãe Joana sobreviveu a vários golpes, a muitos dígitos de inflação, a uma roubalheira desmedida, sempre com a mesma fleuma. Há quem diga que, não fosse a Mãe Joana, o País entraria nos eixos. Mas Mãe Joana é imperecível.

A Casa da Mãe Joana é como sabonete de quartel: todos põem a mão. Tentar entender o mecanismo que move o cotidiano da Casa da Mãe Joana converte-se em esforço inútil. Quando algo se revela previsível, lógico, Joana se encarrega de desfazer o mal-entendido. “Tá pensando que isso aqui é o quê? A Casa da Sogra?” – esbraveja. Ela não admite comparações. A Casa da Sogra é noutro lugar, a despeito de eventuais semelhanças. Algumas sogras se chamam Joana, é verdade, e tentam imitar a original, mas nenhuma tem o seu talento para o inverossímil e para a contemplação do absurdo. A Sogra também é pródiga em abrigar confusão, mas ainda é possível entender o funcionamento de sua Casa e identificar os protagonistas.

Consta do imaginário do Rio (aquela parte do Rio que ainda se dá ao luxo de ter imaginário) uma Casa da Mãe Joana real, refúgio de boêmios, deserdados e sonhadores. Consta ainda que um dia a Casa migrou para Brasília, onde Joana acabou por se sentir incomodada com a vizinhança. Mas, claro, o imaginário é por vezes apenas um punhado de lendas com arrogância de realidade.

Nos últimos anos pouco se tem ouvido falar na Mãe Joana. Dizem que se desiludiu com a vulgarização de suas teses, especialmente no Planalto. “Hoje todos se acham no direito de esculhambar a Casa”. Isso a derrotou. A Mãe Joana foi vista pela última vez num boteco da Avenida Atlântica, em Copacabana. Vestia-se como vedete de teatro de revista em versão punk, bebia sem parar e gritava com orgulho: “Eu fui a primeira!”. Os habitués do local não pareciam compreendê-la.


Publicado originalmente no jornal Zero Hora em 2 de janeiro de 1994.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

JORNALISMO

O português da última página

Lá pelo final dos anos 70, início dos 80, uma revista hoje extinta brilhava sozinha no mercado brasileiro das masculinas da era pré-Playboy. O diretor de redação era Wagner Carelli. A última página da publicação costumava ser ocupada por textos de colaboradores variados. Um dia, Wagner, que ainda não completara 30 anos de idade, mas já revelara seu imenso talento, cruzou nos corredores da editora com o chefe, mais experiente, famoso, e seu amigo de longa data. “Quem diabos é aquele português que você colocou na última página?” ­­­­– perguntou o amigo. Tratava-se de um completo desconhecido. Aparentemente, não fazia sentido dedicar espaço tão nobre a alguém sem projeção. Carelli não vacilou: “Ele escreve bem pra caramba”, respondeu, mas não foi levado muito a sério.

Alguns meses depois, o tal português voltou a freqüentar as páginas e o diretor de redação foi novamente questionado pelo colega. “Por que você insiste com este português do qual ninguém nunca ouviu falar?” Carelli limitou-se a repetir: “Ele escreve bem pra caramba.” Com pequenas variações, a cena se repetiu várias vezes nos meses seguintes. Tornara-se um ritual. Saía um texto do português, Carelli era interpelado pelo amigo, respondia do mesmo jeito. Aos poucos, acrescentou mais ousadia às suas palavras: “Ele escreve bem pra caramba. Na verdade, é um dos autores que melhor escreve em língua portuguesa hoje em dia.” O colega balançava a cabeça em sinal de desaprovação. Às vezes retrucava: “Não vejo nada de mais no texto deste cara.”

O tema tornou-se tedioso, mas agora era um jogo do qual nenhum dos dois conseguia sair. A cada investida, aumentavam os adjetivos de ambos os lados. “O que você viu neste porra de português?” “Ele escreve bem pra caramba, e vou te dizer mais, ele ainda vai ganhar o Nobel”. O limite havia sido ultrapassado. A engolir o português o colega já se acostumara, mas ouvir tal disparate já era demais. O resultado foi uma grande gargalhada. Daí em diante, a história do Nobel tornou-se a chave do amistoso bate-boca.

Uma das últimas vezes em tocaram no assunto foi quando o português esteve no Brasil e visitou a editora. Ele estava muito grato pela confiança nele depositada. Já havia publicado dois livros em seu país, que podiam ser adquiridos no Brasil, mas em edições caras e limitadas: Levantando do Chão e Memorial do Convento. Preparava o lançamento de Jangada de Pedra. Ainda não podia se dar ao luxo de viver só dos livros, precisava dos frees para sobreviver. Chamava-se José Saramago, nome que, para a maioria, era apenas o do português da última página.

Como sabemos, o tal português virou best-seller, escreveu obras-primas e ganhou o Nobel. Essa história é pouco conhecida. Por timidez ou alguma outra razão, Carelli a manteve restrita aos amigos e jamais publicou qualquer linha a respeito. Mas ilustra bem o quanto é importante em atividades tão subjetivas quanto o jornalismo ou a literatura ser dotado de uma espécie de radar para talentos e potencialidades. Este faro, por certo, vale muito mais do que simplesmente examinar a ficha repassada pelo RH e concluir que a fluência em idioma estrangeiro ou um certificado de MBA implicam necessariamente uma grande capacidade prática de exercer seu ofício.

Ainda bem que no jornalismo tais requisitos ainda são menos valorizados do que em outras profissões. Até porque corremos o risco de formar gerações que transitam com desenvoltura pelo mundo virtual, mas não revelam o mesmo desembaraço na vida real. Que sabem tudo da língua inglesa, mas não dominam o idioma pátrio. Basta ler os textos de algumas publicações. Editores têm de ficar atentos. Ocasionalmente, surge um português na última página.


Publicado originalmente no site coletiva.net

domingo, 10 de agosto de 2008

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

BOM FIM DE SEMANA


TOCO Y ME VOY

A convidada especial de hoje é Luciana Pinsky, de quem tive o prazer de ser colega na revista Época. Escritora, jornalista e editora, Luciana terá seu primeiro romance, Sujeito Oculto e Novas Graças do Amor, lançado em outubro pela editora Record. Quem quiser conhecer mais seus textos ficcionais pode entrar em sua comunidade do Orkut.

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=6471973
PARA BAIXO

Luciana Pinsky

Você me desafiou para uma descida. Ninguém me desafia para uma descida. Não há pessoa louca suficiente para acompanhar-me em uma descida. Você passa, magnética. Eu vou. Não freio. Pego mais e mais impulso. As rodas fervem. Vivo velocidade. Não quero morrer ainda, tenho tantos países a percorrer, tanto caminho para descobrir, tanta cerveja para beber, tanta vida me espera, mas se for para morrer que seja assim, descendo a tantos mil por hora. Se for para morrer, que seja como macho. E você me instiga. “Vamos, vamos”.

Você e esses olhos azuis angelicais que de anjo nada tem. Fui. E você grita. Cada vez mais alto. AAAAAAAAA. Eu grito junto, sua voz colando na minha, como se houvéssemos ensaiado. AAAAAAAAA.

Dois patinadores, descendo uma ladeira de forma alucinada, barulhentos como hooligans prestes a se enfrentar. Era assustador.

O desejo mais primitivo expresso sobre aquelas tantas rodas por um casal em bodas. Era a comunhão completa.

Só que não éramos um casal, não tínhamos relação alguma e aquilo resumia-se a uma descida muito rápida de patins pelo asfalto de Perdizes. Mas isso só depois. Na hora era a união. Descendo com você aquela ladeira, eu era tão eu como era possível ser.

Lá embaixo ela me esperava. Minha companheira real, aquela que sabe o nome da minha irmã, o dia em que nasci, compartilha meu dia-a-dia, ainda que tema patins – “é perigoso”, diz sempre. Claro que é. Se não fosse, eu continuaria em casa navegando na internet.

– Que alívio vê-lo bem. Ouvi tanta gritaria que fiquei assustada.

– Obrigado, estou inteiro.

Ela ensaiou um cafuné e eu queria desafio. Seu toque era amigável, lembrei-me da minha mãe me pondo para dormir há um milhão de anos, com um tranqüilo aroma de alfazema. Ela era alfazema. Eu sonhava alcatrão. Ela me olhava com doçura, eu buscava brilho. Ela ofereceu-me chá, eu queria chope. Ela, sabonete. Eu, suor conquistado.

Você agradeceu a disputa. “Quem ganhou”? Eu ainda não sabia. Limpou o suor do rosto com a camiseta. Tal gesto deixou seu umbigo à mostra por alguns poucos segundos. A barriga tão lisa, quase podia senti-la nos meus dedos molhados. A barriga, tão fina, tão frágil, ali. Quem diria, você frágil. Você foi. Ela me deu a mão seca de alfazema.


Publicado originalmente no Blog do Noblat


quarta-feira, 6 de agosto de 2008

PLANETA TERRA

O leopardo e o macaquinho

Belas imagens de um relacionamento improvável.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

JORNALISMO

Stop the machines: inventaram o “assalto-surpresa”

Chamada de capa do Correio do Povo, de Porto Alegre, nesta terça-feira:

ASSALTO-SURPRESA
Encapuzados levam malotes


Estou até agora tentando entender. Vai ver é cafeína demais. Assalto-surpresa? E não são todos assim? De modo geral os assaltantes avisam quando e onde vão atacar? Como seria esta nova modalidade? Os bandidos olham para a vítima, abrem um sorriso e os braços e gritam: Surpresa!?

Anos atrás eu lia o Correio depois de longo tempo afastado de suas páginas – até por razões geográficas – quando me deparei com tantos textos confusos que acabei desistindo. Vejam o que encontrei:

Título do Correio do Povo, na edição dominical (29/9/2003): “Schumacher corre pelo hepta.”
O texto esclarecia: “O alemão Michael Schumacher poderá conquistar neste domingo, em Indianápolis, o inédito título de pentacampeão...”
Schumacher, na verdade, corre pelo hexa.

Duas páginas antes, matéria sobre a Bienal do Mercosul começava com esta frase:
“A maior exposição de artes visuais do Sul do Brasil tem data para começar: 4 de outubro”.
Ainda bem, uma exposição sem data para começar receberia poucos visitantes, isso se começasse.

No texto de apoio ficava-se sabendo que “O curador-geral da 4ª Bienal do mercosul, Nelson Aguilar, é o grande maestro da megaexposição.”
Esclarecedor saber que o curador-geral é quem coordena.
E que é o grande da mega. Pelo menos é superlativo.

Ainda mais duas páginas de trás para frente, sob o título “Grupo combate trabalho escravo” se encontrava a informação de que “Prevenir e repreender o trabalho escravo no Brasil será a função do Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado”.
Incomum, portanto, necessário esclarecer.
Sem falar na repetição em relação ao título.
E reprimir era mais adequado do que repreender, mas o editor é contra repetições.

Eu não procurava erros, apenas folheava o jornal. Achei melhor parar.

Resgato o texto pela curiosidade, pois tais deslizes, infelizmente ocorrem em qualquer jornal. Às vezes a confusão mental dos redatores rende boas risadas, embora seja um perigoso sintoma de imperícia das redações. A seguir, algumas mancadas clássicas de jornais do sul do País que integram o livro Jornal da Imprença – A Notícia Levada Açério, do ótimo Moacir Japiassu, o maior colecionador de gafes da imprensa no Brasil.

Luzes da Ciência
Da Zero Hora, de Porto Alegre, em “pirulito” semiclandestino num canto de página: Assassinado pelo rival em Canoas. Abaixo, o textinho esclarecia: “(...) Ele se encontra internado no Hospital Nossa Senhora das Graças, em estado grave”. Segundo Janistraquis, este é um raríssimo caso de assassinado em estado grave, à espera das luzes da ciência (novembro de 1992).

Texto enrolado
Nosso mais novo correspondente gaúcho, Marcelo Soares da Silva, de Porto Alegre, envia nota do Correio do Povo, pela qual é possível avaliar a escolaridade dos cartolas do futebol, empresários e (por que não dizer logo??) jornalistas. Ei-la: Gomes, caso complicado é o título; texto-charada: “O Cruzeiro quer Luís Fernando Gomes, diz que está tudo certo com o Internacional, mas que o empresário português Manuel Barbosa está complicando tudo. O Inter afirma que vende o jogador por 600 mil dólares, dos quais 400 mil ficam com o clube e 200 mil com o empresário. Manuel Barbosa, por sua vez, garante que é o contrário: ele fica com 200 mil e o Inter, com 400. Um caso muito complicado”.
Leiam, releiam e concluam: textinho enrolado esse do Correio, não? (junho de 1995)

Poste vs. Aids
Título, digamos, priápico, do jornal gaúcho Zero Hora: Camisinhas em postes previnem contra a Aids. Perplexo, o leito Paulo Hebmuller escreveu a esta coluna: “Sempre pensei que a camisinha tinha que ser colocada em outro lugar”. Num país tão despreparado, Paulo, é sempre difícil saber o que fazer com uma camisinha. Um jornalista amigo de Janistraquis, por exemplo, engoliu duas. (março de 1994)

Confundindo
Legenda de foto do Diário Catarinense: Casanova retrata a vida do maior amante do século 18. Acima, ao redor do piano de Dooley Wilson, encontravam-se Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Quer dizer: o redator, que não se pode chamar de cinéfilo, confundiu Casanova com Casablanca. Janistraquis comentou: “Isso, considerado, apesar do piano de cauda e do jaquetão do Bogart, que, sem a menor dúvida, inexistiam no tempo do Casanova...” A jóia pertence à coleção do leitor Arden Zylbersztajn. (março de 1995)


Este texto inclui trechos de artigos publicados originalmente no site coletiva.net

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

TOCO Y ME VOY

O DUPLO TRIUNFO DA IMPUNIDADE

Augusto Nunes

"Ele estava feliz como pinto no lixo", teria o cantor Jamelão repetido a perfeita síntese da passagem de Bill Clinton pela Mangueira se pudesse ver o homem empoleirado no palanque em Goiânia. Ao lado do prefeito Iris Rezende, em marcha acelerada para a conquista do segundo mandato, lá estava Delúbio Soares – ele mesmo, o ladrão que rebatizou de "recursos não-contabilizados" o produto do roubo, o chefe da quadrilha do mensalão, o ex-tesoureiro nacional que reduziu a farrapos a bandeira da ética na política desfraldada pelo PT no dia do nascimento. Delúbio estava de volta. E tão risonho quanto Clinton na visita à Mangueira.

Ambos festejaram a sensação de liberdade. No Rio, o presidente americano estava distante da trabalheira na Casa Branca, longe de Hillary e no meio de um batalhão de mulatas. No comício de quinta-feira, o gatuno goiano estava longe da polícia, distante dos tribunais, no alto do palanque do favorito e no meio de possíveis patrocinadores, patrocinados e parceiros. É disso que Delúbio gosta. É isso o que Delúbio quer. Como nos bons tempos, recebera um convite da estrela do elenco. Iris avisou que ficaria honrado com a presença do aliado que costurou a aliança entre o PMDB do prefeito e a seção goiana do PT – o mesmo partido que expulsou Delúbio em 2005.

Como as vacinas e as leis, no Brasil também punições partidárias às vezes não pegam. "Essa coisa de mensalão vai acabar virando piada de salão", avisou Delúbio um ano depois de desbaratado o esquema que produziu o mais medonho episódio da história político-policial brasileira. Não pensava em vacinas no momento da profecia. Pensava na expulsão de araque, forjada para que fossem esquecidos dezenas de comparsas. Pensava na Justiça, que jamais castiga quem pode comprar roupas de grife e alugar advogados espertos. E pensava na memória curta do país. Estava certo, constatou no comício em Goiânia.

Dois anos depois de divulgado o relatório em que o procurador-geral da República radiografou a "organização criminosa sofisticada", um ano depois de formalizado pelo STF o início do processo contra os mensaleiros, Delúbio exibia, entre um sorriso e outro, a inconfundível placidez dos condenados à impunidade. Durante o curto degredo na fazenda da família, é provável que tenha despertado no meio da madrugada com medo do carcereiro ou dando cabeçadas numa grade. Para exorcizar pesadelos, certamente amparou-se no caso exemplar de Paulo Maluf.

Na mesma noite de quinta-feira, enquanto Delúbio comemorava em Goiânia quase 10 anos de trapaças impunes (ele debutou em 1996, tungando entidades sindicais), Maluf reapareceu em São Paulo cavalgando o cartel admirável. Aos 76 anos, há 37 na vida pública, enfrentou quase 150 processos. Só dormiu na cadeia 40 noites. Durante o debate entre os candidatos à prefeitura paulistana, ninguém mencionou as sete ações judiciais que, em repouso no STF e em instâncias inferiores, envolvem Maluf em delinqüências que vão da improbidade administrativa à formação de quadrilha ou bando, de crimes contra o sistema financeiro e à paz pública à ocultação de bens ou valores.

Por que os parceiros de debate optaram pela amnésia? Talvez tenham preferido não perder tempo com um concorrente condenado a perder a eleição. Talvez se tenham curvado à evidência de que o ícone dos fora-da-lei da classe executiva jamais se sentará num banco dos réus. Ele trava duelos com tribunais há 40 anos. Ganhou todos. No mais recente, impôs à Justiça Eleitoral a oficialização do campeão brasileiro da ficha suja.

O sorriso no palanque em Goiânia faz sentido. Delúbio também acha que vai ser Paulo Maluf.


Publicado originalmente na Gazeta Mercantil

quarta-feira, 30 de julho de 2008

BRASIL

Honestidade. Só de sacanagem

Este vídeo não é muito recente, mas segue atual. Ana Carolina não canta, e sim lê um texto sobre a resistência do Brasil decente.


terça-feira, 29 de julho de 2008

TOCO Y ME VOY

DEPOIS DE DANTAS, NÃO FALTA NINGUÉM

Augusto Nunes

Até 29 de junho de 1958, os brasileiros ficavam ruborizados, olhavam para os lados, balbuciavam incongruências sempre que um gringo qualquer reabria a chaga dolorosa: se jamais conquistara uma Copa do Mundo, o que autorizava o Brasil a apresentar-se como O País do Futebol? Faltava a Copa, sabiam até o pau de escanteio e a marca do pênalti. E então veio o triunfo na Suécia. E então não ficou faltando mais nada. E enfim as arquibancadas, tribunas e gerais conseguiram livrar-se do que Nelson Rodrigues batizou de complexo de vira-lata.

Até 8 de julho de 2008, alguém estará escrevendo daqui a 50 anos, os brasileiros se encolhiam feito ladrão pilhado em flagrante, tossiam no meio da frase desconexa quando um gringo qualquer cutucava a fratura exposta: se o Brasil não tinha um legítimo escroque internacional, o que o autorizava a considerar-se um paraíso da bandidagem impune? Faltava o escroque internacional, envergonhavam-se tanto o trombadinha quanto o ministro larápio. Depois da atualização do prontuário de Daniel Dantas, não falta mais nada. O país está pronto para buscar a taça também nos campos da delinqüência de fina linhagem.

Daqui por diante, nenhum patriota precisará evocar meliantes que, apesar do fichário notável, por algum motivo não estão qualificados para o posto assumido por Dantas. "Temos o Naji Nahas", balbuciaram, por exemplo, milhares de defensores da nação. "Esse não vale, já veio pronto", retrucavam os adversários. Reconheciam que se tratava de um genuíno escroque internacional. Mas já era muito respeitado no ramo quando chegou aos pântanos do Brasil, onde conseguiu a dupla cidadania. Naji não é coisa nossa. Foi num berçário do Líbano que aprendeu a levar vantagem em qualquer negócio. Foi lá que começou a comprar na baixa a fralda do bebê que estava de saída para vendê-la ao bebê que acabara de chegar. Pelo triplo do preço.

Daniel Dantas é outra coisa. É o primeiro escroque internacional inteiramente fabricado no Brasil. É coisa nossa, o que não é pouca coisa. Agem no mundo milhões de fora-da-lei. Não passam de mil os integrantes do grupo de elite a que Dantas está incorporado. Ele está para o paraíso dos corruptos como a Seleção de 1958 para o País do Futebol. É um cracaço completo.

Vai em todas como Gilmar. Finta pela direita como Djalma Santos, avança pela esquerda como Newton Santos. Entra em bolas divididas como Bellini, marca o adversário como Orlando, muda o jogo como Zito, engana a polícia e a Justiça com a esperteza de Didi. Dribla sócios e concorrentes como Garrincha, recua como Zagallo na hora do perigo, atropela as leis com o ímpeto de Vavá. Pensa primeiro, como Pelé. E, também como o Rei, recupera o equilíbrio e segue adiante quando todo mundo pensa que vai cair.

Dantas atende a todos os pré-requisitos impostos a candidatos ao clube dos escroques internacionais, onde só entram figuras que, embora evitem violências físicas, são freqüentemente mais assustadoras que serial killer americano. Passam o dia cometendo crimes ou planejando os próximos. Decidem tudo, mas os outros é que executam. Viciados em bandidagem, preferem lucrar menos com um negócio ilegal a ganhar bilhões a mais honestamente. Enganam sócios e parceiros enquanto golpeiam adversários. Não gostam de publicidade, não casam com a Miss Brasil quase balzaquiana, evitam a imprensa, não aparecem em colunas sociais. Não ostentam a riqueza que acumulam. Nem fazem tanta questão de viver com luxo. O que querem é viver perigosamente.

Nosso escroque nativo preenche todas as outras exigências. Dono de tudo, oficialmente não tem nada. É banqueiro, mas oficialmente o banco não é dele. Fala mais de um idioma. É investigado em mais de um país. Não muda de ramo quando muda o governo. Trapaceou na Era FH como trapaceia na Era Lula. Oferece suborno a policiais, aluga figurões nos Três Poderes, arrenda amigos do presidente da vez. Nunca fica preso mais de dois dias. Se acontecem acidentes de percurso, como operações da Polícia Federal, consegue um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal. Ou dois, se for o caso.

Publicado originalmente na Gazeta Mercantil
PLANETA TERRA

Amazônia perde o equivalente a um
campo e meio de futebol por minuto

Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). O desmatamento em junho foi de 612 km², 23% maior do que em junho de 2007. O Pará detém o desonroso título de campeoníssimo da matança: derrubou 63% desse total, contra 12% de Mato Grosso e 11% de Roraima.


Ibama deu motosserras para os sem-terra

O superintendente do Ibama em Rondônia, Oswaldo Luiz Pittaluga, foi demitido pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, depois que o jornal O Globo revelou o resultado de uma auditoria interna do órgão. Pittaluga, que estava no cargo desde o início do primeiro mandato do presidente Lula, doou 36 motosserras e duas serrarias a um tal de Movimento Camponês Corumbiara (MCC), uma dissidência do MST.



segunda-feira, 28 de julho de 2008

BRASIL

O caos é o limite

Escoltada pela impunidade, a delinqüência organizada do Rio decidiu expandir seus mercados e encorpar o portfólio de produtos e serviços. Depois de corromper políticos escolhidos livremente pelo povo, chegou a hora de dizer ao povo em quem votar. Chega de intermediários, bradaram os criminosos, de olho no melhor custo-benefício de eleger candidatos bandidos em vez de comprá-los depois.

Campanha eleitoral, só com autorização do tráfico. O corpo-a-corpo é liberado apenas para os políticos amigos. Fazer campanha no Rio virou mau negócio: o candidato tem de enfrentar as ameaças da bandidagem e, caso consiga chegar até o eleitor sem maiores contratempos, sai com o rótulo de aliado do submundo.

A ausência do Estado levou a mais bela cidade brasileira, e uma das metrópoles mais celebradas no mundo, a uma situação que já não desperta cobiça, mas piedade. Ao longo de décadas, sucessivos governos, em todos os níveis, limitaram-se a adotar medidas paliativas, isso quando não ficaram no bate-boca sobre a jurisdição de cada um, ou simplesmente se omitiram. Andar nas ruas em qualquer horário é temerário, circular à noite por determinadas regiões evidencia traços suicidas.

Muitas grandes cidades brasileiras sofrem com a violência urbana, mas é no Rio que a substituição do poder do Estado pelo poder da contravenção é mais evidente e preocupante. A imposição das leis do narcotráfico, a proliferação de milícias operando à luz do dia, a corrupção e o despreparo da polícia compõem um cenário de guerra civil que a autoridades insistem em negar. Se o Estado não acolhe o cidadão, o crime o acolhe, num círculo vicioso que transforma pessoas cada vez mais jovens em bandidos, que acolherão outras, que virarão bandidos, numa tragédia sem fim.

Ao definir quem pode e quem não pode fazer campanha em seus domínios, os criminosos atacam a democracia no que ela tem de mais básico: um sistema eleitoral livre. A partir daí, o caos é o limite.